Entre culturas e flashes: a trajetória de Júlia Ceccon pela Ásia e Egito
Modelo três-maiense percorre diferentes países, enfrenta desafios profissionais e culturais e encontra, longe de casa, experiências que transformam sua carreira e sua vida
De Três de Maio para diferentes partes do mundo. Aos poucos, a modelo três-maiense Júlia Ceccon, 20 anos, vem construindo uma carreira internacional marcada por viagens, trabalhos, novas amizades e, principalmente, muitos aprendizados. Filha de Vanusa e Jones Ceccon, ela está fora do Brasil desde 25 de junho de 2025, e já passou por diferentes países e culturas, conhecendo de perto mercados da moda de países asiáticos e Egito.
A trajetória da jovem no mundo da moda começou em 2022, quando assinou com sua primeira agência mãe. No ano seguinte, mudou-se para São Paulo e passou a ser representada por uma agência local indicada pela própria agência mãe. A experiência, no entanto, ficou marcada por problemas. Seis meses depois, decidiu romper o vínculo e buscar, por conta própria, uma nova representação.
Foi de forma independente que Júlia deu um importante passo na carreira: em 2024, embarcou para sua primeira temporada internacional. Ao longo de seis meses, passou pelo Vietnã, Malásia e China e acumulou experiências que contribuíram não apenas para sua trajetória profissional, mas também para suas escolhas dentro do mercado. Ao retornar ao Brasil, decidiu deixar a agência com a qual trabalhava, principalmente pela falta de suporte e pela baixa qualidade dos contratos que recebia.
Pouco depois, Júlia assinou com sua segunda agência mãe e passou mais um ano viajando a trabalho. Nesse período, esteve no Egito, na Malásia e novamente na China. A experiência também abriu espaço para que ela conhecesse outros lados do mercado: durante alguns meses, atuou como booker, ajudando a organizar shootings - sessão de fotos para modelos da agência e fazendo contato com agências internacionais.
A nova função despertou seu interesse pelos bastidores da profissão e ampliou sua visão sobre o funcionamento do mercado.
Assim, depois de um ano, Júlia decidiu seguir novamente de forma independente. A percepção de que poderia conquistar oportunidades e se posicionar em mercados melhores por conta própria foi determinante para a decisão — e marcou uma nova fase em sua carreira.
A rotina de uma modelo comercial, porém, está longe de se resumir a fotografias, passarelas e viagens. Por trás dos trabalhos existe uma realidade de longas jornadas, mudanças constantes de cidades e países, distância da família, solidão e desafios culturais. Para Júlia, a experiência também exigiu preparo emocional e capacidade de adaptação.
China: um mercado favorável aos modelos
Entre os países onde trabalhou está a China, considerada por Júlia um dos mercados mais favoráveis para modelos. Ela esteve em Guangzhou e Shenzhen, na província de Guangdong, no sul do país, e se surpreendeu com aspectos do cotidiano. “Meus pais comentaram comigo de reportagens sobre os avanços da China, em tecnologia, saúde e segurança. Posso confirmar que é exatamente assim. Os carros são elétricos, as ruas perfeitas, o transporte público funciona super bem e a segurança é incrível”, relata.
A modelo destaca especialmente a sensação de segurança que encontrou na China e em Taiwan. “Sendo mulher e viajando sozinha, a China e Taiwan são com certeza os países com maior nível de segurança que eu já pude presenciar”, afirma.
O custo de vida também foi um aspecto que chamou sua atenção. Na avaliação dela, as pessoas que conheceu apresentavam condições de manter uma boa qualidade de vida, além de contar com serviços de saúde e educação privados com custos acessíveis.
No entanto, nem todas as experiências foram positivas. Apesar de ter construído amizades e conhecido muitos modelos que vivem no país, ela conta que se sentiu sozinha durante as duas passagens pela China. “Tenho amigos muito queridos, conheço muitos modelos que moram lá. Mas, ao mesmo tempo, foi um lugar que, das duas vezes que eu estive, me senti triste e sozinha. Em Guangzhou , eu não me sentia em casa”, lembra.
No âmbito profissional, entretanto, o país apresenta uma vantagem importante: a segurança dos contratos. De acordo com Júlia, em mercados menores existe o risco de o modelo deixar o país sem receber uma remuneração significativa. Na China, segundo ela, há uma garantia maior para quem é contratado.
Solidão acompanha rotina dos modelos
A vida profissional também influencia diretamente o lado emocional de quem trabalha longe de casa. Para Júlia, a solidão é uma realidade comum entre modelos internacionais. “Eu acredito que seja por estar longe da família e dos amigos. Eu passei períodos não muito longos por diversos países. Com essa rotina, não dá tempo de fazer vínculo com as pessoas”, explica.
Segundo a modelo, muitos acabam tentando compensar a solidão com relações passageiras. “Você pode sair todas as noites para uma balada, ir a um restaurante e pode estar falando com várias pessoas ao mesmo tempo, porque elas também estão indo para esse mesmo lugar porque estão carentes de atenção. Modelos compensam a solidão em momentos muito rasos, de conexões muito rasas”, relata.
Nesse contexto, Júlia considera o acompanhamento psicológico fundamental. Ela conta que fez terapia por seis anos enquanto esteve com os pais em Três de Maio e atribui parte da força para enfrentar os desafios da carreira ao acompanhamento profissional. “Isso acaba sendo extremamente necessário para quem têm interesse em sair de casa, ainda muito jovem. Não apenas para modelos, mas em qualquer outra profissão. Sem isso, eu acho que não teria feito metade das coisas que eu fiz. Faz seis anos que faço terapia e é uma coisa que com certeza me dá muita força para continuar”, afirma.
Egito foi marcado pelo choque cultural
Entre os destinos que mais desafiaram Júlia está o Egito. No país africano, ela afirma ter sentido de maneira mais intensa o impacto do machismo e das diferenças culturais.
Uma das situações que mais chamou atenção, foi quando ela e dois amigos foram conhecer as pirâmides. Há três maneiras de fazer o trajeto: a pé, montados em cavalos ou montados em camelos. Os três queriam fazer o trajeto com camelos, e para isso era preciso negociar com o dono dos animais. "Como o meu conhecimento na língua inglesa era muito melhor do que os dos meus amigos, eu fui falar com o dono dos camelos. Mas o que aconteceu? Eu falava para o dono e ele respondia olhando para meus amigos, mesmo eu sendo a única que conseguia se comunicar. Eu me senti invisível., no país a mulher é um ser invisível. Isso mexeu com a minha cabeça”, relata.
A experiência profissional no país também apresentou dificuldades. Segundo ela, os trabalhos não eram tão bons e havia situações em que os modelos precisavam esperar por longos períodos mesmo depois de estarem prontos para fotografar.
A sensação de insegurança foi outro fator que marcou a passagem pelo Egito. Os modelos ficavam hospedados em um hotel ligado à família do proprietário da agência. “Não foi um lugar que eu me senti segura e confortável, principalmente porque é um país onde a cultura do machismo é muito forte”, destaca.
Júlia relata outra situação vivida ao visitar o bazar Khan El Khalili - mercado de rua a céu aberto que existe há centenas de anos, onde as lojas são passadas de pai para filho e tem um imenso peso histórico para toda a economia do Egito. "Eu fui com dois amigos homens, e já sabendo que chamaríamos atenção por vários motivos - afinal já na aparência somos muito diferentes -, fui bastante coberta, roupas com cores neutras e com o cabelo amarrado, para chamar a menor atenção possível, mas mesmo assim me senti bastante insegura."
Apesar das dificuldades, Júlia guarda boas lembranças das amizades construídas no país e da gastronomia local. “São pessoas que eu ainda quero reencontrar. Experimentei comidas maravilhosas. Como o custo de vida é baixo, conseguimos conhecer muitos lugares. Jamais voltaria para trabalhar, mas foi um lugar que, como todos os outros, agregou à minha vida. Sou grata por algumas amizades que eu fiz lá. Até o tererê apresentei aos meus amigos ”, diz.
No Egito, além de modelo comercial, Júlia participou de trabalhos ligados à wcenografia de um filme.
Confira algumas fotos da modelo abaixo:




Malásia se tornou um lugar de segurança
A Malásia, por outro lado, deixou uma lembrança completamente diferente. Nas duas vezes em que esteve no país, Júlia encontrou um ambiente amigável e acolhedor.
“Entre os meus clientes, não encontrei nenhuma pessoa rude ou alguém que me tratasse mal. E as experiências de outras pessoas que eu conheço da mesma forma”, conta.
Em uma das situações que mais a marcaram, ela retornou a um restaurante chinês onde havia estado anteriormente. A proprietária do estabelecimento a reconheceu imediatamente. “Quando voltei ao país, fui neste restaurante comer. Tem o fried noodle, um macarrão chinês caseiro, que é frito e vai com muita carne e tempero. E essa senhorinha, quando me viu sentando à mesa, a primeira coisa que ela disse, ‘long time no see’, ou seja, 'é muito tempo sem te ver'. Eu fiquei muito feliz que ela lembrou de mim”, recorda
Para Júlia, a Malásia representou um espaço onde conseguia respirar com mais tranquilidade. “Foi um país onde eu podia ir e respirar fundo”, resume.
A experiência também ganhou importância por ter acontecido depois de períodos considerados difíceis em outros destinos. Na primeira passagem pelo país, ela havia deixado Ho Chi Minh, no Vietnã, experiência que classifica como muito negativa.
Tailândia foi um “reset” necessário
Depois de diferentes experiências e de um período de desgaste, a Tailândia acabou representando uma pausa necessária. Por recomendação de sua terapeuta, Júlia decidiu diminuir o ritmo e descansar. “Em um primeiro momento eu não queria parar para descansar, mas a minha terapeuta disse que eu precisava. Foi onde pude, pela primeira vez, em muito tempo, ter um lugar só para mim de novo”, conta.
O período também permitiu que ela trabalhasse como freelancer e reencontrasse amigos feitos durante sua passagem pela China.
Entre passeios e momentos de descanso, houve espaço para conhecer pontos turísticos. Júlia lembra especialmente de uma visita a um grande Buda, para onde foi levada por um dos amigos argentinos.
Mais do que uma viagem, a Tailândia acabou sendo um momento de recuperação. “Às vezes as pessoas acabam desvalorizando a saúde mental. Por exemplo, quando você machuca a perna, percebe que precisa de um médico. Quando é com a cabeça, é mais difícil buscar algum apoio. E a Tailândia foi um lugar que me deu um reset”, afirma.
Taiwan representa nova fase profissional
Depois da Tailândia, Júlia seguiu para Taiwan, onde encontrou uma nova oportunidade profissional. A indicação partiu de um amigo e, mesmo tendo sido contratada de última hora, a experiência superou as expectativas. “Foi um contrato que eu consegui de última hora e é um lugar que estou gostando muito. Eu nem fui embora e já estou sentindo saudades”, diz.
O contrato inicial era de três meses, mas acabou sendo renovado. Ao todo, a modelo já soma sete meses no país, sem previsão de retorno.
A rotina, porém, é intensa. Entre trabalhos, castings e fittings, os dias são preenchidos por compromissos profissionais. “No âmbito profissional, a esmagadora maioria dos meus clientes são extremamente respeitosos e cuidadosos”, destaca.
Júlia também percebeu diferenças culturais em relação à China. Segundo ela, a influência japonesa é bastante presente no cotidiano de Taiwan. “As pessoas são extremamente educadas e fazem com que você se sinta bem-vindo”, observa.
Apesar disso, o ritmo de trabalho continua pesado. Segundo a modelo, alguns profissionais chegam a trabalhar entre 12 e 14 horas por dia, muitas vezes sem pausas adequadas. “Você é tratado realmente como um objeto. Alguns modelos chegam a trabalhar de 12 a 14 horas por dia, e não há um cuidado muito grande se você comeu, se você precisa parar para tomar água ou ir ao banheiro”, relata.
Por trás das viagens, uma rotina de trabalho intensa
A carreira internacional de modelo também envolve uma estrutura profissional que nem sempre é conhecida por quem está de fora. De acordo com Júlia, geralmente o modelo possui uma agência mãe, responsável por encontrar agências locais e negociar contratos em outros países.
Ela alerta, porém, para os riscos de profissionais que cobram valores para ingressar em uma agência. “Nenhuma agência mãe séria vai cobrar qualquer taxa, seja para website, taxa de entrada ou de gerenciamento, para assinar um modelo ou aspirante”, afirma.
Com ela já teve experiências negativas com agências e com os contatos construídos ao longo dos anos ajudam a identificar oportunidades mais confiáveis.
“Quem quer iniciar a carreira como modelo geralmente está desamparada e acaba caindo em conversas de ‘evento de modelos’ ou agências caloteiras que cobram”, alerta.
Quanto a moradia, Júlia explica que no início da carreira internacional, é comum que os modelos fiquem hospedados em apartamentos fornecidos pelas agências e divididos entre vários profissionais.
"Geralmente são separados por gênero, embora tenha encontrado uma realidade diferente na Malásia, onde o apartamento era dividido com modelos de diferentes nacionalidades e sexo, o que causou um certo desconforto", revela.
Conselho para quem sonha com a carreira
Depois de mais de dois anos de experiência internacional, Júlia também passou a ter mais conhecimento sobre os caminhos necessários para quem deseja ingressar no mercado.
O primeiro passo, segundo ela, é conhecer o próprio perfil e as características exigidas pelo mercado, como altura e medidas, além dos cuidados com pele e cabelo. Depois, é necessário produzir os chamados snaps ou polaroids: fotografias simples, sem maquiagem, acessórios ou filtros, feitas com luz natural e fundo neutro, que permitam às agências avaliar o perfil do candidato.
Júlia também recomenda cautela na hora de escolher uma agência. “Em vez de pagar uma taxa para fazer um evento ou para entrar em uma agência ruim, pegue esse valor de investimento e contrate um fotógrafo de qualidade que consiga ajudar pelo menos nas fotos iniciais para que, assim, consiga aplicar em uma agência boa”, orienta.
Para ela, cuidar da saúde física e mental é tão importante quanto construir um bom portfólio. “Saiba estipular limites e não usem remédios para emagrecer”, alerta.
A terapia, conforme Júlia, o, ocupa um lugar especial nesse processo. Ela atribui ao acompanhamento psicológico parte importante da preparação que teve para enfrentar uma carreira que exige adaptação constante.
“Uma das, se não a melhor escolha que minha mãe teve comigo, foi me colocar para fazer terapia desde criança. É um privilégio enorme. Obviamente que nem todas as pessoas têm acesso a esse suporte, mas, para mim, foi e ainda é indispensável”, conclui.
Para quem quiser acompanhar Júlia Ceccon, siga a conta @juliaceccon_









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