Mulheres tentam mais e homens são as principais vítimas de suicídio em Três de Maio

Notificações realizadas entre 2016 e 2025 indicam que 75% dos casos registrados no município foram de pessoas do sexo masculino. Entre as lesões autoprovocadas, a prevalência é maior entre as mulheres. Das 210 notificações registradas no período, 154 foram de pessoas do sexo feminino

Mulheres tentam mais e homens são as  principais vítimas de suicídio em Três de Maio
O NAVIT (Núcleo de Apoio à Vida) realiza diversas ações de conscientização durante o mês de setembro e leva a temática da valorização à vida para diferentes grupos em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde (Foto: Divulgação Navit)

Nos últimos dez anos, Três de Maio registrou uma média de cinco casos de suicídio por ano. Entre 2016 e 2025, foram 54 notificações, segundo dados disponíveis no Portal Violência Interpessoal (SINAN) – Suicídio (SIM), do Departamento de Gestão de Tecnologia da Informação da Secretaria Estadual da Saúde.

Do total registrado na década, 39 casos envolveram homens, o equivalente a 72,2% das notificações. Na prática, a proporção se aproxima de três casos entre homens para cada quatro ocorrências de suicídio no município.

Os dados levantados pela reportagem do Semanal mostram também uma concentração dos casos entre pessoas com 40 anos ou mais. Nessa faixa etária estão 84,6% das notificações registradas no período.

Entre 40 e 49 anos foram sete casos; de 50 a 59 anos, nove; de 60 a 69 anos, 11; de 70 a 79 anos, 12; e entre pessoas com 80 anos ou mais, cinco ocorrências.

Entre as faixas etárias mais jovens, os registros são menos numerosos. Ao longo da década, houve uma notificação entre pessoas com menos de 19 anos, quatro casos entre 20 e 29 anos e três entre 30 e 39 anos. Juntas, elas representam 15% das notificações.

Até agosto de 2026, foram registradas duas notificações de suicídio, ambas de homens: um caso na faixa de 70 a 79 anos e outro entre 30 e 39 anos.
 

 

Taxa municipal supera a média estadual

Outro indicador que chama a atenção é a taxa de suicídio por 100 mil habitantes. Em 2025, Três de Maio apresentou índice de 23,56 notificações por 100 mil habitantes.

O indicador ficou acima das médias registradas tanto na região da 14ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), de 18,18 por 100 mil habitantes, quanto no Rio Grande do Sul, que apresentou taxa de 13,94 por 100 mil habitantes.

Apesar de estar acima dos índices regional e estadual, Três de Maio ocupou a oitava posição entre os 22 municípios da 14ª CRS e a 129ª colocação entre os 497 municípios gaúchos.

Os maiores índices, entretanto, aparecem principalmente em municípios de pequeno porte, onde um número reduzido de ocorrências pode provocar grandes variações na taxa proporcional.

Em Forquetinha, por exemplo, foram registrados três suicídios em 2025. Com uma população de 2.441 habitantes, o município chegou a uma taxa de 122,9 casos por 100 mil habitantes, a maior do Estado naquele ano.

Situação semelhante ocorreu em Nova Candelária, que registrou dois casos e alcançou uma taxa de 63,73 por 100 mil habitantes, a maior da 14ª CRS e a 13ª entre os municípios gaúchos.

Dos 18 municípios com os maiores índices do Estado em 2025, todos tinham menos de 10 mil habitantes. Entre os 80 municípios com maiores taxas, todos possuíam menos de 60 mil moradores.

Ao todo, 212 municípios gaúchos apresentaram taxa superior à média estadual. Desses, apenas quatro tinham mais de 100 mil habitantes.

No sentido oposto, 200 municípios do Rio Grande do Sul não registraram nenhum suicídio em 2025. 

Na área da 14ª CRS, foram 11 municípios sem ocorrência: Alecrim, Alegria, Boa Vista do Buricá, Doutor Maurício Cardoso, Giruá, Porto Lucena, Porto Mauá, Porto Vera Cruz, São Paulo das Missões, Senador Salgado Filho e Tuparendi.

Em toda a região da 14ª CRS, foram contabilizadas 43 notificações de suicídio em 2025.

 

Lesões autoprovocadas atingem mais mulheres

O perfil muda quando são analisadas as notificações de lesões autoprovocadas, que incluem atos de violência praticados pela própria pessoa contra si.

Ao contrário dos casos de suicídio, a maioria das notificações envolve mulheres e concentra-se em faixas etárias mais jovens.

Entre 2016 e 2025, foram registradas 210 notificações de lesões autoprovocadas no município de Três de Maio. Desse total, 154 foram de mulheres e 56 de homens. A proporção é de 73% para 27%, praticamente invertendo o cenário observado nos casos de suicídio.

Também há uma diferença significativa na distribuição por idade. Em 64% das notificações — 135 casos — as pessoas tinham menos de 39 anos.

Foram registrados 15 casos entre 10 e 14 anos, 32 entre 15 e 19 anos, 51 entre 20 e 29 anos e 37 entre 30 e 39 anos.

A partir dos 40 anos, o número de notificações diminui conforme aumenta a faixa etária. Foram 30 casos entre 40 e 49 anos, 28 entre 50 e 59 anos, dez entre 60 e 69 anos, quatro entre 70 e 79 anos e três entre pessoas com 80 anos ou mais.

Em 2026, até agosto, Três de Maio já contabilizava 24 notificações de lesões autoprovocadas, apenas uma a menos que o total registrado durante todo o ano de 2025. Desses casos, 17 envolveram pessoas com menos de 39 anos, incluindo uma ocorrência na faixa de 10 a 14 anos.
 

 

Reincidência supera 40% nos últimos anos

Outro dado observado no levantamento é a reincidência de violência autoprovocada.

Entre 2016 e 2025, das 210 notificações registradas, 76 — 37,6% — indicavam que a pessoa já havia cometido anteriormente o mesmo tipo de violência.

A proporção novamente foi maior entre as mulheres, chegando a 40,3%, enquanto entre os homens o percentual foi de 30,4%.

Em 2026, até agosto, a reincidência aparece em 11 das 24 notificações, o equivalente a 45,8%.

O percentual também vem se mantendo acima de 40% nos últimos anos. Em 2021, a reincidência foi registrada em 40% dos casos. Em 2022, chegou a 54,5%, maior percentual da década. Em 2023, ficou em 40,5%; em 2024, em 47,8%; e, em 2025, alcançou 52%.

Os dados mostram, portanto, perfis distintos entre as notificações de suicídio e as de lesões autoprovocadas em Três de Maio. Enquanto os suicídios registrados na década atingiram predominantemente homens e pessoas com 40 anos ou mais, as lesões autoprovocadas foram mais frequentes entre mulheres e pessoas mais jovens.

 

ONDE BUSCAR AJUDA:
- CVV - CENTRO DE VALORIZAÇÃO À VIDA:  
TELEFONE 188 (24h, gratuito)
- NAVIT (Núcleo de Apoio à Vida): 55 9 3619-7204
- CAPS, UPAs ou Unidades de Saúde (que oferecem psicólogos e psiquiatras pelo SUS). 
-  SAMU 192 em emergências

 

 

Setembro Amarelo: falar sobre suicídio é também falar sobre vida

O Setembro Amarelo é um período dedicado à conscientização sobre o suicídio e à valorização da vida. Mais do que uma campanha, é uma oportunidade para reconhecer que o suicídio constitui uma importante questão de saúde pública e que falar sobre o tema com responsabilidade, acolhimento e informação pode contribuir para ampliar a prevenção e o acesso ao cuidado.

A importância do Setembro Amarelo está também em criar um espaço coletivo para falar sobre sofrimento psíquico, prevenção e possibilidades de ajuda. É um momento que dá visibilidade a um tema que, muitas vezes, permanece silenciado. No entanto, o sofrimento emocional não tem calendário. A prevenção precisa acontecer durante todo o ano, nas famílias, nas escolas, nos serviços de saúde e na sociedade. Setembro pode abrir a conversa, mas a escuta e o cuidado precisam continuar nos outros onze meses.

Ainda existe muito tabu quando falamos sobre saúde mental e suicídio. O sofrimento psíquico, por vezes, ainda é associado à fraqueza, à falta de força de vontade ou à incapacidade de lidar com a própria vida. Quando falamos de suicídio, tocamos também em questões difíceis para todos nós: morte, desamparo, culpa, medo e impotência.

Muitas vezes, o silêncio surge justamente porque não sabemos o que dizer. Por isso, precisamos substituir o julgamento pela escuta. Nem sempre teremos uma resposta para oferecer, mas podemos oferecer presença.

Também é importante compreender que o sofrimento nem sempre aparece de maneira evidente. Algumas mudanças podem sinalizar que algo não está bem: isolamento, abandono de atividades que antes proporcionavam prazer, irritabilidade, alterações persistentes no sono ou na alimentação, queda no rendimento, aumento do uso de álcool ou outras substâncias, desesperança ou falas recorrentes sobre morte e sobre não encontrar sentido para continuar.

Falas como “vocês ficariam melhor sem mim”, “eu sou um peso” ou “não aguento mais” não devem ser banalizadas. Da mesma forma, não podemos avaliar a dor de alguém apenas pela

aparência. Algumas pessoas continuam trabalhando, estudando, sorrindo e cumprindo suas obrigações enquanto atravessam um sofrimento muito intenso.

Diante de alguém que parece estar passando por um momento difícil, uma abordagem simples e genuína pode fazer diferença. Podemos dizer: “Percebi que você não parece estar bem nos últimos dias. Quer conversar?” ou “Estou preocupado com você. Como você realmente está?”. Mais importante do que encontrar as palavras perfeitas é conseguir escutar sem imediatamente corrigir, aconselhar ou minimizar aquilo que a pessoa está sentindo.

Frases como “você precisa reagir”, “pense positivo” ou “tem gente em situação muito pior” podem aumentar o sentimento de incompreensão. Acolher não significa concordar com tudo o que a pessoa pensa ou sente, mas permitir que ela seja ouvida sem julgamento e, quando necessário, ajudá-la a encontrar caminhos de cuidado.

Quando existe preocupação com suicídio, também é possível perguntar diretamente, com tranquilidade e responsabilidade, se a pessoa tem pensado em morrer ou em tirar a própria vida. Perguntar não significa incentivar. Esse é um dos mitos que precisam ser desconstruídos. Uma conversa cuidadosa sobre pensamentos suicidas não coloca a ideia na cabeça de alguém; pode, ao contrário, permitir que uma pessoa que estava vivendo aquilo sozinha finalmente encontre espaço para falar.

O cuidado, porém, está na forma como esse assunto é abordado: sem sensacionalismo, julgamento, romantização ou exposição desnecessária. Falar responsavelmente sobre suicídio pode ser uma forma de prevenção. Quando há risco imediato, é fundamental que a pessoa não permaneça sozinha e que seja buscado atendimento de urgência.

Nesse contexto, também é importante diferenciar as experiências comuns de tristeza de situações que podem exigir maior atenção. A tristeza faz parte da experiência humana e não precisamos transformar todo sofrimento em doença. Podemos ficar tristes diante de uma perda, uma frustração ou uma mudança importante. Uma crise emocional, por sua vez, pode ocorrer quando os recursos que normalmente utilizamos para lidar com as dificuldades parecem não ser suficientes naquele momento.

O acompanhamento profissional deve ser considerado especialmente quando o sofrimento persiste ou se intensifica, quando começa a comprometer o sono, o trabalho, os estudos, os relacionamentos ou o autocuidado, quando a pessoa sente que não consegue mais lidar sozinha, ou quando surgem desesperança intensa, pensamentos de morte, autoagressão ou ideação suicida. E não é necessário chegar ao limite para procurar um psicólogo.

Ainda assim, pedir ajuda pode ser difícil. Para algumas pessoas, reconhecer uma vulnerabilidade é algo que provoca vergonha, medo ou insegurança. Há quem tenha aprendido desde cedo que precisa dar conta de tudo sozinho, que demonstrar sofrimento é sinal de fraqueza ou que seus sentimentos podem incomodar os outros. Também podem existir experiências anteriores de não ter sido escutado ou simplesmente uma dificuldade de colocar em palavras aquilo que se sente.

Às vezes, a pessoa sabe que não está bem, mas ainda não consegue compreender exatamente o que está acontecendo. E não é necessário ter todas as respostas para procurar ajuda. Muitas vezes, a psicoterapia começa justamente com uma frase simples: “Eu não sei explicar, só sei que não estou bem”.

 

Papel da família, amigos e escola

A família, os amigos e a escola também possuem um papel importante na prevenção. Não precisam assumir o lugar de um profissional de saúde mental, mas podem perceber mudanças, acolher, levar determinadas falas a sério e ajudar na busca por atendimento quando necessário. No caso de crianças e adolescentes, a escola ocupa uma posição especialmente importante, pois acompanha aspectos da rotina, do comportamento, das relações, do desempenho e situações que podem envolver isolamento ou bullying.

Prevenir também significa construir ambientes nos quais seja possível dizer “eu não estou bem” sem imediatamente receber julgamento. Precisamos fortalecer relações em que pedir ajuda seja compreendido não como sinal de fraqueza, mas como uma possibilidade de cuidado.

As redes sociais fazem parte desse cenário e podem exercer influências positivas e negativas sobre a saúde mental. 

Elas podem aproximar pessoas, criar redes de apoio, ampliar o acesso à informação e fazer alguém perceber que não está sozinho em determinada experiência.

Por outro lado, também podem favorecer comparação permanente, idealização da vida alheia, necessidade de aprovação, exposição a discursos violentos e conteúdos inadequados, além de interferir no sono e ocupar um espaço excessivo na vida cotidiana.

Existe ainda uma diferença entre estar conectado e estar verdadeiramente vinculado. Podemos ter centenas de contatos e, ainda assim, não ter alguém com quem conseguimos falar sobre aquilo que realmente nos angustia.

Por isso, não precisamos esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar ajuda. A psicoterapia não é apenas um recurso para situações extremas. Ela também pode ser um espaço para compreender conflitos, escolhas, relações, padrões que se repetem e aquilo que vem produzindo sofrimento.

Ao longo da vida, podemos perceber que algo não está bem quando já não conseguimos viver como habitualmente vivíamos. Quando a angústia começa a ocupar espaço demais; quando nossas relações passam a produzir sofrimento constante; quando nos isolamos; quando perdemos o interesse pelas coisas; quando o corpo começa a expressar aquilo que não conseguimos elaborar; quando repetimos situações que nos fazem sofrer e não compreendemos por quê; ou quando sentimos que alguma coisa em nós mudou e não conseguimos nomeá-la.

Não é preciso saber exatamente o que está acontecendo para procurar ajuda. Muitas vezes, aquilo que inicialmente aparece como angústia, sintoma, mudança de comportamento ou mal-estar ainda não tem nome. O espaço de cuidado pode justamente possibilitar que essas experiências sejam compreendidas e que a pessoa encontre novas formas de lidar com aquilo que está vivendo.

E, para quem está passando por um momento difícil, talvez uma das mensagens mais importantes seja: você não precisa atravessar tudo sozinho.

Quando estamos mergulhados em um sofrimento intenso, podemos ter a impressão de que aquilo não terá fim ou de que não existe saída. Mas o estado emocional de hoje não determina necessariamente o amanhã. Procurar alguém em quem se confia e permitir que outra pessoa saiba o que está acontecendo pode ser um primeiro passo. Quando estiver difícil demais, buscar ajuda profissional também é uma forma de cuidado.

O Setembro Amarelo nos convida a falar, mas, principalmente, a continuar escutando. A prevenção não acontece somente quando identificamos uma situação de risco. Ela também se constrói diariamente, nas relações, na possibilidade de pedir ajuda, na disposição para ouvir e na criação de espaços em que as pessoas possam dizer, com segurança: “Eu não estou bem”.

Falar sobre suicídio com responsabilidade é falar sobre sofrimento, cuidado, vínculos e possibilidades. É lembrar que, muitas vezes, o primeiro passo para uma mudança é justamente quando aquilo que estava sendo vivido em silêncio consegue ser compartilhado com alguém.
 

ÂNIMA CLINICA 
DE PSICOLOGIA 
Psicólogas: 
Cleusa Arnemann
Siham I. M. Shubeita 
Liane Beatriz T. Roedel
Izabel C. Turra