TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O NOVO TEMPLO DA COMUNIDADE SÃO PAULO: PARTE II
O NOVO TEMPLO DA COMUNIDADE SÃO PAULO: PARTE II
Mais de dez anos haviam se passado desde a assembleia da comunidade que decidiu pela construção e pelo lançamento da pedra fundamental da nova igreja da Comunidade São Paulo de Três de Maio.
Era domingo, dia 28 de abril de 1957, quando finalmente os evangélicos cruzaram pela primeira vez o portal para entrarem em sua nova igreja a fim de assistirem ao festivo culto de sua celebração.
Considerando o desenvolvimento da então Vila Três de Maio, optou-se, após a conclusão do alicerce, substituir a planta original por outra elaborada pelo arquiteto Camilo Bonésio, de Carazinho.
Dificuldades de toda a sorte, especialmente financeira, protelaram a conclusão da obra. Em princípios de 1956, o mestre de obras Rudolf Wortmann sofreu um acidente fatal, que resultou em um prolongado período de interrupção dos trabalhos de edificação do templo. Apenas no último trimestre do ano as obras puderam ser retomadas, quando todo o empenho possível foi feito para que, sem maiores intervalos, os trabalhos tivessem continuidade e levassem à conclusão da obra.
As contribuições dos fiéis se deram de forma continuada, em valores significativos, para o custeio da mão de obra e compra de materiais de construção. A parte interna do templo foi toda planejada e desenhada pelo pastor Gustav Huedepohl, com diversos elementos de representação divina. A rosácea da fachada do templo viria a se tornar a maior do Brasil em igrejas evangélicas, mostrando a força da fé de toda a comunidade e servindo como um elemento de grande simbologia religiosa.
Nas igrejas, especialmente as de estilo gótico, as rosáceas são uma grande janela circular ornamentada com vitrais coloridos, e seu nome vem de sua semelhança visual com as pétalas de uma rosa. Todas as janelas foram doadas, bem como os lustres e pia batismal, ornamentos para o altar e parâmetros.
Os bancos, desenhados e planejados pelo pastor Huedepohl, também foram doados por diversas famílias e construídos pelo marceneiro Ernest Winter. O altar e o púlpito com seu teto de ressonância, elaborados pela firma Reeps de Lajeado, foram presenteados por membros da comunidade.
Atrás do altar, o pintor Hans Volstät desenhou e pintou o sol com um triângulo dentro, para representar a Santa Trindade. Mas neste, especificamente, não foi colocado um olho dentro, como normalmente é representada esta imagem. O símbolo inteiro significa a onipresença de Deus, e o “olho que tudo vê”, afirma que além de ser onipresente, Deus está cuidando de sua criação.
Com tantas pessoas se doando incansavelmente para a conclusão de tudo, foi possível escolher o domingo após a Páscoa para as festividades de inauguração do novo templo.
Os preparativos do local para a festa se iniciaram com um mês de antecedência, quando 50 a 60 homens reuniram-se todos os sábados à tarde, voluntariamente, para este trabalho. Durante a última semana compareciam diariamente para prestar serviços.
Desse modo, foi possível construir junto a Avenida, na frente da nova igreja, do local da festa e da antiga capela, inclusive um muro e uma calçada. Também a antiga igreja recebeu uma nova pintura, de modo que o conjunto passou a ter um aspecto realmente festivo.
Na véspera da festa todos estavam preocupados com o tempo que mostrava sinais de que poderia chover, porém, no dia o sol nasceu brilhante e o céu quase sem nuvens. Sob os badalos dos sinos e os sons do conjunto de trombones de Crissiumal, as atividades festivas iniciaram bastante cedo.
Na torre tremulava ao vento matinal a bandeira da igreja que com sua cruz saudava as pessoas que chegavam de ônibus, caminhões, automóveis, charretes e a cavalo, das mais diversas localidades e distâncias. Às 9 horas reuniram-se na antiga capela para um culto de despedida, e após o hino apresentado pelo coral masculino de Caúna, o pastor pronunciou-se a comunidade com palavras de profunda fé, seguido de uma oração de agradecimento e um hino interpretado pelo coral da comunidade que foi cantado por todos os presentes, encerrando-se assim a celebração de despedida. Em seguida, a comunidade se deslocou solenemente para a nova igreja, precedida pelo conjunto de trombones de Crissiumal.
Diante do portal, todos os corais presentes cantaram em conjunto “Alma, bendize ao Senhor poderoso da Glória”, e após a leitura de um salmo e a apresentação de um hino pelo coral de Dr. Mauricio Cardoso, procedeu-se a abertura do portal pelo Sr. Willi Fischborn, de Entrada da Barrinha, e pela Sra. Rosalina Fleck, que se fizeram merecedores desse direito por ocasião do leilão da chave.
Ao badalo dos sinos, a comunidade adentrou seu novo templo em tão grande número que muitos tiveram de ficar de pé enquanto outros somente puderam acompanhar a celebração do lado de fora, através do sistema de alto-falantes, enquanto a Rádio Colonial assumiu em sua programação a transmissão da solenidade inaugural.
A consagração foi procedida pelo pastor Saenger de São Leopoldo, como representante do Presidente Sinodal. No culto que se seguiu ao ato de consagração, em língua alemã, o pastor Burghardt, como Pastor Regional, dirigiu a liturgia de entrada, seguido pelo pastor Saenger, que proferiu a mensagem da palavra e a prédica, enquanto o pastor Gustav Huedepohl se encarregou da liturgia de saída.
Durante a celebração do culto, apresentavam suas mensagens, através do canto, os corais de Santa Rosa, Tuparendi, Três Passos, Crissiumal, Três de Maio e da localidade de Manchinha. O presidente da comunidade então agradeceu a presença de todas as paróquias e comunidades representadas, além de seus corais, e leu uma mensagem enviada da Alemanha pelo primeiro pastor residente de Três de Maio, o pastor Kreutler, o que deixou a todos emocionados.
Com o hino “Dai graças ao Senhor” a celebração foi encerrada, momento em que todos se dirigiram ao pátio da igreja para a festa. Cerca de 1.500 kg de churrasco, 300 galinhas e muitos pratos complementares, com uma imensa variedade de cucas, bolos e tortas, foram oferecidos à comunidade.
Mas logo nas primeiras horas da tarde, o tempo mudou e teve início uma intensa chuva que obrigou muitos a anteciparem sua volta para casa. Porém, mesmo assim, avaliou-se que por volta de 4 mil pessoas devam ter comparecido ao local.
Após doze anos no Brasil, em 1955, o pastor Gustav Huedepohl, havia conseguido retornar a sua terra natal, a Alemanha, para fazer uma visita, quando comprometeu-se a permanecer no país somente por mais alguns poucos anos, e então, no dia 31 de agosto de 1960, finalmente deixou a comunidade, momento em que o pastor Artur Wiedmann, alemão, natural da Bessarábia, veio a Três de Maio para substituí-lo.
Esta mudança marcou o início de um novo período de transformações culturais e espirituais para toda a comunidade São Paulo e também para outros irmãos religiosos, que a partir de então, passariam a estar mais unidos na superação de velhos estigmas e na construção de novos entendimentos entre todas as vertentes religiosas.

A Comunidade Evangélica de Confissão Luterana São Paulo de Três de Maio (IECLB) foi fundada no dia 29.12.1918, celebrando seu primeiro culto em uma escola municipal que existia no povoado, chamado Johann Krüger. Posteriormente, em 1924, foi construído um templo na esquina da Avenida Uruguai com a atual Rua Tereza Verzeri, onde os cultos da comunidade foram realizados até o dia 28.04.1957, quando o novo templo foi finalmente inaugurado

Despedida do pastor Gustav Huedepohl e de sua esposa no ano de 1960

Representação da Santíssima Trindade pintada atrás do altar da igreja pelo pintor Hans Volstät

A rosácea do templo que em determinados horários do dia ilumina seu interior com uma intensa projeção solar com tonalidades coloridas
Fonte pesquisada: Livro Comunidade Evangélica de Confissão Luterana São Paulo 1918 - 2018
Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche









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