TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A FUNERÁRIA DE ALBINO SCHAFFER

TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A FUNERÁRIA DE ALBINO SCHAFFER

A FUNERÁRIA DE ALBINO SCHAFFER

Albino Alfredo Schaffer, nascido em 1898 em Cachoeira do Sul, ainda na mocidade veio para a região de Ijuhy, quando conheceu Florina Zimmermann, com a qual se casou e com ela teve cinco filhos: Kert (1923); Gerald (1925); Sibylla (1929), Sebald (1932) e Herbert (1934).
Albino havia se mudado com a esposa para Santa Rosa - Buricá em 1921, quando adquiriu um terreno de mais de dois mil metros quadrados na vila e ali se instalou com uma carpintaria.
Em sua carpintaria, Albino Schaffer produzia carrocerias, máquinas para moinho e outros utensílios em madeira, necessários para as atividades comerciais da época e, por ser um dos únicos a exercer essa função na Vila, logo começaram a aparecer pessoas solicitando também urnas funerárias a Schaffer, para poderem enterrar de forma condigna seus entes falecidos. 
No dia 21 de março de 1927, vendeu seu primeiro caixão e, a partir daí, estes pedidos começaram a se tornar mais frequentes, e devido a isto e a necessidade de urgência nos enterros, Albino  começou a produzir as urnas com antecedência, deixando algumas em estoque. 
Schaffer logo foi percebendo que os caixões mais solicitados eram os que haviam sido pintados e, então, começou a dar mais atenção para este detalhe.  
O único problema é que este era um processo um tanto dispendioso pois, utilizava-se uma serpentina aquecida pôr fogo, ligada a uma pequena lata onde era colocado um pouco de água, que também necessitava ser aquecida, e dentro desta, eram colocados pedaços de cola, que na época eram comprados em barras embrulhadas em papel vegetal. Quando tudo já estivesse com uma certa temperatura, era finalmente adicionada a anilina com a cor desejada, e assim, as urnas eram pintadas à quente. Porém, quando a cola esfriava um pouco, acabava embolorando, e então era necessário esquentar tudo novamente para continuar pintando. 
Os caixões acabavam levando cerca de três dias para secarem completamente ao sol, mas no final, o resultado era bastante satisfatório. 
Quando Florina Zimmermann Schaffer faleceu em 1936, tudo se tornou mais difícil na vida da família Schaffer. Sem esposa e tendo um filho pequeno para criar, Albino não teve outra escolha senão entregar o filho mais jovem, Herbert, então com poucos anos de idade, para a senhora Blondina, esposa de Ricardo Tesche, criá-lo. 
Em 1948, Albino casou-se novamente, desta vez com Cacilda Herberts, filha de Cristiano Herberts e Paula Barth Hentschke, e o casal teve dois filhos: Noeli (1949) e Elimar (1951). 
Em 1952, sua carpintaria acabou incendiando acidentalmente enquanto ele se encontrava no Clube Buricá, e então, os filhos Kert, Gerald e Sebald Schaffer abriram uma nova oficina em sociedade (no mesmo terreno  onde hoje se encontra o Supermercado Benedetti), e Albino construiu outra carpintaria em separado para si no mesmo local, pois já dispunha de seus próprios equipamentos, não necessitando de muita ajuda para tocar seus negócios, como nos tempos em que precisava levar as tábuas para plainar na serraria do Sr. João Calegarri, ao lado da Praça da Bandeira. 
Então, máquinas que Albino não possuía, os filhos ao lado possuíam, fossem elas plainadeiras, lixadeiras ou fresadeiras. 
Com os filhos se dedicando as demais exigências do ramo, Albino Alfredo Schaffer começou a se dedicar mais aos trabalhos de fabricação de urnas funerárias, mas mesmo assim, ainda era muito requisitado para trabalhos de carpintaria, como na oportunidade em que, juntamente com o Sr. Petsolt, foram os responsáveis pela colocação do assoalho de madeira do novo templo da Comunidade Evangélica Luterana São Paulo, quando esta já estava com suas obras quase concluídas. 
Seguidamente apareciam pessoas pela oficina, trazendo fitas com as dimensões dos moribundos, e com essas referências Albino começava a cortar a madeira e dar forma aos caixões. 
Os caixões eram feitos de pinho, e após pintados, Schaffer deixava sua esposa, Cacilda, encarregada de revesti-los com um pano preto, afixando este com tachinhas de tamanco, que eram pregadas uma a uma com a ajuda de um martelinho, ao mesmo tempo em que cuidava dos filhos pequenos, que muitas vezes ficavam sentados dentro do caixão para não fugirem de sua vista a acabarem se machucando pela oficina. 
O filho mais jovem, Elimar, durante a infância, passou a gostar muito de brincar na carpintaria de seu pai, onde o  via produzir as mais diversas engenhocas em madeira possível, como na oportunidade em que, por encomenda da família Schardong, que havia aberto um açougue na Rua Santo Ângelo, Albino construiu um carroção todo fechado, parecendo um furgão em madeira, para que  pudessem transportar a carne de seu matadouro, situado em local distante de onde comercializavam seus produtos. 
A produção de urnas funerárias seguiu desta forma até o dia que um senhor, chamado Belleti, da firma Reck de Caxias do Sul, apareceu pela cidade vendendo as urnas fabricadas por sua firma, e deixou quatro delas em consignação para Schaffer, dizendo a ele que assim que as vendesse, podia enviar o pagamento para a firma por via bancária. 
Assim, Albino iniciou oficialmente sua empresa de serviços funerários em Três de Maio, no ano de 1955.
Albino Alfredo Schaffer viria a falecer em 1966, quando então, sua esposa, Cacilda Herberts Schaffer, passou a administrar a empresa da família e contratou o Sr. Guilherme Marchnner, que possuía um salão de bailes mais retirado da zona urbana – e que eventualmente fazia trabalhos de carpintaria para Albino -- para continuar com a fabricação de urnas. 
Cacilda, além de administrar a empresa da família, continuou na sua função principal fabricando coroas coloridas, com papel parafinado. 
Este papel era inicialmente pintado com anilina ou com papel crepom untado com álcool ou cachaça, e depois recortado para se modelar as flores uma a uma. Depois Cacilda as colocava na parafina e amarrava nas coroas, num trabalho que exigia bastante paciência.
Além disso, Cacilda cuidava também de todos os outros procedimentos com os falecidos, limpando-os quando necessário e ajudando a vesti-los, sempre se deslocando até as moradias das famílias enlutadas pois, naqueles tempos, as pessoas eram veladas em suas próprias residências. 
Algum tempo depois, Cacilda e os enteados compraram uma caminhonete Rural Willys e a transformaram em um carro fúnebre, o primeiro de Três de Maio. 
Na parte da carroceria, inicialmente foi acoplada uma estrutura de madeira que a transformou em um furgão, possibilitando assim o transporte das urnas com os defuntos de forma mais confortável até o cemitério.  
Como o filho mais jovem, Elimar, não possuía habilitação para dirigir, pois ainda não tinha a idade para isso, Cacilda contratou o Sr. Kolling, que tinha uma barbearia ao lado da propriedade dos Schaffer e era casado com a Sra. Olinda Meurer, bastante amiga de Cacilda, para que este dirigisse o carro fúnebre em dias de velório, e como ocorriam somente cerca de dois a três óbitos por mês, aquele passou a ser um trabalho bastante tranquilo para ele. 
Quando Elimar completou seus dezesseis anos de idade, sua mãe decidiu pedir uma autorização especial para o Dr. Juiz Décio Antônio Herpen, responsável pela Comarca de Três de Maio, para que Elimar pudesse dirigir o veículo em dias de velório. 
Solicitou então ao advogado Dr. Luiz Antônio Matana Saciloto que fizesse a solicitação através dos meios legais para o juiz, e tão logo o pedido fora aceito, Elimar fez o teste de direção em Santa Rosa e recebeu sua habilitação especial. 
Estas autorizações especiais para menores de idade dirigirem se diferenciavam das demais por sua cor azul, enquanto as habilitações normais eram verdes. 
E foi assim que, um dia, passando com o carro funerário na Avenida Uruguai, Elimar acabou ficando preso em um pequeno engarrafamento ocasionado por um ônibus mal estacionado em frente à Estação Rodoviária, que era situada ali, quase ao lado do cinema, de forma bastante incômoda para a circulação dos demais veículos, e as reclamações quanto aquilo passariam a ser bastante frequentes. 
Até que decidiriam mudar a estação rodoviária de lugar, construindo uma instalação nova para ela em outra rua, paralela a Avenida Uruguai, e o meio irmão de Elimar, Herbert Schaffer, seria o principal responsável por essa mudança, necessária para a melhoria na circulação de veículos pela principal avenida da cidade, e que passaria a fazer parte do cotidiano dos moradores por muitas décadas. 
Elimar Schaffer desligou-se formalmente  da funerária em 2025, quando deixou a responsabilidade pela continuidade deste trabalho nas mãos de seus filhos, encerrando um ciclo de 70 anos de bons serviços prestados à comunidade Três-maiense.

Ao centro, Albino Schaffer ladeado pelos filhos Elimar (direita) e Noeli (esquerda). Em pé da esquerda para a direita: Kert, Gerald, Sibylla, Sebald e Herbert

 

Rural Willys da família Schaffer  funcionou por muitos anos como carro funerário em Três de Maio

 

Albino Schaffer deu início a fabricação de caixões mortuários na Vila Três de Maio em 1927. Em  1955, inaugurou oficialmente a sua funerária que a partir de então prestaria serviços funerários por mais de 70 anos

Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche.