Trabalho voluntário garante resgate, tratamento e encaminhamento para adoção de cães e gatos

O grupo Anjos do Bem de Três de Maio reúne cerca de 12 voluntários que atuam de forma permanente em defesa da causa animal. A equipe é formada por seis coordenadoras e colaboradores que auxiliam nas diferentes demandas do trabalho, desde o resgate até o encaminhamento para adoção

Trabalho voluntário garante resgate, tratamento e encaminhamento para adoção de cães e gatos

Uma das coordenadoras, Tanise Raquel Roberti, explica que a principal fonte de recursos do grupo é o brechó online Gaveta de Amor, mantido pelo Instagram (@gaveta_de_amor), onde são comercializados roupas, calçados e acessórios. Além disso, o trabalho é sustentado por doações de padrinhos e simpatizantes. "Contamos com o apoio de padrinhos e simpatizantes que realizam doações conforme divulgamos nossas necessidades nas redes sociais. Desde 2021, o Município disponibiliza um aporte para a castração de um número limitado de fêmeas por ano. Embora esse recurso não seja suficiente para atender toda a demanda, é um importante auxílio para o trabalho", afirma.

Todos os animais resgatados que apresentam ferimentos, doenças ou qualquer outra condição que exija atendimento recebem avaliação veterinária. O grupo mantém parceria com a Clínica Animed e a Pet São Chico, sendo que consultas, exames, medicamentos, cirurgias, castrações e demais procedimentos são custeados com recursos obtidos por meio das doações.

 

Adoção exige responsabilidade

O Anjos do Bem destaca que a adoção é um processo criterioso e vai muito além do desejo de ter um animal de estimação.

Segundo Tanise, todos os interessados passam por uma entrevista para verificar se possuem condições de oferecer um ambiente adequado, alimentação, acompanhamento veterinário e qualidade de vida ao animal. "Não realizamos doações apenas pela vontade. Um animal bem cuidado pode viver entre 10 e 15 anos, ou até mais, e essa responsabilidade precisa ser assumida durante toda a vida", ressalta.

Atualmente, diversos cães e gatos permanecem em lares temporários. Enquanto alguns aguardam uma família, outros acabam permanecendo definitivamente nesses locais devido à idade, porte, temperamento ou condições físicas, características que reduzem as chances de adoção.

Não há um número fixo de adoções mensais, já que isso depende da quantidade de animais acolhidos e do perfil de cada um. Filhotes, animais de pequeno porte e de pelagem clara costumam encontrar um novo lar com maior facilidade. Já cães e gatos adultos, de porte médio ou grande e de pelagem escura permanecem mais tempo à espera de uma oportunidade.

 

Mudanças familiares lideram casos de abandono

A maior parte dos atendimentos realizados pelo grupo está relacionada ao abandono provocado por mudanças na vida dos tutores. Entre as principais causas estão a mudança de residência, separação de casais e a chegada de um bebê à família. "Em vez de buscarem formas de adaptar a rotina, muitas pessoas optam por abandonar ou doar seus animais de forma irresponsável, embora eles não tenham qualquer culpa pelas decisões dos tutores", lamenta.

Embora receba pedidos de ajuda envolvendo aves, cavalos, burros e outras espécies, o Anjos do Bem atua exclusivamente com cães e gatos. Nos demais casos, orienta os responsáveis a procurarem os órgãos competentes.

 

Maus-tratos ainda preocupam

Conforme Tanise, os casos mais graves de maus-tratos registrados em Três de Maio são minoria, mas seguem exigindo atenção. A maioria das situações atendidas pelo grupo está relacionada à falta de informação e de responsabilidade sobre os cuidados básicos que os animais necessitam diariamente.

Nos casos mais graves, a orientação é que as denúncias sejam encaminhadas ao Ministério Público e aos órgãos competentes para garantir respaldo legal e responsabilização dos envolvidos.

Entre as ocorrências mais marcantes, a coordenadora lembra de um cachorro que foi atacado com um facão por um homem embriagado. "Foi uma situação extremamente cruel e difícil de esquecer. Felizmente, o cão sobreviveu", recorda.

 

Conscientização é o caminho

O maior desafio enfrentado pelo grupo continua sendo a obtenção de recursos financeiros. A procura por resgates é constante e, na maioria das vezes, supera a capacidade de atendimento dos voluntários.

Cada animal acolhido gera despesas com consultas veterinárias, exames, medicamentos, banho, controle de pulgas e carrapatos, castração, vacinação, alimentação e todos os demais cuidados necessários até a adoção. "O trabalho de um resgate não termina quando o animal é retirado da rua. Ele só se encerra quando esse animal encontra um lar definitivo e responsável", destaca Tanise.

Na avaliação da coordenadora, houve avanços na causa animal nos últimos anos, com maior participação da comunidade, aumento das adoções responsáveis e apoio por meio de doações. Apesar disso, ainda existe uma parcela da população que trata os animais com descaso.

Para o grupo, a conscientização continua sendo a principal ferramenta para reduzir os casos de abandono e maus-tratos. "As pessoas precisam compreender que os animais são seres sencientes, capazes de sentir dor, medo, alegria e afeto. Eles têm direito à proteção, ao respeito e a uma vida digna. Promover educação, guarda responsável, castração e respeito à vida animal é fundamental para construirmos uma sociedade mais humana e consciente", afirma.

Ao final, Tanise reforça que todo o trabalho desenvolvido pelo Anjos do Bem é voluntário e depende do apoio da comunidade. "A causa animal não é responsabilidade exclusiva dos protetores. Ela é um dever de toda a sociedade. Enquanto houver abandono, maus-tratos e omissão, continuaremos precisando do apoio da comunidade, do poder público e de todos aqueles que acreditam que cada vida merece respeito, cuidado e uma nova oportunidade", conclui.

 

"Sempre que olho para ela, vejo pureza e amor", afirma tutora que adotou cadela resgatada pelo Anjos do Bem

O amor pelos animais acompanha a desenvolvedora da Sicredi Confiança, Daiane Stevens, 25 anos, desde a infância. Filha de Margarete Goelzer Stevens e Ricardo Stevens, ela cresceu no interior convivendo com diferentes espécies de bichos e aprendendo, dentro de casa, a importância de acolher animais em situação de abandono. "Eu costumava dizer que tinha um verdadeiro minizoológico em casa. Já tive periquito, peixe, gato, coelho, porquinho-da-índia, entre outros. Como no interior sempre aparecem animais precisando de ajuda e meus pais sempre os acolheram, cresci vendo todos os meus cachorros serem adotados", conta.

Essa experiência fez com que a adoção se tornasse uma escolha natural.  "Comprar um animal nunca foi uma opção para mim, sabendo que existem tantos precisando de um lar." 

Atualmente, os pais de Daiane cuidam de mais de 20 gatos e seis cães, sendo cinco deles adotados.

A oportunidade de adotar um animal por meio do grupo Anjos do Bem surgiu em 2021. Na época, Daiane trabalhava em home office e sentia falta de companhia durante o dia. Foi então que ela e o namorado, o soldador Deivisson Farsen, decidiram aumentar a família.

Pelas redes sociais, o casal conheceu a história de uma cadela sem raça definida, descrita como "fiapo de manga", que havia sido resgatada de uma valeta durante um dia de chuva junto com seus filhotes. "O Anjos do Bem acolheu toda a família e fomos conhecê-los. Foi impossível não nos encantarmos", relembra.

 

Deivisson e Daiane adotaram Bela e hoje ela é parceria do casal (Fotos: arquivo pessoal)

 

Segundo Daiane, o processo de adoção foi organizado e responsável. Após preencherem um formulário de avaliação e passarem pela entrevista, o casal recebeu a cachorrinha, batizada de Bela, já castrada e com a carteira de vacinação em dia.

Hoje, Bela é considerada um membro da família e transformou a rotina do casal. "Ela é a nossa menina. Alegra a casa, é nossa parceira diária, nos incentiva a caminhar todos os dias e a desligar um pouco das telas para brincar. Sempre que olho para ela, vejo pureza e amor. Sou muito grata e feliz por tê-la na minha vida. Ela me traz uma paz incrível. A Bela é tudo para a gente", afirma.

Para Daiane, a adoção responsável vai além de oferecer um lar. É a oportunidade de transformar a vida de um animal e, ao mesmo tempo, descobrir uma nova forma de afeto, companheirismo e amor incondicional.

 

"Não nos basta apenas não fazer o mal, é preciso praticar o bem", afirma tutora que adotou nove animais

 

O amor pelos animais faz parte da vida da advogada Roseleide Binicheski desde a infância. Ao lado do marido, o agricultor Régis da Rosa, ela transformou esse sentimento em atitudes concretas por meio da adoção e do resgate de cães e gatos em situação de vulnerabilidade.

Segundo Roseleide, a convivência com os animais também é uma forma de ensinar valores ao filho Martín. "Desde muito pequena, meu amor e compaixão pelos animais sempre foram imensuráveis. Crescer com essa conexão nos torna pessoas mais sensíveis e empáticas. É isso que quero ensinar ao meu filho: apenas gostar dos animais não basta, é preciso ter compaixão, pois ela nos leva a agir para aliviar o sofrimento deles", afirma.

A primeira adoção da família ocorreu em novembro de 2021, quando acolheram o gato Batatinha, encontrado nas ruas. O nome foi escolhido porque o animal lembrava Batata, gato que viveu por 15 anos com Roseleide.

Em 2023, foi a vez da cachorrinha Fofa integrar a família. Resgatada por voluntários do grupo Anjos do Bem, ela foi encontrada dentro de um saco amarrado, abandonada em um matagal próximo ao Loteamento Santa Maria.

No início deste ano, a família adotou quatro irmãos felinos — Bela, Zezé, Catharine e Hugo. Os animais pertenciam a uma moradora que procurou o grupo Anjos do Bem em busca de lares para a ninhada. "Ao ver a fotografia deles, senti que não deveriam ser separados", conta.

Também neste ano, a família acolheu Quindim, um gatinho encontrado sozinho nas ruas.

 

Entre as adoções de Roseleide e da família está uma ninhada de gatos

 

Histórias de superação

Além dos gatos, Roseleide e Régis adotaram recentemente os cães Dora e Urso. Embora as adoções não tenham ocorrido diretamente por meio do grupo Anjos do Bem, os atendimentos veterinários foram intermediados pelo grupo.

Dora, uma cadela da raça Pug, passou anos sendo utilizada como matriz em um canil de outra cidade. Quando deixou de gerar lucro, foi descartada pelo antigo proprietário. Posteriormente, acabou sendo adotada por outra família em Três de Maio, mas continuou vivendo em condições inadequadas. "Ela permanecia em uma sacada de piso frio porque fazia muito xixi e sequer tinha uma casinha. Assim que chegou até nós, foi levada ao veterinário, onde recebeu tratamento para uma cistite grave, que causava muita dor e poderia ter sido fatal", relata.

Outro caso marcante foi o de Urso, encontrado por Régis no Bairro Carolina. O cão tinha tutor, mas vivia em um ambiente insalubre e apresentava uma grave infestação de larvas em uma das orelhas. Segundo Roseleide, o animal foi encontrado urrando de dor e esfregando a cabeça em bananeiras às margens de um riacho.

Urso permaneceu internado por uma semana e precisou amputar parte da orelha.

"A falta de compaixão dos antigos donos e também das pessoas que passavam por ele e nada faziam é algo que ainda me revolta", desabafa.

 

Brechó ajuda a manter os resgates

A família mora na localidade de Km 13, interior de Três de Maio, onde os animais vivem soltos durante o dia e contam com abrigos confortáveis para a noite.

Além das adoções, Roseleide mantém o brechó online Gaveta de Amor, no Instagram (@gaveta_de_amor). No espaço, comercializa roupas próprias e peças doadas a preços acessíveis. Toda a arrecadação é destinada ao grupo Anjos do Bem, sendo o pagamento realizado diretamente às coordenadoras da entidade.

 

Compaixão que transforma vidas

Para Roseleide, adotar um animal representa muito mais do que oferecer abrigo e alimentação. "Transformar a vida de um cachorro ou gato por meio da adoção vai além do bem que fazemos ao animal. Como dizia Chico Xavier, não basta apenas não fazer o mal; deixar de praticar o bem ou impedir que o mal aconteça também é condenável. Adoção, resgate e cuidado representam compaixão, bondade e humanidade", conclui

Régis e Martin, pai e filho, acompanhados por um dos cães adotados pela família

 

Maus-tratos a animais crescem no Brasil

Dados do CNJ revelam que, em 2020, o país contabilizava 265 ocorrências; já em 2025, o número registrado foi de 5.107

Os casos de maus-tratos à fauna registrados na Justiça brasileira vêm apresentando crescimento contínuo nos últimos anos. Dados do portal Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram que, em 2020, foram distribuídos 265 novos processos. Em 2021, esse número subiu para 358.

O aumento mais expressivo ocorreu em 2022, quando foram registrados 1.847 novos casos — crescimento superior a 400% em relação ao ano anterior. A tendência de alta se manteve nos anos seguintes: foram 2.881 novos processos em 2023, 4.226 em 2024 e 5.107 em 2025. Até 31 de maio de 2026, a Justiça brasileira já contabilizava 2.228 novos casos de maus-tratos à fauna.

A promotora de Justiça Carolina Zimmer destaca que a maior parte das ocorrências envolve cães. Segundo ela, as denúncias podem ser encaminhadas diretamente ao Ministério Público, inclusive de forma anônima, além da Delegacia de Polícia e da Vigilância Sanitária do município.

O crime de maus-tratos a animais está previsto no artigo 32 da Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais). A legislação estabelece pena de detenção de três meses a um ano, além de multa, para quem praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos.

O dispositivo legal também prevê punição para quem submeter animal vivo a experiência dolorosa ou cruel, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem métodos alternativos. As sanções também se aplicam a quem realizar ou permitir tatuagens e a colocação de piercings em cães e gatos com finalidade exclusivamente estética, bem como a quem provocar desastre ambiental que comprometa a vida, a integridade física ou o bem-estar de animais silvestres ou domésticos.

A legislação ainda determina aumento da pena de um sexto até um terço quando os maus-tratos resultarem na morte do animal.
 

 

Um processo tramita na Comarca de Três de Maio

Atualmente, apenas um processo por maus-tratos a animais está em tramitação na 1ª Vara Judicial da Comarca de Três de Maio. O caso refere-se à realização de uma rinha de galos, fato ocorrido em outubro de 2021.

Conforme informações repassadas pelo Foro de Três de Maio à reportagem do Semanal, o acusado foi condenado a três meses de detenção em regime aberto e ao pagamento de multa correspondente a dez dias-multa. A defesa apresentou recurso, mas a sentença foi integralmente mantida pelo Tribunal de Justiça do Estado.

 

Polícia Civil recebeu 23 denúncias desde 2024

Dados da Delegacia de Polícia Civil de Três de Maio apontam que, desde o início de 2024, foram registradas 23 denúncias de maus-tratos a animais no município. Em 2024, houve seis ocorrências. No ano seguinte, o número subiu para 15 registros. Em 2026, até 17 de julho, já haviam sido contabilizados dois registros.

Segundo a Polícia Civil, após o registro da ocorrência é solicitado o apoio do órgão de fiscalização competente. Com base na vistoria e nas informações apuradas, são adotadas as providências cabíveis em cada situação.