“Depois que você entra na máquina de hemodiálise, você não sai mais, só se fizer um transplante”
Há três anos e meio, a rotina do aposentado João Germano Gauger, de 63 anos, mudou completamente. O que começou com um mal-estar em casa resultou em uma série de complicações de saúde e na necessidade de realizar hemodiálise três vezes por semana para continuar vivendo
Em janeiro de 2023, após passar mal, João procurou atendimento médico no Hospital São Vicente de Paulo de Três de Maio. Os exames apontaram a presença de líquido nos pulmões e no coração, o que exigiu internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Durante o tratamento, ele sofreu complicações nos rins, que deixaram de funcionar, além de um infarto.
A partir de então, João iniciou uma série de tratamentos para recuperar e manter a saúde. Entre eles está a hemodiálise, procedimento que passou a fazer parte da sua rotina. Todas as terças, quintas-feiras e sábados, ele se desloca até Santa Rosa, por meio do transporte disponibilizado pela Secretaria Municipal de Saúde de Três de Maio. Em cada sessão, permanece cerca de quatro horas conectado à máquina, que realiza a filtragem do sangue.
'Você precisa encarar, pois é a tua vida que está lá'
O início do tratamento foi um período difícil para João. Aceitar a nova realidade foi um dos primeiros desafios. “Você não quer aceitar. Eu não sabia o que fazer, pois nunca imaginava que, da noite para o dia, precisaria passar por isso. Com o tempo, você se acostuma. Convive com pessoas que também realizam o mesmo tratamento e aos poucos é como se fosse uma família. Você começa a encarar, pois é a tua vida que está lá”, relata.
A esposa, Lovani Gauger, de 59 anos, acompanha João nas diferentes etapas do tratamento. Para auxiliá-lo, também precisou reorganizar a própria rotina.
Antes das complicações de saúde, o casal era proprietário da Casa do Peixe, no Bairro Jardim das Acácias, em Três de Maio. Ambos já estavam aposentados quando João iniciou a hemodiálise.
Tratamento exige mudanças na rotina
A hemodiálise trouxe uma série de limitações e mudanças para o dia a dia do casal. Além das quatro horas de tratamento a cada sessão, João precisa seguir uma rotina rigorosa de alimentação e controle da ingestão de líquidos. “Sempre saio da hemodiálise cansado. É como se tivesse trabalhado pesado o dia inteiro. Quando chego em casa, vou direto dormir. No começo, eu tinha pressão muito baixa e desmaiava. Após a hemodiálise, você fica muito fraco, pois a máquina aumenta o fluxo de bombeamento do sangue no corpo e nós saímos exaustos”, explica.
O aposentado explica que o tratamento tem, entre suas funções, a retirada do excesso de substâncias como fósforo e potássio do organismo, ajudando a evitar novas complicações.
A ingestão de líquidos também precisa ser rigorosamente controlada, já que os rins não conseguem mais eliminar a água do organismo. “Quando eu tomo um litro de água, no outro dia eu tenho que tirar esse litro pela hemodiálise, pois meus rins não fazem mais isso. Se não retirar essa água, pode acumular nos pulmões ou no coração", explica.
A alimentação também é bem rigorosa. Muitos alimentos, como algumas frutas e carne vermelha não fazem mais parte do cardápio. "Posso comer peixe ou frango, preciso seguir todas as recomendações da nutricionista”, afirma.
Outro problema enfrentado por pacientes em hemodiálise é a anemia. É necessário acompanhar constantemente as condições do acesso - uma fístula no braço direito, utilizado para o tratamento e possíveis perdas de sangue durante o procedimento. “Perdemos bastante sangue durante a hemodiálise. Seja nos tubos da máquina ou se a fístula não está tão segura. Por isso precisamos controlar esses detalhes”, ressalta.
Alerta para os cuidados com os rins
A experiência fez João também se tornar um defensor da prevenção e do acompanhamento periódico da saúde renal.
Ele conta que nunca havia sentido dores que indicassem problemas nos rins e acredita que o acompanhamento por meio de exames pode ajudar a identificar alterações antes que o quadro se agrave. “As pessoas precisam saber mais sobre os cuidados com o rim. Se a pessoa não faz exames regularmente, quando menos espera está com o rim morto. Por isso eu digo que as pessoas precisam fazer o exame de creatinina, para ver como os rins estão”, alerta.
Ele reforça que, depois que a função renal chega a um estágio em que é necessária a hemodiálise, o transplante passa a ser a única possibilidade para interromper o tratamento. “Depois que você entra na máquina de hemodiálise, você não sai mais, somente com um transplante. Controlem a creatinina, porque se você descobrir uma alteração cedo pode salvar o rim”, destaca.
Preparação para o transplante
A expectativa de João agora está voltada para o transplante renal. Ele ainda precisa concluir uma série de exames e procedimentos exigidos para poder ingressar na lista de espera.
O processo acabou sendo prolongado devido às complicações cardíacas decorrentes do infarto. Ele precisou passar por três pontes de safena e, nesses casos, é necessário aguardar um período de recuperação antes de dar continuidade à avaliação para o transplante.
Além dos exames cardiológicos, ele também precisou retirar uma mancha da pele do rosto e ainda passará por outros procedimentos, como a retirada de uma pedra na vesícula.
Depois de concluir todos os procedimentos e apresentar condições clínicas adequadas, o aposentado poderá ingressar na fila de transplante e aguardar a disponibilidade de um rim compatível.
Segundo ele, a convocação exige rapidez. “São chamadas três pessoas. Aquele que estiver com a saúde melhor e for mais compatível recebe o órgão, para evitar os riscos de rejeição.”
A distância entre Três de Maio e Porto Alegre também é um fator que exige planejamento. Quando surge a possibilidade de um órgão compatível, o paciente precisa chegar rapidamente ao hospital. “São seis horas para chegar ao hospital e apenas Porto Alegre realiza esse procedimento. Por isso, quem está aguardando um órgão precisa estar sempre com a mala pronta e largar tudo para ir fazer a cirurgia”, afirma.
Enquanto aguarda a conclusão dos exames e procedimentos necessários para ingressar na fila, João segue com a rotina de hemodiálise. São três sessões semanais, cuidados constantes e a expectativa de, no futuro, poder receber um novo rim e retomar uma vida com menos limitações.









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