TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O QUILÔMETRO 13 PARTE I

TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O QUILÔMETRO 13 PARTE I

O QUILÔMETRO 13 PARTE I

Com a chegada dos primeiros migrantes a região situada entre os rios Santa Rosa e Buricá, o imigrante italiano Marino Geraldi, tido como o primeiro colono a se estabelecer onde hoje situa-se a cidade (no ano de 1913, dois anos antes do início oficial da colonização da região do Santa Rosa, segundo relatos do próprio), convenceu seu cunhado, o italiano José Benatti, casado com sua irmã, Ângela Geraldi, a também vir se estabelecer na região. 
José Benatti veio inicialmente sozinho, deixando sua esposa e filhos em Tubarão, Santa Catarina, os quais somente viriam de viagem seis anos depois, quando José Benatti já havia se instalado em uma gleba de terra e limpado uma área de mato para o plantio, numa região a alguns quilômetros do lugar onde começava a surgir o povoado de Buricá, próximo a um outro morador do local,Pedro Vendruscolo, possivelmente o primeiro a se estabelecer ali. 
Naqueles primeiros dias, enquanto desmatava a área para o cultivo, as margens de um lajeado, José Benatti foi atacado por um tigre (como as onças eram chamadas a época), que provavelmente estava saciando sua sede nas águas do lajeado naquele momento, o qual acabou lhe ferindo gravemente um dos braços, deixando uma grande sequela na musculatura, e por isso o lajeado passou a ser chamado de “Lajeado Tigre”. 
Logo, mais famílias vindas das colônias velhas começaram a se estabelecer naquela área, todas de credo católico, pois na época, sugere-se que os colonizadores direcionassem, ou orientassem, estes emigrantes para os locais onde outras pessoas de sua mesma etnia, idioma e religião, estavam se estabelecendo, para que assim pudessem estruturar suas comunidades de forma mais organizada. 
Como estas famílias traziam consigo uma profunda fé manifestada em diversos momentos do dia, fosse em família ou em grupos reunidos na casa de alguém, José Benatti, muito influenciado por sua fé em São José, santo que lhe emprestou o nome, adquiriu uma imagem do santo para o altar do capitel que construíram no local, e por isso, a comunidade católica do lugar recebeu o nome de “Comunidade São José”, quando então, decidiram construir uma capela de madeira. 
Com a abertura de uma estrada de rodagem em linha reta entre o povoado de Buricá, indo em direção às barrancas do Rio Uruguai (a estrada anterior passava por Caravaggio e Esquina Bado), com seu traçado estabelecido sobre um espigão (relevo no terreno que divide as águas das chuvas de um lado e outro), as áreas onde estes colonos estavam habitando passaram a ser referenciadas pela distância em quilômetros que ficavam do povoado de Buricá, surgindo assim as localidades dos quilômetros 3, 6, 10 e 13, e nos anos seguintes, com uma maior oferta de terras pelo Estado, a migração de colonos para estas localidades se intensificou ainda mais, principalmente por parte de famílias de origem italiana, vindas da região de Nova Pádua e São Sebastião do Cahy. 
No Quilômetro 13, algumas das primeiras a se estabelecerem foram as famílias Loro, Rossi, Dallavechia, Bombardelli, Viapiana, Roberti e Gelain, que vieram para esta região entre as décadas de 1920 e 1940. 
Os motivos para a vinda dessas famílias eram variados, mas todos tinham em comum o objetivo primordial de conseguir terras, fosse para começar a vida, fosse para tentar progredir ou fosse para diminuir as dificuldades enfrentadas onde até então viviam, como foi o caso dos irmãos Gelain.  
Em Nova Pádua, João e Félix Gelain cultivavam terras às margens do Rio das Antas, onde plantavam milho, mas quando isso acontecia os macacos que infestavam aquela região iam desenterrando de cova em cova os grãos para se alimentarem, e foi então que os irmãos resolveram amarrar um cachorro, chamado Piloto, próximo a plantação para que este afugentasse os macacos, e assim o milho pudesse crescer. Finalmente, iam com um burrinho com duas cestas na cangalha, uma de cada lado, colher o milho. 
Cultivar naquelas terras era um sofrimento, principalmente por conta da quantidade de pedras que havia na região, e quando começaram a chegar as boas notícias daqueles que há alguns anos haviam se mudado para a região do Buricá, João Gelain decidiu também se mudar para a região, onde comprou 29 hectares de terras na área do Quilômetro 13, pertencentes a viúva Domênica Brustolin Loro, mãe de sua esposa, Pierina, que havia se mudado poucos anos antes para o lugar. 
Nesta primeira viagem João foi sozinho, a fim de  preparar tudo para a chegada de sua esposa e filhos, e quando retornou a Nova Pádua, deixou contratado um homem para construir uma residência de madeira em suas terras para acomodar toda a família. 
João Gelain, nascido em 26 de dezembro de 1901, e Pierina Loro, filha de Giuseppe Loro e Domênica Brustolin, nascida em 22 de novembro de 1905, haviam se casado no dia 1° de março de 1924 e tiveram quinze filhos. Viajaram com eles também para Buricá, Tonina Gelain, irmã de João, e todos foram de caminhão de Nova Pádua até Caxias do Sul, onde subiram em um trem que os levou até Cachoeira do Sul, de onde pegaram outro trem que os levou até Santa Rosa. 
Lá, conseguiram carona com um caminhão que estava transportando uma carga até Três de Maio, e assim, tiveram de deixar sua mudança na estação ferroviária de Santa Rosa, de onde somente duas semanas depois ela foi trazida pelo irmão de João, Félix, que também vinha de Nova Pádua. 
Chegaram a Vila Três de Maio a meia-noite e foram diretamente ao encontro da mãe de Pierina, Domênica Brustolim Loro, no Quilômetro 13 do Estradão Horizonte. O barulho do caminhão chegando fez os cachorros latirem bastante alto, e por isso, acabaram acordando todo mundo. Era o dia 2 de março de 1938, e logo souberam que o homem que João Gelain contratou para construir a casa onde moraria provisoriamente com sua família havia ficado doente e não levantou sequer uma tábua das paredes. Assim tiveram de se alojar no paiol da propriedade do irmão de Pierina, Pedro Loro, que morava próximo. 
Dormiram aqueles dias utilizando palhas de milho como colchão, e para diminuir as dificuldades, João e Pierina tiveram de repartir os filhos com os outros irmãos de Pierina. Então João Gelain tratou de correr com a construção da residência da família e contratou peões para ajudá-lo a derrubar o mato e levar as árvores até a serraria  dos irmãos Aléscio e Isidoro Baú para fazer as tábuas. Depois escavaram o terreno para fazer um porão e então, finalmente, começaram a construir a nova casa.
Como as tábuas estavam ainda verdes, foi preciso fazer um furo nelas com a trivela para poder fincar os pregos, trabalho que acabou se estendendo por mais de uma semana. Meses depois, as tábuas das paredes secaram e a casa ficou cheia de enormes frestas, e então foi preciso despregar tudo e refazer o assoalho e as paredes. 
No início tudo foi muito mais difícil do que a família esperava que fosse, mas com a ajuda dos familiares de Pierina, que ajudavam lhes dando galinhas, pequenos leitões, queijos, salames, farinha, ovos e banha, tudo aos poucos foi se ajeitando. 
A água, buscavam em uma mina que ficava próxima, mas que às vezes secava. Aí o jeito era descer até o rio Manchinha para lavar as roupas e trazer um pouco de água para casa. Durante meses toda a família ia com baldes, panelas e latas, buscar água para seu consumo próprio e para as criações, até que um dia João Gelain comprou o famoso “carneiro” e 350 metros de cano para puxar água do rio Manchinha. 
Depois disso, tudo mudou para a família e a água jorrava pelo cano à um palmo de distância, dia e noite sem parar. Mas para outros que também acabaram se estabelecendo ali as coisas não foram tão complicadas como foram para a família de João Gelain. 
O italiano Izidoro Bombardelli, casado com Maria Pinzon, veio com sua família de Nova Pádua em princípios da década de 1920, com alguns filhos, sendo que ao longo de suas vidas o casal acabaria tendo ao todo dezoito filhos: cinco filhos homens e treze filhas mulheres. 
No dia 30 de abril de 1929, Izidoro formalizou a compra de uma área de terra de 267.600 m² encravado no Lote Rural n° 4 da 4° Secção da Colônia Santa Rosa (hoje, a área que abrange a região da olaria da família Bombardelli, desde a Rua Horizontina até a área do antigo CIEP) pertencente até então ao casal Albino e Glória Veronese (casal que havia chegado ao povoado de Buricá em 1918). 
No local, Izidoro começou a fabricar um vinho de qualidade, o qual armazenava em enormes pipas, tornando-se depois fornecedor do fabricante de bebidas, Augusto Rutzen, que adquiria a produção de vinho da família Bombardelli ainda nos barris, assim como também as garrafas e rótulos do vinho com a marca “Vinho Felicidade”, e ele próprio engarrafava a bebida em sua fábrica para posterior revenda em toda a região. 
Naqueles primeiros anos, três filhos de Izidoro Bombardelli haviam adquirido lotes de terra no Quilômetro 13: Domênico, Davide e Julio, sendo que somente Julio continuou morando na Vila Buricá, mas mesmo assim, acabaria fazendo uma contribuição enorme para aquela comunidade. 
Domênico e Davide passaram a cultivar extensos parreirais de uvas em suas terras no Quilômetro 13, cuja produção era toda destinada para a fábrica de vinhos do pai. 
Alguns anos depois do falecimento de Izidoro Bombardelli, os filhos decidiram não dar continuidade na fabricação de vinho, e foi então que outro filho de Izidoro, Cláudio, juntamente com um genro, decidiu transformar as instalações onde a família anteriormente fabricava vinho, em uma olaria, na qual anos depois, Claudio teve como sócio Ervino Mensch, passando a mesma a se chamar Cerâmica Três de Maio Ltda.
Em 1927, Julio Bombardelli acabou doando o seu lote de terras na localidade para a construção de uma igreja, cemitério e uma escolinha de madeira para as crianças, na qual a primeira professora a lecionar se chamava Maria (?). A segunda professora a lecionar na comunidade foi Leonora Bombardelli, filha de Domênico, que passou a dar conta sozinha de quase cem alunos, mas sempre amparada em uma rígida disciplina, validada pela moralidade da época, que lhe permitia ter sempre uma vara de bom tamanho descansando sobre a sua mesa, e que seguidamente era utilizada para resgatar a ordem entre os alunos.
Aquele era um tempo em que ser criança não justificava não trabalhar, e durante o horário do recreio, os maiorzinhos eram todos convocados a puxar tijolos para ajudar na construção da nova igreja da comunidade, que estava sendo erigida no mesmo terreno doado por Julio Bombardelli. Mas nos anos seguintes, em meio a mecanização das lavouras e a crescente concentração fundiária no Estado, o governo federal passaria a estimular uma nova migração, desta vez para o Centro-Oeste do país, e muitas famílias do Quilômetro 13 decidiriam que já era hora de recomeçar a mesma jornada antes empreendida por seus antepassados.

 

A igreja da comunidade São José do Km 13 foi construída com as contribuições das cerca de noventa famílias que moravam na localidade entre os anos de 1940 e 1950. Na imagem, o registro de uma procissão num dia de comemoração  da comunidade

Revisão: Dr. Leomar Tesche