TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - DUQUE, O CACHORRO DA IGREJA E O AMANHECER DE UM NOVO TEMPO EM TRÊS DE MAIO
DUQUE, O CACHORRO DA IGREJA E O AMANHECER DE UM NOVO TEMPO EM TRÊS DE MAIO
Ainda na juventude, quando morava na região de Lajeado Cachoeira, Benno Tesche vinha seguidamente montado a cavalo até a Vila Buricá para ter aulas de violino. Aprender a tocar um instrumento musical era algo bastante corriqueiro entre as famílias de origem alemã, principalmente se fossem ligadas a igreja dos alemães, que em 1949 unificaria diversos sínodos dando origem a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), a qual sempre teve a música e o canto como formas fundamentais de expressar a fé.
Em 1962, Benno passou a tocar violino nos cultos, onde desde os dezesseis anos de idade já participava dos corais. Possuir um coral sempre foi uma das características mais marcantes da comunidade São Paulo de Três de Maio, principalmente nas interpretações de Bach, compositor alemão que foi profundamente influenciado pelas ideias de Martinho Lutero, as quais o ajudaram a redefinir o papel do canto congregacional na igreja através da criação de um elo emocional com os fiéis quando se cantava um cântico em grupo. Johan Sebastian Bach compôs mais de mil peças musicais durante a vida e 2/3 delas foram para a igreja luterana, tendo sido uma de suas maiores obras a composição chamada “Jesus, alegria dos homens”.
Já casado, Benno, sua esposa Romilda e os três filhos pequenos, Lilian (1948), Udo (1951) e Leomar (1956), foram morar em um terreno nos fundos da igreja e, por isso, acabaram ficando responsáveis por tocar os sinos todos os dias, às 6 horas da manhã, ao meio-dia e às 18 horas, além dos badalos em dias de culto e nas confirmações.
Nas confirmações (cerimônia em que os jovens confirmam o batizado dado por seus pais quando recém-nascidos) era sempre Benno que tocava os sinos, pois na hora em que o pastor dava a bênção, apenas um badalo deveria ser ouvido, e por isso, era preciso mais força e destreza para controlar com a corda o sino de 400 quilos pendurado no alto da torre da igreja.
Inicialmente, era a filha mais velha, Lilian, aos sete anos de idade, quem ajudava Benno tocando o sino nos horários do meio-dia e das dezoito horas (o das seis horas era sempre Benno quem tocava), depois o filho do meio, Udo, aos seis anos de idade, e quando este foi para o internato em São Leopoldo, quem assumiu a responsabilidade de tocar os sinos foi o filho mais jovem, Leomar, também aos seis anos de idade.
A cidade toda se orientava com as horas pelos badalos dos sinos da igreja, e por isso, era extremamente necessário seguir o cronograma dos horários à risca, pois se os sinos não tocassem no horário certo, muitas pessoas ficariam desorientadas e talvez atrasassem seus compromissos.
O dia que o sino não tocou ao meio-dia
Como no dia em que Leomar, estando na Ferragens Esch, onde seu pai trabalhava, percebendo que já estava na hora de tocar o sino do meio-dia, pegou sua bicicleta e foi rapidamente em direção a igreja, mas ao dobrar a esquina, por estar usando chinelos nos pés, resvalou nos pedais e caiu, batendo com o cotovelo no chão. Acabou fraturando o cotovelo e ficou lá estendido, chorando, até que um homem que passava pela rua o juntou e o entregou para o taxista Kuhn, que o levou em seu DKV até a Sra. Seccon, a qual tinha uma certa prática em colocar os ossos de volta no lugar.
Lá, enquanto um dos filhos da velha puxava seu braço, ela ia tentando recolocar o osso no lugar, dizendo: “Não prometo que você vai poder mexer esse braço depois!”. Fizeram uma armação de taquara para imobilizar o braço e depois Leomar foi liberado.
Nesta altura, muitos já se perguntavam o que havia acontecido que o sino não havia sido tocado, outros tantos já haviam perdido completamente o horário do almoço, e até Duque, o cachorro pastor alemão que ficava preso a uma espia de correr nos fundos da igreja, e que provavelmente associava aqueles badalos do meio-dia aos minutos que antecediam ao momento em que Romilda lhe trazia os restos do almoço, deve ter entendido que algo não estava acontecendo como de costume.
Duque era conhecido por toda a cidade como o “cachorro da igreja”, pois por alguns períodos no entardecer costumava ser solto para correr livre pelas ruas, somente voltando para a coleira no dia seguinte pela manhã.
Veio parar na comunidade São Paulo através do pastor Hilmar Kannenberg, transferido para Três de Maio com a finalidade de assumir um dos pastorados da igreja ao lado de Werner Saemann, depois que o pastor que os antecedeu retornou para a Alemanha, e acabou convivendo com a comunidade durante um período importante, de profundas transformações culturais e históricas em Três de Maio.
Isto tudo começou quando o pastor Artur Wiedmann, alemão, natural da Bessarábia, sua esposa, Senta, e os três filhos meninos e uma filha menina, vieram a Três de Maio em 1960 para substituir o pastor Gustav Hüedepohl, que depois de onze anos em Três de Maio (em parte dos quais auxiliou a comunidade São Paulo durante quase todo o período de construção de sua nova igreja), havia sido transferido para trabalhar na comunidade Vila Elza em Porto Alegre, passando também a atender o leprosário de Itapoã. Homem de coração bom, Artur Wiedmann dedicava-se plenamente aos enfermos nos hospitais da cidade.
No dia 24 de novembro de 1960 havia iniciado visitas regulares aos enfermos internados nos hospitais Santo Antônio e São Vicente de Paulo, quando anotava o nome dos pacientes para poder memorizá-los e tentar ao máximo associar os nomes aos rostos de cada um. Achava importante lembrar os traços faciais de uma pessoa, e dessa forma foi aprendendo a ler as faces das pessoas doentes. Estudava com entusiasmo o “Eberhard Zellweger” (Luta e vitória na vida do enfermo) e se empenhava em “ver a doença a partir de dentro”.
Nos constantes encontros com os muitos membros da paróquia nos hospitais, ia paulatinamente conhecendo suas famílias, até que um dia, em 1961, no hospital Santo Antônio, conheceu um rapaz de 39 anos, que morava em Esquina Bela Vista, onde era cuidado por sua mãe. O rapaz estava cego há cerca de quinze anos por conta de uma paralisia reumática provocada pela sífilis.
Após ter ficado cego, passou a frequentar com sua mãe um curandeiro chamado Sobriano Machado, que eventualmente vinha até sua casa e sentava-se ao lado de sua cama. Nestes dias, ele ouvia os estalos na madeira do assoalho da casa, vindos da direção da porta da cozinha e se sentando no banquinho ao lado de sua cama, momento em que o curandeiro lhe aplicava suas práticas.
Foi a partir destes encontros que teriam iniciado as suas paralisias, começando pelo dedo menor da mão direita, a seguir avançando pela mão esquerda e os pés até tomar conta de todo o seu corpo, e foi então que resolvera se internar no hospital.
De forma geral, as pessoas procuravam curandeiros porque não tinham dinheiro para o médico na cidade, ou mesmo, para economizar o pouco que tinham.
Wiedmann então resolveu contar para ele a história do paralítico de Cafarnaum (Marcos 2: 1-12), depois oraram juntos o Salmo 23, o que acabou rompendo com a forma como o homem via e compreendia a situação em que se encontrava, e isto o deixou em paz.
Neste mesmo ano Wiedmann seria eleito presidente do distrito Sinodal de Santa Rosa, atuando em oito paróquias, o que o faria viajar muito pelo interior, tornando difícil conciliar tudo com os trabalhos junto a paróquia de Três de Maio e, portanto, solicitou a diretoria da paróquia a criação de um segundo pastorado.
Aceita a solicitação, comprou-se um novo terreno com casa para o segundo pastor, e, inicialmente, por um breve período, veio prestar serviços pastorais para a comunidade o pastor Beno Rempel, mas que permaneceu por pouco tempo. No decorrer de 1967, viria da Alemanha o pastor Werner Eduard Saemann, que naquele momento não sabia que poucos meses depois o destino o levaria até Três de Maio.
Após desembarcarem do navio que os trouxe da Alemanha no porto do Rio de Janeiro, o pastor Saemann, sua esposa, Gertraud e sua filha pequena (em Três de Maio o casal teria mais dois filhos), viajaram para Montenegro, no Rio Grande do Sul, onde por alguns meses passaram a ter noções de língua portuguesa na casa do Sr. Livino Schüler.
Até que receberam uma carta da direção da Igreja perguntando se Saemann estaria disposto a assumir uma grande paróquia na serra. Werner Saemann aceitou o convite e foi assim que chegou a Três de Maio.

Duque preso a sua corrente nos fundos da igreja da IECLB na década de 1960. Na imagem é possível ver o automóvel do Dr. Gaiger estacionado nos fundos da loja do Sr. Lasch, a qual só conseguiam acessar passando pelo terreno da igreja.

Benno Tesche com a filha Lilian na garupa de sua bicicleta na década de 1950. Ao fundo é possível ver a igreja da Comunidade São Paulo ainda em construção.
Primeiro ofício na nova comunidade: sepultamento de um caboclo
Seu primeiro ofício na nova comunidade foi o sepultamento de um caboclo, o que o fez se perguntar como aquele brasileiro afrodescendente, que não compreendia o idioma alemão, havia se tornado membro da “Daitsch Kerch” (igreja dos alemães).
O homem pertencia a uma família pobre, que morava na periferia da cidade e pelo telhado de seu casebre o pastor percebeu que dava para se enxergar o céu de tão esburacado. No cemitério, reparou nos rostos magros das pessoas que estavam ali se despedindo do falecido e admirou as sepulturas pintadas com tinta cor de prata, não encontrando nenhuma planta em volta dos túmulos para dar uma tonalidade de vida aquele cenário. “Formigas” lhe disseram mais tarde. Reparou na cor vermelha da terra e devido ao seu português ainda fraco, resolveu não tentar consolar as pessoas tristes ali presentes com promessas vazias sobre um além imaginário.
Um tempo depois, durante o inverno, um parente do falecido se ofereceu para limpar o poço da casa paroquial, e após o serviço feito, o pastor, vendo o homem todo sujo daquela terra vermelha, desnudo e tremendo de frio, ofereceu o chuveiro com água quente da residência para que ele se limpasse, o qual ele somente aceitou depois de muito hesitar.
Saemann se esforçava para entender mais aquelas pessoas, mas apesar disso, nas cinco comunidades onde era responsável pelos cultos, estes ainda eram celebrados em língua alemã, e mesmo para muitos, cujo português era o idioma mais usual no dia a dia, realizar um culto em português soava como algo que desrespeitava os costumes da igreja.
As limitações linguísticas só começaram a ser superadas mesmo, quando ele e a esposa foram obrigados a falar português em sua casa por causa da babá de seus filhos, que não entendia alemão.
Aquilo veio em boa hora pois, naqueles anos o governo implantou o nacionalismo até nas escolas primarias do interior, e por conseguinte, a comunidade de Consolata passou a exigir cultos também em português.
Saemann descobriu que em Três de Maio, até muito recentemente, falava-se o idioma alemão mais do que o português no dia a dia pelo comércio, e alguém que não soubesse se comunicar em alemão, ou pelo menos italiano, não conseguia sequer emprego.
Alguns meses depois, com o anúncio da saída do pastor Artur Wiedmann, que estava de retorno marcado para Alemanha, veio para Três de Maio o pastor Hilmar Kannenberg, que anteriormente trabalhava na paróquia de Tuparendi. Kannenbrerg havia retornando ao Brasil pouco tempo antes de vir para Três de Maio, depois de passar quatorze meses na Europa.
Em junho, havia se casado com Martha Ingebord, filha do pastor Wilhelm Pommer de Hamburgo Velho, e foi nestes dias que alguém o presenteou com um filhote de pastor alemão, chamado Duque. Pouco mais de dois meses depois de ter casado, Kannenberg foi chamado para acompanhar por cem dias, em viagem de kombi pelo Brasil, o pastor Martin Lagois, enviado da Alemanha ao Brasil pela Igreja Alemã para fotografar e filmar o trabalho social e comunitário da igreja no país.
Hilmar Kannenberg, o primeiro pastor brasileiro da Comunidade São Paulo
Enquanto viajavam, estando já no Estado do Mato Grosso, chegou uma carta as mãos de Kannenberg, enviada por sua esposa, com a seguinte informação: “Você foi transferido para Três de Maio”.
Martha então organizou toda a mudança em um caminhão, onde também embarcou Duque, e veio na frente para Três de Maio, sendo recebida pela secretária da comunidade, Asta Grün e pela família Tesche, os quais lhe prestaram toda a assistência possível.
A receptividade de toda a comunidade também ajudou ao casal no início de sua adaptação na nova cidade, pois foram recebidos com muitas saudações que diziam “Estamos felizes”, “Sejam bem-vindos”, “Obrigado pela pregação”, “Que bom que agora temos um pastor brasileiro”.
De fato, Hilmar Kannenberg foi o primeiro pastor brasileiro da comunidade São Paulo. Logo nos primeiros cultos, Kannenberg se surpreendeu com o grande número de pessoas presentes na igreja da comunidade, e entre as várias atividades ligadas a paroquia, começou a trabalhar com as senhoras da OASE (Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas), lideradas pela dona Miranda Herath, as quais costumavam se reunir para fazer o estudo da bíblia.
Nas reuniões semanais da OASE só podiam participar senhoras que não tinham emprego ou não trabalhavam fora de casa. Os estudos bíblicos giravam principalmente em torno do Evangelho de Lucas, que trata da vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus, momento em que todas se sentavam formando um círculo e cada senhora presente lia, em voz alta, um versículo do texto em estudo, não importando a qualidade da leitura, mas a participação. E foi num desses estudos que Kannenberg percebeu os resquícios da guerra na comunidade. Formado o círculo e iniciada a leitura de um versículo, de senhora por senhora presente, uma delas disse: “Desculpa, pastor, mas esqueci meus óculos!”. Kannenberg ficou olhando-a sem saber o que dizer. Depois da reunião, uma outra senhora chegou até ele e lhe disse: “Esta mulher nem usa óculos, pastor! O fato é que ela não sabe ler!”.
O pastor se sentiu um pouco chocado com aquela informação, e surpreso, perguntou: “Como uma pessoa adulta não sabe ler?” -- E a mulher lhe respondeu: “Ela ia para a escola durante a guerra! Como Getúlio Vargas proibiu aulas em alemão e fechou as escolas, ela não aprendeu a ler e a escrever!”.
Várias coisas começavam a ganhar sentido para Kannenberg, mas para uma ainda faltavam explicações. Em dias de culto, percebia que dos alto falantes da igreja católica situada do outro lado da rua ecoava uma música alta, que acabava sendo ouvida dentro do templo, e perguntando o porquê daquilo para alguns fieis mais antigos, descobriu que aquele clima de animosidade perdurava há anos entre as duas comunidades religiosas, desde que haviam disputado a posse do terreno onde está situado o cemitério das duas comunidades.
Foi então que, apesar da história das duas igrejas nas últimas quatro décadas indicar que aquela tentativa seria em vão, Kannenberg decidiu visitar o Padre Durigon, pároco da igreja matriz católica, e expressar o seu apelo por um trabalho conjunto e pacifico com os católicos.
Kannenberg foi bem recebido, mas não se sentiu muito à vontade, pois o padre Durigon era um senhor idoso, de aspecto sisudo e sem muitas palavras, enquanto ele era apenas um rapaz de 27 anos. Após expor o seu desejo de realizar um trabalho ecumênico com seus vizinhos, Kannenberg despediu-se do padre que apenas levantou-se e o acompanhou até a porta, sem nada prometer, apenas deu-lhe a mão com votos de bom trabalho.
Mas apesar de o jovem pastor ter achado em um primeiro momento que aquela visita havia sido infrutífera, no culto seguinte percebeu que os alto falantes do outro lado da rua haviam silenciado, e logo o relacionamento entre os membros das duas igrejas começou a frutificar em outras áreas de serviço social, com o pastor sendo convidado para ministrar aulas esporádicas no Colégio Cardeal Pacelli.
Primeiro culto ecumênico de Três de Maio
O ápice deste relacionamento ocorreu no dia 20 de setembro de 1968, quando as duas comunidades realizaram o primeiro culto ecumênico da história de Três de Maio, ao ar livre, com imensa presença de fieis das duas comunidades. Logo Kannenberg começou também a conhecer as famílias do interior, fazendo visitas rotineiras com o fusca vermelho adquirido para o seu pastorado, nas regiões da Entrada da Barrinha e Mato Queimado.
Foi quando, certo dia, conheceu em Flor de Maio uma senhora leta, idosa, acamada, dependente, mas perfeitamente lúcida, que já era acompanhada pelo pastor Wiedmann. Falava somente em alemão e em meio as reflexões que era levada a ter pelo pastor, sobre o agradecimento a Deus pela vida, lhe disse: “Pastor, abre a porta de meu armário!”. Kannenberg atendeu ao pedido da idosa e ao abrir o armário, viu apenas um vestido pendurado no cabideiro. A senhora falou: “Pega e vê a cor!”.
Kannenberg segurou o vestido pelo cabide e ficou observando o rosto feliz da pobre velhinha, com seus olhos brilhantes, esperando sua reação. Então respondeu: “É azul claro!”. E ela, com ímpeto, corrigiu: “É azul-celeste! E sabes porquê? Este é meu vestido que usarei quando morrer! Nada de preto, de luto, mas de azul celeste, sim! É a cor do céu! Em nossa terra aprendi que morrer é a passagem para Deus, para a vida eterna, da salvação, da felicidade!”.
Kannenberg sentiu-se emocionado com o que havia acabado de ouvir, e naquele momento soube que não havia mais nada que precisasse ser dito aquela mulher. Ela estava perfeitamente preparada para encontrar-se com Deus, pois havia conseguido sentir em sua alma que havia algo um pouco além do limite do que normalmente as pessoas se permitem enxergar em vida.
Um tempo depois o pastor Werner Saemann lhe pediu que realizasse a celebração de bodas de ouro de um casal de Esquina Quineira. Foi um dia de festa que reuniu muitas pessoas da comunidade, e, num salão decorado, tomado por convidados do casal jubilar e de seus familiares, Kanneberg falou sobre a passagem de 1 Coríntios 13 (O hino do amor), e no momento em que sublinhava: “O amor é paciente, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...”, o noivo jubilar fez sinal com a mão para o pastor, voltou-se para o ouvido de sua companheira e disse em alemão bem audível: “Gell, Mama, mai Herzz und dai Herzz sinn ene Klumba” (Meu coração e teu coração formam uma só bola, são uma coisa só).
Todos no recinto riram e alguns até aplaudiram. Kannenberg também sorriu porque sabia que no fundo era isso mesmo o que o apóstolo Paulo queria dizer sobre o amor cristão, e entendeu que o noivo naquele momento havia vislumbrado um significado mais elevado sobre o que estava limitado a ver.
O pastor Kannenberg, sua esposa Inge e seus dois filhos ficaram apenas um ano e meio em Três de Maio, pois ele foi chamado pela direção da IECLB para ajudar com seus conhecimentos de comunicação na preparação da Assembleia Geral da Federação Luterana Mundial, que iria acontecer no ano seguinte. Porém, logo um problema peludo de nome Duque, surgiria nas preocupações de Kanneberg.
Foram naqueles dias que, com a conclusão da última etapa da Faculdade de Teologia em São Leopoldo, oito jovens pastores estavam em expectativa para assumir seus primeiros campos de atividades pastorais. De malas prontas, estavam reunidos com o pastor Höhn, que logo iria anunciar a decisão do Conselho Diretor da IECLB sobre a paróquia para a qual cada um havia sido designado.
Aquele fora o maior grupo de formandos até então na Faculdade de Teologia, que passariam a fazer parte de um total de cento e oitenta pastores que na época atuavam na IECLB. Foi quando o pastor Höhn, lendo pausadamente um ofício, disse: “Pastor Rui Bernhard: paróquia de Três de Maio!”.

Pastor Artur Wiedmann
Alguns dias depois, estava Rui Bernhard já instalado em Três de Maio. Ter agilizado sua vinda foi muito proveitoso para o novo pastor da comunidade pois, pôde acompanhar o pastor Hilmar Kannenberg em seus últimos quinze dias de trabalho, visitando famílias e apresentando pessoas.
Kannenberg mostrou para o novo pastor os caminhos e os atalhos entre as comunidades, ensinando-o a tomar cuidado com algumas questões fundamentais, como não atropelar galinhas e outros bichos a beira da estrada, e como dirigir o carro nas estradas de poeira e barro vermelho nos dias de chuva para não ficar atolado ou cair numa sarjeta.
Bernhard logo percebeu que a cultura e a língua alemã ainda estavam muito presentes nas atividades da Comunidade São Paulo, pois a maioria dos cultos, batismos, casamentos e sepultamentos, continuavam a ser realizados na língua alemã, e os cultos em português, constituíam a exceção.
E foi então que, antes de ir embora, Hilmar Kannenberg perguntou ao novo pastor se ele tinha interesse em ficar com Duque, pois já havia se tornado um cachorro enorme e para onde iam não teria muito espaço para ele. Bernhard hesitou um pouco antes de responder, mas a vizinha, Romilda Tesche, o encorajou: “Pode aceitar! Eu assumo o compromisso de dar comida e água todos os dias!”.
Ninguém queria se desfazer de Duque, e então ele acabou ficando. A família Tesche acolhia todos os pastores que vinham a Três de Maio, e era sempre na porta da casa deles que os novos pastores, em seus primeiros dias na comunidade, iam bater quando necessitavam de algo.
A transição dos cultos para a língua portuguesa
Resolvida a questão sobre a permanência de Duque, Rui Bernhard, cujo espírito a juventude talvez tenha munido com um certo desapego ou capacidade de retidão ao inflexível costume do “sempre foi assim”, começou a dialogar com os diversos grupos da comunidade, sempre com muita cautela e paciência, sobre a necessidade de passarem a realizar as atividades em português.
Passaram assim a diminuir gradativamente o número de cultos em alemão, mas sempre mantendo em pelo menos um domingo por mês um culto somente em língua alemã.
No caso dos sepultamentos, também começou a fazer mudanças aos poucos. Inicialmente ainda faziam a celebração litúrgica em alemão na casa da pessoa falecida. Mas a parte do sepultamento, no cemitério, necessariamente era realizada em português, por tratar-se de um ato público, e mesmo com muita resistência, em poucos anos, todo o ato de sepultamento passou a ser realizado em português.
Já para a realização de casamentos o processo foi mais fácil por se tratar sempre de pessoas jovens. Mas mesmo assim, ainda continuaram por um bom tempo realizando alguns casamentos em alemão, muitos por insistência dos pais dos noivos, especialmente quando esses atos eram realizados em comunidades do interior. Isso, no entanto, acontecia muito raramente, porque os noivos vinham para a cidade para a realização do casamento civil e aproveitavam para realizar a bênção matrimonial no templo da Comunidade São Paulo.
Para grande parte dos noivos, era um acontecimento muito especial poderem casar na igreja da cidade. Mas estes momentos quase sempre lembravam Bernhard de algo que lhe trazia um certo desconforto, pois logo que havia chegado a Três de Maio, o jovem pastor percebeu que a comunidade esperava que o novo pastor fosse já um senhor casado, como normalmente acontecia com os pastores que o antecederam.
O pastor que veio sem a “Frau Pfarrer”
Mas, mesmo assim, Rui Bernhard havia se sentido muito bem recebido por todos, e as senhoras da OASE meio que o adotaram e o assessoraram nas questões relacionadas a organização da casa. A falta de uma “Frau Pfarrer” (esposa do pastor), contudo, era mais percebida quando alguém procurava o pastor e esse não estava em casa. Isso acontecia muitas vezes fora de hora do funcionamento da secretaria da comunidade, e nesses casos, as pessoas brincavam, dizendo “Precisamos conseguir uma esposa para o nosso pastor”.
Porém, a “Frau Pfarrer’, Gertraud, esposa do pastor Werner Saemann, quando não estava envolvida com outras atividades nas comunidades interioranas, procurava sempre se fazer presente nas atividades da OASE.
Já o pastor Saemann procurava se manter prestativo o tempo todo junto as comunidades, como na vez em que fora marcado um jogo de futebol com um time do interior contra a cidade e os jovens do interior venceram. Então Saemann, com a kombi VW de seu pastorado, se ofereceu para levá-los de volta para a Esquina Quineira e no caminho percebeu o quanto aquelas pessoas que viviam na colônia sentiam-se satisfeitas em superar dificuldades diante das pessoas da cidade, que tinham acesso mais facilitado a muitas coisas. Eram pessoas que haviam aprendido a não esperar por nada e enfrentar de frente todas as dificuldades.
Esta percepção ficou mais evidente quando um forte vendaval arrancou todo o imóvel do centro evangélico de madeira na localidade de Manchinha e o jogou alguns metros distante, deixando como resto apenas um amontoado de tábuas. Imediatamente se organizou um enorme mutirão onde todas as pessoas da comunidade cooperaram, recolhendo até os pregos cravados nas madeiras e endireitando-os para serem novamente utilizados, e em quatorze dias o centro foi reconstruído ainda mais lindo do que antes.
Mas naqueles dias outra triste adversidade estava prestes a acontecer e afetaria de modo trágico a vida do pastor Saemann e de sua família, quando retornavam de uma viagem a Santo Ângelo.
Pela estrada de chão batido, que levantava muito pó daquela terra avermelhada, começou de repente uma típica chuva de verão, daquelas que não avisa de onde vem e vai-se embora mais rápido ainda. Mas a pouca água que caiu sobre a estrada, conseguiu fazer alguns trechos ficarem lisos, e alguns metros antes da Ponte do Quaraim, mesmo estando em baixa velocidade com sua Kombi, uma das rodas traseiras do veículo dobrou-se para dentro de tal forma que a kombi rodopiou e capotou. Saemann foi arremessado para fora do veículo e acabou ficando preso debaixo da porta do motorista, com o quadril quebrado. Sua esposa, Gertraud, ficou sentada na terra, dentro do veículo, com a coluna fraturada.
Os dois foram levados para o hospital São Vicente de Paulo onde ficaram aos cuidados do doutor Armando Eickhoff e do doutor Portinho.
Da noite para o dia, as três crianças do casal ficaram desamparadas de seus pais e tiveram de ser cuidadas pelas famílias Tesche, Thiel, Siebeneichler e depois Raskowetzki, e as atividades confiadas a Saemann no interior chegaram ao fim, momento em que a direção da IECLB viabilizou o retorno da família para a Alemanha, na esperança de que encontrassem recursos melhores para a cura de Gertraud, que havia ficado paralisada da cintura para baixo.
Depois de quatro semanas de cama, Saemann teve de reaprender a caminhar e seu primeiro caminho o levou até a oficina da Volkswagen, onde descobriu que o eixo traseiro da kombi havia quebrado e mostrava uma rachadura já existente anteriormente, devido a uma ferrugem. Saber daquilo trouxe um pouco de paz para a alma de Saemann, pois não precisou mais se culpar pelo acidente. Aquele acontecimento foi um choque pra toda a comunidade, que demorou para assimilar a tragédia.
Quando a vida finalmente retomou seus caminhos, o pastor Rui Bernhard já havia conhecido em São Leopoldo, Suzana, que estava terminando seus estudos na Unisinos, e os dois acabaram se casando. Como professora formada, Suzana foi integrada no trabalho escolar estadual, numa escola em Independência e também na Escola Getúlio Vargas, como professora de Português e Inglês.
Finalmente havia sido apresentada a comunidade sua “Frau Pfarrer”, como era desejo de muitos, pensava orgulhoso Bernhard. Quando faltava algum eletrodoméstico na cozinha da comunidade, ou algum ingrediente muito necessário de última hora, as mulheres apelavam para Suzana.
Por conta disso, Rui Bernhard e Suzana acabavam tendo algumas regalias pois, quando as cucas que as senhoras da OASE preparavam para a venda ficavam prontas, os dois eram os primeiros a serem avisados, e assim, sempre podiam contar com as mais quentinhas, recém saídas do forno.
Duque e o Fusca vermelho
Muitas vezes o casal era acordado de madrugada, antes mesmo de Benno Tesche tocar o sino das 6 horas, pela cantoria das mulheres, quando começavam o seu trabalho de preparar a massa. Logo nasceu o primeiro filho do casal, Rafael, em seguida, Gustavo, e, um tempo depois ainda nasceria Karina, e as crianças iam crescendo acompanhando as estripulias do cachorro da paróquia, Duque, que seguidamente arrebentava a espia onde era atado e disparava pelo quintal, até o dia em que decidiram prender sua corrente a um pneu, que acabava amortecendo a força dos puxões do animal.
Depois disso, Rui Bernhard mantinha à risca o hábito de soltar Duque nos finais de tarde, para que ele pudesse correr livremente pela cidade. Mas certo dia, o pastor recebeu um telefonema de um funcionário do Banco do Brasil, no centro da cidade, que lhe pediu que fosse até o banco, pois Duque havia se postado ao lado de um fusca vermelho (que era da mesma cor do fusca da paróquia) e não deixava que o seu dono entrasse no carro. Ele ameaçava agredi-lo quando chegava perto, e também não deixava ninguém passar na calçada, ao lado do fusca. Por causa desse episódio, já se havia reunido certo número de pessoas que acompanhavam o caso em volta.
Então Bernhard foi até lá com o fusca da paróquia e estacionou ao lado do fusca onde estava Duque, abriu a porta do carro, o chamou, e ele, percebendo que era seu dono que o chamava, entrou no veículo lépido e faceiro. Todos aplaudiram Duque que, sentado ao lado do pastor, olhava para as pessoas, feliz e realizado, como se quisesse dizer “Cumpri com o meu dever! Muito obrigado pela atenção de todos!”, e os dois retornaram para casa.
Quando rompia os limites da espia que o prendia ou era solto no final da tarde, Duque não compreendia aquilo como uma fuga, mas como o alcance de algo maior, o que o fazia se tornar mais pleno e aguçado, sentindo o ímpeto de ganhar as ruas correndo até onde aguentava, o que talvez, em alguns momentos no silêncio das madrugadas, o permitia se sentir dono de toda a cidade, até a hora em que os primeiros badalos do sino da manhã anunciassem que um novo dia estava começando para a Comunidade São Paulo e para as demais pessoas que aguardavam aquele sinal para despertar.
Mas em uma dessas manhãs, Duque não apareceu, e apesar de todos esperarem a sua volta a qualquer momento, depois daquela madrugada ele nunca mais voltou!

Coral com seus componentes, no ano de 1959. Em pé: Elfrieda Gass, Elli Greiwe, Eugênio Schaeffer, Alfredo Ziemann, Benno Tesch, Armando Scäffer, Erwino E. Mensch (regente), Willy Beckert, Emilio H. Esch, Arno Winter, Florêncio Berger, Erica Lauer, Ernesto Winter e Erica Schmidt. Sentadas: Leda Mensch, Erica Rieger, Frida Gottwald, Elsa Schmidt, Erna Pretzel, Anita Ziemann e Maria Schäffer
Revisão e cooperação:
Dr. Prof. Leomar Tesche









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