TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O GINÁSIO PIO XII PARTE I

TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O GINÁSIO PIO XII PARTE I

TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O GINÁSIO PIO XII PARTE I

Em 1946, com o início do funcionamento do único curso ginasial de toda a região do Grande Santa Rosa em Três de Maio, nas dependências  do educandário administrado pelas Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus, então denominado Ginásio Pio XI (posteriormente renomeado Colégio Dom Hermeto), ocorreu uma enorme adesão de jovens que em anos anteriores haviam parado com seus estudos devido à falta de um curso ginasial na região, ocasionando a necessidade da construção de um novo imóvel para atender a demanda, mais espaçoso e com mais infraestrutura.   
Foi neste momento que decidiu-se fazer um ginásio nos moldes tradicionais, separando-se meninos de meninas, e ficou decidido que as meninas continuariam seus estudos ginasiais no Ginásio Pio XI, dirigido pelas freiras, enquanto os meninos passariam a estudar no novo ginásio que pretendiam criar, o qual recebeu o nome de “Ginásio Pio XII”, em homenagem ao Cardeal Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, recentemente eleito como Papa Pio XII. 
Neste mesmo ano, o padre Vicente Testani, já doente e debilitado, convidou para virem a Três de Maio, para trabalharem em cooperação com ele, uma congregação de freis capuchinhos que aqui começaram a construir um seminário da ordem capuchinha, passando eles também a auxiliarem na arrecadação de fundos e na construção do novo ginásio. 
Desta forma, alugaram uma olaria de propriedade de Armando Spillari, para fabricar os tijolos necessários para a edificação da obra do ginásio, além de um pátio e um campo de futebol, que seriam construídos em terreno amplo de 24.000 m², adquirido da viúva e herdeiros do Sr. João Schweig, terreno este pago pela Casa Comercial Três de Maio Ltda (mais tarde conhecida como Tecidos Buricá), firma gerenciada por Mariano Giacomo Loro, pessoa de confiança do padre Testani, o qual foi nomeado presidente da comissão da obra do ginásio. 
Em 1948, com a saída dos freis capuchinhos de Três de Maio, devido a desentendimentos com Monsenhor Testani, principalmente no que dizia respeito a divergências com relação a obra do ginásio, passou a ser coadjutor de Testani na paróquia o padre Heitor Rossato, designado pelo Bispo de Uruguaiana para auxiliá-lo, mas que ficou por pouco tempo.  Por essa época, o vigário de Tucunduva, padre Pedro, havia conseguido que viesse ajudá-lo nos serviços de sua paróquia um padre italiano do Instituto Missões Consolata, chamado padre João Garbolino. 
Este instituto missionário havia sido fundado na Itália em 1901 e após anos de trabalho religioso na África, havia chegado ao Brasil recentemente, em 1946. 
Testani então contatou o instituto para saber se os padres desta congregação podiam vir ajudá-lo, e inicialmente veio a Três de Maio o próprio padre João Garbolino, para conversar com Testani. Entabularam-se entendimentos, Testani consultou o Bispo de Uruguaiana e após sua concordância, a direção da Paróquia foi entregue aos Padres Missionários da Consolata, que assumiram também as responsabilidades que envolviam a construção e posterior gestão do novo ginásio. 
Naquele mesmo ano, Mariano Loro, Luiz Bonamigo e Ináh Müller, cunhada do contador da Casa Comercial Três de Maio Ltda, Walter Ullmann, foram os padrinhos da pedra fundamental do novo ginásio (o que equivale dizer que superaram os demais no leilão de ofertas), colocada em um dia de festa, em setembro de 1948. 
Mariano Loro supervisionava a construção, fornecendo o material necessário, contratando e pagando a mão de obra e os fornecedores, tudo com dinheiro das mensalidades dos alunos e da firma que gerenciava, a Casa Comercial Três de Maio Ltda. Porém, os demais sócios da firma, que até recentemente funcionava como uma cooperativa, não sabiam que a empresa estava auxiliando com dinheiro de caixa as obras do novo ginásio e, consequentemente, também desconheciam o motivo porquê a empresa não apresentava lucros, pois, se soubessem, as obras do Ginásio seriam imediatamente paralisadas por falta de recursos e um problema maior se instalaria. 
Walter Ullmann, contador da firma, ajudava Mariano a mascarar a situação, enquanto Monsenhor Testani amenizava os comentários mais questionadores, apaziguando também os ânimos mais exaltados. Apenas estes três e alguns poucos mais chegados sabiam qual era a verdadeira origem de parte dos recursos utilizados na construção da obra. 
No dia 1o de janeiro de 1949, o padre Antônio Ronchi assumiu a direção da paróquia, quando Testani, nos intervalos em que sua saúde o permitia, pôde se dedicar com mais afinco a tarefa de concretizar o novo ginásio, para que assim pudessem formalizar junto a Delegacia Regional de Educação de Cruz Alta um pedido de autorização de funcionamento do curso.
Faltando pouquíssimos meses para conclusão do prédio onde funcionaria o Ginásio Pio XII, Testani e Mariano Loro criaram uma comissão, integrada também por Leopoldo Vontobel, Albino Tomasi e Carlos Verri, que era proprietário do único “carro de praça” da Vila e que costumava transportar os demais membros da comissão em suas diligências, quando por diversas vezes deslocaram-se até Cruz Alta até finalmente conseguirem, através do Inspetor de Ensino, Prof. José Dell’ Àglio, a autorização federal para o funcionamento de um Ginásio Comercial masculino em Três de Maio, fundado oficialmente no dia 15 de novembro de 1949. 
Com o prédio ainda não concluído e o novo ano letivo começando, faltava um local para abrigar de forma provisória o curso e os alunos internos, e para este fim, Monsenhor Testani decidiu ceder as instalações da Ação Católica, ao lado da igreja matriz. Para dormitório dos primeiros internos, Mariano Loro cedeu gratuitamente o andar superior do prédio da Casa Comercial Três de Maio Ltda, localizada na Avenida em frente à igreja. 
Entretanto, a cessão de espaço para os primeiros alunos do Ginásio Pio XII não era tudo; era preciso enfrentar também as despesas da manutenção, e a comissão de criação do ginásio assumiu esta responsabilidade, fixando o valor das mensalidades a serem pagas pelos alunos. 
Mariano ficou encarregado de toda a parte financeira, recebendo as mensalidades, contratando e pagando professores, cozinheiros e empregados, fornecendo a alimentação e pagando todas as despesas. O professor Albano Domingos Bridi foi contratado como primeiro diretor, e no início de 1950 foi realizado o exame de admissão para uma turma de vinte e cinco alunos, alguns dos quais, por exigência oficial, deveriam receber ensino gratuito. 
E assim começou a funcionar o Ginásio Pio XII, com alunos internos e externos, e o Ginásio Dom Hermeto José Pinheiro passou a ser exclusivamente feminino, após ter formado sua primeira turma mista de ginasianos em fins de 1949. 
Mas o Ginásio logo se tornou deficitário, pois as mensalidades não conseguiam suprir as despesas e Mariano passou mais uma vez a lançar mão dos recursos da firma que era gerente, a fim de honrar todos os compromissos. A situação era precária. A Casa Comercial Três de Maio Ltda não suportava financiar as despesas do Ginásio cujo débito aumentava enormemente a cada mês, o que tornava difícil honrar seus compromissos, chegando à firma a ter oitenta e quatro duplicatas vencidas. 
Neste período, Mariano já não podia mais contar com o auxílio de Monsenhor Testani pois, em princípios de 1950, o religioso, já bastante enfraquecido e com sua saúde fragilizada, havia retornado para sua terra natal, na Itália, onde viria a falecer poucos anos depois.
Para amenizar as despesas, a antiga casa canônica situada ao lado do colégio das freiras foi permutada com a casa de Albino Schünke, onde estavam sendo ministradas as aulas do Ginásio Dom Hermeto, situada na esquina da Avenida Uruguai com a Travessa Montevideo (atual Travessa Bruno Dockhorn), passando esta a pertencer a igreja (atual casa canônica)
Mas o pior golpe do destino ocorreu mesmo durante o verão daquele primeiro ano. Quando a obra do Ginásio Pio XII já ia bastante adiantada, em condições de receber o telhado, no dia 12.02.1950, um forte tornado sobreveio sobre Três de Maio, destruindo telhados, derrubando casas, arrancando enormes árvores e, segundo alguns registros, carregando animais de grande porte para longe, e o prédio do ginásio não resistiu e acabou tombando completamente ao chão. Foi necessário reconstruí-lo todo, a partir das fundações, mas desta vez com um forte e comovente apoio de toda a comunidade. 
Com o prédio novamente em construção, no final de 1950 aconteceu a primeira formatura de alunos do Ginásio Pio XII, com alunos do sexo masculino que haviam sido herdados do Ginásio Dom Hermeto José Pinheiro. 
Somente no dia 09 de março de 1952, foram concluídas as obras de reconstrução e foi finalmente inaugurado o prédio próprio do Ginásio Pio XII. 
Naquele ano, Mariano Loro passou a administração financeira do Ginásio para as mãos do padre José Zintu, que meses antes, após ter chegado da Itália, havia sido designado pela Congregação Consolata para dirigir o Ginásio, quando foi recebido pela comunidade Três-maiense com grande festa. 
Neste momento, verificou-se, como já era sabido de todos, que o Ginásio possuía um volumoso saldo negativo em favor da firma Tecidos Buricá Ltda, débito que a partir daí foi sendo saldado aos poucos, sem qualquer acréscimo e sem cobrança de juros. 
Em 1953, o Ginásio Pio XII passou a funcionar integralmente em suas novas e amplas instalações, passando por algumas ampliações nos anos seguintes, tendo sido Mariano Loro o padrinho da última telha, em festa realizada em junho de 1957. 
A partir de 1954, a direção do Ginásio Pio XII foi entregue as mãos do padre italiano Ghibaudo Orestes, que dirigiu o destino do estabelecimento de ensino ao longo de trinta e dois anos. Foi a época áurea de sua existência como colégio particular e de sua transformação em colégio público em 1963, quando teve seu nome alterado para “Colégio Estadual Cardeal Pacelli”, devido a já existir outro estabelecimento de ensino pertencente ao Estado com o nome de Pio XII. 
No ano 2000 o colégio passou a ser denominado Instituto Estadual de Educação Cardeal Pacelli, e apesar das alterações de nomenclatura ao longo de sua história, o educandário nunca deixou de se manter ligado a essência de suas origens, procurando forjar cidadãos transformando as incertezas de seus caminhos subjetivos em convicções resistentes aos mais fortes ventos, tornando-se ao longo dos últimos 76 anos um monumento nostálgico na memória de todos que um dia andaram por seus corredores e flertaram com seus destinos dentro de suas salas de aula.
 

Revisão do Dr. Professor Leomar Tesche

 

A construção do Ginásio Pio XII foi concluída em março de 1952, 
quando após o educandário passou por outras importantes 
ampliações em sua estrutura

 

Dormitório dos alunos internos do Ginásio Pio XII na década de 1950