TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O CINE INPERIAL PARTE II
O CINE INPERIAL PARTE II
Com a inauguração do mais novo local de entretenimento da Vila Três de Maio naquele ano de 1944, o público corria para as filas de ingresso do Cine Imperial a fim de pegar um lugar ou assentos mais privilegiados em frente ao telão onde estavam sendo exibidos os filmes que eram comentados nas ruas e nos bares por aficionados que sempre atraiam a curiosidade dos demais a sua volta enquanto narravam com entusiasmo o enredo dos filmes que haviam acabado de assistir.
Aquele era um tempo em que não existiam televisores no Brasil (os primeiros televisores chegaram ao país a partir de 1950 sendo considerados itens de altíssimo luxo), e poder ouvir e ao mesmo tempo enxergar pessoas vivendo histórias envolventes projetadas sobre uma tela que permitia ao público se sentir em um lugar privilegiado, paralelo aquela realidade que estava sendo mostrada na projeção, era uma experiência que todos queriam experimentar.
O público movimentava as sessões do Cine Imperial e Seu Timbaro, proprietário do cinema, aproveitava o vai e vem para oferecer algo a mais aos frequentadores e faturar alguns trocados. Foi quando contratou um menino de nove anos, chamado Olivio Casali, que costumava engraxar sapatos na rua, para vender balas as pessoas que iam chegando para as matinês.
Então Timbaro arrumou-lhe uma caixa de balas selecionadas para carregar pendurada por um laço em volta do pescoço, e explicou-lhe com muita paciência quais eram os valores de cada item, “são tantas balas por um cruzeiro”, ao que o pequeno Olivio ouvia com bastante atenção.
Logo as pessoas iam chegando para as sessões e Olivio ia oferecendo suas balas, se esforçando para mostrar serviço para seu Timbaro, pois não queria que seu patrão pensasse que ele não era um menino esforçado. Quando o filme começava, Timbaro falava: “Agora tu podes ir para casa!”.
Nos dias que se seguiram aquele trabalho no Cine Imperial, muitas vezes Olivio pedia para Timbaro deixá-lo sentar-se a um canto e assistir aqueles filmes que mexiam com sua imaginação, mostrando lugares até então desconhecido e distantes, com histórias envolventes que faziam eclodir emoções coletivas em todo o público presente na sala de exibição, e muitas vezes Timbaro o deixava assistir. Somente quando haviam beijos mais apaixonados ou mulheres mais “à vontade” é que não. Então lhe respondia: “Não, hoje tu não podes assistir!”.
Este trabalho, o pequeno Olivio fazia à noite, pois durante o dia ganhava dinheiro engraxando sapatos, buscando artigos de última necessidade nos bolichos e mercadinhos para os vizinhos, e tudo o que um menino de nove anos podia fazer para conseguir alguns trocados.
A rotina no cinema criava convenções sociais ou comportamentos compartilhados que moldavam uma convivência saudável entre os frequentadores. Não era incomum as fitas romperem sua película de celuloide durante a exibição e, nestes momentos, a plateia começava a bater com os pés no assoalho para avisar o projetista que seguidamente dormia durante as projeções necessitando que fosse esticada a ponta da parte que ainda precisaria ser rodada, no projetor novamente. Mas nestes casos, perdia-se um pedaço da continuidade do filme pois o tanto que era esticado acabava ficando fora do projetor.
A claridade que fazia o filme ser projetado na tela era produzida através de dois carvões da grossura de um lápis, que ficavam posicionados um contra o outro de forma manual, e à medida que estes iam queimando, iam se distanciando um do outro, o que ia fazendo a imagem no telão ir escurecendo progressivamente, exigindo-se que fossem empurrados de tempos em tempos para a frente novamente.
Quando o projetista Ricardo Stoll se descuidava e a tela começava a escurecer, a plateia mais uma vez começava a bater os pés no chão para alertá-lo que deveria apertar novamente os carvões.
Mas as vezes, só por diversão, o pessoal exagerava na bateção de pés no assoalho e seu Timbaro ia imediatamente com sua lanterna tentar localizar os baderneiros, e quando focalizava as fileiras da direita, as pessoas das fileiras da esquerda batiam os pés e vice-versa, deixando seu Timbaro largando resmungos enquanto todos riam contidamente.
Quando algum recado precisava ser dado a alguém durante a exibição de um filme, o negócio era transmitido por microfone mesmo, para todo mundo ouvir.
Certa vez o Dr. Portinho Nessi, médico do Hospital São Vicente de Paulo, que adorava ir assistir as películas no Cine Imperial, ouviu pelo alto-falante: “Atenção, Dr. Portinho!! O pessoal está chamando o senhor com urgência no hospital” e lá se ia o Dr. Portinho abandonando o filme pela metade.
Naqueles primeiros anos, eram necessárias duas máquinas para se exibir um filme de duas horas de projeção, quando eram rodados seis rolos de filme. Elas demandavam duas pessoas para o seu manejo, o operador, Ricardo Stoll, e mais um auxiliar.
O pintor Bruno Sulis, auxiliar de Ricardo Stoll, assumiu a função de operador quando Stoll decidiu se afastar dos trabalhos no cinema e começar a trabalhar como taxista na cidade (função que exerceria por mais de 60 anos), quando então apenas uma máquina passou a executar o serviço, passando Sulis também a ficar encarregado de pintar os cartazes de propaganda dos filmes.
Estes cartazes normalmente vinham escritos em inglês e por isso era necessário escrever os títulos dos filmes em português. O calor dentro da sala de projeção era tanto que os projetistas já entravam nela suando, e como o vento podia prejudicar o funcionamento das máquinas de projeção, as janelas da sala ficavam constantemente fechadas e a fumaça produzida pelos carvões que projetavam as imagens no telão escapavam por uma chaminé no teto.
Apesar da preferência do público pender mais para os filmes estrangeiros, alguns filmes nacionais também davam um bom lucro, principalmente os filmes do Teixeirinha, Mazzaropi e mais tarde, dos Trapalhões, filmes que muitas vezes obrigavam Timbaro a oferecer até quatro sessões aos domingos. Os filmes do Teixeirinha e Mazzaropi costumavam ser trazidos por um fiscal da companhia para receber no ato sua porcentagem nos lucros da bilheteria, e nestes casos, não haviam prazos para encerrar as exibições, enquanto as filas estivessem longas, os filmes continuavam a ser exibidos, e só depois o fiscal seguia viagem para a praça seguinte com a fita debaixo do braço.
Um dos filmes de maior sucesso exibido no Cine Imperial foi “Coração de Luto” (1967), de Teixeirinha, que chegou a ser exibido por quatorze meses seguidos. Outro foi Marcelino Pão e Vinho (1954) que teve mais de quinze sessões. Eram exibidos também Cinejornais – o mais famoso deles foi o esportivo Canal 100, assim como seriados.
Depois de Eduardo Weinberg, o famoso Timbaro, outros empresários que administraram o Cine Imperial foram Walter Güttler, Walter Spillari, Agostinho Frainer, Valentim Leite de Oliveira, Ademir Roelter e Milton Emílio Damm.
Com o advento dos videocassetes no Brasil durante a década de 1980, e outros fatores que talvez envolvessem principalmente a simples finitude de um ciclo que já durava mais de quatro décadas, o Cine Imperial fechou suas portas em 1987, deixando várias gerações de cinéfilos em Três de Maio com um profundo sentimento de nostalgia ligado às emoções que aqueles assentos diante da imensa tela traziam à tona em dias de sessão.

Nos anos que se seguiram ao fechamento do Cine Imperial um bar funcionou no local com o nome de Bar Imperial. Este imóvel onde o cinema funcionou por 43 anos foi demolido no ano de 2011

O pintor Bruno Sulis com o braço apoiado sobre o projetor do Cine Imperial. Sulis, que inicialmente
era auxiliar do projetista Ricardo Stholl, assumiu totalmente as funções quando Stoll passou a se
dedicar a profissão de taxista em Três de Maio
Revisão do Dr. Professor Leomar Tesche









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