Impactos da eleição de Joe Biden nos EUA para o agronegócio brasileiro

Vinícios Gehm, economista da Lucrar Investimentos reforça a importância do setor: ‘nossos agricultores atendem e alimentam cerca de 200 países, como o leste da Ásia, a Europa, a Rússia e uma parte dos países latino-americanos, ou seja, o agro brasileiro está presente em todo o mundo’

Impactos da eleição de Joe Biden nos EUA  para o agronegócio brasileiro
Economista Vinícios Gehm, da Lucrar Investimentos

Muito tem se discutido nos últimos meses em relação às eleições americanas e como podem afetar na economia mundial e principalmente no agronegócio brasileiro. Em entrevista ao Semanal, o economista Vinícios Gehm, da Lucrar Investimentos, apresenta alguns pontos que são relevantes sobre o assunto.

 


Governo de Biden trará mudanças


“Joe Biden, assumirá o comando da maior economia do mundo em janeiro de 2021. Vale ressaltar que, ainda algumas manobras podem ser tentadas pelo atual presidente, mas é pouco provável que tragam uma alteração de cenário”, analisa.
Segundo o economista, para o agronegócio global, incluindo o brasileiro, a expectativa é de que o novo governo traga mudanças no diálogo com a China. “A expectativa é de que embora o diálogo melhore, o embate entre esses dois gigantes persista, principalmente em relação ao 5G. O mercado, de maneira geral, não acredita que Biden diminuirá a disputa com a China, mas sim aumentará o diálogo. Aliás saliento ‘diálogo’ coisa que pouco existia com o atual presidente Trump. Espera-se um ambiente de maior cooperações internacional, principalmente com velhos aliados da Europa Ocidental  com foco em priorizar a questões ambientais – com isso resgatando o protagonismo norte-americano nas relações internacionais.

 


Parceria comercial com o Brasil


No Agronegócio os EUA são a segunda maior parceria comercial com o Brasil, mas não tem as commodities agrícolas como um carro chefe dessa parceria. “Pelo contrário, nossa relação comercial na agropecuária é muito pequena. Para se ter uma ideia, nossas exportações do agro para os EUA, até novembro  de 2020, foram de aproximadamente 5,7% do total das exportações para esse país, concentrando 75% em café.” 

 


Alta no mercado de ações


Olhando para a ótica dos mercados financeiros globais, Vinícios alega que as expectativas são positivas. “Muitos economistas ao redor do mundo já se posicionam dizendo que a vitória de Biden pode significar uma ‘alta moderada’ no mercado de ações, principalmente pela condução menos abrupta da economia americana. Esse otimismo dos mercados, estamos vivendo atualmente no dia a dia dos mercados globais, no entanto, o que temos presenciado, não são altas moderadas mas sim, altas bem agressivas”.


Essa “agressividade”, segundo o economista, fica mais evidente quando observado que o índice Dow Jones, o mais tradicional das Bolsas americanas bateu seu recorde histórico de 30 mil pontos pela primeira no final de novembro e a Bolsa brasileira, na segunda semana de dezembro, recuperou as perdas enfrentadas no auge da pandemia da Covid-19 já se aproximando de sua máxima histórica. “Obviamente esse movimento dos mercado não se deve exclusivamente à eleição americana, outros pontos importantes também servem como pano de fundo para isso, entre eles, temos a expectativa pelo início da vacinação ao redor do mundo – o que animou os mercados também. Por estarmos em  uma região onde o agronegócio é altamente estratégico, seguem alguns impactos da eleições para o segmento, em especial o Agro brasileiro.”

 


Relações comerciais EUA x China


Passados cerca de três anos de intensa guerra comercial entre Estados Unidos e China (fato que favoreceu o agro brasileiro), Joe Biden deve tentar apaziguar os ânimos entre as duas maiores economias do mundo. “Porém, a tendência não é de que a guerra comercial entre esses países acabe, mas deve ser tratada de uma maneira que beneficie o diálogo. A avaliação de que os chineses são rivais importantes, não é uma visão de agora, pois esse entendimento teve início ainda no governo Obama, do qual Biden foi o vice-presidente.”


“O que deve mudar é o tom dessa guerra comercial, com uma possível redução da tensão entre os dois países, mas a rivalidade deverá continuar principalmente em setores estratégicos e de alta tecnologia. É muito provável que Biden busque reforço com parceiros antigos. Por exemplo, enquanto Trump adotou uma postura solitária ao conter o avanço da China, Biden deve enfrentar esse desafio com a busca de aliados, principalmente europeus. A defesa dos americanos em primeiro lugar, dentro do espírito ‘American First’, deve ser mantida. A diferença é de que as ações serão buscadas com a forte atuação em grandes alianças globais que atuem de forma cooperada”, avalia o economista.

 


Diversificação na exportação 


“Aqui na Lucrar Investimentos sempre preparamos nossos clientes para o pior cenário mesmo esperando o melhor,  e, em uma hipótese de aproximação entre as duas maiores potências do planeta (EUA e China), o agro brasileiro poderá ser prejudicado na relação com a China. Isso é inevitável, pois EUA e Brasil têm pautas exportadoras no agro muito parecidas. Agora, não podemos esquecer que o Brasil tem uma coisa que poucos países têm que é a diversificação na exportação de commodities agrícolas. Nosso agro alcança e ajuda a alimentar cerca de 200 países, como por exemplo, o leste da Ásia, Europa, uma parte dos países Latino Americanos, Rússia, entre outros, ou seja, o agro brasileiro está presente em todo o mundo”. 

 


‘Propriedade deve ser tratada como empresa, nos quesitos controle, gestão e melhoria contínua’


Diante deste cenário, Vinícios enfatiza que o Brasil tem o que o mundo precisa (alimentos) e esse mérito é dos agricultores. “Obviamente, conseguimos conquistar essa importância global devido aos agricultores que, trabalharam nos últimos anos buscando excelência produtiva em suas culturas, principalmente na soja, o nosso principal produto de exportação que em 2020 teve um aumento de cerca de 21% nas exportações em relação ao mesmo período do ano passado. Não podemos esquecer que o câmbio ajudou no resultado das exportações”.


Nessa analogia fica claro, conforme o economista, que o Brasil poderá sair prejudicados caso a relação EUA x China tenha melhores ânimos nas suas negociações. “Mas o mundo quer o que temos, e temos que ser respeitados por isso. Na verdade, o que se espera é que tenhamos que assumir novos parceiros, mas haverá mercado. O que pode acontecer é que o Brasil tenha que assumir uma nova política comercial, com novos parceiros e com preços menos pressionados”. 


A recomendação da Lucrar Investimentos é para que o agricultor se preocupe com a gestão de sua propriedade, invista em métodos e formas inteligentes de cuidar do seu negócio e tecnologia que gere escala de produtividade. “Pode ter muitas coisas ocorrendo dentro da porteira que prejudicam seu bolso de forma muito mais agressiva do que Biden ou Trump assumir a presidência dos Estados Unidos. Toda propriedade rural é uma indústria, precisa ser tratada como uma empresa no quesito controles, gestão e melhoria contínua para melhorar cada vez mais sua performance”, orienta o economista Vinícios Gehm.