TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A VILA QUARAIM - PARTE I
A VILA QUARAIM - PARTE I
A Vila Quaraim, que inicialmente era chamada de ‘Vila Quaraim Grande’, herdou este nome em decorrência do riacho que passa sobre seu território pois, quando iniciou-se o mapeamento da área, o Lajeado Quaraim já era chamado assim pelos posseiros indígenas que habitavam a região. Os rios eram sempre os primeiros a receberem nomes já que eram as principais referências geográficas nas regiões cobertas pela mata nativa.
Em tupi-guarani “Quaraim” significa literalmente “pocinho” ou “buraquinho”. Mas a origem do nome pode ter sido também consequência de uma corruptela de “Quaraí” que significa “Rio das Garças” ou “Rio do Sol”, sendo que há muito mais tempo já existe um rio com este mesmo nome na divisa entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai.
No primeiro mapa da região, elaborado em 1919, podem ser verificadas todas as secções e seus respectivos lotes rurais já demarcados a oeste da estrada de rodagem que ainda estava sendo construída (e que anos mais tarde se tornaria a BR–472), indo até os Lajeados Quarahym e Quarahynzinho, e adiante destes cursos de água, a região passa a ser classificada como terras devolutas.
Quando iniciaram-se os desmatamentos para abertura desta estrada entre a sede 14 de Julho (hoje município de Santa Rosa) e a região do Santa Rosa – Buricá (hoje município de Três de Maio), diversos caboclos, descendentes de escravos e índios guaranis, que haviam se estabelecido na região em anos anteriores, começaram a se deslocar para a área a fim de trabalharem na abertura dela. Entre estes estava Atanásio Santana, que recebeu como pagamento pelos seus serviços vários hectares de terras cobertas pela mata nas proximidades do Rio Santa Rosa, na área classificada como de terras devolutas.
Nesta época, o lugar era tomado por mato fechado e unhas-de-gato, sendo necessário um trabalho demorado e exaustivo para se derrubar árvores com machados e facões para, só então, começar uma lavoura. E, mesmo após isso, a infestação de formigas que existia na região dificultava bastante o plantio pois devoravam tudo o que encontravam pela frente, até mesmo os talos das ramas de mandioca.
O plantio era feito utilizando-se um saraquá (vara com extremidade pontiaguda) para fazer furos na terra e depois depositar dentro algumas sementes que traziam em um bocó preso a cintura, fechando o orifício no chão com o pé. Quando as plantas cresciam e as vagens secavam, colhia-se tudo com foices e separava-se os grãos das vagens com a ajuda de um manguá, ou mesmo com a ajuda de cavalos que pisoteavam as vagens em cima de um pedaço de tecido.
Segundo registros, um dos primeiros colonos a se estabelecer no local em 1925, foi José Pauslauski seguido das famílias de Clemente Bichoffer (primeiro comerciante), Mireski (primeiro serrador), João Brozovski (primeiro ferreiro), Benjamin Rodrigues, Adalberto Bogdanovich, Antônio Kappaun, Demétrio Danilows, Otto Kenny, Henrique Motta, Joaquim Barros, Polidório, Calai, Schareski e Lugoch.
Foi na casa de José Pauslauski que os moradores começaram a se reunir para fazer orações sem distinção de religião, reunindo-se católicos e protestantes sobre o mesmo teto. Naqueles primeiros anos, com a mata ainda tomando conta de tudo, uma das principais fontes de renda das famílias era o comércio de dormentes feitos com o cerne de guajuviras falquejadas a machado, que depois eram enviados a Santo Ângelo para serem utilizados na construção da estrada de ferro.
O isolamento era total, somente sendo quebrado eventualmente quando o som de algum avião bastante alto nas nuvens passava lento pelo céu e, nessas horas, todos paravam o que estavam fazendo para acompanharem com o olhar, imóveis e em silêncio, todo o trajeto da aeronave até ela sumir completamente na imensidão e o som de seu motor silenciar-se em definitivo.
Mas a vida não era só trabalho. Quando caía a noite, todos comiam uma refeição preparada pela esposa do proprietário da área em que estavam trabalhando no momento em sistema de mutirão e, com a ajuda de uma sanfona, dançavam animadamente a beira do fogo.
Outra dificuldade era a água. Quando foi morar no local com sua família em 1937, Leonardo Demboski teve de cavar quatorze poços de quase vinte metros de profundidade até achar um que tivesse água, mas neste, somente existia água no inverno, sendo que no verão o poço quase sempre estava seco.
Quando surgiu a primeira escola na região, a escolinha “Treze de Maio”, as crianças tinham de todos os dias buscar água com balde em uma vertente distante cerca de 500 metros cerro abaixo. Nestes momentos, era diversão umas passarem rasteiras com o pé nas outras para derrubarem o balde que carregavam e estas terem de voltar cerro abaixo até a vertente para os encherem novamente.
Mas devido a distância que moravam da escola e a quantidade de cobras peçonhentas e mesmo tigres (como as onças eram chamadas) que eram vistas pelos moradores em meio a mata, a esposa de Leonardo Demboski, Maria Chimainski, não deixava os filhos irem para a escola por medo de que as crianças pudessem sofrer algum desfortúnio, e assim, tentava ela mesma ensinar os filhos a ler e escrever em casa.
O perigo mais constante naquelas trilhas estreitas em meio ao mato ocorria mesmo quando mancebos mal intencionados amarravam guanxumas de um lado e outro da trilha para que quem passasse pelo trecho enroscasse os pés e caísse.
A partir de 1928, com a chegada do padre Vicente Testani a região, este começou a visitar a localidade uma vez por ano, quando passava a cavalo pelas moradias conclamando a todos para se reunirem na casa de José Pauslauski, onde rezava missas em latim e administrava os sacramentos da confissão, comunhão, batismos e casamentos. Logo, Atanásio Santana doou três hectares de suas terras para a comunidade erigir um cemitério e uma igreja.
Neste local, ao longo dos anos seguintes, vários membros da comunidade foram sendo enterrados também sem distinção de religião. As covas eram feitas com 1,70 m de profundidade, costume antigo que tinha como uma de suas finalidades dificultar que animais viessem escavar os túmulos durante a noite para tentarem se alimentar dos defuntos, como o tatu peludo que quase sempre fazia tocas nos jazigos e dizia-se que mantinha morada dentro dos caixões que eram rusticamente produzidos e cobertos diretamente com terra. Assim, alguns moradores passaram a chamar aquele cemitério de “cemitério dos sete palmos”.
Com o passar dos anos o tempo apodreceu e levou embora as cruzes de madeira fincadas nos locais onde muitos foram enterrados, e, por isso, não era incomum quando alguém escavasse para fazer um túmulo, acabar se deparando com um caixão e mesmo ossadas já enterradas naquele ponto. Até que um dia o padre disse que caso não mudassem o cemitério de lugar este avançaria sobre as moradias, pois estava em uma região muito próxima do povoado.
Então, tomada a decisão de não enterrarem mais os seus mortos naquele cemitério, os diferentes credos, que continuavam realizando suas celebrações religiosas de forma ecumênica, se uniram mais uma vez para construírem juntos um novo cemitério, mais afastado da Vila, em terreno doado por Otto Kappau.
Quando a comunidade começou a enterrar seus mortos no outro local, alguns moradores resolveram retirar seus familiares enterrados ali e lavá-los para o novo cemitério. Numa destas vezes, pelo fato de que todos os mortos estavam enterrados muito profundamente, o homem encarregado de escavar um destes túmulos, ao chegar no caixão com a pá, entrou em grande aflição, e não conseguindo sair da cova, começou a gritar e chorar desesperadamente, clamando por ajuda: “Me tirem daqui! Por Deus! Me tirem daqui!”.
Antônio Carlinski foi o último a ser sepultado naquele local, por volta de 1960. Após a chegada dos padres do Instituto Missões Consolata a Três de Maio, passou a visitar seguidamente a região o padre José Radici, religioso de ríspida disciplina que ficou encarregado de dar assistência religiosa às comunidades rurais (de 1º de fevereiro de 1956 a janeiro de 1963), quando então a comunidade católica de Quaraim começou a separar-se gradativamente das demais religiões, inclusive, construindo um novo cemitério, só para os católicos, em terreno doado por Henrique Moronginski.
Assim iniciou-se a separação dos credos em Quaraim e os luteranos decidiram então construir uma capela também somente para si, em um pequeno terreno doado por Daniel Rost. Já os evangélicos, construíram uma capela em terreno da família Wornatt.
Quando iniciaram a construção da nova capela católica de alvenaria, em substituição a velha capela de madeira, no mesmo terreno que havia sido doado por Atanásio Santana para instalação do primeiro cemitério, e por isso, bastante próximo aos túmulos (para a qual aproveitaram o projeto da igreja de Consolata), os moradores começaram a comentar: “Vamos ter uma igreja em cima de um cemitério?”.
Então decidiram construir outra capela, alguns metros mais afastada, e a obra que inicialmente seria a igreja, resolveram transformar em um salão paroquial, onde por anos os moradores de Quaraim passariam a realizar animadas festas e bailes comunitários.
Mas isto, depois de passadas as lembranças de um outro baile, ocorrido anos antes, no salão de festas de Simão Helenco, baile que teria deixado o padre José Radici bastante incomodado, a ponto de, por anos, muitos jurarem ter o padre na época amaldiçoado Quaraim.
Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche e historiador Vanin Trage

Comemorações cívicas de 7 de setembro de 1960 em frente a antiga cooperativa Monsenhor Testani com alunos da Escola Estadual Rural de Esquina Quaraim Grande

José Pauslauski, esposa e filhos em frente a residência da família.
No local foram realizadas as primeiras celebrações religiosas de
Quaraim pelo padre Vicente Testani em caráter ecumênico









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