TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A ESTAÇÃO RODOVIÁRIA
TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A ESTAÇÃO RODOVIÁRIA
Em fins da década de 1960, após Herbert Schaffer adquirir os direitos da concessão da estação rodoviária de seu antigo proprietário, ele e seu irmão, Elimar Schaffer, foram até Porto Alegre com um Symca Chambor para formalizar a transferência da licença de concessão junto ao DAER. O caminho até a capital naqueles dias foi tortuoso para os dois, já que na maior parte do percurso não havia pavimentação asfáltica, era tudo estrada de chão.
Herbert levou a planta do terreno onde pretendia construir a nova Estação Rodoviária junto, para ser analisada pelos engenheiros do DAER, pois todas as modificações nestas instalações eram obrigadas a serem comunicadas aquele órgão, e, posteriormente, foi dado início a construção do prédio pelo construtor Gentil Rodrigues Moreira.
No início desta década, quando Herbert Schaffer e sua esposa construíram a residência da família na Rua Rio de Janeiro, do outro lado da rua, já morava o Sr. Arnoldo Wiegert Filho e sua esposa, Olga Schultz, proprietários de quase dois terços dos lotes daquela quadra. Arnoldo, que inicialmente havia trabalhado como funcionário do industrialista Frederico Willig na fundição que existia onde hoje resta apenas uma chaminé no centro da cidade, muito provavelmente adquiriu todos estes lotes do próprio Frederico Willig, que, por ter chegado ao local no início da colonização –sendo o único ferreiro no local-- adquiriu diversas áreas dos colonizadores por preços simbólicos, tornando-se proprietário de lotes em quase todas as quadras no entorno de sua fundição.
Arnoldo Wiegert e Olga Schultz tiveram cinco filhos: Edmundo (1915), Alberto (1913), Joana (1917), Germano (1919) e Frieda (1921).
Na década de 1930, Arnoldo havia construído um belo prédio comercial na esquina da Avenida Uruguai com as atuais ruas Rio de Janeiro e Horizontina, onde montou um bolicho que funcionou até ele se aposentar, e após isso, alugou o espaço para o alfaiate Arthur Krüger se estabelecer ali com sua alfaiataria.
Arthur Krüger, alemão que veio para o Brasil ainda pequeno com seus pais, havia aprendido o ofício de alfaiate em Ijuhy, e depois de um certo tempo, mudou-se para Três de Maio onde empregou-se por um período na alfaiataria do Sr. Emilio Boeck, até decidir abrir a sua própria alfaiataria no prédio do Sr. Arnoldo Wiegert, tornando-se vizinho de seu locatário.
E foi a partir dessa proximidade que Arthur Krüger e Frieda Melita Wiegert, filha de Arnoldo e Olga Wiegert acabaram unindo seus caminhos em matrimônio e posteriormente tendo dois filhos: Ivo (1948) e Dario (1954).
Com a chegada de comerciantes libaneses à cidade, que passaram a comercializar tecidos mais simples, barateando muito os ternos confeccionados – já que a população rural não fazia muita questão de roupas mais refinadas- Arthur acabou fechando sua alfaiataria por volta de 1982.
Poucos anos antes disso, o filho Dario havia se casado com a filha mais velha de Herbert Schaffer e Holdi Henn, Vera, e os dois eventualmente acabavam tendo de ajudar nos trabalhos junto ao restaurante que a família havia instalado dentro da estação rodoviária, o qual passaria a ser o mais frequentado da cidade e onde prefeitos receberiam diversas autoridades estaduais e federais para almoços, jantares e diversas outras confraternizações, surgindo rotineiramente nas páginas do jornal local com o nome de “Restaurante Rodoviária”.
A todo o momento se viam ônibus chegando, ônibus saindo, com pessoas que vinham fazer compras, resolver pendências ou simplesmente passear na cidade. Também se viam pessoas com malas e mochilas na iminência de uma viagem, sozinhas ou cercadas por familiares, e às vezes chegando de uma viagem e aguardando alguém vir buscá-las, isso quando não se utilizavam dos serviços dos táxis que ficavam parados no ponto ao lado da estação, principalmente à noite. Por isso, a estação rodoviária estava o tempo todo lotada de gente, e em dias de muito calor, a venda de bebidas e picolés para aqueles que aguardavam a chegada de seus ônibus, era enorme.
Foi então que Herbert decidiu começar com a fabricação própria de picolés e sorvetes, os quais eram também vendidos pela cidade por crianças que circulavam por todas as ruas empurrando carrinhos térmicos com rodas de bicicleta que eram fornecidos por Herbert.
Sempre de olho nas possibilidades de lucro com aquele público, Herbert percebeu que muitas pessoas, já dentro dos ônibus, na iminência da saída, tinham mais facilidade em gastar alguns trocados com picolés para levarem consigo na viagem, e por isso contratou um menino chamado Josias, que costumava andar por ali juntamente com outros engraxando sapatos, e que, quando não estava envolvido neste serviço, observava da porta os funcionários e clientes do restaurante dentro da rodoviária, para oferecer picolés pelas janelas e mesmo dentro dos ônibus nos momentos que antecediam ao roncar dos motores.
Este menino, alguns anos depois, viria a se tornar um dos vereadores mais votados de Três de Maio e posteriormente, vice-prefeito do município em duas ocasiões.
Nestes anos, a movimentação na estação rodoviária já alcançava outra proporção desde que a prefeitura municipal havia autorizado a liberação de linhas de ônibus para transporte de passageiros do interior do município para a cidade.
Inicialmente, a prefeitura havia lançado edital de licitação para particulares assumirem apenas o transporte escolar da rede municipal de ensino, momento em que Valdir Crestani, até então responsável pela manutenção dos ônibus escolares no parque rodoviário da prefeitura, enxergou ali uma melhor oportunidade de negócio.
Conseguida a licença, adquiriu um ônibus usado de quarenta e dois lugares em Porto Alegre, através de financiamento bancário e, juntamente com outros senhores e empresas que também conseguiram licença para a prestação deste serviço, passou a fazer os itinerários Barrinha – Progresso, buscando e levando alunos até as escolas do município, assim como também, transportando outros moradores do interior que necessitavam diariamente se deslocar até a cidade.
Mas apesar de a prefeitura não permitir o transporte de pessoas que não fossem estudantes da rede pública, Crestani, precisando pagar o financiamento do ônibus, conseguiu com o prefeito a época a liberação para transporte de outros passageiros nos horários em que não estava transportando alunos, momento em que a prefeitura angariou o box de número 01 na estação rodoviária da cidade para a prestação deste serviço. Assim, o itinerário passou a ser o Distrito de Barrinha as segundas-feiras e quintas-feiras, Quaraim as terças-feiras e sextas-feiras e Nossa Senhora de Lourdes as quartas-feiras.
Logo o ônibus de Valdir Crestani se tornou o principal meio de acesso de moradores do interior até a cidade, transportando inúmeras pessoas que em seu retorno se acomodavam do jeito que podiam dentro do ônibus, levando consigo enormes ranchos, sacos de adubo, ureia e fertilizantes –os quais a partir de dois volumes Crestani cobrava um real por volume- e não era incomum se ouvir pintos e codornas piando dentro de caixas de papelão acomodadas em algum canto do ônibus.
Também não era incomum o transporte de animais de grande porte dentro de seu ônibus, como terneiros que eram levados deitados dentro do bagageiro para a cidade, os quais eram comprados dos colonos pela agropecuária do Sr. Genz no centro da cidade, para serem revendidos no estabelecimento.
Este comércio era tão comum que em certa oportunidade Crestani chegou a transportar três terneiros de uma só vez no bagageiro de seu ônibus.
Com uma movimentação pulsante naquele ponto, mais comerciantes foram se estabelecendo no entorno da rodoviária naqueles anos, e mesmo vendedores ambulantes como o Sr. Bruno Reisdorfer, que posicionava-se ali na calçada ao lado com um carrinho de caldo de cana e engenho no qual moía a cana na hora, sempre servindo o caldo bem gelado em copos de vidro muito limpos, o que em dias de calor ajudava aqueles que aguardavam seus transportes a refrescarem-se até que os alto-falantes alertassem sobre a chegada de seus ônibus.
Estes alto-falantes, posicionados dentro e fora da rodoviária, anunciavam a todo o momento para o público a chegada e saída dos ônibus, assim como também seus itinerários, e por isso, o comércio local procurava divulgar seus nomes e produtos por estes alto-falantes, pois o local era o dia todo bastante movimentado por pessoas que vinham de municípios vizinhos, e mesmo colonos do interior que vinham fazer compras e gastar dinheiro no comércio local, o que tornava aquela uma ótima opção de propaganda.
Em princípios da década de 1990, Aloizio Francisco Hols adquiriu o direito de transmissão dos horários e itinerários dos ônibus na estação rodoviária, o qual logo passou a contar com a ajuda de seu filho, Marcelo, de 13 anos de idade, que rapidamente começou a adquirir experiência com locução, pois seu pai o colocou como responsável pelos anúncios que eram veiculados pelos alto-falantes.
Depois disso, em uma das primeiras Expofeiras, o presidente da feira a época convidou Marcelo para anunciar propagandas e eventos da feira na exposição, e nesta oportunidade, a voz marcante de Hols não passou desapercebida pela diretora da Rádio Colonial, Ana Dockhorn, que o convidou para fazer um teste na rádio. A partir daí, Marcelo Hols trabalharia na Rádio Colonial por 17 anos, até transferir-se para a Rádio Cidade Canção, onde permanece até hoje.
Herbert Schaffer veio a falecer no dia 31 agosto de 2003, aos 69 anos, quando então a Estação Rodoviária de Três de Maio foi adquirida pelo Sr. Hélio De Carli, que além de comprar a parte de Herbert, comprou também a parte de Tenório Sthal, tornando-se assim o único proprietário da Estação Rodoviária.
Em 2014, membros do Conselho Municipal de Trânsito sugeriram a mudança da rodoviária para uma área mais afastada do centro da cidade, e no dia 27 de agosto daquele mesmo ano foi realizada uma reunião no gabinete do prefeito municipal a época, Olívio José Casali, para tratar sobre a permanência da estação rodoviária na Rua Padre Cacique, próximo ao Palácio Municipal, momento em que o prefeito Casali mostrou-se contra o projeto de engenharia existente, justificando que pequenos produtores rurais do interior do município dependiam da permanência da rodoviária numa área mais central, porque rotineiramente se deslocavam para a cidade a fim de tratarem de assuntos de seu interesse nos bancos, na prefeitura, nas farmácias, no comércio e em outras entidades. E a estação rodoviária permaneceu.
Hoje, a estação rodoviária que já foi o coração da cidade e local onde partidas e chegadas se entrecruzavam com abraços, lágrimas e sonhos, encontra-se com as paredes cansadas e um certo silêncio que se confunde com as lembranças de um passado que o tempo ainda não conseguiu apagar.

Funcionando há mais de meio século no mesmo local, a Estação Rodoviária ainda resiste ao crescimento da cidade e ao trânsito do centro por onde
circulam diariamente milhares de veículos

Alfaiataria de Artur Krüger na esquina da Av. Uruguai com as
ruas Rio de Janeiro e Horizontina
Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche









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