Três-maiense em missão de paz na África: a trajetória da major médica Joanine Girardi Kettner na ONU

Nascida em Três de Maio, a militar do Exército atua na República Centro-Africana na proteção de civis e na promoção da igualdade de gênero. Esta é a segunda missão de paz das Nações Unidas

Três-maiense em missão de paz na África: a trajetória  da major médica Joanine  Girardi Kettner na ONU
Joanine Girardi Kettner nasceu em Três de Maio e viveu a infância e a adolecência em Santo Ângelo, porém manteve os laços com a cidade (Fotos: Arquivo pessoal)

A milhares de quilômetros de casa, em um país marcado por conflitos armados e pela vulnerabilidade da população civil, a major médica do Exército Brasileiro Joanine Girardi Kettner, 51 anos, desempenha uma missão que exige preparo, sensibilidade e compromisso com a paz. Nascida em Três de Maio, filha de Renato e Maria Elena Girardi Kettner, e neta de Erich e Olinda Kettner, pelo lado paterno, e de Angelo e Vilma Girardi, pelo lado materno,  Joanine está desde maio de 2026 na República Centro-Africana, onde integra a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA). A previsão é que permaneça no país até maio de 2027.

Esta é a segunda experiência de Joanine em uma missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). A primeira ocorreu em 2010, no Haiti, quando integrou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). A vivência naquele país também inspirou a escrita do livro 'Querido Haiti, uma missão de paz', no qual relata aspectos do cotidiano durante o trabalho no exterior.

Na República Centro-Africana, a atuação da oficial brasileira está voltada à proteção da população civil, à prevenção da violência sexual relacionada a conflitos e à promoção da igualdade de gênero. Em uma função estratégica, ela trabalha diretamente no assessoramento ao comandante da força militar da missão, contribuindo para que essas questões sejam incorporadas ao planejamento e às atividades das tropas.

 

A major médica do Exército Brasileiro Joanine Girardi Kettner com militares do Comboja

 

 

Trabalho estratégico em uma região de conflitos

A República Centro-Africana, país que foi colonizado pela França e possui riquezas minerais, enfrenta conflitos entre diferentes grupos armados. A instabilidade deixa comunidades inteiras expostas à violência e obriga milhares de pessoas a abandonar suas casas. Há campos de deslocados internos e também pessoas que fogem da guerra no Sudão, país que faz fronteira com a República Centro-Africana.

É nesse cenário que Joanine exerce a função de Military Gender Advisor, assessora militar de gênero do comandante da força da MINUSCA. Sua equipe trabalha em cinco áreas, conhecidas internamente como five hats — ou “cinco chapéus”: gênero, violência sexual relacionada a conflitos, proteção de crianças, prevenção de abuso e assédio sexual e proteção de civis.

Entre as atribuições estão a realização de treinamentos com militares para prevenir abusos e violência sexual, o monitoramento de áreas suscetíveis a ocorrências dessa natureza, o acompanhamento de patrulhas e a interação com a população local.

A rotina também envolve o recebimento e a análise de informações dos cinco setores em que a República Centro-Africana está dividida para a atuação das tropas. Os dados incluem treinamentos realizados, número de patrulhas e outras ocorrências relevantes para a segurança e a proteção dos civis.

A equipe promove, ainda, atividades de capacitação para os chamados pelotões de engajamento, compostos por homens e mulheres que mantêm contato direto com as comunidades. O objetivo é aprimorar a capacidade desses militares de identificar situações de risco, estabelecer diálogo com os moradores e transmitir informações de maneira adequada.

Além disso, Joanine realiza visitas às tropas e encontros com mulheres militares. Ela também atua como ponto focal de uma rede internacional de mulheres uniformizadas, sediada em Nova York, que acompanha a participação feminina nas missões, busca promover a equidade de gênero e incentiva a presença de mulheres nas operações de paz.

 

A diferença na vida das comunidades

Apesar da complexidade do cenário, o trabalho desenvolvido pela missão pode gerar resultados concretos para quem vive nas regiões afetadas pelos conflitos. Joanine cita como exemplo uma patrulha realizada recentemente em uma localidade onde mulheres relataram a falta de oportunidades de trabalho.

As informações foram encaminhadas aos setores competentes, que poderão avaliar alternativas para possibilitar o desenvolvimento de atividades geradoras de renda. “O trabalho da missão, sem dúvida alguma, faz bastante diferença na vida da população local”, destaca a major.

Para ela, ouvir as comunidades é parte fundamental do trabalho, pois permite identificar necessidades que nem sempre aparecem nos relatórios de segurança. "A atuação dos militares, nesse sentido, vai além da presença em áreas de conflito: envolve compreender as demandas da população e fazer com que essas informações cheguem às instâncias capazes de buscar soluções", observa Joanine.

O cotidiano, no entanto, exige atenção permanente. “No trabalho, cada dia é um desafio, porque o ambiente é sempre ‘estável até o momento’, significando que pode mudar”, relata.

 

Preparação antes de cruzar fronteiras

A participação de Joanine na missão é resultado de uma trajetória de formação e interesse pelo tema. Segundo ela, a seleção de militares brasileiros para operações internacionais considera fatores como currículo, perfil profissional, conhecimento de idiomas e voluntariado. O Exército Brasileiro mantém militares em diferentes missões pelo mundo, não apenas nas operações da ONU.

Joanine conta que sempre teve interesse em atuar no exterior e, por isso, buscou cursos e qualificações relacionados às áreas em que desejava trabalhar.

A preparação para as missões inclui atividades desenvolvidas no Brasil, com destaque para o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), localizado no Rio de Janeiro. A instituição é especializada na preparação de militares para operações de paz e também recebe integrantes de forças armadas estrangeiras.

No ano passado, durante um curso sobre prevenção ao assédio e à exploração sexual, a major recorda a participação do subsecretário-geral da ONU Christian Saunders, além de outros profissionais reconhecidos na área.

Para Joanine, a formação recebida antes do embarque foi decisiva para a adaptação às atividades na República Centro-Africana. “Nosso preparo no Brasil é muito bom. Realizamos diversos treinamentos que começam muito antes da missão”, afirma.

 

O Brasil como referência de acolhimento

O trabalho ao lado de militares de diferentes nacionalidades também proporciona uma experiência de convivência internacional. Na avaliação de Joanine, o Brasil conta com uma imagem positiva no exterior, favorecida tanto pela popularidade do futebol quanto pelas características culturais do povo brasileiro. “O Brasil possui um soft power sem precedentes. Em qualquer lugar que você vá, quando veem a bandeira brasileira no uniforme, já temos a simpatia do povo”, observa.

Ela conta que, durante a Copa do Mundo, africanos com quem conversou demonstravam torcida pela seleção brasileira. Para a major, a receptividade também está relacionada ao perfil gregário e amigável dos brasileiros, que facilita a aproximação com a população e com colegas de outros países.

A convivência multicultural, segundo ela, torna o ambiente de trabalho amistoso e reforça a importância do diálogo em uma missão que depende da cooperação entre profissionais de diferentes origens.
 

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A saudade da família e o orgulho de representar o país

Se, no ambiente profissional, o maior desafio é lidar com a instabilidade de uma região em conflito, no campo pessoal a dificuldade tem nome: saudade.

Casada com Alvaro Xavier da Cruz, Joanine é mãe de Rafaela, de oito anos. A família vive em Santa Maria, onde a major também atuou como professora universitária na Universidade Franciscana (UFN).

A distância da filha e do marido é apontada por ela como o aspecto mais difícil da missão. A rotina de trabalho, as responsabilidades e a necessidade de estar preparada para mudanças constantes exigem equilíbrio emocional e dedicação.

Ainda assim, Joanine afirma que a experiência amplia sua percepção sobre o Brasil e reforça o orgulho de representar o país no cenário internacional. “Certamente aprendemos a valorizar muito mais nosso país, que, apesar de todos os problemas, ainda é um lugar muito bom para viver”, afirma.

Ela ressalta que a missão ainda está em andamento e que há muito a vivenciar até o retorno previsto para maio de 2027. Mesmo assim, considera especial perceber o carinho e o respeito demonstrados pelos estrangeiros em relação aos brasileiros. “Me sinto muito orgulhosa por representar nosso país aqui e ver o quanto somos queridos. Me empenho muito para fazer jus ao carinho e respeito que recebo aqui e manter a tradição de excelência do Brasil nas missões de paz”, declara.

 

As raízes que permanecem em Três de Maio

Embora tenha nascido em Três de Maio, Joanine não chegou a morar na cidade. Ela cresceu em Santo Ângelo, onde o pai desenvolveu sua carreira como médico e onde ela própria também trabalhou por um período.

A ligação com Três de Maio, no entanto, permaneceu viva por meio das visitas aos avós e das histórias familiares. As lembranças da infância guardam referências de lugares, pessoas e momentos que ajudaram a construir sua relação afetiva com o município.

Os avós paternos moravam na Rua Uruguai, em uma casa em frente a um posto de gasolina. Ao passar pelo local, a major diz que sente uma nostalgia especial.

Ela também recorda os cartões-postais em formato de flores, com fotografias da cidade, que ganhou na infância de Henrique Becker. Acredita que ainda tenha alguns guardados. As lembranças incluem ainda os amigos dos avós - como Arlene e Lurdinha Bender e as histórias que ouviu dos pais ao longo dos anos. “Fico muito feliz em compartilhar com a população de Três de Maio minha história. Apesar de não ter morado propriamente aí, tenho muitas lembranças das visitas aos meus avós, que moraram por muitos anos na cidade”, conta.

O vínculo com o município é motivo de carinho e orgulho. Mesmo tendo construído sua trajetória pessoal e profissional em outros lugares, Joanine faz questão de preservar sua origem e de se apresentar como natural de Três de Maio. “Tenho muito carinho por essa terra e gosto muito de dizer que sou natural de Três de Maio, a Cidade Jardim”, conclui.
 

Rua de Bangui, capital da República Centro-Africana. A  maior cidade do país e seu principal centro político, econômico e administrativo