ECOS DO TEMPO: A história de Nelcon Bavaresco, conhecido como Nelto

Pela memória e pelo coração do filho Edson, a história de Nelcon ganha voz e permanência. Mesmo quando as lembranças falham, o amor, o trabalho e o legado de uma vida inteira seguem vivos em cada palavra contada

ECOS DO TEMPO: A história de Nelcon Bavaresco, conhecido como Nelto

Por Miréia Bohnen

Durante a entrevista, Edson João Bavaresco fala com voz firme, mas carregada de afeto. Ele sabe que a memória do pai já não é a mesma, mas sente que contar sua história é uma forma de mantê-la viva. Seu pai, Nelcon Bavaresco, conhecido por muitos como Nelto, tem hoje 87 anos e carrega uma trajetória marcada pelo trabalho, pela perseverança e pelo amor à terra.

Nelcon nasceu em Tucunduva, quando ainda pertencia ao município de Santa Rosa. Sua história começa antes mesmo de seu nascimento, com a chegada de seus antepassados. O pai de Nelcon veio de Veranópolis como um verdadeiro desbravador dos matos de Tucunduva e foi o primeiro produtor de vinhos da região. Mais atrás no tempo, o bisavô havia vindo de Veneza, na Itália, e a família guarda com orgulho a história de que ele nasceu em pleno navio, durante a travessia.

Nelcon foi o segundo filho de uma família com 11 irmãos. Cresceu em meio ao trabalho pesado, à roça, ao esforço diário que moldava o caráter desde cedo. Viveu em Tucunduva até os 45 anos, lugar onde passou a maior parte da vida. Após a separação, mudou-se para Coronel Bicaco, onde comprou terras e recomeçou.

Agricultor desde a infância e juventude, Nelcon também aprendeu o ofício da carpintaria. Em Tucunduva, construiu mais de 30 casas e galpões, tornando-se muito requisitado e respeitado. Ele e o pai ensinavam os filhos mais novos na arte da madeira, passando adiante o conhecimento construído com as mãos e com o tempo. Além disso, produziam vinho, cachaça, graspa, melado — tudo o que a vida no interior exigia, eles sabiam fazer. “Só trabalhou na vida e não soube ganhar dinheiro”, diz Edson, sorrindo, repetindo uma frase que define bem o pai.

Mesmo com pouca escolaridade formal, Nelcon aprendeu a ler e escrever, como era costume na época. Era assinante do Jornal Riograndense, que lia com frequência, mantendo-se informado e atento ao mundo. Suas histórias misturam momentos engraçados e outros de muito sofrimento. Ainda hoje, mesmo com a demência e os lapsos de memória, ele se recorda de cenas marcantes da juventude, como os dias frios em que, antes de ir lavrar a terra, esquentavam os pés na verga da terra. “Era sofrido”, ele ainda consegue dizer.

Em uma fase da vida, trabalhou também como marceneiro, fabricando móveis. Foi nessa lida que perdeu parte de um dedo — uma marca física que simboliza o quanto o trabalho esteve presente em sua história.

Nelcon teve três filhos: Edson e três filhas. Uma delas faleceu no parto, uma dor que marcou profundamente a família. Hoje, as irmãs moram em Santa Rosa, enquanto Edson vive em Três de Maio.

Edson conta que trouxe o pai para morar no Lar dos Idosos de forma muito consciente. Sempre foi parceiro voluntário da instituição, contribuindo com valores por meio do Imposto de Renda e conhecendo bem o funcionamento do lar. Antes disso, Nelcon morava um período com cada filho, até que a instituição se tornou o lugar mais adequado para seus cuidados.

É nesse momento da entrevista que Edson faz uma reflexão que vai além da história do pai. Ele acredita que os políticos, em todas as esferas, deveriam ter uma preocupação maior em planejar e construir novos lares para idosos. No seu entendimento, a demanda por esse tipo de acolhimento vai aumentar muito nos próximos anos, diante do envelhecimento da população e das mudanças nas estruturas familiares. Para ele, investir em espaços dignos, humanos e preparados é uma forma de respeito com quem tanto já contribuiu para a sociedade.

Entre tantas lembranças, há uma que Edson conta com especial admiração: o amor do pai pela horta. Por diversas vezes, Nelcon venceu o concurso de horta mais bonita do município de Tucunduva, quando moravam na localidade de Esquina Cavalheiro. Produzia ervilha, repolho, radiche, beterraba e feijão. Com o incentivo do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Emater e o apoio da esposa, foi reconhecido repetidamente. Hoje, Edson acredita que, se pudesse, o pai ainda estaria com as mãos na terra, cuidando das plantas. As limitações físicas, no entanto, já não permitem.

Esse amor pela horta não se perdeu. Edson diz que herdou do pai o gosto pelo cultivo. Mesmo morando em um apartamento, cultiva tomates, salsa, cebolinha, sálvia, alecrim, açafrão-da-terra e cidreira em um terreno ao lado do prédio onde vive. Um gesto simples, mas cheio de significado — uma forma de continuar a história. 

Assim,  Edson não fala apenas de um homem que hoje enfrenta a demência. Fala de um pai trabalhador, respeitado, apaixonado pela terra e pela vida simples. Uma história que permanece viva, não apenas na memória que resiste, mas nos gestos, nos valores e no legado que seguem florescendo.