TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO PARTE II
A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO: PARTE II
Dentre os muitos times de futebol que surgiram pelo interior de Três de Maio naqueles anos em que este esporte movimentava as comunidades em torneios e amistosos que atraiam imenso público, um deles foi o Canarinho da comunidade de Nossa Senhora de Lourdes.
O time começou quando Vilarim Vitorino convocou a todos para formarem uma equipe, dentre eles, Nelson Bastiani, Inocente Martineli e outros jovens da localidade.
Nos seus primeiros jogos engatavam um carretão atrás do trator e todos subiam em cima para se deslocarem até os locais das partidas. Neste período o jovem Lirio Thomazi (23.09.1955), nascido na comunidade, era um dos tantos piás que ficava à espreita à beira do campo para tentar um espaço no time em dias de competição. Por isso, devido à quantidade de jovens que queriam jogar no time, o canarinho formava mais de uma equipe para disputarem os torneios, e Lirio chegou a jogar numa quinta equipe do canarinho que disputou a mesma competição. Aqueles torneios não possuíam categorias, a molecada jovem disputava de igual para igual com marmanjos bem mais velhos que eles.
Naquele dia, o quinto time do canarinho enfrentou o Serrano de Nossa Senhora do Carmo e acabou vencendo a partida com um gol de Lirio, momento em que o Serrano foi desclassificado.
Mas como as comunidades que promoviam os torneios tinham como principal objetivo arrecadar fundos para suas equipes, os times que eram desclassificados podiam inscrever-se novamente para continuar na disputa, e foi o que o time do Serrano de Nossa Senhora do Carmo fez, decisão que acabou o levando a ficar com o primeiro lugar naquele torneio.
Quando aconteciam estes torneios, as comunidades que os estavam organizando colocavam uma nota na Rádio Colonial convidando as equipes da região que quisessem participar, e no dia do jogo bem cedo começavam a chegar caminhões de todos os lados, com equipes e torcidas se amontoando nas carrocerias, juntando muitas vezes mais de 50 times nestes eventos.
Naquela época, Três de Maio chegou a contar com mais de 65 times de futebol espalhados pelas localidades do interior, os quais visitavam-se rotineiramente nos fins de semana para jogarem amistosos.
O Serrano de Nossa do Carmo começou em um campo que existia em um potreiro às margens da estrada de chão que posteriormente se tornaria a BR – 472 (ao lado do anel viário de acesso a Lactalis) de propriedade da família Altíssimo, e com a abertura da rodovia, o campo foi mudado para um terreno ao lado da igreja da comunidade.
Em dias de jogos o estradão nas imediações do campo ficava repleto de caminhões estacionados um atrás do outro formando longas filas, e quando o time precisava se deslocar para outra localidade para jogar alguma partida, o Sr. Vilmo Herberts se disponibilizava a levar jogadores e a torcida na carroceria de seu caminhão até os locais. Vilmo era sogro de Irineu Boz, um dos jogadores do Serrano de Nossa Senhora do Carmo que alguns anos depois teria participação fundamental na conquista de um importante título varzeano para um time que vinha crescendo ano a ano, e que a partir dali viria a se tornar o maior campeão do interior de Três de Maio.
Foi no Serrano de Nossa Senhora do Carmo que também o jovem Nilo Schreiber (01.03.1950) começou a jogar com 12 anos de idade, onde permaneceu por sete anos até sua família se mudar para Esquina Bela Vista, comunidade localizada relativamente próxima a outro povoamento onde alguns anos antes havia se formado uma equipe que marcaria sua história no futebol de várzea de Três de Maio: o Grêmio de Bela Vista.
O começo dessa história se deu quando o italiano João Pertile veio para Buricá com a esposa e os filhos em 1925 e se estabeleceu com um bolicho à beira da estrada nas proximidades de Bela Vista, local onde veio a criar doze filhos, dentre estes, Alberto, que em 1953 seria o principal articulador da criação de um time de futebol na localidade, ao qual deram inicialmente o nome de “Rio-grandense”, mas que pouco tempo depois teria seu nome mudado para “Grêmio de Bela Vista”.
Por volta de 1960, após o falecimento de João Pertile, Alberto assumiu o bolicho do pai, momento em que mais famílias já haviam se estabelecido naquela área, e por conta da proximidade com o povoado de Bela Vista, àquele aglomerado de moradores havia passado a se localizar postalmente com o mesmo endereço de Bela Vista, e foi por esse motivo que o time formado na localidade passou a se chamar “Grêmio de Bela Vista”.
Mas devido a distância entre os dois povoados com mesma identificação postal, confusões de endereço começaram a surgir, e então, para melhor discernir o lugar onde moravam, os moradores passaram a especificar a área de moradias onde existia o bolicho de Alberto Pertile apenas como “Bela Vista” e o local onde existia a Vila, como “Esquina Bela Vista”.
Mas isto não sanou os problemas, que envolviam também a compra de passagens de ônibus na rodoviária da cidade, as quais tinham diferença de valor para quem se deslocava até a Esquina Bela Vista e quem se deslocava até mais adiante, na altura do bolicho de Alberto Pertile, e por isso o prefeito à época determinou que a partir de então o povoado mais afastado, nas imediações do bolicho, passaria a ser chamado de “Esquina Pertile”, a qual continuou sendo sede do Grêmio de Bela Vista.
O primeiro campo do time foi instalado num potreiro de propriedade do próprio Alberto Pertile, que mais tarde cedeu um terreno mais próximo do estradão para montarem outro campo para o clube.
Em 1969, após se mudar para o local, Nilo Schreiber passou a integrar o time do Grêmio de Bela Vista, e em dias de jogos, ele e alguns outros jogadores passaram a deixar seus pertences aos cuidados de algumas moças que vinham de Esquina Bela Vista assistir as partidas, enquanto tomavam chimarrão à beira do campo.
Uma delas, chamada Lorena, filha de Lindolfo e Nelly Pagel, acabou se entendendo nos olhares com Nilo e a troca de sorrisos que começou a beira do campo terminou em casamento no dia 27 de junho de 1970, ano em que o futebol de várzea em todo o extenso território do município – que à época abrangia as localidades de São José do Inhacorá e Alegria -- foi guindado a um outro nível.
Em 1970 ocorreu o primeiro campeonato varzeano de Três de Maio, quando todos os times passaram a disputar partidas entre si ao longo do ano. A Rádio Colonial transmitia todos os resultados e partidas decisivas com narrações dos locutores Luiz Cesar Fasolo e Sabino Bonfada, com reportagens de Olavo Pedroso a beira do campo e comentários de Hilário Ziemann (Lali), momento em que as pessoas ficavam com os ouvidos colados aos aparelhos de rádio para saberem também quais times se enfrentariam nas próximas rodadas. Aquilo gerava uma audiência enorme para a Rádio Colonial que passou a transmitir programas falando somente sobre futebol, como o programa “Na ponta do lápis”, conduzido por Luiz Cesar Fasol
Quando se soube que a final daquele primeiro campeonato seria disputada entre o Guarany de Consolata e o Rocinha da localidade de mesmo nome, principais rivais um do outro, o pai de um dos jogadores do Guarany, Antônio Emílio Casali, enviou um fonograma para o filho, João, que estudava engenharia civil em Santa Maria, avisando-o daquela final e pedindo para que retornasse a Três de Maio naquela mesma semana para jogar aquela partida junto com o Guarany.
Apesar de não estar mais morando em Três de Maio, João, assim como outros jovens em mesma situação que a sua, tinha espaço garantido na equipe sempre que vinha a Três de Maio em suas folgas da universidade, principalmente em dias de jogos importantes.
Naquele momento João Casali residia na casa do estudante do Bairro Camobi, onde situa-se a Universidade Federal de Santa Maria, e onde também estava morando e estudando um amigo de Três de Maio, que por acaso, costumava jogar pelo time do Rocinha. Este amigo era o encarregado de buscar as correspondências de todos os demais no centro de distribuição dos correios que ficava no centro da cidade, pois era o único que tinha acesso a caixa postal onde eram colocadas as correspondências que eram destinadas para o campus universitário.
Coincidentemente, o rapaz também havia recebido um fonograma de seu pai avisando-lhe da partida que aconteceria no fim de semana e pedindo-lhe para retornar a Três de Maio o quanto antes, e por isso, muito provavelmente que ele percebeu que o fonograma destinado a João tinha o mesmo propósito que o seu, e não o entregou a seu destinatário.
Naquela semana, sem dizer nada a ninguém, embarcou no ônibus, veio para Três de Maio e disputou a final daquele campeonato ao lado do time do Rocinha, quando a equipe se sagrou campeã do primeiro campeonato varzeano de Três de Maio.
Em seu retorno a Santa Maria, o rapaz entregou o fonograma para João dizendo: “Esqueci de te entregar!”. Quando João leu o conteúdo da mensagem que dizia: “Venha no domingo jogo com o Rocinha”, sentiu-se sem chão e foi para seu quarto muito chateado, pois ainda que o resultado terminasse o mesmo, jogar aquela partida e sentir que o desfecho poderia ter sido outro teria sido algo importante para ele.
No ano seguinte, em 1971, o campeonato varzeano de Três de Maio não aconteceu, sendo retomado somente em 1972, quando então, o Guarany finalmente sagrou-se campeão em uma final contra o Duque de Caxias de Esquina Grápia (localidade que hoje pertence ao município de Alegria), porém, neste ano, o Rocinha não disputou o campeonato.
Já o Grêmio de Bela Vista, apesar de ter disputado o campeonato, não ficou em boa colocação, mas o time começava a despontar como uma equipe disciplinada, muito devido ao empenho e dedicação que jogadores e a comunidade dispensavam ao clube que Alberto Pertile tratava como um verdadeiro patrimônio da localidade em que moravam.
Após o casamento de Nilo e Lorena Schreiber, ela passou a se envolver mais com o futebol, ajudando o time do marido em tudo o que fosse possível, principalmente na cozinha, produzindo e fritando pasteis em dias de jogos para arrecadar dinheiro para o time. Havia domingos que acordava cedo e produzia até cem pasteis, e se desdobrava na copa vendendo bebidas, ou mesmo, assando salsichões que vendiam no meio de um pão. Depois dos jogos, ainda lavava as camisas de todo o time, trabalho este que muitas vezes dividia com Iria Pertile, esposa de Emílio, um dos cinco filhos de Alberto Pertile que jogavam no Grêmio de Bela Vista.
Mas mesmo sem alcançar os títulos que desejavam naquele momento, o futebol animava a vida da comunidade e isto bastava para todos.
Talvez este ânimo é que tenha levado o Grêmio de Bela Vista a alcançar seus dias de glória no futebol três-maiense pois, apesar de sua imprevisibilidade, no futebol a vitória só é alcançada por quem nunca desiste de entrar em campo.

Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche









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