“Hoje posso dizer que essa foi a melhor escolha que poderia ter feito”

“Hoje posso dizer que essa  foi a melhor escolha que  poderia ter feito”
Entre todos os destinos que conheceu, a viagem a Flachau, nos Alpes austríacos, foi uma das mais marcantes para Laura

O Programa de Intercâmbio de Jovens do Rotary International segue transformando a vida de adolescentes por meio da oportunidade de conhecer novas culturas, conviver com famílias anfitriãs, aprender idiomas e ampliar sua visão de mundo. Em Três de Maio, o Rotary Club desenvolve essa iniciativa desde 1988, promovendo tanto o envio de jovens três-maienses ao exterior quanto a recepção de estudantes de outros países.

No período de agosto de  2025 a julho de 2026,  dois intercambistas do município participaram do programa: Laura Engster da Silva, que realizou seu intercâmbio na Dinamarca, e Augusto Hermes Ritter, que viveu a experiência na Finlândia.

A partir de agosto, uma nova etapa começa para outros dois estudantes de Três de Maio. Lucas Ceccon Rambo e Ana Luísa Robe Weber, ambos com 16 anos, embarcam para um ano de intercâmbio. Lucas terá como destino a Romênia, enquanto Ana Luísa seguirá para a França.

No mesmo período, Três de Maio também receberá dois intercambistas estrangeiros: um estudante da Alemanha e outro da Bélgica, que serão acolhidos por famílias do município e terão a oportunidade de vivenciar a cultura brasileira.

Nesta edição, o Semanal destaca a experiência de Laura. Após um ano na Dinamarca, ela compartilha como foi a convivência com sua família anfitriã, a adaptação ao cotidiano no país europeu, as diferenças culturais, os aprendizados adquiridos e as lembranças que trouxe na bagagem de uma experiência que certamente marcará sua trajetória.  Na próxima edição, a reportagem será com Augusto.

 

Laura e outros intercambistas em frente à Catedral de Berlim, na Alemanha

 

 

Após um ano vivendo na cidade de Silkeborg, na Dinamarca, Laura Engster da Silva, 17 anos, retornou ao Brasil no dia 16 de junho trazendo na bagagem muito mais do que lembranças: experiências, amizades internacionais e uma nova forma de enxergar o mundo.

Filha de Lásaro e Vanessa Engster, Laura realizou o intercâmbio por meio do Programa de Intercâmbio de Jovens do Rotary, sonho cultivado desde os 13 anos, quando ingressou no Interact. "Foi através do Interact que conheci o programa e passei a sonhar em viver essa experiência. Ao longo dos anos ouvi muitas histórias de intercambistas e via o quanto essa vivência transformava cada um deles. Quando surgiu a oportunidade, não tive dúvidas de que queria viver isso também", conta.

Antes da viagem, os candidatos passam por um processo seletivo que inclui uma prova. Conforme a classificação, cada participante escolhe entre os países disponíveis. Embora tivesse opções variadas, Laura decidiu pela Dinamarca. "Queria viver uma realidade completamente diferente da brasileira e conhecer uma cultura distante. Hoje posso dizer que foi a melhor escolha que poderia ter feito."

 

Cultura baseada na confiança

A chegada ao país foi marcada pela mistura de ansiedade, felicidade e insegurança diante do desconhecido. No entanto, segundo Laura, a receptividade da família anfitriã e do Rotary facilitou a adaptação.

O aspecto que mais chamou sua atenção foi a cultura da confiança presente na sociedade dinamarquesa. "Desde pequenos, eles aprendem a respeitar regras, assumir responsabilidades e confiar uns nos outros. Isso aparece na escola, no trabalho, no transporte público e até na relação entre governo e população. É uma sociedade organizada, tranquila e muito respeitosa."

 

Frio intenso e pouca luz no inverno

Além das diferenças culturais, o clima exigiu adaptação. Laura enfrentou temperaturas de até -15°C durante o inverno europeu. "O frio não foi o maior desafio, porque praticamente todos os ambientes possuem calefação. O mais difícil foi a falta de luz. No auge do inverno, o sol nascia por volta das 9 horas e se punha perto das 16 horas."

Apesar disso, foi justamente durante esse período que fortaleceu os laços com a família anfitriã. "Passamos o inverno e o Natal juntos e criamos um vínculo que levarei para a vida toda."

 

Qualidade de vida

Ela também destaca a qualidade da infraestrutura dinamarquesa, especialmente nos serviços públicos. "O transporte público é eficiente, seguro e pontual. Com o tempo, percebi como os impostos elevados realmente retornam para a população em forma de educação, saúde, transporte e cidades bem conservadas."

Embora reconheça que a Dinamarca seja considerada um país caro para turistas, explica que os altos salários garantem qualidade de vida aos moradores.  “Quando convertemos os preços para o real, alimentos, roupas e ingressos para atividades culturais realmente parecem muito caros. Mas, quando analisamos a realidade de quem vive lá, esses valores são compatíveis com os salários e com a excelente qualidade de vida da população. Isso faz com que a maioria das pessoas tenha acesso não apenas às necessidades básicas, mas também ao lazer, à cultura e ao esporte de forma bastante equilibrada."

 

Aprendizado do idioma

Outro desafio foi aprender dinamarquês, considerado um dos idiomas mais difíceis para estrangeiros.

Laura frequentava duas aulas semanais juntamente com outros intercambistas e, ao final do programa, conseguiu fazer sua apresentação ao Rotary totalmente em dinamarquês. "A imersão na cultura tornou o aprendizado muito mais natural."

 

Representando o Brasil

Durante o intercâmbio, Laura também teve a missão de apresentar a cultura brasileira e segundo ela, muitas pessoas tem uma visão bastante estereotipada do Brasil. “Surgiam perguntas curiosas e, às vezes, até um pouco inconvenientes, mas eu percebia que isso acontecia por falta de informação, não por preconceito. Sempre procurei responder às perguntas com paciência e mostrar que somos um país muito diverso."
 

No período em que esteve na Europa, Laura participou de uma Eurotur. No registro, os intercambistas em Paris, em frente à Torre Eiffel

 

Escola, esporte e novas amizades

A rotina variava conforme a família anfitriã, mas seguia uma programação organizada. As aulas aconteciam das 8h10 às 15h20,  divididas em cinco períodos, com pequenos intervalos e uma pausa maior para o almoço. 

Laura estudou em uma escola pública e destaca a qualidade do sistema de ensino do país. Segundo ela, as instituições são divididas entre ensino fundamental e ensino médio. Ela frequentou o Silkeborg Gymnasium, considerado o maior colégio de ensino médio da Dinamarca, com cerca de 1,5 mil estudantes.

De acordo com Laura, a escola oferecia uma estrutura ampla e ensino de alta qualidade. Ela também ressalta que, no país, a presença de instituições privadas é incomum. "Normalmente todo o ensino é público e gratuito, até mesmo as universidades", afirmou. 

Após a escola, ela costumava encontrar outros intercambistas para conhecer a cidade.  "À noite, eu treinava vôlei três vezes por semana e, nos finais de semana, participava de viagens, passeios ou atividades promovidas pelo Rotary".

Laura destaca que foi muito bem acolhida pelas famílias anfitriãs. "Tive irmãs anfitriãs que se tornaram grandes amigas e pais anfitriões que sempre estiveram ao meu lado, tanto nos momentos bons quanto nos mais difíceis."

 

Gratidão como hábito diário

Entre os costumes que mais marcaram a jovem está a forma como os dinamarqueses expressam gratidão. "Depois de uma refeição dizem 'Tak for mad' (obrigado pela comida). Ao sair da sala de aula, agradecem ao professor pelo dia. Após um treino ou um encontro entre amigos, costumam dizer 'obrigado por hoje'."
Segundo ela, esse hábito fortalece os relacionamentos e valoriza os momentos compartilhados. "Hoje procuro agradecer mais conscientemente pelo tempo que as pessoas dedicam para estar comigo."

Já o costume mais difícil de adaptar foi o horário das refeições. Enquanto no Brasil o almoço costuma ser a principal refeição, na Dinamarca ele é leve, geralmente composto por sanduíches ou saladas. O jantar, servido por volta das 18 horas, é a principal refeição do dia.

 

Viagens, tradições, momentos  inesquecíveis

Ao longo do intercâmbio, Laura conheceu diversos países europeus por meio da Eurotour organizada pelo Rotary, passando por Alemanha, República Tcheca, Áustria, Itália, França, Bélgica e Holanda, além de realizar uma viagem de estudos para Málaga, na Espanha.

Entre todos os destinos, o que mais a marcou foi Flachau, nos Alpes austríacos. "Foi lá que aprendi a esquiar e vivi uma das semanas mais especiais de todo o intercâmbio."

As tradições natalinas dinamarquesas também ficaram gravadas na memória. "Depois da ceia, toda a família dá as mãos e canta músicas natalinas enquanto caminha em círculos ao redor da árvore de Natal. Foi um momento muito emocionante e me senti verdadeiramente parte da família."

Quanto à culinária local, uma das comidas que mais a surpreendeu foi o risengrød. “É uma sobremesa tradicional de Natal feita com arroz doce. O que achei bem diferente é que eles a servem como jantar. Ela é consumida quente, com uma grande porção de manteiga derretendo no centro do prato. Foi uma combinação bem diferente daquilo a que estamos acostumados no Brasil”, comentou.

 

Lições para a vida

Ao retornar ao Brasil, Laura afirma que trouxe uma nova perspectiva sobre o mundo. “Existe uma frase muito comum entre intercambistas: durante o intercâmbio, diga ‘sim’ para tudo aquilo que for seguro e possível. Muitas das melhores memórias surgem justamente de convites simples e inesperados. Foi essa abertura para viver novas experiências que me permitiu criar amizades ao redor do mundo e construir um ano inesquecível. Aprendi também que existem inúmeras formas de viver e inúmeras culturas para conhecer. O intercâmbio despertou ainda mais minha vontade de viajar, aprender idiomas e continuar saindo da zona de conforto."


Experiência única

Laura recomenda o programa a outros jovens interessados em viver uma experiência internacional. "O intercâmbio transforma a forma como enxergamos o mundo. Desenvolve independência, maturidade, empatia e cria amizades que atravessam fronteiras. O intercambista representa sua família, seu clube, sua cidade e seu país. Somos verdadeiros embaixadores da paz e do entendimento entre culturas. Foi uma das experiências mais importantes da minha vida", finaliza. 

 

Participar das tradições natalinas da família anfitriã foi uma das experiências mais emocionantes vividas pela jovem intercambista
 

 

Três vezes na semana,  Laura jogava vôlei