Três de Maio enfrentou seca ou excesso de chuva em quase dois terços dos meses desde 2000

Embora a condição considerada normal ainda seja a categoria mais frequente, ela ocorreu em apenas 36% dos meses analisados

Três de Maio enfrentou  seca ou excesso de chuva em quase dois terços dos meses desde 2000
Eventos extremo de estiagem ou grandes volumes de chuva em poucas horas, como ocorrido semana passada, vem acontecendo com frequência cada vez maior no município. Nível do Rio Santa Rosa superou a ponte em Nossa Senhora Auxiliadora

A análise de 318 meses de dados climáticos entre janeiro de 2000 e junho de 2026, disponível na plataforma Simagro Estiagem, desenvolvida pela equipe do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro), da Secretaria Estadual da Agricultura, mostra que a principal característica do clima de Três de Maio deixou de ser a estabilidade.

Embora a condição considerada normal ainda seja a categoria mais frequente, ela ocorreu em apenas 36% dos meses analisados. Em outras palavras, durante quase dois em cada três meses (64% da série histórica), o município esteve sob influência de algum evento de seca ou de excesso de chuva.

 

Estiagem tornou-se mais frequente

O levantamento revela que os períodos de estiagem passaram a superar os meses excessivamente chuvosos.

Somadas as categorias Atenção (seca), Estiagem moderada, Estiagem severa e Estiagem extrema, Três de Maio registrou 114 meses com déficit hídrico, o equivalente a cerca de 36% da série histórica. Já as categorias Atenção (úmido), Moderadamente úmido, Muito úmido e Extremamente úmido totalizaram 88 meses, aproximadamente 28% do período.

Na prática, isso significa que a falta de água foi cerca de 30% mais frequente do que os episódios de excesso de chuva ao longo dos últimos 26 anos.

O comportamento também revela uma mudança importante nos últimos anos. Os eventos de estiagem extrema passaram a ocorrer com maior frequência a partir de 2020.

Dos 17 meses classificados como de estiagem extrema em toda a série histórica, oito ocorreram entre dezembro de 2021 e março de 2026: dezembro de 2021; janeiro e fevereiro de 2022; dezembro de 2022; janeiro de 2023; janeiro de 2025; e janeiro e março de 2026.

O período coincide com as sucessivas estiagens registradas no Rio Grande do Sul, responsáveis por perdas agrícolas, redução dos níveis de rios e reservatórios e decretos de emergência em centenas de municípios.

Além dos episódios extremos, a estiagem tornou-se recorrente. O município acumulou ainda 26 meses de estiagem severa e 30 de estiagem moderada. Somadas essas categorias, foram 73 meses — praticamente seis anos da série histórica — sob condições elevadas de déficit hídrico.

 

Chuvas intensas também cresceram

Ao mesmo tempo em que aumentaram os períodos secos, também cresceram os episódios de chuva intensa.
Foram registrados 11 meses classificados como extremamente úmidos. Chama atenção a concentração desses eventos em determinados períodos, como entre outubro e dezembro de 2023, quando Três de Maio teve três meses consecutivos nessa categoria. Situação semelhante ocorreu entre maio e junho de 2017.

Os dados mostram que o município passou a alternar longos períodos de estiagem com episódios concentrados de chuva intensa, comportamento característico de maior variabilidade climática.

 

Chove praticamente o mesmo, mas de forma diferente

Apesar da sucessão de extremos, o volume total de chuva permaneceu próximo da média histórica

Entre janeiro de 2000 e junho de 2026 foram registrados 41.218 milímetros de chuva, enquanto a média climatológica esperada para o período era de 42.626 milímetros. A diferença é de apenas 1.408 milímetros em mais de 26 anos, o equivalente a cerca de 3,3% abaixo da média climatológica.

Esse é um dos dados mais importantes do levantamento porque demonstra que Três de Maio não está  recebendo muito menos chuva do que no passado. A principal mudança está na distribuição das precipitações.

Em vez de ocorrerem de forma regular ao longo dos meses, as chuvas concentram grandes volumes em poucos eventos, intercalados por longos períodos secos. Esse padrão reduz a infiltração da água no solo, aumenta o escoamento superficial e dificulta a recuperação dos mananciais e das lavouras.

 

Balanço hídrico reforça esse diagnóstico

Embora o armazenamento médio de água no solo tenha permanecido dentro da faixa considerada normal, com média de 107,4 milímetros, o déficit hídrico acumulado alcançou 10.127,7 milímetros ao longo da série histórica, indicando que a demanda por água superou repetidamente a reposição proporcionada pelas chuvas.

O índice SPEI de três meses, utilizado internacionalmente para monitorar secas meteorológicas, apresentou média de -0,03, valor considerado normal. Entretanto, esse resultado reflete a compensação estatística entre meses muito secos e muito chuvosos, ocultando uma alternância cada vez mais intensa entre os extremos climáticos.

 

Temperaturas médias permaneceram estáveis

Ao contrário das chuvas, as temperaturas apresentaram pouca variação ao longo da série histórica.

A temperatura média foi de 20,3°C, com mínima média de 15,5°C e máxima média de 26,7°C. Os resultados indicam que as principais mudanças observadas no clima de Três de Maio estão relacionadas à irregularidade das chuvas e à disponibilidade de água, e não ao comportamento das temperaturas médias.