TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO
A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO
Naqueles dias os televisores ainda eram algo distante para os moradores de Três de Maio, e muito por conta disso a juventude encontrava no futebol sua principal fonte de entretenimento.
A recém construída quadra de esportes da Praça da Bandeira oferecia tudo o que os jovens da época precisavam para se divertir com uma bola, e por isso, vivia cheia de gente dia e noite chutando uma pelota.
Num terreno baldio ali bem próximo, onde mais tarde seria construída a nova estação rodoviária, as crianças que não conseguiam espaço na quadra da praça engendraram um campinho de futebol, onde jogavam bola na terra.
Aquele tornou-se somente mais um deles, pois Três de Maio era uma cidade tomada por campinhos de futebol. Em qualquer terreno vago, logo surgiam pequenas goleiras improvisadas com pedras ou pedaços de madeira e o chão ficava totalmente pisoteado pelos pés descalços de crianças que corriam quase o dia inteiro atrás de uma bola.
As lembranças longínquas de quem viveu aqueles tempos dão conta de mais de vinte campos dentro da cidade onde regularmente se viam pequenos grupos de jovens jogando. Um destes jovens era João Antônio Casali, nascido em 01.09.1950 e filho de Antônio Emílio Casali e Ilse Jost.
Naqueles dias, João gostava de ir assistir a filmes no Cine Imperial, não muito pelos filmes, mas pelos cinco minutos de imagens de jogos de futebol que eram exibidos nas propagandas antes dos filmes, durante as transmissões do Canal 100, que mostravam o resumo dos últimos jogos nacionais e os melhores lances de Garrincha, Pelé, Rivelino e outros grandes jogadores da época.
As imagens começavam embaladas pelo ritmo instrumental da música “Na cadência do samba” de Waldir Calmon, mais conhecida como “Que Bonito é...”. Começava a musiquinha do Canal 100, os olhos não piscavam, as pupilas aumentavam, a respiração diminuía e o coração acelerava. Parecia que o som do ambiente era aumentado propositalmente no momento dos gritos da torcida e da comemoração dos jogadores, fazendo o coração pulsar ainda mais forte.
O maior sonho de João era um dia poder assistir um daqueles jogos no próprio Maracanã, sonho que somente encontrava terreno fértil em jovens criados em comunidades que desde os seus primórdios haviam identificado no futebol um esporte para preencher com alegria e emoção os espaços vazios de seu cotidiano.
A equipe mais antiga formada no povoado que se tem notícia foi criada por um barbeiro e um comerciante recém chegados a localidade, naqueles anos em que a antiga Vila Buricá ainda estava começando a se desenvolver. Quando o jovem barbeiro Carlos Werri soube que no arruado de Buricá, distante cerca de cem quilômetros de sua cidade, Ijuhy, não havia nenhum barbeiro de profissão para cortar os cabelos e aparar a barba dos moradores locais, decidiu se instalar com um salão na área mais central do povoado, ao lado da casa comercial Vontobel & Irmãos, inaugurada naquele mesmo ano de 1925 e gerenciada por Leopoldo Vontobel.
Numa parte da mata próxima aos fundos da loja, uma clareira havia sido aberta alguns anos antes e o local passou a servir como campo para a prática de futebol, onde vários moradores dos arredores se encontravam quase que diariamente para praticarem o esporte, e devido a seu enorme entusiasmo e espírito de liderança, rapidamente Carlito Werri tornou-se o principal articulador das partidas e dos treinos daquele grupo, momento em que Leopoldo Vontobel decidiu se propor a dar todo o apoio necessário para a formação de um time oficial.
Assim, no dia 24 de julho de 1925, foi fundado o Oriental Futebol Clube que ao longo das muitas décadas seguintes viria a se tornar uma das principais potências do futebol três-maiense, e a partir daí, vários outros times foram sendo oficialmente criados em diversas outras localidades do interior.
No dia 13 de outubro de 1941, na localidade da Rocinha, foi criado o Esporte Clube Força e Luz, sociedade esportiva que tinha por finalidade, conforme relatado em ata por seus fundadores “criar um passa tempo nos dias de feriados e aos domingos para as pessoas simpatizantes do esporte”.
Com muito sacrifício conseguiram fazer um caixa para custear as despesas desta sociedade e com o pouco dinheiro que conseguiram recolher, adquiriram uma bola, que fora comprada em Caxias do Sul e trazida a comunidade por Hilário Andreazza.
O maior responsável pela criação do Esporte Clube Força e Luz da Rocinha foi Valentim Cassol, recém chegado a Três de Maio, que juntamente com outros moradores da localidade formaram a primeira equipe de futebol de campo da comunidade. Os primeiros jogos foram realizados num potreiro dos descendentes de Ernesto Benedetti, para posteriormente se estabelecerem em terras doadas pelo Sr. Pedro Múncio Campagnoni.
Por muitos anos o time da Rocinha foi um oponente duro de vencer para os diversos times que se aventuravam em campo para enfrentá-lo, mas na década de 1950 um outro time foi criado numa localidade próxima, e este viria a se mostrar um rival totalmente a altura do talento dos jogadores do Esporte Clube Força e Luz.
Naqueles anos, um time com moradores da chamada Esquina Morangueira vinha chamando a atenção de muitos pelo entrosamento de seus jogadores e incansável persistência em campo. O time havia surgido algum tempo antes, em um local pouco adiante do Lajeado Tarumã, subindo a lomba, onde havia um potreiro que alguns jovens utilizavam para jogar bola, e como haviam vários tocos espalhados ao longo do terreno – em decorrência da ruminação de animais que comiam pequenos arbustos deixando os tocos espetados sob a grama - seguidamente, chutes com pés descalços ocasionavam um jogador estendido ao chão com o pé machucado, e logo deram a esse time o nome provisório de “Arranca-toco”. Mas com a boa participação em torneios pela região, o time começou a ser levado mais a sério e decidiram mudar o seu nome para “Guarany Futebol Clube”.
Assim, após fundado oficialmente no dia 01.01.1958, e após a criação de uma sede e a instalação de um campo para o time, em terreno adquirido por Remando Benedetti, o Guarany foi oficialmente registrado na Federação Gaúcha de Futebol e passou a participar de campeonatos regionais, tendo Remando Benedetti se tornado o primeiro presidente do clube.
Foi por volta deste ano que Antônio Emílio Casali comprou um açougue na então Esquina Consolata, onde havia se criado, e onde o filho João Antônio Casali começou a mostrar desenvoltura com uma bola nos pés no campo do Guarany, durante as partidas de recreação que os jovens costumavam jogar nos fins de tarde.
Até que, aos 14 anos de idade, após um teste, João foi convidado pelo professor Arminio Baú, técnico do time, a integrar o segundo time do Guarany, e aos 15 anos passou a fazer parte da equipe principal, onde começou a jogar ao lado de jogadores que marcariam época no time, como os irmãos Viti e Vilson Weiss.
Pouco mais de um ano depois da fundação do Guarany Futebol Clube, numa manhã um tanto fria do ano de 1959, com uma rala neblina ainda pairando no ar, os moradores da Rocinha viram chegar à comunidade em peregrinação a imagem de Nossa Senhora de Fátima, Santa que durante a quaresma passava pequenos períodos em cada uma das comunidades do interior de Três de Maio, trazida de carroça pelo padre José Radici, responsável por levar os santos sacramentos para as localidades interioranas.
Neste dia, os jogadores da equipe do Esporte Clube Força e Luz, fardados com camiseta, calção, meia e chuteiras, carregaram em procissão a imagem da Santa desde a igreja até o campo de futebol, e lá colocaram a imagem no andor sobre um suporte. O padre então fez umas orações, abençoou a equipe e o campo e declarou que a partir daquele momento o time se chamaria “Grêmio Esportivo Fátima”, o qual mais tarde se consagraria na história do futebol três-maiense apenas como “Sociedade Esportiva Rocinha”.
Nas duas décadas seguintes, a rivalidade entre as equipes do Rocinha e do Guarany ultrapassariam longe as linhas do campo, se manifestando muito fortemente em suas torcidas.
Dias de jogos passaram a ser dias de apreensão, e quando uma equipe visitava o campo da outra, sua torcida não gastava sequer uma moeda na copa do clube oponente para não acabar indiretamente ajudando o outro time.
O velho Valentim Cassol, principal fundador do Rocinha, era quem levava a equipe e a torcida do Rocinha para os jogos pela região com seu caminhão. Já o meio de transporte do time do Guarany e de boa parte de sua torcida até os jogos era feita em cima da carroceria do caminhão do Sr. Abelle Pandolfo, que em dias normais utilizava o veículo nas atividades de sua olaria. Além disso, Abelle era muito ligado ao professor Arminio Baú, técnico do Guarany, o que o autorizava em suas andanças de negócios a Porto Mauá, quando descobria alguns bons futeboleiros, os trazer para jogar no time.
Mas os atletas que mostravam bom rendimento durante os jogos nunca eram substituídos, e João Antônio Casali era um dos que haviam conquistado espaço cativo na equipe, e por isso, por muitos anos, mesmo depois de ter ido morar em Santa Maria – onde passou a cursar a faculdade de Engenharia Civil -- sempre que retornava a Três de Maio e havia alguma partida a ser disputada, João tinha seu lugar garantido no time.
Seu tio Albertinho, que era militar e morava no Rio de Janeiro, certa vez em que esteve de férias por Três de Maio, assistindo a João depois de uma partida pelo Guarany, chegou para ele e disse: “Ó, Joãozinho, capricha aí que eu vou te levar para jogar no Bangu do Rio de janeiro”.
Tio Albertinho dizia ter boa amizade com o bicheiro Castor de Andrade, maior patrocinador do Bangu Atlético Clube, e se ele dizia aquilo, João acreditava com toda a sua força que aquilo era verdade, e pensava consigo “Se vou conseguir jogar no Bangu eu não sei, só sei que se eu conseguir pelo menos assistir um jogo no Maracanã já vai ter valido a pena!”.
Então João se entregou com mais afinco ainda ao futebol, porém os anos foram se passando e a promessa do tio Albertinho foi caindo cada vez mais no esquecimento, até João perceber que o sonho de ir para o Rio de Janeiro e assistir a uma partida no Maracanã havia voltado a ser algo distante, e assim ele passou a achar que o mais próximo que conseguiria chegar deste seu sonho era assistindo aos cinco minutos de transmissão dos melhores lances do Canal 100 no Cine Imperial. Isso acontecia porque naqueles dias ele ainda não sabia que o mundo, assim como uma bola, muitas vezes costuma girar para a direção que nós mais desejamos.

Time do Guarany Futebol Clube de Consolata (de camisas brancas) em registro feito por volta de 1965 quando a equipe viajou para fora do Estado pela primeira vez na carroceria de um caminhão a fim de disputar um amistoso contra um time do Paraná

O jovem João Antônio Casali (de camisa branca) aos 15 anos, quando começou
a jogar pela equipe principal do Guarany
Fontes pesquisadas: Portal Turra,
pesquisas de Gilson Antônio Grando
e entrevistas realizadas desde 2022.
Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche.









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