Família Ziegler: Entre o zumbido das abelhas e o aroma do mel recém-colhido, uma história de mais de três décadas
Atividade que começou há 35 anos pelo casal Olice e Maria tem continuidade com os filhos Alexandre e Cristiano - que se aprofundou no cultivo das colmeias e na produção de mel fazendo doutorado na área e hoje agrega conhecimento científico à experiência prática acumulada ao longo das gerações
Uma atividade que passa de geração em geração. A apicultura está na família Ziegler, residente em Esquina Bela Vista, Três de Maio, há mais de três décadas.
A cultivo que iniciou com Olice e Maria Lúcia Schuh Ziegler está tendo continuidade com os filhos Cristiano, 34 anos, e Alexandre Felipe, 32. Unindo a experiência herdada dos pais às novas técnicas do setor, os jovens apicultores seguem cuidando das abelhas e produzindo mel.
Cristiano conta com orgulho da atividade. “A apicultura faz parte da história da minha família há 35 anos. Cresci acompanhando de perto meus pais no trabalho com as abelhas e, aos 14 anos, comecei a ajudar aos poucos na atividade. Com o tempo, fui aprendendo e criando experiência na profissão. Hoje, meus pais e meu irmão, Alexandre, trabalham comigo”, explica.
Para fortalecer a produção, Cristiano foi em busca por qualificação. Aprofundou seus conhecimentos por meio de graduação, inclusive com um doutorado na área, agregando conhecimento científico à experiência prática acumulada ao longo das duas décadas. A combinação entre tradição, inovação e dedicação garante a continuidade da atividade na família, além de continuar com uma prática essencial para a economia e para o equilíbrio ambiental.
Questionado o motivo de permanecer trabalhando na atividade, Cristiano ressalta que foi uma opção para permanecer próximo a família e, principalmente, dar continuidade ao que os pais construíram. “Além disso, valorizo muito a oportunidade de criar meu filho próximo da família, convivendo diariamente com os avós paternos e maternos, com os dindos e os tios, além de levar adiante uma história que começou há 35 anos com os meus pais”, diz o jovem apicultor.
Produção de três a quatro toneladas ao ano
Com aproximadamente 200 colmeias de abelhas Apis, Cristiano explica que as caixas estão distribuídas em diferentes áreas dos municípios de Três de Maio e Independência. Além da apicultura, a família também trabalha com a plantação de grãos - soja, trigo e milho.
O apicultor conta que a produção anual de mel fica entre três a quatro mil quilos. “A produção de mel neste ano está dentro da média. Até o mês de dezembro de 2025 as colmeias estavam produzindo bem, período em que começamos a coleta do mel. Porém, em março, a situação mudou bastante, desde lá, muitas colmeias não produziram praticamente nada”, relata.
Como a atividade depende muito das condições climáticas e da disponibilidade de flores nas plantas, fatores que variam bastante. A cada ano existe uma realidade diferente na produção do alimento. “Na última safra começaram produzindo bem e foram diminuindo, no ano anterior foi o contrário”.
Conforme o produtor, em torno de 80% da produção é comercializada diretamente com empresas do setor. “Os outros 20% vendemos para amigos e conhecidos”, ressalta.
Atividade tem vantagens e desvantagem como a produção de grãos
Entre as vantagens da atividade, Cristiano aponta o baixo custo de investimento para produção, a utilização de locais não agricultáveis como as matas para as instalações das colmeias e a polinização das plantas próximas aos apiários. Por outro lado, o que dificulta o setor é o baixo preço do produto, em venda a granel. “Outros pontos são o trabalho com equipamentos que aquecem bastante o corpo, como macacões, luvas e botas, nos períodos de coleta na época de verão e a dependência do clima e disponibilidade natural de néctar para produzir”, complementa.
Segundo Cristiano, atualmente, a atividade não apresenta alta rentabilidade. “O preço paga pelo quilo do mel está muito baixo. Há quatro anos recebíamos quase o dobro do valor comparado com o que é comercializado hoje e com custos mais baixos de produção”, lamenta.
Comparado a outras atividades, o cenário não é muito diferente. “A produção de grãos, também está com preços baixos pagos aos produtores e custos exorbitantes. Em comparação entre essas duas atividades, a produção de mel apenas possui um investimento imobilizado menor. No cenário atual, as duas atividades estão com altos custos de produção e baixa margem de lucro”, complementa.

Família Ziegler tem em produção 200 colmeias de abelhas Apis mellifera em áreas de Três de Maio e Independência
Formação acadêmica focada na produção do alimento
Cristiano conta que sempre teve muito interesse na atividade, uma vez que a apicultura esteve presente desde a infância.
Graduado em Engenharia Mecânica, pela FAHOR, ele fez o TCC voltado ao desenvolvimento de um equipamento para produção de cera alveolada - utilizada para facilitar o trabalho da abelha no momento de depositar o mel no favo. “Em outra graduação que realizei, Planejamento e Desenvolvimento Rural, pela UFRGS, desenvolvi o TCC voltado aos aspectos econômicos e tecnológicos para a formalização dos produtores de mel aqui em Três de Maio”, conta o produtor rural.
A Cristiano não parou. Ao fazer doutorado em Engenharia de Produção pela UFSM, elaborou como tese uma metodologia de monitoramento do manejo para a abelha Apis mellifera.
Além disso, Cristiano tem publicações acadêmicas sobre o tema em periódicos internacionais. “Um estudo é sobre a correlação dos fatores climáticos com o peso de uma colmeia de Apis mellifera e outro sobre as tecnologias (patentes e estudos científicos) para redução da mortalidade da abelha Apis mellifera”, explica.
Conforme o apicultor, a mortalidade das abelhas pode ocorrer por diversos motivos, como pesticidas, ácaros, vírus, mudanças climáticas, patógenos e redução dos recursos alimentares. “Normalmente, para causar a morte do enxame existe uma associação de mais de um desses fatores, como por exemplo, baixa disponibilidade de alimentos e uso de pesticidas”, ressalta.
Já as tecnologias para evitar as perdas de enxames estão voltadas a resolver os estressores. “Entre eles, alguns acaricidas para combater ácaros, alimentação suplementar para manter o enxame sempre forte, buscar locais adequados e protegidos para instalação dos apiários, limpeza das colmeias, entre outras técnicas que melhoram a qualidade de vida do enxame”, menciona.
Já em termos tecnológicos, segundo Cristiano, o que existe de mais avançado é o monitoramento remoto de colmeias, por meio do acoplamento de balanças, que transmitem em tempo real a evolução do peso do enxame, permitindo identificar os momentos que o enxame está em declínio e até os melhores momentos para a coleta do mel. “Porém, essa tecnologia está sendo usada em colmeias para estudo, ainda é inviável a utilização em todo o apiário”, contextualiza.









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