TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO PARTE III

TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO PARTE III

A HISTÓRIA DO FUTEBOL DE VÁRZEA EM TRÊS DE MAIO PARTE III

Em 1984, a Rádio Colonial passou a promover o campeonato varzeano de Três de Maio, que recebeu o nome de Copa Racol, o qual viria a se tornar o troféu mais cobiçado pelas equipes de futebol amador do interior do município. O campeonato começava em março e terminava em dezembro, e por isso, haviam só três meses para os times jogarem amistosos.  Aconteciam jogos em todos os fins de semana, e em temporadas de muita chuva, quando haviam atrasos no calendário dos jogos, para fazerem andar o campeonato, muitas equipes jogavam até duas partidas no mesmo fim de semana, no sábado e no domingo. 
Houve uma vez em que a equipe do Grêmio de Bela Vista teve de se deslocar num sábado até o distrito de Alegria com os jogadores debaixo de uma lona na carroceria do caminhão para se protegerem da chuva, a fim de jogarem contra a Associação Atlética Alegria em meio a muitas poças  d’água, e no domingo, como muitos dos jogadores só possuíam um calção e um par de meias, não havendo tempo hábil para secar as peças, tendo de jogar no domingo contra a equipe do Rocinha -- partida extremamente importante para muitos jogadores -- apesar de tentarem secar na chapa do fogão, tiveram que usar as peças ainda molhadas na partida. 
Até meados da década de 1980 a hegemonia dos times do Rocinha da localidade de Rocinha e do Guarany de Consolata, eram quase inquestionáveis no futebol de várzea de Três de Maio, tanto é que a maioria dos jogadores que depois vinham jogar no Oriental e no Botafogo, as duas maiores potências futebolísticas do município, eram em boa parte atletas que se destacavam nestes dois times, por isso, jogos contra estas equipes eram quase que uma vitrine para os jogadores, com a particularidade que os jogadores do Guarany era captados mais pelo Oriental, e os jogadores do Rocinha, mais pelo Botafogo, consequência de uma dicotomia política que influenciava até na marca da cerveja que cada clube e torcida bebiam. 
Mas no ano de 1987 essa hegemonia começaria a ruir, quando o Grêmio de Bela Vista formou uma equipe coesa, com jogadores habilidosos que souberam transformar as angústias sofridas pelo time nos últimos anos em combustível para alcançar o seu apogeu. Depois de quatro anos sendo derrotados nas semifinais do campeonato municipal pelo Guarany - 1983,1984,1985 e 1986 - finalmente chegaria a hora do Grêmio de Bela Vista se tornar campeão vencendo seu grande rival. 
Naqueles dias que antecederam ao campeonato, Emilio Pertile, jogador do Grêmio de Bela Vista, foi a Santa Rosa visitar um primo seu chamado Antônio Vanzan, e descobriu que ele jogava futebol para um time local. Convidou-o para vir jogar no Grêmio de Bela Vista perguntando ainda se não conseguia outros dois jogadores de boa qualidade que quisessem também integrar a equipe, e Vanzan se comprometeu a consegui-los. 
Logo Antônio Vanzan e os jovens Leonir Dani e Gerson Gabatz passaram a vir jogar em Três de Maio cobrando somente o combustível do deslocamento de carro. Vanzan jogava tanto no ataque como na zaga e era considerado um ótimo cabeceador. Gerson se mostrou um centroavante de primeira, e costumava dizer: “Chuta um tiro de meta lá de trás e enfia a bola na área que lá dentro eu me viro”.  Mas Leonir Dani é que seria o escolhido para virar uma página de resiliência na história do Grêmio de Bela Vista. 
Durante todo o ano aquele campeonato foi uma verdadeira guerra em campo, e cada partida parecia valer pelo campeonato inteiro, até que finalmente o Grêmio de Bela Vista conseguiu pela primeira vez chegar a uma final do campeonato varzeano, e para que aquela final fosse mais dramática, quis o destino que o oponente a ser enfrentado naquela final fosse justamente o seu principal algoz nas semifinais dos últimos quatro anos: o Guarany de Consolata. 
Por isso, os dias que antecederam aquela partida foram cheios de grandes expectativas, gerando comentários que beiravam ao infundado e flertavam com superstições, principalmente depois que que se soube que Emilio Pertile, um dos principais jogadores do time, não poderia jogar aquela final porque havia tomado uma picada de cobra no pé dias antes.
O técnico do Guarany, Inácio Boz, era irmão do goleiro do Grêmio de Bela Vista, Irineu Boz, outrora jogador do Serrano de Nossa Senhora do Carmo, e nos dias que antecederam aquela final, o vizinho de um dos jogadores do Grêmio de Bela Vista, Nilo Schreiber, o avisou: “Nilo, não coloquem o Irineu para atacar nessa partida porque ele se vendeu por cem sacas de soja para o Inácio”. 
Na véspera da final, Gerson Gabatz foi disputar um título em outro torneio em Santa Rosa, e todos os jogadores do Grêmio de Bela Vista resolveram ir até lá prestigiar o colega que enfrentaria com eles o Guarany no dia seguinte. 
Com a vitória do time, após a partida todos comemoraram bebendo cerveja na copa do clube com os jogadores e a torcida campeã, mas os jogadores do Grêmio de Bela Vista sabiam de sua responsabilidade no dia seguinte e não beberam muito, porém, justamente o goleiro Irineu Boz se refestelou madrugada a dentro bebendo, até finalmente conseguirem trazê-lo de volta com eles, chegando todos as três horas da manhã do dia do jogo em casa. 
O tal vizinho de Nilo Schreiber, sabendo do acontecido naquela noite, repetiu para Nilo: “Eu estou avisando, não coloquem ele pra atacar porque ele tá comprado”. 
Mas não havia como tirar Irineu daquele jogo pois ele havia atacado para o time durante todo o campeonato e era um dos responsáveis pelo time ter chegado aquela final. 
Porém, o que era desconfiança na hora da partida se mostrou apenas boato. Na decisão, que aconteceu no estádio do Oriental, um público imenso se fez presente, com a torcida do Guarany tomando conta dos dois lados do campo, tendo muita gente ficado do lado de fora, em pé em cima dos caminhões, para assistir aquela partida na qual o goleiro Irineu Boz, mesmo de ressaca, saltou com talento em todas as bolas chutadas para a sua área, defendendo chutes até de cabeceio. Comentários empolgados pela arquibancada diziam que ele estava “pegando até sombra”. 
Em outros anos, todas as finais dos campeonatos varzeanos costumavam ser apitadas pelo árbitro Lautério Castilho do Nascimento, mas naquela partida em especial, o árbitro foi Gilson Martel, juiz da Federação Gaúcha de Futebol, tendo Lautério e Pedro Pires de Lima como auxiliares. 
Havia tanta gente assistindo aquela partida que pelo interior não se encontrava uma viva alma. Também o prefeito Ceslau Sawitzki e alguns secretários municipais estavam presentes na arquibancada, e num determinado momento por muito pouco uma bola que perdeu o rumo, chutada em meio a uma refrega no meio do campo, não lhe acertou o rosto, causando apreensão naqueles que estavam mais focados no lance. 
Aquela foi uma final tensa, com as duas equipes realizando um jogo cuidadoso no sistema defensivo, embora o Guarany predominasse no meio do campo, com seu ataque exigindo mais do goleiro Irineu Boz, restando como alternativa à equipe do Grêmio de Bela Vista os contra-ataques. 
No segundo tempo, o jogo tornou-se mais tenso ainda, com as duas equipes mais na retranca na ânsia de defender-se, com poucas jogadas realmente ofensivas, motivo pelo qual esgotado os 90 minutos regulamentares com o placar em branco a decisão foi para a prorrogação. 
Na prorrogação, prevaleceu o melhor preparo físico do Grêmio, quando aos 12 minutos um dos jogadores do Guarany escapou com a bola pela esquerda, momento em que Lirio Thomazi entrou de carrinho tomando a bola de forma limpa, ato continuo, na tentativa de recuperar a posse de bola o jogador do Guarany acabou fazendo falta em Lirio, tomando em seguida um cartão amarelo, o único da partida. 
Lirio bateu a falta do meio do campo tocando para Rutilio na intermediaria, o qual tocou para o ponteiro direito Leonir Dani que estava em posição legal. Dani avançou até dentro da grande área, onde com tranquilidade anormal para o nervosismo que havia com relação àquela decisão, desviou para o canto esquerdo do goleiro Edemar e marcou o gol que daria pela primeira vez ao Grêmio de Bela Vista o título de campeão varzeano em 1987, fechando com chave de ouro uma campanha de 18 jogos nos quais o Grêmio de Bela Vista conquistou 11 vitórias, 4 empates, 3 derrotas e marcou 34 gols, sofrendo apenas 13. 
Mas o principal destaque daquela conquista era inquestionável. Naquele campeonato ninguém viu Irineu Boz atacar tão bem quanto naquela final, e não por menos ele acabou sendo eleito o melhor jogador da partida. 
Após o jogo, no festejo teve mais bebedeira e enquanto uns iam ficando deitados pelo chão, Irineu Boz continuou segurando firme o seu copo até as altas horas em que se estendeu a comemoração. 
A Copa Racol existiu até 1988, sendo no ano seguinte substituída pela Copa Três de Maio de Futebol Amador. 
Com aquela vitória histórica para o Grêmio de Bela Vista, nos anos seguintes o time chegaria mais confiante e respeitado para as disputas, tornando-se bicampeão em 1991, tricampeão em 1995, tetracampeão em 1997, pentacampeão em 1999 e hexacampeão em 2001, se consagrando como o maior campeão dos campeonatos municipais de futebol de várzea do interior de Três de Maio. 
Já no leito de morte, Alberto Pertile, principal fundador do time, fez um pedido para Nilo Schreiber: “Tu não me deixas o Grêmio terminar”.  
Mas como tudo no mundo tem seu tempo definido e só muito eventualmente o juiz que controla esse tempo nos permite uma prorrogação, recentemente o local do campo foi lavrado e transformado em uma roça, deixando apenas as lembranças de um time campeão para aqueles que passam pela BR 472 nas proximidades de Esquina Pertile. 
Quando se formou em engenharia civil em Santa Maria, devido ao intenso envolvimento político entre os times do Oriental e do Botafogo, João Casali não aceitou o convite de Marcelino Cassol, técnico do time, para jogar no Botafogo, pois tinha receios de perder trabalhos devido ao fato de que muitos de seus colegas do Guarany jogavam no Oriental, mas a paixão pelo futebol continuaria por muitos anos ainda sem arrefecer. Jogou futebol de campo até os 47 anos de idade, quando decidiu continuar com sua paixão apenas no futebol de salão, jogando nesta modalidade até os 51 anos. 
Em 2019, João reencontrou dentro de si o menino que assistia os melhores lances do Canal 100 no Cine Imperial, quando o seu time do coração, o Internacional de Porto Alegre se preparava para disputar as quartas de final da Copa Libertadores da América contra o Flamengo no Rio de Janeiro, em partida a realizar-se no dia 21.08.2019 no estádio do Maracanã. 
Neste momento, já com seus 68 anos de idade e com um bom padrão de vida, decidiu que era a hora de realizar aquele sonho distante de assistir a uma partida de futebol no Maracanã e, com sua esposa, Marli, os filhos Leonardo e Lucas e mais um sobrinho que morava em Porto Alegre, foram todos para o Rio de Janeiro assistir aquela partida dentro de um dos maiores santuários do futebol mundial. “Gastei um bom dinheiro mas valeu a pena!” relembra. 
São as lembranças do passado que nos fazem compreender que tudo na vida é um ciclo, e ciclos necessariamente devem terminar reencontrando com seu início para então se completar ou se reinventar. 
A partir do início da década de 1990, com as restrições para o transporte de pessoas em carrocerias de caminhões e outras circunstancias como a inauguração do Ginásio de Esportes Ceslau Sawitzki no bairro São Francisco em 1988, além de uma mais ampla promoção do futebol de salão pela mídia, como a “Taça RBS  de Futsal” que veio a se tornar uma das competições esportivas regionais mais tradicionais do Rio Grande do Sul, mobilizando dezenas de municípios gaúchos e revelando novos talentos, a participação do público no futebol de várzea começou a diminuir e o futsal foi ganhando mais espaço. 
Hoje, uma parte da paixão pelo esporte que movimentava comunidades pelos campos do interior se reinventou no futsal e a força do nosso futebol vestiu uma nova roupagem com a união de jogadores que outrora se enfrentavam pelos gramados três-maienses. 
Em novembro de 2025 o time de futsal da União Três-Maiense conquistou o título de campeão geral da Série C do Gauchão sagrando-se campeã estadual de forma invicta após vencer a Associação Esportiva Sobradinho. Triunfo que consolidou uma campanha histórica garantindo o acesso do time para disputar a Série B em 2026. Assim, um novo ciclo do nosso esporte e da nossa história, neste exato momento, continua a girar. Que seja um ciclo de muitas vitórias!

 

Time do Grêmio de Bela Vista campeão da Copa Racol de 1987. A partir deste título o time daria início a uma história de vitórias nos campeonatos municipais que o tornariam o maior campeão do interior do município

 

Equipe do Hawai de Santo Antônio

 

Equipe do Inter do KM 10

 

Canarinho de Nossa Senhora de Lourdes

 

Time São Francisco

 

Canarinho de Nossa Senhora de Lourdes - esq. Ivaldino Pásch, Ivo Froner, Dilo Lenhoart, Aldorico Mioto, Izaltino Fontineli, Sabino Peretti, Aquiles Vochikowski e Albino Pinheiro

 

Palmeiras de Mato Queimado, registro de maio de 1987

 

Equipe do Serrano de Nossa Senhora do Carmo

 

Equipe de veteranos do Rocinha do final da década de 1980

 

 

DIVERSOS TIMES DE FUTEBOL SURGIRAM EM TRÊS DE MAIO AO LONGO DE SUA HISTÓRIA, MUITOS DELES 
CONSTAM NA LISTAGEM A SEGUIR:

1 - Oriental Futebol Clube (fund. 24.07.1925)
2 - Botafogo Futebol Clube (funf. 18.03.1960)
3 - Sociedade Esport. Rocinha (fund. 13.10.1941)
4 - Guarany de Consolata (fund. 01.01.1958)
5 - Juventude de Bela Vista (fund. 02.2006)
6 - Serrano de Nossa Senhora do Carmo
7 - Grêmio de Bela Vista
8 - Cruzeiro de Bela Vista
9 - Elite de Caravágio
10 - Associação Santa Lúcia
11 - Hawai de Santo Antônio
12 - Internacional de Quaraim
13 - Internacional de Nossa Senhora das Dores
14 - São Luiz de Manchinha
15 - Santo Antônio de Progresso
16 - Itapapagé de Lajeado Lambedor
17 - Tabajara de Caúna
18 - Miraí de Caúna Baixa
19 - Internacional do Km 10
20 - Jandaia do Km 13
21 - Canarinho de Nossa Senhora de Lourdes
22 - Canarinho de Nossa Senhora dos Navegantes
23 - 7 de Setembro de Medianeira
24 - 7 de Setembro de Linha Itu
25 - Tamoio do Km 6
26 - Juventus de Bom Conselho
27 - Atlético de Flor de Maio
28 - Palmeiras de Mato Queimado
29 - Palmeiras de Quaraim
30 - Fluminense de Entrada da Barrinha
31 - Missioneira de Quarainzinho
32 - Vera Cruz de São Braz
33 - Soc. Esport. São Caetano (primeiro Motoneta)
34 - São Roque de S. Roque (primeiro Ouro Verde)
35 - América (Bairro Oriental)
36 - Assoc. São Francisco (Bairro São Francisco)
37 - Franciscano (Bairro São Francisco)
38 - Metropol (Bairro São Francisco)
39 - Barcelona (Bairro São Pedro)
40 - Idolos (Bairro Seminário)
41 - Castelo Branco 
42 - Nacional (Promorar)
43 - Juventus (Promorar)
44 - Esporte Clube Juventus, de Lajeado Cachoeira;
45 - Beira Rio, de Flor de Maio;
46 - CBFC, de Caúna Baixa;
47 - Sport Club Parceria, Flor de Maio;
48 - Os Invencíveis, de Esquina Pértile;
49 - Dom Pedro, de Barrinha;
50 - Associação Atlética Losango, Entrada da Barrinha;
51 - Resto del Mundo, KM 10;
52 - Consolata Futebol Clube.

 

DE LOCALIDADES QUE PERTENCIAM A TRÊS DE MAIO:
SÃO JOSÉ DO INHACORÁ

- Esporte Clube Riograndense (fund. 24.06.1936)
- Esporte Clube Floriano (fund. 1964)
- Esporte Clube Beija Flor de Linha Ilha (fund. 08.01.1971)
- Corinthians de Barra Seca
- Cruzeiro de Santo Antônio do Inhacorá

ALEGRIA

- Associação Atlética Alegria
- Duque de Caxias de Esquina Grápia
- Primeiro de Maio de Espírito Santo
- Tamoio de Restinga Seca
- Independente de Restinga Seca
- Mauá do Rincão Mauá
- Tupi de Esquina Rolim
- Pinheirinho Esporte Clube do Rincão dos Nardes
Quais ficaram faltando? Possui documentos ou relatos sobre algum desses times? 
Envie mensagem de WhatsApp para (55) 9 9706-0456 e ajude a resgatar a história deste esporte em Três de Maio.