ECOS DO TEMPO: A história de Idalina Tusset
Entre lembranças que se escondem nos cantos da memória e outras que ainda brilham com delicadeza, o Ecos do Tempo abriu mais uma porta para o passado. Desta vez, quem guia a travessia é Adelar, o filho mais velho de Idalina Tusset, que fala com serenidade, segurança e amor sobre a vida da mãe — uma mulher simples, talentosa e dedicada à família.
Hoje, aos 80 anos, Idalina vive um tempo de esquecimento suave. O Alzheimer apagou algumas palavras, embaralhou datas e silenciou histórias que antes ela própria contaria. Mas Adelar relembra cada passagem com carinho, reconstruindo os capítulos de uma vida marcada pelo trabalho, pela fé e pelo afeto.
Idalina nasceu em Esquina Batista, no município de Tucunduva. Filha de agricultores, cresceu entre lavouras de soja, de trigo e os animais da propriedade. Desde cedo ajudava na roça — capinava, lavrava, fazia o que era preciso, como era costume naquele tempo. Ao redor, uma pequena comunidade: salão, escola, comércio Secki, alguns vizinhos próximos. Estudou apenas o primeiro ano, o suficiente para aprender a ler e a escrever um pouco, mas a vida lhe ensinou o resto.
Conheceu o futuro esposo, Saul Valter Tusset, nos bailes da região, onde se encontravam jovens, vizinhos e famílias. Casaram-se e permaneceram morando na Esquina Batista, trabalhando e construindo um futuro. Compraram terras, criaram os filhos: Adelar, o primogênito; Meri, que faleceu aos 58 anos; e Vania, que hoje vive em Santa Catarina. Vieram também os netos e bisnetos, orgulho constante de Idalina.
Ao longo da vida, mudaram-se algumas vezes. Viveram em Santa Helena e Entre Rios, no Paraná, por três anos e meio, perto de parentes. Depois, voltaram para São Martinho, onde ficaram sete anos, até finalmente se estabelecerem em Três de Maio.
Idalina foi dona de casa e costureira — profissão que completava a renda da família e também a realizava. “Era muito boa costureira”, recorda Adelar. As lojistas de Três de Maio levavam roupas para ela reformar; era conhecida, respeitada e procurada pelo capricho do trabalho. O ateliê funcionava na Rua Osvaldo Cruz, local onde também moravam. A loja Airto’s Modas, entre outras, era cliente assídua. Além disso, era excelente cozinheira: fazia pães, cucas, bolachas e mantinha a casa sempre cheia de hospitalidade. Os filhos visitavam frequentemente — era o ponto de encontro da família.
O falecimento de Saul, há 11 anos, foi um golpe profundo. Idalina sofreu muito, e com o tempo os esquecimentos começaram a se intensificar. Depois da perda, ficou um período com cada filho, mas permaneceu mais tempo sob os cuidados de Adelar.
Há cerca de cinco ou seis anos, quando estava na casa da irmã no Paraná, voltou abatida e confusa. Pouco tempo depois, passou a usar cadeira de rodas. Adelar acredita que um forte abalo emocional desencadeou essa mudança tão brusca.
Ele e a esposa acolheram Idalina enquanto puderam, com todo o amor possível. Mas a sobrecarga foi grande: Idalina já apresentava dificuldades para caminhar e agravamento da perda de memória. Mesmo com cuidadora, havia períodos sem acompanhamento, exames, deslocamentos — e isso começou a adoecer o casal. Adelar, que tocava em uma banda, precisou abandonar a música para dedicar-se integralmente à mãe. Depois, enfrentou uma trombose, o que tornou a situação insustentável.
A decisão de levá-la ao Lar dos Idosos foi difícil, mas necessária. Inicialmente, Idalina ficou três meses em um Lar de Guarani das Missões. Quando abriu vaga em Três de Maio, trouxeram-na para perto de Adelar e da família. Está lá há aproximadamente três meses, tranquila, estável, reconhece o filho e fala baixinho. “Percebo que ela está feliz”, diz ele, aliviado.
Idalina foi uma mulher que fez seu papel de mãe com amor e dedicação. Religiosa, sempre manteve sua fé acesa — especialmente a devoção a Nossa Senhora Aparecida. A imagem que guardava com tanto carinho agora pertence a Adelar, como lembrança do vínculo entre eles.
A filha Vania vem visitá-la sempre que pode, uma vez ao ano, pois mora em outro Estado. Um dos netos também a acompanha. Idalina pergunta pelos netos, quer notícias, demonstra afeto mesmo nas breves conversas que hoje consegue manter.
Há lembranças bonitas que atravessam o tempo: quando jovem, Idalina cantava lindamente e tocava violão. O esposo Saul tocava gaita, e juntos animavam festas, bailes e encontros entre amigos e vizinhos. A música corria no sangue da família — e segue correndo. Adelar, também músico, conta que herdou o talento dos pais, toca guitarra e, emocionado, diz que se tiver oportunidade virá com a banda para animar uma tarde no Lar
Assim, entre memórias preservadas e outros pedaços que o Alzheimer levou, permanece o essencial: o amor de Idalina pelos filhos e o cuidado que ela sempre teve com todos ao seu redor. E, no Lar onde hoje vive, encontra aquilo que Adelar resume tão bem — cuidado, segurança e acolhimento.
Nas palavras do filho, ditas com voz firme e afetuosa: “Minha mãe foi uma pessoa muito boa. Fez o papel dela, fez tudo o que podia. Hoje, está bem. E isso me conforta.









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