ECOS DO TEMPO: Tia Martha: a história de vida de quem dedicou tempo e amor aos outros
Por lembranças que dançam entre o ontem e o agora..., o Ecos do Tempo abriu mais uma janela para o passado. Foi assim que conheci a história de Martha Guilhermina Kerhwald, carinhosamente chamada de tia Martha pelos sobrinhos e de Martinha pelos amigos. Sua história foi contada com emoção e doçura por sua sobrinha Luzia Kerhwald Marasca, que trouxe à tona memórias guardadas no coração como pequenas relíquias de uma vida inteira dedicada à família, à fé e ao cuidado com os outros.
Hoje, Martha Guilhermina Kerhwald, aos 84 anos, vive um tempo de calma e esquecimento — aqueles dias em que a memória se confunde e as lembranças passeiam por entre o passado e o presente. É Luzia quem ajuda a recontar sua trajetória, como quem abre, com cuidado e ternura, um álbum de recordações guardado no coração.
Martha nasceu em São José do Inhacorá, quando o lugar ainda pertencia a Santo Ângelo. Era a nona entre catorze irmãos — sete homens e sete mulheres — em uma família numerosa, marcada pela simplicidade e pelo trabalho na roça. Desde pequena ajudava a semear e capinar, mas também sabia brincar: de casinha, de bola, de boneca.
Estudou na Escola de São José do Inhacorá, hoje Madre Madalena. Luzia conta que naquela época já haviam freiras ensinando na escola. Mais tarde, como os demais filhos de Marcos e Elvira, estudou no colégio das Irmãs Franciscanas, em Santa Maria, onde fez internato até concluir os estudos. Era uma moça muito bonita, como contavam.
Ao retornar de Santa Maria, ficou pouco tempo em casa: logo conseguiu seu primeiro emprego, em Alegria, no comércio de Ceslau Sawitzki, onde trabalhou por alguns anos. Depois, com a fundação da Cooperativa Agrícola de São José do Inhacorá, foi convidada a atuar no escritório da nova cooperativa — um reconhecimento de sua responsabilidade e competência.
Mudou-se então para Três de Maio, onde continuou seus estudos e construiu sua vida. Fez o curso técnico de Contabilidade e trabalhou por muitos anos no Mercado Tesche, como contadora, até se aposentar. Era dedicada, correta e feliz com o que fazia — “realizada”, repete Luzia com orgulho.
Sempre reservada, tinha uma rotina simples e disciplinada: acordava cedo, fazia suas caminhadas matinais e seguia para o trabalho. Com muito esforço, comprou seu carro. Saía sempre cedo para evitar trânsito — tinha medo, mas não deixava de cumprir seus compromissos.
Martha também tinha um talento especial para as artes: pintava em tela e porcelana, chegando a dar aulas. Algumas peças permanecem guardadas com carinho. Luzia recorda, emocionada, a vez em que Martha lhe mostrou uma porcelana e disse: “estou guardando pra você”. Naquele gesto, deixava um pedaço de si.
Nunca se casou nem teve filhos, mas encontrou nos sobrinhos a sua família. Tratava todos com o mesmo carinho, e cada um deles era como um filho. Foi madrinha de crisma de Luzia e ajudou a criá-la enquanto a mãe estudava. Luzia ri ao lembrar: “o berço do meu irmão passou pela janela da casa da tia Martha”.
Sua vida foi marcada pela dedicação aos pais. Quando a mãe sofreu um derrame e ficou acamada por 16 anos, Martha assumiu o sustento da casa enquanto a irmã Esther, então freira, cuidava dos dois. Após o falecimento deles — a mãe em 1998 e o pai em 2002 —, Esther retornou ao convento e Martha passou a viver sozinha.
Também enfrentou tristezas. Um rompimento amoroso a marcou profundamente, e ela nunca mais quis outro relacionamento. O amor que não viveu em um casamento, distribuiu aos sobrinhos.
Tia Martha era alegre, divertida e bem-humorada. Era torcedora fiel do Riograndense de São José do Inhacorá. Nas competições, as “gurias” iam torcer de saia verde e blusa branca — as cores do time. Mais tarde, já morando em Três de Maio, passou a torcer pelo Botafogo. Na igreja, participava do grupo Filhas de Maria: aos domingos, usava vestido e véu branco para ir à missa.
Gostava de estar com a família. Levava os sobrinhos à escola, à missa, e preparava o famoso pudim de claras com ameixa, lembrança que ficou registrada nos sabores da infância. Luzia lembra das missas que ia com a tia, na garupa da bicicleta, momentos cheios de afeto e simplicidade. No fim de ano, sua casa era ponto de encontro — repleta de gente, risadas e chimarrões. Amigas e cunhadas, como Leonida e Jurema, eram presença constante.
Com o tempo, Martha tornou-se mais reservada. Continuava participando de algumas festas, mas os lapsos de memória ficaram mais frequentes. Veio o diagnóstico, o medo de ficar sozinha, a dificuldade de manter cuidadoras. Repetia refeições, esquecia horários. Por orientação médica, a família decidiu trazê-la para a Associação Tresmaiense Amigos dos Idosos. No início, pedia para “ir pra casa” — talvez não a casa em que vivia, mas a da infância, onde estavam os pais e suas memórias. Ainda assim, sempre dizia que era bem cuidada.
Profundamente religiosa, rezava o terço todas as noites e ensinou cada oração à sobrinha. Mesmo internada, fazia com as mãos o gesto de quem reza, movida pela fé que nunca a abandonou. Sua maior devoção era Nossa Senhora de Fátima, cuja imagem um sobrinho trouxe de Portugal.
Honestidade e retidão eram marcas suas. “Ela dizia pra gente ser correto e transparente, como ela sempre foi”, conta Luzia, emocionada.
Hoje, a família vê o Lar como um lugar de cuidado, segurança e pertencimento. Martha está bem assistida, cercada de atenção e afeto. E, mesmo que a memória tenha se apagado em partes, sua história continua viva: nas lembranças dos sobrinhos, nas porcelanas que pintou com delicadeza e na fé que atravessou o tempo.
Entre o silêncio e o olhar distante, Martha ainda reza — como quem conversa com Deus e com o passado que nunca se esquece.









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