ECOS DO TEMPO: A história de vida de Atalíbio José Stein
Uma vida inteira de trabalho, fé e superação, ainda que, por vezes, a memória lhe escape
Entre momentos de lucidez e esquecimento, são os filhos Rogério e Sandra que costuram suas lembranças com carinho e orgulho. Assim, a história do pai permanece viva, contada com emoção por quem aprendeu com ele os maiores valores da vida.
Perguntado sobre a idade, Atalíbio José Stein responde rápido: “94 anos.” Rogério sorri e completa: "Pai, isso, o senhor nasceu em 1931." Ele confirma com a cabeça, mas o que lhe vem claro à memória é o lugar: Montenegro. E a infância ganha vida; a terra vermelha e o rio.
Atalíbio cresceu na terra vermelha, trabalhando na lavoura. Veio ainda jovem morar em Boa Vista do Buricá. Era o mais velho de uma família grande: seis homens e cinco mulheres. Hoje ainda vivem sete irmãos.
Das brincadeiras de infância, ele lembra: "A gente tomava banho no rio, na Usina do Trepke, no fundo do potreiro." As pescarias faziam parte da rotina. A mãe fritava os peixes. A simplicidade era abundância.
Rogério recorda que o pai sempre contava que, na mesa, sentavam os 11 filhos, mais os avós e um tio — 14 pessoas. O avô dizia: “Deixa os outros se servirem, e se sobrar a gente come.”
Rogério recorda emocionado que nos domingos em família, o pai sempre era o último a se servir. Coisas que trouxe da infância. Sempre pensando nos outros.
O sonho do seminário
Entre 1945 e 1951, dos 14 aos 22 anos, estudou no seminário em Corupá, Santa Catarina. Era para ser padre.
A viagem era uma verdadeira saga. O pai o levava de charrete até Santo Ângelo. De lá, pegava o trem. Três dias e duas noites até chegar. Ia sozinho, aos 14 anos de idade. Era o transporte mais barato — não havia ônibus. O pai não tinha condições financeiras melhores.
Durante seis anos estudou latim, espanhol, italiano, inglês e alemão. Sandra conta que o pai ainda tem em casa os livros em latim daquela época e quando a memória ainda era uma constante, lia prazeirosamente os livros guardados com capricho. Foi assinante do informativo em alemão Paulus Blat e da revista Família Cristã — era o assinante mais idoso até que a entrega pelos Correios cessou.
Rogério ri ao lembrar: "Uma vez reclamei que precisava estudar inglês". Ele disse: “No seminário a gente tinha que estudar cinco idiomas.” Como quem diz: “Isso é fácil”.
Quando perguntado se lembra alguma palavra em inglês, Atalíbio sorri e diz: "Estou esquecido... não lembro mais das palavras."
No seminário, quando chovia, ajudava os padres a colher frutas. Havia muitas frutas. Vinham visitar os pais apenas uma vez por ano. Não havia telefone. Só cartas.
Estava no último ano para se ordenar padre quando o pai o chamou de volta para ajudar na lavoura. Precisava colocar comida na mesa. Sua vida mudou.
Perguntado se ficou triste, responde com serenidade: " Não. Eu gostava de ficar junto com os meus pais."
Anos depois, visitou o seminário com Rogério e recebeu uma homenagem dos padres e funcionários.
Trabalho
De volta a Boa Vista do Buricá, ajudou a construir a igreja e o hospital com os irmãos. Como tinha estudo, o Pe. Galdino o chamou para fazer a contabilidade da igreja — trabalho voluntário, na confiança. Trabalhava na lavoura durante o dia e à noite fazia a contabilidade.
Foi gerente de uma cooperativa em Boa Vista do Buricá. Depois, montou sociedade com Manfredo Mensch numa olaria no Distrito de Consolata. Foram sócios por muitos anos.
Mais tarde, tornou-se caminhoneiro, profissão que exerceu por mais de 41 anos. Ia para Ijuí, Santo Ângelo… puxava porcos para São Paulo. Não tinha asfalto.
Nunca sofreu acidentes. O caminhão era seu. Em 1975 já morava em Consolata.
Quando perguntado sobre as viagens, responde: “São tempos idos… a gente não se lembra mais.”
Mas Sandra lembra por ele. Conta da vez em que levou uma carga de vinhos do Assis Turra até perto da Bolívia e não quebrou nenhum garrafão. "Ele era um bom motorista."
Fazia mudanças para as famílias de Consolata e Santo Antônio. Até hoje as pessoas param na casa para relembrar as histórias. Numa dessas mudanças, foi picado por uma aranha. A mão direita gangrenou. Foi cortada e colocado um dreno. Mesmo assim dizia: “Apertado não manda recado.” E seguia trabalhando. Para trocar as marchas, apoiava a mão direita e usava a esquerda. Precisava pagar as contas.
Amor e família
Conheceu a esposa Felicita na inauguração do hospital. Casaram-se em Boa Vista do Buricá. Um casamento que durou até a partida dela - 55 anos.
O primeiro filho, Paulo, viveu apenas um dia, vítima de infecção pulmonar. Naquela época, para buscar ajuda, era preciso atravessar um rio até São José do Inhacorá. Depois vieram Inês, Dirce, Sandra e Rogério.
Felicita era dona de casa e cuidava da “chacrinha”, como dizia Atalíbio. Produziam batata, mandioca, leite, galinhas, nata, porco. A casa ainda existe. Hoje, Sandra mora nela.
Foi sócio fundador do Grupo de Idosos de Consolata, Unidos na Alegria. Frequentavam os bailinhos. "Viviam muito bem", diz Sandra.
Após o falecimento de Felicita, há 10 anos, Sandra cuidou do pai por mais de uma década, com ajuda de cuidadora. Ela conta que o pai varria o chão, secava a louça, recolhia e dobrava as roupas com perfeição. Nunca entrou em casa com chinelo sujo. Arrumava sempre a própria cama. Chamava Sandra de “relaxada” porque ela não arrumava a dela. Ela ria: “Vou dormir de noite de novo na mesma cama.”
Ele respondia: “E se chegar gente de dia? Que feio.” E ia lá e arrumava a cama da filha.
Nas quartas-feiras, Sandra e o pai iam jogar baralho na casa do Nono e da Nona Ruaro.
Valores que ficam
Os valores que transmitiu foram fé e estudo. Em Crissiumal caminhavam horas para ir à missa. Aos domingos, missa era compromisso.
Quando Rogério voltou do quartel, o pai disse: “Agora vamos trabalhar juntos.”
Rogério tentou ser caminhoneiro por uma semana. Não era para ele. Foi trabalhar na Cotrimaio.
Um dia, o pai disse: “Não vou conseguir deixar patrimônio para você, mas quero que você estude. Para crescer na Cotrimaio, precisa de diploma.”
Rogério respondeu que não conseguiria pagar. “Se precisar, vou ajudar.” Sempre incentivou os filhos a estudar.
Quando completou 70 anos, ganhou um ar-condicionado dos filhos. “Não precisava disso.” Estava acostumado a viver sem. No caminhão não tinha ar-condicionado.
Atalíbio tem três netos e quatro bisnetos. Quando perguntado se lembra deles, responde: “É tudo passado.”
Há momentos de lucidez. Outros de esquecimento. Perguntado se lembra de alguém que marcou sua vida, responde: “Não, não lembro de ninguém.”
Mas os filhos lembram por ele. Nas sextas, jogava com o tio Aurino, e sempre ganhava. Os dois financiaram a primeira colheitadeira da região. Viram oportunidade. Uma pessoa de grande importância na vida do pai.
A vida no Lar
Depois que a cuidadora pediu demissão e Sandra começou a trabalhar o dia todo, ele não pôde ficar sozinho, houve a necessidade de trazer Atalíbio para o Lar dos Idosos. Faz sete meses que está no Lar. Os filhos são presentes e visitam o pai, sempre que podem. Sandra diz emocionada: “Meu pai é meu tudo. A gente conversava muito. Chegava em casa, a gente assistia o terço e a missa todos os dias na TV. Só depois ele ia dormir. O melhor pai do mundo. Minha saudade diária.”
Rogério completa: “Estamos cuidando bem do nosso velhinho. É isso que faz sentido.” Atalíbio sorri, às vezes sem entender, outras vezes encontra detalhes.
Entre o que lembra e o que esquece, permanece o essencial: fé, trabalho, honestidade, simplicidade e amor.
E mesmo quando diz que “é tudo passado”, sua história segue viva nos filhos que a contam com orgulho, respeito e gratidão.









Comentários (0)