Apicultores registram mortandade de milhares de abelhas

Abelhas de cerca de 100 caixas instaladas nas Linhas Ilha e Floresta, interior de São José do Inhacorá, foram encontradas mortas ou agonizando na semana passada. O número significa que pelos menos três milhões de abelhas morreram. Além do grande prejuízo ao ecossistema, a morte também ocasionará a perda de cerca de duas toneladas de mel e todo investimento feito. A maior suspeita é que a mortandade tenha sido provocada pelo uso indevido de agrotóxicos em lavouras próximas. As causas deverão ser investigadas pela Inspetoria Veterinária do Estado

Apicultores deixarão de produzir 2 toneladas de mel 


Em São José do Inhacorá, cerca de 100 colmeias foram perdidas. Motivo deve ser investigado, mas apicultores suspeitam do uso incorreto de agrotóxicos nas lavouras

 

Na semana passada, alguns apicultores de São José do Inhacorá tiveram uma triste e desagradável surpresa ao vistoriar suas caixas de abelha. As abelhas de cerca de 100 colmeias instaladas nas Linhas Ilha e Floresta foram encontradas mortas ou agonizando. São no mínimo três milhões de insetos que foram encontrados mortos próximo às caixas, considerando que cada colmeia pode ter entre 30 e 60 mil abelhas.


Conforme os produtores, a mortandade de abelhas, justamente no momento de maior produção, com a floração da uva japonesa, representa que os apicultores deixarão de produzir em torno de duas mil toneladas de mel nesta safra, o que representa um prejuízo de aproximadamente R$ 30 mil.


O Jornal Semanal conversou com o licenciador ambiental da Secretaria Municipal do Agronegócio e Meio Ambiente de São José do Inhacorá, Jeverson Fabbrin, que é engenheiro agrônomo. Ele explicou que o caso da mortandade de abelhar chegou a pasta na semana passada e a orientação dada aos apicultores foi de que fizessem um Boletim de Ocorrência (B.O.) na polícia e, na sequência, uma reclamação no site do Ministério de Agricultura e Abastecimento (Mapa). “Através disso, a Inspetoria Veterinária do Estado, irá até o local para fazer análise, que são os procedimentos iniciais para se chegar a um resultado”.

 
Segundo Fabbrin, desde 2013 o município tem registros esporádicos de mortandade de abelhas. “Todas essas situações requerem cautela. Muitas vezes no ímpeto da dor, você pode acusar algo que não se confirma, como nós tivemos há pouco tempo, quando um apicultor que criou uma alimentação artificial e, por conta do uso de um ingrediente que prejudica as abelhas, ele acabou matando 360 colmeias”, revela.


Agora, a Secretaria aguarda que, através das denúncias feitas pelos apicultores, seja realizada análise pela Inspetoria Veterinária para saber o que aconteceu. “Não temos como afirmar isso ou aquilo porque não se sabe o que aconteceu. É um produto químico? Pode ser. Só que não há como acusar diretamente, sem análise”. Conforme Fabbrin, a mortandade das abelhas está concentrada nas Linhas Ilha e Central.

 
Com relação ao descarte do mel, é necessário aguardar o laudo para então definir o que deve ser feito.


O Semanal entrou em contato com a Emater de Três de Maio para verificar se há registros de mortandade de abelhas no município, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.

 

 

‘Foi de chorar’, diz apicultor sobre as abelhas mortas próximo às colmeias

Um pequeno apicultor que prefere não se identificar, lamenta a situação. Ele perdeu 18 das 20 caixas de abelhas que possui, ou seja, entre 300 e 400 quilos de mel deixarão de ser produzidos. “Não é a primeira vez que isso acontece nos 20 anos que estou na atividade”, relata. Apesar de ter a atividade como um hobby, o apicultor conta que nos últimos dois anos investiu um pouco mais, se aperfeiçoou e fez treinamentos. “Tudo para entender um pouco mais esse inseto. Sabemos a importância que a abelha tem para a natureza e essa, para mim, é a maior dor de falar dessa mortandade”. 


O apicultor conta que foi apenas uma vez verificar as caixas de abelhas, depois que soube do fato. “Não fui mais de tão triste que fiquei, porque foi de chorar”, relata. De acordo com o apicultor, o problema já vem acontecendo há vários anos. “Depois da denúncia, eles descobrem o tipo de veneno que foi usado, mas não fazem nada, principalmente a nível federal”. Ele acredita que essa realidade só mudará quando houver mudanças drásticas a nível nacional, com relação à legislação e punição. 


“Há três anos ocorreu a mesma situação, quando sobrou apenas uma caixa de abelhas. Nós recomeçamos, insistimos, investimos dinheiro, e agora tínhamos em torno de 20 caixas. E dessas, 18 colmeias morreram”, lamenta o apicultor.


A maior parte de suas colmeias fica na Linha Floresta, num raio de 1.500 metros. “Perto da Linha Ilha morreram todas. As caixas que ficam perto do rio, tem chance de uma ou outra sobreviver”, considera. 


Logo que constatou a morte das abelhas, ele procurou a Secretaria de Agronegócio e Meio Ambiente do município, onde recebeu a orientação para fazer um Boletim de Ocorrência e depois uma denúncia no site do Ministério da Agricultura. “Eu não acredito muito que o problema seja solucionado, porque isso vem acontecendo há anos. Não é só aqui, foi em várias regiões do Estado. Tenho um amigo de Santo Augusto e ele perdeu entre 50 e 60 caixas nas últimas semanas”. 


Segundo o apicultor, a mortandade de abelhas acontece sempre na mesma época do ano. O que leva os apicultores a acreditarem que o problema seja causado por produtos específicos usados nas lavouras. “É bem complicado porque o produtor também depende de defensivos (agrícolas). Vejo que o maior problema é de quem vende. Se o produto está proibido, ele está vendendo na clandestinidade. Quando vê o produtor nem sabe o que está levando para casa”, argumenta. 


“É lamentável! Isso desanima, até porque nosso município, há pouco tempo reuniu os apicultores para discutir a possibilidade de transformar a apicultura em uma fonte de renda e com certeza muita gente poderia ser beneficiada com isso”, finaliza o apicultor.