Em cinco anos, 19% dos produtores de leite três-maienses abandonaram atividade

Mesmo com desistência, dados da Emater indicam alta na produção láctea anual

Em cinco anos, 19% dos produtores de leite três-maienses abandonaram atividade

Informações repassadas pelo Escritório Regional da Emater/ RS-Ascar de Santa Rosa indicam que Três de Maio registrou abandono de 52 agricultores na atividade de produção de leite em cinco anos.

Os dados revelam que, em 2021, eram 276 produtores que comercializavam leite para a indústria, passando para 224 no último levantamento produzido pela entidade - um recuo de 18,84%.

Mesmo com o município registrando uma grande desistência por parte dos produtores que atuam na atividade, a produção anual de leite teve um aumento no período. Em 2021, a produção foi de cerca de 29,69 milhões de litros de leite, alcançando 30,31 milhões no ano passado, uma leve alta de 2,09%.

O rebanho três-maiense caiu, de 6.830 vacas para 5.410 (-20,6%), enquanto que a produtividade média por vaca cresceu, saindo de 4.347 litros/ano para 5.592 (alta de 28,6%).

 

 

Municípios vizinhos vivem cenário parecido, com redução de até 56%

O fenômeno registrado em Três de Maio é parecido ao que ocorre em Independência, São José do Inhacorá e Alegria. A desistência é maior em Independência, onde 56% dos produtores abandonaram a atividade. Em 2021, o município contava com 166 produtores, caindo para 72 no ano passado.

Nos demais municípios o abandono é menor. Alegria caiu de 106 para 92 (-13,2%) enquanto que São José do Inhacorá passou de 96 para 81 (-15,6%).

A produção de leite de Independência foi a que mais aumentou. Em 2025, o total de leite produzido alcançou 10,03 milhões de litros de leite, uma alta de 17,4%. Os outros dois municípios registram altas parecidas de 2021 a 2025. Em Alegria a alta foi de 7,1%, chegando a 15 milhões ao ano, enquanto que a produção inhacorense cresceu 6,4%, atingindo o patamar de 12,4 milhões anuais.

Quanto ao rebanho, apenas São José do Inhacorá registrou aumento no total de vacas, em 1,6%, totalizando 2.319 animais. Independência fechou 2025 com 3.101 vacas (queda de 8,5%) e Alegria tem 2.053 animais (-20,3%).

 

Preço pago pelo produto, falta de mão de obra, ausência de sucessão familiar e às exigências da indústria são entraves enfrentados pelos produtores na atividade

Segundo o assistente técnico regional da Emater/RS, Jorge João Lunardi, destacou que a atividade é a segunda principal fonte de renda agrícola da região, movimentando mais de R$ 1,7 bilhão anualmente. “Nos 45 municípios que compõem os Coredes

Fronteira Noroeste e Missões são 4.299 estabelecimentos, que vendem aproximadamente 1,67 milhões de litros de leite por dia e mais de dez indústrias e agroindústrias da região”, contextualizou.

Lunardi lembrou que desde quando a instituição desenvolve o Levantamento Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite do RS (que iniciou em 2015), até 2025, observou-se uma redução de 71% no número de produtores na região de abrangência da Emater Santa Rosa. “Ao mesmo tempo, o volume de produção se manteve e a produtividade por vaca cresceu 37%, evidenciando uma concentração da produção em menos propriedades, cada vez mais tecnificadas”, explicou.

Apesar dos avanços, o setor enfrenta dificuldades estruturais. “Entre os problemas apresentados pelos produtores entrevistados no diagnóstico estão o preço pago pelo leite, a falta de mão de obra, a ausência de sucessores para continuidade da atividade e as dificuldades em atingir a escala mínima exigida pelas indústrias”, mencionou.

Os dados também apontam que a faixa de produção de até 500 litros/dia ainda concentra 81% dos estabelecimentos. “Porém, há um crescimento na produção acima de 1.000 litros/dia, sinalizando um movimento de concentração produtiva. A maioria dos produtores ativos tem mais de 50 anos, apontando para a necessidade de políticas que fomentem a continuidade da atividade nos próximos anos”, finalizou.

 

“Caso o cenário não mudar, logo não haverá mais produtores de leite no Rio Grande do Sul”, afirma o presidente da Aproleite, Joel Cristiano Rossi

O presidente da Associação de Produtores de Leite de Três de Maio (Aproleite) e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Três de Maio e São José do Inhacorá, Joel Cristiano Rossi, destacou que a atividade está enfraquecendo nos últimos anos, inclusive com a associação tendo poucos produtores associados atualmente.

Rossi elencou duas situações que impactam diretamente na permanência da atividade, a primeira está relacionada às condições de clima. “O produtor de leite vem sofrendo bastante nos últimos anos. São diversos problemas climáticos. Em alguns períodos há excesso de chuva e em outros há estiagem, o que dificulta bastante a produção de comida para os animais”, declarou.

A outra questão está relacionada ao preço do produto. “Porém, o maior problema, e que vem se agravando a cada mês, é o valor pago pelo litro de leite. Tivemos em torno de nove baixas consecutivas no preço, aonde que o valor caiu cerca de 50% e o custo de produção se manteve”, explicou.

Ainda, Joel salientou que o produtor de leite está muito descapitalizado e que há muitos casos de endividamento no setor. “A maior culpa de tudo isso é a importação de leite dos países do Mercosul. São países em que os governos dão subsídio e o produtor consegue produzir a um custo menor. Já tivemos várias desistências de produtores da atividade nesses últimos tempos e, caso o cenário não mudar, logo não haverá mais produtores de leite no Rio Grande do Sul”, finalizou Rossi.