ECOS DO TEMPO: Dona Lili: Entre risos, memórias e um crochê de saudade

ECOS DO TEMPO: Dona Lili: Entre risos,  memórias e um crochê de saudade
Lili teve uma vida simples, mas rica de amor, felicidade e afeto. Moradora do Lar, ela diz que é feliz e rodeada de muito carinho

Era uma manhã ensolarada no Lar dos Idosos, quando Dona Lili Baú, 82 anos, ajeitou o cabelo com a pontinha dos dedos e sorriu para a entrevistadora. O sorriso dela era como um abraço de avó: quente, acolhedor e com cheirinho de roça.

Logo deu para perceber que essa não seria uma entrevista qualquer. Não mesmo. Era o começo de uma viagem no tempo, com escalas no campo, nos bailes de damas e nas memórias mais doces de uma vida cheia de amor e resistência. “Eu nasci em Mato Queimado, no interior de Horizontina. Treze irmãos, imagina só! Sete moças e seis rapazes!” — contou Dona Lili, com aquele jeito faceiro de quem sabe que sobreviver com alegria já é uma forma de vitória.

“Cresci na roça” —  e com o rosto faceiro lembra:  “A gente trabalhava na lavoura e também ajudava a mamãe nas tarefas de casa. Os domingos eram dias de festa: As crianças da vizinhança vinham brincar lá em casa. A gente brincava de bonecas de porcelana. A casa parecia um formigueiro”,  disse ela, rindo. 

E não se engane, leitor: apesar das dificuldades, a infância dela foi recheada de carinho. Um tempo em que os vizinhos eram como da família e o fogão a lenha era centro de aconchego.

Mas foi na adolescência que o coração dela dançou. Literalmente. “Comecei a ir nos bailes de damas. Nesse tipo de baile, era a moça que tirava o rapaz pra dançar. Tirei o Primo (risos). No começo, pensei que não ia dar em namoro, mas acabamos conversando....Eu tinha 19 anos — e caiu na risada.

Depois de uma gasosa e algumas conversas, namoraram por dez meses. Primo comprou um pedaço de terra e eles casaram. O enxoval? Um verdadeiro presente de roça: vaca com terneiro, porquinhos, milho, fogão a lenha, máquina de costura e até um armário de louça!  “Logo a gente tinha bastante coisa para começar a vida, mas moramos muito tempo em um galpão”, conta ela com riqueza de detalhes. 

Com os olhos carregados de emoção lembra que mesmo depois de engravidar, continuou a trabalhar na roça — “ajudava como podia”. Criaram quatro filhos — Isidoro, Regina, Jorge e Bernadete —  todos nasceram de parto normal.  “Sofri, mas criei todos com amor”.

Teve uma amiga de infância muito especial, que não esquece jamais. “Me lembro com saudade de quando ela colocava música no rádio e nós dançávamos juntas”.  Com ela aprendi  a dançar”,  são lembranças muito queridas, refere.

Por um momento, parou e com lágrimas no canto do olho falou de seu grande amor:  “O Primo foi meu companheiro de vida. Sinto falta até hoje. Foi um homem muito bom. Ele faleceu há três anos.” 

O silêncio que se seguiu foi daqueles que só as saudades profundas sabem fazer.

Hoje, Dona Lili vive no Lar dos Idosos.  "Quando meu marido ficou doente, não conseguimos mais morar sozinhos. Fomos para o Lar Vida Plena, porque aqui no Lar dos Idosos ainda não tinha vaga. Depois que ele faleceu, surgiu uma vaga e eu vim para cá.” 

Ela continua contando como é seu dia a dia.  “Aqui é bom demais. Tem sopa de legumes à noite, que eu gosto muito, tem lanche gostoso e carinho nos detalhes.”  

Para passar o tempo no lar, com entusiasmo fala “fui costureira e hoje faço bastante crochê, gosto muito, passa o tempo e acalma o coração”, e com seu jeito faceiro mexe suas mãos com habilidade e energia.

Ela segue firme, mesmo depois de vencer um câncer de mama há 26 anos.  “Tirei o seio, fiz quimioterapia e foi uma fase muito difícil, mas graças a Deus estou bem. Hoje tomo remédio para ansiedade, mas estou firme” ela diz, com olhos de quem sabe que cada ponto da vida vale a pena.

Perguntada sobre os filhos diz cheia de orgulho:  “Todos casaram. Hoje tenho seis netas, três netos e quatro bisnetos “.

Quando perguntada sobre qual conselho deixa para os jovens, foi direta: “Estudem! Aproveitem as oportunidades! Tenho uma neta que trabalha no Sindicato, incentivando os jovens a ficarem na colônia. Tenho muito orgulho. Isso é muito bonito”.

No fim da entrevista, as lágrimas vieram. Lágrimas de  saudade, de gratidão, de amor. “Chorei porque lembrei do passado... E também porque me emocionei com o carinho da Arlene. Ela é muito boa comigo. Isso toca o coração.”

E assim terminou a conversa com Dona Lili: entre um riso e um fio de emoção. Como um crochê bem feito: com nós firmes, linhas de afeto e a beleza simples de quem viveu tudo intensamente — dos bailes ao calor aconchegante do fogão a lenha.

 

PROJETO ECOS DO TEMPO
APOIADORES:
Diretoria da Associação Tresmaiense dos Amigos dos Idosos
Amara Werle - Jornal Semanal 
Betina Cesa - Nossa Revista
Narjana Pedroso - 
@npagenciacriativa - gravação e edição dos vídeos
Luciana Thomé Chedid (Luka) Loja O Boticário  - cabelo e maquiagem 
Arlene Bender - entrevistas 
Miréia Bohnen - edição escrita das histórias 
OBS: as entrevistas e publicações foram autorizadas pelos familiares.