As senhoras Centenárias de São José do Inhacorá
Uma característica unânime entre as três senhoras centenárias de Três de Maio que já foram nossas entrevistadas em edições anteriores é a importância da espiritualidade, que para elas, é um dos segredos de longevidade. Independente da crença ou religião, todas elas citaram a fé e o fazer o bem como fator determinante para vida longeva e serena. E não é diferente essa constatação entre a senhoras Irene Zart e Ledy Adelina Marx Winkelmann, moradoras de São José do Inhacorá, que neste ano também chegaram a um século de vida e compartilham conosco suas histórias.
Iniciamos com a história com a centenária Irene Zart, que no dia 26 de junho completou 100 anos. Devido à dificuldade de compreensão, a entrevista foi intermediada pela filha Dulce.
Conforme Dulce, entre as muitas virtudes da mãe Irene, além da humildade, honestidade e paciência, está a sua religiosidade. “Domingo é um dia considerado sagrado para ir à igreja. Sua fé sempre foi muito grande, e continua sendo o seu alicerce para a construção de sua história de vida”, conta Dulce.
Atualmente a centenária não frequenta mais as missas aos domingos, porém, recebe frequentemente a visita do frei Luiz em sua casa, quando ele lhe entrega a comunhão e lhe concede uma bênção. "Esse é um hábito do qual ela não abre mão", revela a filha.
Filha de Balduíno Simon e Maria Suzana Schmidt, Irene nasceu em 26 de junho de 1922, em Montenegro. Lá viveu a infância, fez a escola primária, que na época era somente em alemão, língua com a qual ela se comunica até hoje. “Ela até entende algumas palavras em português, mas só fala em alemão”, conta Dulce.
Por volta de 1940, a família veio para região e fixou residência em Boa Vista do Buricá. Aos 18 anos, Irene casou com Otto Arno Zart. Da união nasceram os sete filhos: Olivia Gelci; Egon Lauro (em memória); Maria Jandira; Elemar; Valico (em memória); Nelson Inácio e Dulce Maria. A família sempre se dedicou à agricultura.
Em 1972, o casal se mudou para o município de São José do Inhacorá onde reside até hoje.
Trabalho na agricultura e dotes culinários
Dona Irene sempre ajudou o marido na agricultura, e nas horas vagas se dedicava a trabalhos de artesanato, entre eles o crochê, sua maior especialidade. Outro passatempo, era jogar loto com as amigas.
Das suas habilidades domésticas, as filhas destacam os dotes para a cozinha, principalmente as deliciosas bolachas, cucas, pães (de milho e trigo).
Avó, bisavó e tataravó Irene Zart completou 100 anos no dia 26 de junho e não abre mão de fazer sua caminhadinha diária, que são feitas com apoio da mão de alguém para dar segurança
Sem abrir mão das pequenas caminhadas diárias
Viúva desde os 75 anos, Irene permaneceu na casa onde viveu com o marido Otto. Há cerca de 10, necessita de cuidados especiais. As filhas Olivia Gelci, Maria Jandira e Dulce Maria (que mora ao lado da mãe), se revezam nos cuidados diários com a mãe.
Mesmo com as limitações por conta da idade, ela não abre mão de suas ‘caminhadinhas’ diárias que são feitas com apoio da mão de alguém para dar segurança. “Ela não esquece das caminhadas”, diz a filha.
Quanto à alimentação, Dulce diz que a mãe tem hábitos bem equilibrados e come praticamente de tudo, nada de especial ou diferente. Sem histórico de doenças durante a vida, a centenária toma apenas alguns medicamentos para manter a saúde em dia.
A vovó Irene é um exemplo para seus filhos, 15 netos, 21 bisnetos e dois tataranetos. Certamente, deixará um legado de exemplo de vida para todas as gerações da sua família.
Os familiares agradecem a todos que felicitaram e homenagearam a dona Irene pela passagem dos 100 anos de vida.
Uma senhora com um olhar sereno, simpática, sem reclamar da vida. Assim podemos definir Ledy Adelina Marx Winkelmann que no dia 7 de setembro completou 100 anos vida.
No dia da entrevista, a vovó Ledy não estava muito a fim de conversa - ela fala somente em alemão. Porém, quando perguntada sobre os tempos da infância e da escola, ela falou das lembranças que ainda estão bem presentes na memória.
Nossa entrevista foi acompanhada pela filha Marlene Maria Winkelmann Willers e pela neta Margarete Cristina Willers Lenz, que não escondem a admiração e o amor que têm pela mãe e avó.
"Tem dias que ela conversa muito; outros não quer nem saber de
conversa", conta a filha Marlene.
Para comemorar os 100 anos, privilégio para poucos, no dia 7 de setembro - dia do aniversário da vovó Ledy, a família se reuniu em um belo almoço de confraternização com presença dos filhos, dos irmãos, netos, bisnetos e
demais familiares
Ledy nasceu no dia 7 de setembro de 1922 na cidade de Montenegro. Filha de Amanda e José Marx, seus pais tiveram 12 filhos, dos quais três ainda estão vivos: Ledy com 100; Lúcia Kipper, com 93, que mora em Três de Maio e Roque Max, com 79, que mora em Horizontina.
Ainda criança, a família Max transferiu residência para o pequeno vilarejo - hoje o município de São José do Inhacorá -, que estava começando a ser colonizado, principalmente por famílias que vinham da região de Montenegro. Ali fez a escola primária - até o quarto ano -, na época somente em alemão, única língua que falou a vida toda. A família se dedicava à agricultura e tinha também uma serraria.
Anos depois, Ledy conheceu Estevo Winkelmann com quem se casou em 1o de julho de 1942, aos 20 anos. Da união nasceram nove filhos. Ruben Roque, Odilo José, Nelson e Romeu José, - todos em memória -, Danilo Lúcio, Milton Fransisco, Romeu José, Ilson Silvestre, Marlene Maria e Neli Inês. A filha Marlene conta que a última gravidez da mãe foi aos 43 anos de idade e que de todos os filhos, somente ela nasceu em hospital.
Depois de alguns anos morando em São José do Inhacorá, o casal de agricultores, já com três filhos, foi morar em Alegria. Anos depois, comprou uma área de terra em Lajeado Cansi, interior de São José do Inhacorá. Ali, Ledy e Estevo viram os filhos crescer e prosperar.
Anos mais tarde, o patriarca da família adoeceu e faleceu aos 58 anos. "Nós e a mãe, então com 55 anos, continuamos lá, trabalhando na lavoura. Aos poucos, um por um foi casando e constituindo sua própria família. Só o meu irmão Odilo José ficou morando com a mãe. Foram quase 25 anos somente os dois".
Em 2016, aos 94 anos, dona Ledy sentiu as pernas cansarem e não pôde mais caminhar... passou então a fazer uso da cadeira de rodas. Devido os cuidados que ela necessitava, foi morar com a filha Marlene.
Uma mulher de hábitos simples
De hábitos simples, Marlene conta que a mãe nunca foi de "passear pela vizinhança", nem mesmo de jogar cartas com as amigas. "Quando ela não ia para a roça, ela fazia crochê, tricô e costurava. Mas a grande paixão dela eram as flores, sempre muito lindas", revela a filha.
"Até os 90 anos, a vó ainda fazia pequenos consertos nas roupas da família. Só parou porque a visão ficou prejudicada", complementa a neta.
O amor pelas flores está perpetuado nos descendentes. Ao chegar na casa de dois pavimentos - a centenária, a filha Marlene e o marido dela Luiz Antônio moram no primeiro piso; já a neta Margarete, o marido Sidnei Lenz e o filho Rafael no segundo piso -, nossa reportagem, se deparou com uma grande variedade de flores, todas muito lindas e bem cuidadas.
Religiosa, a centenária sempre frequentou a igreja. Devido à dificuldade de locomoção, hoje ela recebe a bênção do frei Luiz que faz visitas nas casas.
A vovó Ledy com a neta Margarete e a filha Marlene, com quem mora desde 2016
Dia a dia da centenária
Um dos hábitos que Ledy não abre mão é tomar diariamente seu chimarrão e no verão o tereré. "Assim que esquenta um pouco, ela pede tereré.. ela adora", revela a neta.
Já o jantar – lá pela 17, 18 horas -, a preferência é por leite, pão e mortadela. “Às vezes ela aceita uma sopa; mas o que ela gosta mesmo é uma xicara com leite, um pedaço de pão e o pedacinho de mortadela, que não pode faltar”, diz a neta Margarete.
Outro hábito adquirido com o passar dos anos é dormir por volta das 18 horas. “Pelas 17 horas ela já começa a olhar onde está sol. Aí ela pede a janta, porque quer ir dormir. Às vezes consigo segurar ela até as 18h, mas é difícil", revela a filha Marlene.
Mesmo indo dormir cedo, a vovó Ledy dorme até às 7 horas do outro dia. "Durante a noite, às vezes ela quer ir no banheiro ou pede água para beber. No mais, é bem tranquilo".
Com hábitos saudáveis, Ledy poucas vezes esteve no hospital. A última internação foi em 2019, devido a problemas no coração. Hoje faz uso de medicação para o coração e para melhorar a circulação do sangue.
Durante a pandemia, os cuidados de toda a família foram redobrados. "Eu peguei Covid duas vezes, a minha mãe teve Covid e dengue. A gente cuidou muito para não passar para a vó. Graças a Deus ela não teve Covid até hoje", conta Margarete aliviada.
Dos fatos mais tristes na vida de centenária foi a morte precoce do marido e de quatro filhos, principalmente de Odilo, no ano de 2017. Ele morreu em consequência de queimaduras, provocadas por um incêndio na lavoura de cana. “Para a vó foi muito difícil, porque era o filho que viveu com ela a vida toda. Depois que o pai morreu, eram só os dois e isso foi por uns 25 anos. Desde lá ela decaiu bastante, não é mais a mesma”, diz Margarete que sempre foi muito próxima da avó.
Gratidão, muita gratidão
A neta Margarete ajuda nos cuidados com a vó. É ela quem a leva para as consultas, exames, por exemplo.
Mãe de Rafael Augusto, 8 anos e a espera de mais um bebê, a neta é só gratidão pelo convívio com a centenária. "Eu só tenho a agradecer por ter ela como avó. Agradeço por todos os ensinamentos que ela me deu e que continua dando. Agradeço por tudo que vivi e vivo com ela. Um dos momentos mais marcantes na minha vida era quando minha mãe ia na casa dela, e eu podia ir junto. Uma semana antes do Natal, íamos lá para limpar a casa dela e fazer bolachas para no dia de Natal reunir toda a família... quanta saudade desse tempo. Eu me lembro muito bem do gostinho da comida que ela preparava. Tantas lembranças maravilhosas. No momento que minha vó decidiu vim morar com minha mãe, fiquei muito feliz, pois ter a vó por perto é muito gratificante. Estarei sempre aqui pra ajudar no que ela precisar. Minha vó é um exemplo de mulher forte, guerreira e sempre foi muito trabalhadora. Peço a Deus que continue a abençoando com muita saúde e longevidade", diz a neta emocionada, que está a espera de mais um filho.
Marlene tem na mãe um exemplo de força, superação e dedicação à família. "Quando ela tinha 94 anos decidiu vir morar comigo, foi um momento gratificante. Hoje passo mais tempo com ela e tento retribuir os cuidados que um dia ela teve comigo. Com a vinda da pandemia, os cuidados foram de extrema importância, pois cuidamos muito para que nada acontecesse com ela. Ter uma mãe centenária é muito gratificante, só tenho a agradecer a Deus e peço que continue a abençoando com muita saúde. E que possamos viver muitos anos pertinho"
No dia 7 de setembro - dia do aniversário de dona Ledy, a família se reuniu em um belo almoço de confraternização para celebrar a data, com presença dos filhos, irmãos, netos, bisnetos e demais familiares. "Foi um encontro de muita emoção e gratidão", resume a neta Margarete.
A vovó Ledy tem 16 netos e 20 bisnetos.









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