TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - A CASA CENTENÁRIA DO DR. FREDERICO KREBSER
A CASA CENTENÁRIA DO DR. FREDERICO KREBSER
Antes de vir morar na Vila Buricá, em 1925, o suíço Fritz Armin Krebser, que em seus primeiros anos no Brasil havia se formado em licenciatura médica em São Paulo, estabeleceu-se em Neu–Württemberg (Panambi), onde passou a trabalhar como médico no hospital local, após se unir em matrimônio, no dia 21 de fevereiro de 1925, na região de Monte Alverne, distrito de Santa Cruz, com Elvira Uhry. Lá, nasceu a primeira filha do casal que recebeu o nome de Thuna, em homenagem à cidade de Thun, na Suíça, onde a família do Dr. Krebser vivia.
Na época, Frederico Armin Krebser (como passou a se chamar após sua naturalização no país) costumava participar de carreiras de cavalo, e a convite de um amigo de Cruz Alta, viajou muitas vezes para lugares distantes no Estado para participar das carreiras que o amigo organizava. Numa dessas oportunidades, acabou vindo parar na região de Santa Rosa e foi quando pela primeira vez soube da existência de Buricá.
Com o nascimento da primeira filha, o casal resolveu que já era hora de terem a sua própria morada, mas, por receio do rio que cruzava no meio da cidade, o Rio Fiúza, Elvira não concordou em construir a residência da família em Neu-Württemberg, pois onde havia crescido o rio que cruzava próximo costumava extrapolar as margens em períodos de grandes precipitações de chuva, causando muitos transtornos. Então Elvira foi incisiva com seu marido: “Se você insistir em ficar, eu pego minha filha e volto para a casa de meus pais!”. O Dr. Krebser não teve outra escolha e decidiu que já era hora de mudarem-se dali.
Foi então que se lembrou do povoado de Buricá, onde possuía conhecidos, lugar que estava atraindo muitas famílias e onde não havia médicos e nem sequer um hospital.
Foi então que Germano Uhry, pai de Elvira, adquiriu uma área de terras medindo um hectare no povoado de Buricá e deu como presente de casamento para a filha e o genro. O local ainda era coberto de mato e repleto de árvores enormes que precisariam ser derrubadas para se poder construir algo ali.
Krebser também percebeu que o terreno era tomado de formigas, que lhe subiam pelas pernas, algo comum em toda a região. Logo começou a derrubada de árvores do terreno a fim de levá-las para a serraria que ficava a alguns metros do local, de propriedade do Sr. Otto Fritsch (atualmente Posto Fritsch), para transformá-las em madeiras que posteriormente usaria na construção de sua casa. O construtor que contratou para levantar a casa foi o Sr. Walter Elsenbach, cunhado de Ernesto Fleck, hoteleiro que havia se estabelecido em terreno quase em frente ao terreno adquirido por Frederico Krebser, e que havia iniciado ali a construção de um hotel mais espaçoso e com mais infraestrutura para seus hóspedes, o futuro Hotel Fleck.
Mas como a obra do hotel progredia devagar devido à escassez de recursos financeiros de seu proprietário, Walter Elsenbach se disponibilizou para a construção da residência da família Krebser.
Elsenbach ergueu as paredes da casa afixando os tijolos com barro e depois as rebocou com argamassa de cimento e areia, materiais que vinham de trem de Santa Maria para Giruá e depois, até Buricá dentro de carroças conduzidas por juntas de mulas. A cobertura de zinco do telhado foi importada da Inglaterra, com águas de caimento bastante inclinadas para evitar o acúmulo de neve em cima da casa, o que acabou sendo útil apenas no dia 20 de agosto de 1965, único dia em que nevou em Três de Maio, quando a neve nos telhados das casas causou grandes transtornos na região. Os únicos materiais utilizados na construção da casa, conseguidos no povoado, foram os tijolos, da olaria do Senhor Reinoldo Selzler, e a madeira que havia sido extraída do próprio terreno.
Durante a construção da casa, Frederico Krebser alugou um imóvel nas proximidades da serraria de Augusto Zillmer (esquina da Avenida Uruguai com a Rua Ijuí), onde passou a morar com sua esposa e filha, montando ali também seu consultório médico, para atender pacientes com as mais variadas enfermidades.
Mas o imóvel não possuía espaço suficiente para internação de pessoas que necessitassem de maior acompanhamento, principalmente aquelas que moravam em locais distantes do povoado e que exigiam longos deslocamentos para poderem ser tratadas, o que o obrigou a alugar uma casinha do outro lado da rua (atualmente terreno ao lado do posto Santa Terezinha na Rua Ijuí) para internações.
Mesmo assim, o aumento da demanda por quartos para internação acabou se tornando o principal problema para o Dr. Krebser, o que só foi amenizado quando, tempos depois, uma senhora chamada Frau Scharp construiu um prédio de madeira, com quatro peças, em um terreno mais ao Sul, na quadra n° 21 (hoje local onde está instalado o Palácio Municipal), e ela própria passou a cuidar das pessoas que eram internadas ali, sendo eventualmente amparada pelo Dr. Krebser.
Logo, um médico novo no povoado assumiu as funções ao lado de Frau Scharp no cuidado destes pacientes, o Dr. Hugo Bube dos Santos, que também passou a contar com a ajuda do Dr. Krebser sempre que esta era solicitada.
Dr. Bube e sua esposa, Ilse Ritter, estavam instalados bastante próximos, do outro da rua, no Hotel Três de Maio, de propriedade do madeireiro Augusto Zillmer e tocado por sua esposa e suas duas filhas (construído no terreno localizado entre as Lojas Colombo e o Banco do Estado do Rio Grande do Sul – Banrisul, imóvel que posteriormente foi adquirido por Luiz Bonamigo).
Quando finalmente Frederico Krebser se mudou com sua esposa e filha para a nova residência, instalou ali seu consultório médico e também uma farmácia para sua esposa Elvira, assim como uma sala para esterilização, passando o local a ter um espaço mais adequado para o atendimento dos pacientes.
Mas ainda assim o problema da falta de espaço para internações voltou a assombrá-lo, pois o número de pacientes aumentou enormemente, uma vez que vinham pessoas de longe para serem atendidas pelo médico, como Ivagaci, Santa Terezinha e Tucunduva, e levá-las para o hospitalzinho de Frau Scharp o faria ter que se ausentar rotineiramente de seu consultório devido à distância, além de, na maioria das vezes, não haver espaço para mais pessoas neste hospitalzinho, devido o local contar com só quatro quartos.
Foi então que Krebser lembrou-se do casal Ernesto e Rosalina Fleck, que estavam construindo o hotel no terreno em frente, os quais já haviam conseguido construir alguns quartos e um banheiro, mas não haviam ainda conseguido construir a cozinha e demais suportes necessários para o hotel, e o Dr. Krebser então propôs ao casal utilizar a parte já concluída para a internação de seus pacientes, mediante pagamento com aquilo que os pacientes pudessem oferecer.
O casal concordou de imediato com o proposto e então os pacientes do Dr. Krebser passaram a ficar em observação nos quartos daquele que futuramente viria a se tornar o Hotel Fleck.
Superados estes percalços iniciais e devidamente instalados em sua nova residência, Frederico Krebser e Elvira Uhry tiveram mais dois filhos: Willy Hari Krebser (1927), e Mercedez Elza Krebser (1929).
Mas devido a algumas rusgas entre o distrito de Três de Maio e a sede Santa Rosa, ocasionadas por reiteradas tentativas de emancipação do distrito, outros problemas envolvendo a casa surgiriam, literalmente, pelo caminho da família Krebser.
A casa havia sido construída de acordo com o gabarito dos planos do povoamento, passado gentilmente a Krebser pelo engenheiro da companhia de colonização, Dr. Frederico Jorge Logemann, onde se estabelecia que a estrada em frente seria a continuação da Avenida Uruguai, e por isso, a casa foi construída em alinhamento com o traçado determinado para esta Avenida.
Porém, anos mais tarde, quando começaram os trabalhos de calçamento das ruas, pela família Maicá, os calceteiros, que haviam iniciado os trabalhos na Rua Horizontina, próximo ao Frigorífico Sthall, ao chegarem na esquina com a Avenida Uruguai, ao invés de encerrarem os trabalhos naquele ponto para priorizarem a continuação da Avenida (que possuía dois metros a mais de largura que a Rua Horizontina), deram continuidade seguindo o traçado da Rua Horizontina, interrompendo a continuidade da Avenida Uruguai, o que acabou direcionando a rua para o exato ponto onde estava construída a casa da família Krebser.
Naqueles dias, Frederico Krebser foi várias vezes até Aurélio Maicá lhe avisar: “Seu Maicá, essa continuação aqui é da Avenida Uruguai!”. Mas ao que parece, de nada adiantou. Tiveram que logo adiante corrigir a rua, (em frente a Lojas Quero-Quero existe uma curva), e devido as reclamações feitas, que insistiam em transformar aquele traçado em Avenida, o engenheiro da prefeitura de Santa Rosa, responsável na época, resolveu deixar meio metro de um lado e de outro da rua como espaço utilizável para veículos, sem calçamento, dizendo: “Se Três de Maio quer avenida, então que invista!”.
Assim os planos iniciais do povoamento foram abandonados na esquina da Avenida Uruguai com a rua Horizontina, que deveria seguir todo o seu percurso como Avenida Uruguai até o fim do calçamento, na esquina do Hotel Fleck (atual esquina da Rua Horizontina com a Rua Mato Grosso), restando como lembrança deste projeto apenas o registro na escritura da casa da família Krebser.
A filha mais jovem de Frederico e Elvira Krebser, Mercedes, que para muitos é conhecida apenas como “Cedi”, passou toda a sua vida morando nesta casa, e até hoje, aos 97 anos, observa a rua em frente desejosa de que um dia ela volte a se tornar a Avenida Uruguai, como havia sido prometido a seu pai, algo que seguidamente ela cobra do prefeito Marcos Corso, com quem tem grande amizade (inclusive indo pessoalmente até o gabinete), já que logo que formado em Direito pela UFSM em 2010, Corso montou seu primeiro escritório de advocacia na sala da frente da casa, sala onde outrora o Dr. Frederico Krebser havia montado seu consultório médico, quando tornou a residência da família Krebser, naqueles anos, além da mais bela, a mais importante de Três de Maio.

A construção da residência da família Krebser levou aproximadamente um ano para ser concluída e, conforme Mercedes e sua sobrinha, Carla Becker, neste mês a casa completa 100 anos de existência

Frederico Armin Krebser
Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche









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