ECOS DO TEMPO: A história de Otília Hack

Uma mulher especial, marcada por limitações, mas envolvida por uma vida inteira de cuidado, afeto e parceria fraterna. Uma narrativa sensível sobre amor, presença e dignidade.

ECOS DO TEMPO: A história de Otília Hack

Edgar chegou carregando um estojo com uma gaita. Junto dela, trazia algo ainda mais pesado e precioso: a emoção. Antes mesmo de começar a falar, já era possível perceber que aquela não seria apenas uma entrevista, mas um reencontro com a memória, com a dor, com o afeto e com uma vida inteira de cuidado compartilhado.

Otília Hack, a irmã mais velha da família, tem hoje 92 anos. Nasceu em Venâncio Aires, uma colônia de Terra Dobrada, Linha Cipó, um lugar de chão acidentado, cerros íngremes e histórias marcadas pela dureza da vida no interior. Edgar recorda que havia um cerro muito grande próximo à casa da família e que, em tempos de muita chuva, a terra descia com força. Em uma dessas ocasiões, um grande desmoronamento levou o galpão onde ficavam as vacas e os porcos. As vacas, numa tentativa instintiva de se defender, arrancaram as estacas e se salvaram. Mais tarde, o pai encontraria os porcos já sem vida, soterrados pela enxurrada. A casa, por pouco, não foi atingida. “Foi milagre”, diz Edgar, repetindo as palavras da mãe. 

Moravam próximo, uma tia e a vizinha Maria Luiza,  esta sempre prestativa,muitas vezes cuidava das crianças, quando ficavam sozinhas, ambas testemunharam a tragédia.

Eram seis irmãos: três homens e três mulheres. Hoje, apenas Edgar e Otília seguem vivos. Ao falar da infância, ELE se emociona ao lembrar que, quando era pequeno e muito chorão — como ele mesmo diz, entre risos — era Otília quem o carregava no colo para subir o cerro íngreme. Há 11 anos de diferença entre eles, e desde cedo Otília assumiu um papel que ele define com carinho: “ela era uma mãezinha para mim”.

Otília nasceu com deficiência intelectual e, ao longo da vida, enfrentou convulsões frequentes, que até hoje exigem medicação e cuidados constantes. Sua idade mental sempre foi a de uma criança, cerca de nove anos. Mesmo assim, era comunicativa, carinhosa e nunca gostou de ficar sozinha. “Se tem parceria, ela está feliz”, resume Edgar. 

Por causa da deficiência, Otília não frequentou a escola, mas sempre participou da vida da família do jeito que podia, ajudando nas tarefas da lavoura ao lado da mãe e dos irmãos. Os pais eram agricultores. A vida era sofrida. 

Edgar lembra que, aos sete anos, já precisava “puxar enxada”. Mais tarde, quando o pai faleceu e a mãe ficou viúva, a família enfrentou ainda mais dificuldades. A mãe casou novamente, desta vez com o tio, irmão do pai, e pouco tempo depois ficou viúva pela segunda vez. Edgar tinha apenas 13 anos quando precisou assumir o papel de “homem da casa”. 

Otília, naquela época, tinha 23 anos, e uma das irmãs era cadeirante, o que tornava tudo ainda mais difícil. Ele lembra de um episódio marcante: arava a terra com bois que não obedeciam, o arado virou e ficou preso num galho. A mãe, que carpia ali perto, correu para ajudá-lo. São lembranças duras, mas carregadas de união.

Com o tempo, a família se mudou para Horizontina, isso em 1949. A vida começou a mudar. Plantaram fumo, depois soja, criaram suínos. Em diferentes momentos, Otília morou com irmãos: passou um período no Paraná, depois com uma das irmãs. Houve um tempo em que precisou ficar em um asilo. Quando a mãe se mudou novamente para o Paraná, Otília foi junto. Após o falecimento da mãe, passou a viver com a irmã mais nova, onde ficou por muitos anos.

Mais tarde, quando essa irmã adoeceu, Edgar foi buscar Otília para morar com ele. Foram mais de dez anos de convivência tranquila, marcados por cuidado, afeto e rotina compartilhada. Edgar fez melhorias na casa, construiu um banheiro privativo para facilitar os cuidados. 

Quando integrou a diretoria da APAE, levou Otília para estudar na instituição, no turno da tarde. “Ela adorava”, conta. Chamava a APAE de “escola”, e bastava mencionar a possibilidade de ir para lá para que ela se animasse, esquecendo qualquer tristeza. 

Quando não havia aula, Edgar sempre inventava uma tarefa: escolher feijão, arrancar e descascar amendoim. Otília nunca gostou de ficar ociosa.

As lembranças da infância também trazem leveza: as brincadeiras em que Edgar subia nas costas da irmã para brincar de “cavalinho”, os momentos simples que hoje ganham um valor imenso. 

Há também recordações dolorosas, como o dia em que precisaram ir ao dentista a pé, de madrugada, para conseguir ficha. Edgar percebeu que Otília estava prestes a convulsionar, avisou a mãe, mas, nervosa, ela não deu atenção. No caminho, Otília teve a convulsão. Edgar tinha apenas 14 anos. Um susto grande, em um tempo em que o acesso à saúde era difícil e o conhecimento, limitado.

A decisão de levar Otília para o Lar veio quando a esposa de Edgar adoeceu e ele já não tinha condições de oferecer os cuidados que a irmã precisava, especialmente no banho e na atenção constante exigida. Houve um período de espera por vaga e um tempo em um lar em Três Passos, até que Otília pudesse ser acolhida definitivamente no Lar Amigos dos Idosos de Três de Maio.

Edgar diz que não foi uma decisão fácil, mas foi consciente. “Ela precisava de cuidados especiais”, reconhece.E o tempo mostrou que foi a escolha certa. 

Desde que chegou ao Lar, há cerca de seis anos, Otília se adaptou muito bem. Nunca pediu para ir embora. Edgar percebeu que ela estava mais feliz ali, onde há alguém cuidando dela 24 horas por dia. Sempre o reconhece quando ele chega para visitá-la, chamando-o pelo apelido da infância: “Etgar”. A memória de Otília ainda guarda muitas lembranças boas. No último Natal, ao receber um presente, a primeira coisa que disse foi: “tem amendoim pra colher?”, lembrança viva dos tempos da chácara.

Otília gosta de cantar e dançar. Edgar, com sua gaita, vem com frequência tocar para ela e para os demais idosos. São momentos de alegria, descontração e afeto compartilhado. Ele fala com gratidão do Lar, dos funcionários e do cuidado que a irmã recebe. Diz que a instituição merece respeito, carinho e apoio, e que sempre que puder, irá contribuir.

Ao final da entrevista, Edgar resume tudo em poucas palavras, ditas com os olhos marejados: “Otília é especial pra mim, porque me cuidou. Eu tenho um vínculo com ela”. E completa com uma reflexão que carrega como princípio de vida: quando lê na Bíblia que devemos amar o próximo, entende que “o próximo é aquele que precisa de mim”.

Assim é a história de Otília: uma vida simples, atravessada por dificuldades, mas sustentada pelo amor, pela presença e por um cuidado que nunca se perdeu. Uma história que continua viva, todos os dias, no lar, na música da gaita e no coração do irmão que nunca deixou de ser parceiro.