ECOS DO TEMPO: A história de vida de Leopoldo Relly

Entre lembranças marcadas pela simplicidade do interior e pela força diante das perdas, o filho Aldino Relly revive a história de seu pai com muita emoção

ECOS DO TEMPO: A história de vida de Leopoldo Relly

Ao recordar a caminhada de Leopoldo Relly, o filho destaca o exemplo de coragem de um homem que, mesmo após a dor, assumiu sozinho a missão de criar seus filhos com amor e responsabilidade. É uma história de trabalho, fé e dedicação que atravessa gerações.

Aldino respira fundo antes de começar. A emoção aparece no olhar e na voz quando ele revisita as memórias do pai, um homem simples, mas marcado por uma força silenciosa que sustentou toda a família. 

Conta que seu pai nasceu no interior de Arroio do Meio e, ainda criança, mudou-se com a família para Três Passos, onde construiu praticamente toda a sua história. Mais tarde, parte das terras da família ficou na localidade de Pinhalzinho, hoje pertencente a Bom Progresso.

Aldino sabe que a vida sempre foi ligada à agricultura. Não havia energia elétrica, nem água encanada. A água era buscada no rio, muitas vezes turva, e as roupas eram lavadas num cocho. “Era uma vida dura, mas era a vida que eles conheciam”, diz, com respeito.

 

A dor que transformou um pai em fortaleza

Arnoldo emociona-se ao lembrar do episódio que mudou completamente o rumo da família. Seu pai havia se casado jovem e teve quatro filhos: Anildo, Leonida, Aldino e Lili. Mas a tragédia chegou cedo demais. A esposa Veni Games faleceu quando as crianças ainda eram pequenas — o mais velho tinha apenas dez anos e o mais novo quatro. Ele faz uma pausa antes de continuar.

A partir daquele momento, Leopoldo passou sete anos cuidando sozinho dos quatro filhos, trabalhando na lavoura durante o dia e assumindo todas as tarefas de casa.

“Ele fazia almoço, lavava as roupas, remendava peças usadas e até costurava nossas roupas. Ele comprava tecido e se sentava na máquina de costura. Não era fácil comprar roupa nova naquela época”, recorda Aldino, com orgulho.

A carne era conservada na banha, o pão era simples e as crianças passavam banha e sal para reforçar o sabor. Tudo era feito com o que havia. Não sobrava quase nada, mas também não faltava o essencial: cuidado, dedicação e amor.

 

Trabalho, disciplina e valores

Mesmo com pouco estudo — apenas o básico para ler e escrever — Leopoldo sempre valorizou o trabalho e a honestidade.  A educação dos filhos era rígida, mas, segundo Aldino, necessária para o tempo em que viviam.

Desde cedo, todos ajudavam na roça: capinar, tirar leite, cuidar dos animais e recolher ovos. A escola era comum os filhos cursarem o Ensino Fundamental, no máximo até a quinta série; depois, a lavoura se tornava a principal sala de aprendizado.

Entre lembranças difíceis, Aldino também sorri ao recordar as histórias que o pai contava sobre a juventude: brincadeiras simples, sustos entre irmãos e travessuras típicas de quem cresceu no interior.

 

Um novo capítulo

Quando Aldino tinha cerca de dez anos, uma nova esperança surgiu. Por indicação de um conhecido, Leopoldo conheceu uma viúva  Lori Warken Kochem, de Boa Vista do Buricá. Eles se casaram em 1977, e toda a família mudou-se para lá.

Com o novo casamento, a família cresceu. De quatro filhos, passaram a seis, pois a madrasta trouxe duas filhas. 

Aldino lembra com carinho que ela assumiu a organização da casa e ensinou todos a cozinhar, lavar e cuidar do cotidiano.

A vida continuou difícil, mas melhorou: havia energia elétrica e água encanada. Aos sábados, toda a família caminhava cerca de três quilômetros para participar da missa — a fé era parte essencial da rotina.

Aldino também conta com orgulho que seu pai ajudou na construção da igreja em Três Passos: ele, o avô e o tio serraram a madeira usada na obra.

 

Um homem simples, mas extraordinário

Leopoldo sempre foi conhecido como alguém tranquilo, trabalhador e justo. “Nunca fez mal para ninguém.”  O conselho que o pai repetia aos filhos era direto: “Não sejam mulherengos, não sejam bêbados e nem ladrões. Se quiserem ter valor na vida, sejam trabalhadores e trabalhadores vocês já são.”

Para Aldino, esse ensinamento resume quem foi seu pai.

 

O tempo e os cuidados

Após muitos anos de vida compartilhada, Leopoldo enfrentou outra grande perda: a morte da segunda esposa, quando já tinha 83 anos. Aldino conta que o pai ficou profundamente abatido e chegou a ser internado naquela época.

Com o avanço da idade e de problemas de saúde, tornou-se necessário um cuidado contínuo. A família se reuniu e, com muito carinho e responsabilidade, decidiu levá-lo para o lar de idosos, onde recebe acompanhamento permanente. “Foi uma decisão difícil, mas necessária. Lá ele tem profissionais cuidando dele o tempo todo. Sozinho, ninguém conseguiria dar conta.”

Hoje, mesmo com algumas confusões de memória, Leopoldo demonstra estar adaptado. Quando visita a casa dos filhos, no fim do dia pede para voltar ao lar — lugar que passou a reconhecer como seu novo lar.

 

Gratidão que permanece

Aldino finaliza a história com os olhos marejados.

Ele diz que, quando olha para o pai, não vê apenas um agricultor ou um homem simples — vê alguém que venceu a dor, criou quatro filhos sozinho por sete anos e nunca desistiu da família.

“Se hoje somos quem somos, foi por causa dele.”

E, em silêncio, fica evidente que essa é uma gratidão que o tempo jamais vai apagar.

 

 

Hoje encerramos o Projeto Ecos do Tempo

Com a história de hoje, o projeto Ecos do Tempo chega ao fim deixando uma marca profunda de emoção, empatia e aprendizado.

Ao longo das histórias compartilhadas nas páginas do JORNAL SEMANAL desde maio de 2025,  pudemos conhecer mais de perto os moradores do Lar Amigo dos Idosos de Três de Maio — pessoas que antes de estarem ali viveram intensamente, criaram famílias, superaram dificuldades, trabalharam, sonharam e construíram trajetórias cheias de significado. Ao contarem suas memórias - por ele ou pelos filhos - voltaram a ser protagonistas da própria história, resgatando lembranças e reafirmando o valor de cada etapa da vida.

Um dos propósitos do projeto foi também desmistificar a visão equivocada de que as famílias “deixam” seus idosos no lar por descuido ou desinteresse. Muitos familiares, ao tomarem essa decisão, são injustamente julgados e até hostilizados, quando na verdade agem movidos pelo amor, carinho e pela responsabilidade. Reconhecem que o idoso precisa de um cuidado constante e qualificado — algo que o Lar Amigo dos Idosos oferece com dedicação e excelência. 

A instituição conta com uma equipe multidisciplinar formada por enfermeira, assistente social, psicóloga, fisioterapeuta, nutricionista, administradora, técnicos de enfermagem, cuidadoras de idosos, cozinheiras, auxiliares de limpeza, auxiliar administrativo e monitora para trabalhos manuais, além de uma diretoria voluntária que se dedicam a garantir qualidade de vida, acolhimento e bem-estar a cada morador. No lar, os idosos encontram um verdadeiro lugar de pertencimento, onde se sentem cuidados, valorizados e parte de uma nova família.

Por fim, Ecos do Tempo buscou sensibilizar a comunidade sobre a importância do Lar dos Idosos e sobre o papel fundamental de cada pessoa na manutenção dessa instituição. 

Que as histórias compartilhadas - foram mais de 30 histórias do SEMANAL,  despertem em cada um o desejo de contribuir, participar e apoiar as campanhas de doação promovidas pela entidade, garantindo que esse trabalho de amor e cuidado continue.

As histórias contadas foram emocionantes e cheias de sabedoria e trouxeram reflexões, despertaram sentimentos e deixaram lições preciosas. 

Aos idealizadores do projeto - diretoria do Lar e parceiros voluntários, fica a esperança de que cada palavra tenha tocado o coração de quem leu — e que o eco desse tempo siga inspirando gestos de afeto, respeito e solidariedade.