A poeira nas chuteiras dos Irmãos Weiss

Os irmãos Vilson e Vitalino Weiss se criaram trabalhando na roça, no interior de Consolata. No começo, o futebol não despertava muito o interesse dos dois. Nas folgas do trabalho, Vilson gostava de criar galos finos, junto com seu amigo, Evaldo Genz, e Vitalino, que mais tarde seria conhecido como “Viti”, gostava de se divertir com cavalos e caçadas.

A poeira nas chuteiras dos Irmãos Weiss
Irmãos foram craques pelo Oriental. Hoje, recordam histórias dos campos de futebol três-maienses (Pesquisa, produção e foto: Clemar Zimmermann)

Os primeiros passos no futebol dos irmãos Vilson e Vitalino Weiss foram incentivados pelo tio, Florentino Weiss, conhecido como Nenê Weiss. O tio nunca foi jogador de futebol, porque se considerava um ‘perna-de-pau’, mas, apesar disso sempre dizia, “posso não jogar, mas eu sei como se faz”. Através do conhecimento absorvido pelo entusiasmo com o esporte, o tio dava dicas para os sobrinhos sobre quais técnicas achava que um jogador precisava ter para ser completo.

Ele explicava que um bom jogador precisava primeiro dominar a bola com os dois pés e, depois, saber chutar, também com os dois pés, além de  chutar com precisão, claro que com os dois pés. Deveria ainda ter o cuidado de nunca jogar atrás do adversário, mas sempre do lado, para que ele estivesse sempre em condições de receber uma bola. E isso era explicado repetidamente para os sobrinhos, que treinavam com uma bola velha numa rede improvisada pelo tio em seu potreiro.

 

O começo no futebol amador

Em 1959, foi realizado um torneio de futebol na escola que frequentavam, o Colégio João Batista, de Bela Vista. O torneio foi promovido pelo professor Ermínio Baú, um grande incentivador do futebol entre a piazada de Consolata. Mas as coisas acabaram não saindo como o professor queria, pois teve muitas dificuldades para montar os times, devido à escassez de jovens com o perfil adequado para o torneio. Foi então que o professor resolveu escalar os irmãos Weiss.

Os treinos no potreiro do tio acabaram revelando dois bons jogadores e Vilson foi convidado a jogar no Grêmio de Esquina Pértile, ficando lá por um breve tempo, até que o professor Baú o convidou para jogar no Guarani de Consolata, time que também era técnico.

Algum tempo depois, em uma conversa informal entre Artur Nagel, dirigente do Oriental Futebol Clube, e Lauro Rehrs, que também fazia parte da diretoria do time de Consolata, Nagel comentou sobre a dificuldade que tinha para formar uma equipe juvenil em seu clube, e perguntou se ele não teria alguém para indicar. 

Lauro indicou Vilson Weiss, que, em pouco tempo, começou a jogar como ponta-direita também no Oriental, logo firmando-se como meio-campo.

 

Vitalino e Vilson Weiss começaram a treinar no potreiro do tio. Passaram pelo Grêmio de Esquina Pértile, Guarani de Consolata e foi no Oriental que  os irmãos marcaram história no futebol três-maiense. Irmãos residem em Três de Maio até hoje

 

Os irmãos se unem nos gramados

No ano seguinte, Vilson convidou o irmão para jogar no clube. Viti ficou um pouco hesitoso com o convite, mas o professor Baú foi categórico com o jovem, “você tem futuro no futebol, só não aqui em Consolata, porque o nosso time é limitado e não vai longe”. Então, Viti decidiu arriscar e os dois irmãos passaram a ir de bicicleta para os treinos, percorrendo estradas de chão e muito cascalho.

Em épocas de torneio, quando havia jogos preliminares, os treinos iniciavam às 13h30, e os dois saíam de Consolata de bicicleta às 12h, para poderem ir andando devagar e não chegarem cansados.

 

Revelação de grandes talentos

Em 1960 foi fundado o Botafogo Esporte Clube em Três de Maio e iniciou uma fase de grande rivalidade no futebol três-maiense.

Vilson já havia conquistado o posto de titular do time principal do Oriental, e Viti, logo nos primeiros treinos, se tornaria titular do time juvenil.

Para a titularidade do time principal era necessário que fosse um jogador regular, sem altos e baixos, e Viti começou a se destacar nos chutes de falta e pênaltis. Ele passou a treinar tanto estes chutes, que nas cobranças de faltas de fora da área, acertava a goleira com a mesma precisão que bater um pênalti. Os treinos de chutes na goleira eram improvisados no potreiro do tio Weiss, chegando até a pagar um moleque só para buscar as bolas que chutava incansavelmente tentando alcançar a precisão absoluta. 

 

Equipe do Oriental, campeão da cidade em 1963. Em pé: Orlando Bruxel, Darci Rech (Xará), Helio Canova, Roberto Tomé, Panambi, Darci Baisch, Eugênio Schneider. Agachados: Juquinha, Viti, José Utzick, Paulinho Schebela, Vilson, Luiz Bruxel, Peta Tomazi (massagista)

 

O primeiro título

Em 1963, foram campeões da cidade, com a equipe juvenil atuando como reservas do time principal, vencendo o Botafogo e o Riograndense, de São José do Inhacorá (à época, pertencente a Três de Maio).

Em meados de 1964, com 15 anos, Viti finalmente passou a jogar como titular do time principal. Era um jogador com habilidade, que evitava ao máximo o contato direto com outro atleta durante a disputa de bola, tudo para evitar alguma possível lesão.

A forma como os dois irmãos se acertavam em campo começou a chamar a atenção, pois os dois passaram a mostrar jogadas ensaiadas. A principal delas, quando Viti entrava na área do goleiro oponente com a bola e, no momento em que todos pensavam que ele chutaria no gol, ele rapidamente atrasava a bola com um toque de calcanhar para o irmão, que vinha logo atrás, para finalizar com um chute certeiro. A torcida gritava com esmero e até o tio, que deu as primeiras lições de futebol, eventualmente vinha até a cidade para assistir as partidas.

Certa vez, após uma partida em que Viti cruzou para um colega que perdeu várias chances de gol, o tio Florentino chegou para os dois e lhes deu mais uma lição. “Quando chegarem perto da área, chutem em gol! Vão passar a bola pra quem não sabe?”. Naquele tempo, nem todos os jogadores dominavam alguma técnica, a coisa era muitas vezes no improviso. Então, na falta de jogadas ensaiadas, muitas vezes o melhor era chutar em gol mesmo. Sábias palavras do tio.

 

Vilson vai para o Exército

Logo chegou a Revolução de 1964. As tropas do exército não abriam mão de ninguém em suas fileiras. Vilson, que estava em idade para servir, foi obrigado a abandonar o time. 

Na época, ele havia começado a namorar uma moça chamada Neli Lenhart, de 19 anos, e o namoro foi mantido por um ano através de cartas. O período ficaria marcado em suas vidas sendo sempre lembrado por uma música de Tonico e Tinoco, chamada “Velhas Cartas”, cuja letra, hoje, quase 60 anos depois, os dois cantam juntos debaixo da sombra do pé de manga na varanda de sua casa, em que a letra diz o seguinte: “Antiga carta guardada que o tempo amarelou é lembrança do passado que no peito ficou. Cada frase é saudade, do tempo do nosso amor...”.

Ao retornar do Exército, Vilson Weiss e Neli Lenhart se casaram, em 18 de dezembro de 1965. 

Ele voltou também a assumir sua posição no time do Oriental, ao lado do irmão Viti e jogaram por mais uma temporada juntos, quando o Oriental se filiou a categoria do futebol profissional.

Mas aquela experiência acabaria não dando certo para o clube pois, após um ano, percebendo o quanto era oneroso pagar jogadores, realizar deslocamentos até cidades distantes como Erechim e Carazinho, e, ainda por cima, pertencer a uma cidade pequena, o clube achou melhor se licenciar do profissional. Mas, para isso, precisaria ficar um ano sem disputar nenhum campeonato, e os jogadores também precisariam passar por esse período de recesso.

Esta determinação acabou se tornando um tremendo banho frio em todos, que estavam no seu auge como jogadores e Viti decidiu jogar no Tupi de Crissiumal, que também era filiado na primeira divisão do profissional, sob a presidência do  Dr. Bonotto, que havia investido forte no time. 

O time se tornou campeão invicto da Primeira Divisão de Profissionais do Estado em 1971 – Zona 2. Depois disso, Viti acabaria renovando com o Tupi por mais uma temporada.

 

Vilson, Inacio Bos e Viti quando jogavam no Guarani de Consolata. Em pé, de roupa preta, Ivo Marcos, o roupeiro do time

 

O retorno de Viti ao Oriental

Quando retornou ao Oriental, Viti já era reconhecido como um grande jogador. Em 1971, havia se casado com a jovem Elenir, filha do Sr. Osvaldo Soder, técnico da Rádio Colonial e encarregado de ligar e desligar as chaves dos transmissores da rádio que ficam próximo ao estádio.

Foi neste período que, em uma partida contra o Ypiranga de Erechim, sem gols, o colega de Viti, João Gilberto, que jogava como meia-direita, foi derrubado perto da área, resultando em uma falta. 

O goleiro do Ypiranga, Alcindo, era surdo e não tinha absolutamente nenhum medo de se jogar contra as bolas mais perigosas, sendo considerado um goleiro extremamente eficiente. Como a falta ocorreu cerca de dois metros fora do risco da grande área, o Ypiranga colocou sete homens na barreira. João Gilberto costumava chutar muito forte, e, por isso, avisou Viti que chutaria no canto mais aberto da barreira, pedindo para ele se preparar para o rebote.

Quando o juiz autorizou o chute, João Gilberto se distanciou, e Viti, que apenas observava a três passos da bola, rapidamente deu um toque por cima da barreira, fazendo a bola bater em um dos cantos da trave e entrar para dentro do gol, sendo acompanhada o trajeto ao chão pelos olhares incrédulos de todos ali presentes. 

João Gilberto veio reclamar do susto para Viti, “Viti, quase que tu erras!”. Mas não errou, e, com aquele lance, conseguiram vencer a partida por 1 a 0. Viti se mostrava um jogador cada vez mais decisivo em cobranças de faltas.

 

Na Argentina, os irmãos mostraram como se bate um pênalti

Certa vez foram jogar um quadrangular em Oberá, na Argentina. Após vencer a primeira partida contra o Atletico Oberá, foram enfrentar o Olimpia de Corrientes, que colocou em campo jogadores bastante “parrudos”. As partidas eram só de trinta minutos para cada lado, e, aos 17 minutos de jogo, o Oriental perdia por 2 a 0.

Orlando Bruxel, um dos principais jogadores do time do Oriental, começou a ficar assustado com aquilo e disse para os irmãos, “é melhor nós ficarmos com todo o time para trás, senão vamos tomar um saco de gols aqui”. Então o time todo ficou atrás e os argentinos dominaram mais ainda a partida.

No segundo tempo, aos oito minutos, os hermanos deram outra grande investida, que acabou não tendo o resultado esperado. Na recuperada de bola, Vilson fez uma tabelinha com Orlando Bruxel e lançaram a bola a frente para Viti, que se projetou numa corrida para a área adversária, acertando em cheio na bola com o pé esquerdo, marcando o primeiro gol do Oriental.

Mas o verde e branco ainda estava perdendo. Faltando sete minutos para terminar a partida e o centroavante do Oriental foi derrubado próximo à área, quando o então presidente do Oriental, Arnoldo Dummel, gritou “vamos levar isso para os pênaltis, Viti!”. Como todos já esperavam, o time adversário colocou seis jogadores na barreira e Viti mais uma vez chutou por cima dela, marcando o gol de empate da partida. Foram para as penalidades, mas, naquela época, apenas um jogador de cada time batia os pênaltis.

Após o sorteio para ver quem iniciaria chutando, Viti deu início às cobranças. Em seu primeiro chute, acertou a trave, mas mesmo assim a bola acabou entrando. Será que aquele dia, Viti não estivesse com sua melhor pontaria? Vilson, de forma gaiata, resolveu brincar um pouco com a situação e pediu um momento para o juiz. Foi até a goleira e fez um risco em forma de “X” no chão, ao lado de uma das traves, sem que ninguém entendesse o porquê daquilo. Logo todos entenderam: no seu segundo chute, Viti acertou em cheio a marca feita pelo irmão e marcou segundo gol do time. “A bola pegou tão em cheio na marca que o Vilson fez no chão que chegou até a apagar”, relata Viti.

Ao final da partida, havia marcado nas cinco cobranças e o Oriental conseguiu vencer mais uma. “Mas nós não saímos sem prejuízos. O centroavante do Olimpia, um alemão enorme, chutou uma bola tão forte no meio do nosso gol que chegou a deixar o nosso goleiro sem ar com a bolada que tomou!”, conta Viti, rindo e lembrando do sufoco pelo qual passaram.

 

Fundação da Associação Tresmaiense de Esportes

No ano de 1975, um murmúrio surgia pela cidade de uma possível fusão entre os times do Botafogo e do Oriental. 

As opiniões se dividiam sobre a criação de uma grande potência regional no futebol, mas que poderia acabar com a principal alegria dos amantes do futebol trêsmaiense: a rivalidade histórica que fazia até mesmo as duas torcidas beberem cervejas diferentes para demarcarem seus territórios. Viti lembra bem desse momento, pois estava no centro dos acontecimentos.

Certa vez, quando Viti estava na cabine da Rádio Colonial, local que lhe era corriqueiro por  trabalhar na Comercial Dockhorn S/A, pertencente ao mesmo grupo da rádio, o apresentador Tarquínio Zimmermann, lhe perguntou o que achava da ideia de fusão. “Olha, vocês não vão gostar do que eu vou dizer; eu vejo que vocês estão empolgados com isso, mas todos os municípios que fizeram fusões acabaram com o seu futebol”, respondeu Viti. 

Não era bem o que o pessoal da rádio queria ouvir naquele momento, pois o programa debatia justamente os pontos positivos daquela pretensão entre os dois clubes, mas logo o comentário de Viti se mostraria coerente.

A fusão ocorreu e recebeu o nome de Associação Tresmaiense de Esportes. Mas, já na primeira partida, quando o time, composto de jogadores da dupla Botal entrou em campo, liderado pelo técnico Donga, de Ijuí, houve divergências. Naquele momento, dois senhores na arquibancada levantaram e começaram a discutir por conta de um jogador a mais do Oriental no time. “Nos últimos dois anos o Botafogo foi campeão estadual de amadores e o Oriental não! Isso é panelinha”, gritou um deles.

Nenhuma torcida admitia que aquele time, que teria que ter necessariamente 11 jogadores, tivesse seis jogadores do time rival. E assim, junto às críticas acirradas da torcida, os principais apoiadores dos times também começaram a perder o entusiasmo, fazendo com que as pretensões da Associação Tresmaiense, acabassem no ano seguinte, faltando três partidas para o final da temporada. 

Conforme o ex-narrador Luiz Cesar Fasolo, a associação disputou apenas duas vezes o Campeonato de Futebol da Segundona Gaúcha, nos anos de 1992 e 1993.

 

Momentos vividos pelos irmãos ainda estão bem presentes na memória

Viti e Vilson relembram as histórias de futebol com a mesma empolgação dos tempos em que as viveram. Dizem que ainda enxergam a bola - que tanto souberam chutar -  rolando diante deles. A torcida que hoje os cercam são os filhos e netos, mas os dois ainda são reconhecidos pelo torcedores que viveram aquela época e que frequentemente os associam ao adjetivo craques.

Se as cartas que Vilson trocava com aquela que viria a se tornar sua esposa, no início do namoro, lá nos anos de 1960, hoje encontram-se amareladas pelo tempo, como declama a música de Tonico e Tinoco; a memória dos irmãos Weiss encontra-se dourada no panteão dos grandes jogadores dos gramados de Três de Maio. 

Viti e Vilson jogaram por cerca de 20 anos no Oriental, sem nunca terem sido colocados uma só vez no banco de reservas. Viti Weiss foi considerado por dois anos consecutivos o melhor jogador da região. Nada mal para dois irmãos que começaram a chutar uma bola apenas para descansar um pouco  no intervalo dos trabalhos com a enxada.