Presença de estudantes estrangeiros cresce nas escolas públicas de educação básica de Três de Maio

Até fim de fevereiro, 80 alunos, de oito nacionalidades diferentes, estavam matriculados nas redes municipal e estadual; 65 eram argentinos

Presença de estudantes estrangeiros cresce nas  escolas públicas de educação básica de Três de Maio
Na Escola Caminhos Inovadores, são 24 estudantes argentinos, um venezuelano e um moçambicano

Deixar a terra natal e embarcar rumo ao novo, ao desconhecido, em busca de melhores oportunidades em outro país. Junto com as famílias, na maioria das vezes, vêm os filhos em idade escolar. A presença de estudantes estrangeiros nas escolas básicas do Brasil é um fenômeno crescente nos últimos anos. Com isso, as escolas têm enfrentado desafios significativos, como a necessidade de adaptação linguística e a formação de professores capacitados para atender a diversidade cultural e linguística dos estrangeiros. Em Três de Maio não é diferente. Até 25 de fevereiro, na educação pública eram  80 estudantes naturais de outros países. A maior parte, estão matriculados na rede municipal de ensino, com 65. Na rede estadual são 15 estudantes. A Apae atende cinco alunos estrangeiros.

 

Alunos de outros países recebem o suporte necessário para inserção e aprendizado

Na rede estadual de ensino, das quinze matrículas, doze são de estudantes argentinos e três cubanos.

Segundo o diretor do Instituto Estadual de Educação Cardeal Pacelli, Airton Moisés Cesa, são oito estudantes naturais de outros países matriculados na escola. Destes, são três cubanos e cinco argentinos.

Quanto à adaptação desses estudantes à língua e aos conteúdos, Cesa pontuou que existe uma dificuldade, mas com o auxílio de professores e colegas de turma, eles conseguem compreender. “Existe um olhar especial por parte dos professores. A escola também realiza conversas constantes com coordenação e o Serviço de Orientação Educacional (SOE). Pedimos para que um aluno da turma acompanhe este estudante, explicando a rotina da escola”, destaca o diretor.

A Escola Estadual de Ensino Médio Castelo Branco tem sete estudantes estrangeiros, todos argentinos. A diretora Rejane Petry salienta que a escola recebe os estudantes de forma positiva pela comunidade escolar “Eles são bem acolhidos pelos colegas, professores, funcionários e equipe diretiva. Não apresentam problemas de convivência e estão integrados nas turmas, participando das atividades com interesse”, declara.

Porém, segundo a diretora, os estudantes demonstram certa ansiedade, devido às dificuldades na aprendizagem. “Essa insegurança é compreensível, pois estão em processo de adaptação linguística. Com o tempo e com o apoio dos professores e o acolhimento da turma, tendem a desenvolver mais confiança e tranquilidade”, reforça.

Segundo a direção, os estudantes apresentam dificuldade nas atividades propostas pelos professores, uma vez que ainda não conseguem acompanhar os demais e dependem de mais tempo, de mais ajuda e de orientação dos professores. Já a principal dificuldade encontrada pelos professores na aprendizagem está relacionada à escrita, especialmente para aqueles que não conhecem a língua espanhola. “Como o processo de leitura e produção textual ocorre em outro idioma, podem surgir dúvidas na compreensão das atividades e na correção dos trabalhos. Essa situação não ocorre com a professora de espanhol, que consegue orientar com mais facilidade e auxiliar quando necessário”, explica.

A direção destacou que um dos estudantes é atendido na Sala de Recursos, pois recebe Atendimento Educacional Especializado no contraturno. “De modo geral, a escola segue acompanhando e oferecendo suporte para garantir a integração e o aprendizado desses estudantes”, finaliza Rejane.

 

De cada dez estrangeiros da rede municipal, nove são argentinos

Conforme informações repassadas pela Secretaria Municipal de Educação de Três de Maio, dos 65 estudantes matriculados na rede municipal de ensino, 57 são da Argentina, o que representa 88% do total da rede. Outros dois são do Paraguai, dois do Haiti, Alemanha,  Itália, Venezuela e Moçambique, um de cada nacionalidade.

Com o alto número de argentinos, a rede municipal oferta a disciplina de Língua Espanhola nas turmas dos anos finais do Ensino Fundamental e está organizando a ampliação dessa oferta para os anos iniciais, com inclusão a partir do 3° ano do Ensino Fundamental.

Conforme a secretária Jussara Mello Hübner, nem todas as unidades escolares possuem estudantes estrangeiros, porém onde há alunos matriculados, as ações desenvolvidas não se caracterizam como projetos isolados, mas como estratégias pedagógicas individualizadas, com olhar atento às necessidades específicas de cada estudante, incluindo atendimento diferenciado e, quando necessário, acompanhamento por monitor ou apoio pedagógico. “O princípio norteador dessas ações é a inclusão, assegurando equidade no processo de ensino e aprendizagem”, destaca Jussara.

Segundo a pasta, entre as maiores dificuldades dos estudantes estrangeiros está a dificuldade de comunicação na língua portuguesa. “Nos poucos registros apontados, as dificuldades estiveram relacionadas ao período inicial de adaptação, sendo superadas gradativamente com o convívio escolar e o apoio dos professores e colegas”, detalha a secretária.

Com relação aos professores e o processo de ensino e interação, a secretária explica que eventuais dificuldades ocorreram, principalmente no início do processo de adaptação. “Isso decorre tanto na compreensão dos conteúdos quanto na integração social. Entretanto, tais situações foram pontuais e superadas com mediação pedagógica. De forma geral, a integração acontece de maneira positiva, com boa interação entre os estudantes”, acrescenta.

A pasta reforça, ainda, que a abordagem adotada pela rede municipal está fundamentada no acolhimento, no respeito e na empatia. “A intenção da Secretaria é garantir o acesso e a permanência na escola pública, independentemente da nacionalidade. Para tanto, as estratégias incluem diálogo com as famílias, apoio pedagógico, intervenções quando necessárias e acompanhamento individualizado, assegurando que todos os estudantes tenham condições de aprendizagem e integração no ambiente escolar”, conclui.
 

Números de imigrantes na educação básica de Três de Maio

Até  fim de fevereiro, havia 80 estudantes matriculados na rede pública de Três de Maio, sendo 65 da rede municipal e 15 na estadual. Segundo os números repassados pelas Secretaria Municipal de Educação de Três de Maio,  20 estão matriculados em escolas de educação infantil, 19 em escolas de  ensino fundamental e 26 na EMC Caminhos Inovadores. 

Quanto à nacionalidade,  57 são argentinos, dois paraguaios, um alemão, um italiano e dois haitianos, um venezuelano e um moçambicano. 

Já no IEE Cardeal Pacelli e EEEM Castelo Branco, são 15 alunos, sendo 12 argentinos e três cubanos.

 


 

Família do estudante Alexis veio aos poucos para o Brasil. Hoje, toda família mora e trabalha em Três de Maio

Alexis Daniel Candiyo, de 16 anos, aluno do 9° ano do ensino fundamental 
na Escola Germano Dockhorn, mora em Três de Maio há três anos

A família de Alexis Daniel Candiyo, de 16 anos, aluno do 9° ano do ensino fundamental na Escola Germano Dockhorn, veio aos poucos para o Brasil. A família é natural de Salto Encantado, região das Missiones da Argentina, distante cerca de 70 quilômetros de Porto Mauá.

Romilda Rodrigues Ferreira, de 49 anos, mãe de Alexis, falou ao Jornal Semanal, relatando um pouco sobre o período em que estão em solo três-maiense. 

Há quatro anos, o marido de Romilda,  Júlio Angel Candiyo, hoje com 50 anos, veio para o Brasil em busca de melhores condições de emprego e vida. Um ano depois, vieram Romilda e Alexis. Mais tarde, foi a vez dos três filhos mais velhos do casal, acompanhados de suas famílias. Julian, Dario - que veio da esposa Yaqueline, e Andreia, com os filhos Adriana e Miqueas. Todos residem em Três de Maio e os adultos estão empregados. “Nós viemos para o Brasil porque aqui tem trabalho e melhores condições de vida. Há anos, a situação econômica da Argentina está difícil”, comenta. Ela revela que o marido está passando um momento difícil de saúde. “Ele aguarda por uma cirurgia de varizes, tenho certeza que iremos conseguir”, comentou.

Romilda já trabalhou no Lar dos Idosos e atualmente está fazendo faxinas. “Mas eu gostaria mesmo, é retornar a um emprego com carteira assinada”. Júlio, desde que está em Três de Maio, já trabalhou em uma indústria de laticínios e atualmente está empregado em uma indústria de tanques, mas está afastado por conta do problema de saúde.

Para a família, a maior dificuldade, no primeiro momento, foi se adaptar à língua portuguesa. “Quando chegamos aqui, foi um pouco difícil, principalmente para meu filho mais novo. No primeiro ano de escola, ele reprovou, mas agora está indo bem. Hoje consegue se comunicar e escrever melhor em português, apesar de algumas dificuldades na pronúncia. Mas estamos aprendendo a cada dia”, detalhou a mãe.

Pensando no futuro, Romilda gostaria de encaminhar o filho Alexis ao mercado de trabalho. “Nossa expectativa é de conseguir uma vaga através do programa Jovem Aprendiz. Ele está com 16 anos, e com vontade de trabalhar. Seria muito bom se ele conseguisse”, mencionou Romilda. 

 

‘Lá (na Argentina) não tem especialistas como aqui. Se eu fosse atrás, teria que ir para outras cidades, por minha conta. Existe ajuda, mas pouca’

Na APAE de Três de Maio, são cinco alunos assistidos de nacionalidade estrangeira, todos argentinos. Três frequentam a escola e dois recebem atendimento de saúde. Entre os alunos da Escola de Educação Especial Helen Keller, mantida pela APAE, está Santino Dahmer, de 7 anos. Ele estuda na turma Ensino Fundamental - Anos Iniciais - Ciclo I, e tem como professora Cibele Pohl Auzani. 

Santino é filho de Graciela Dahmer, 31 anos, e irmão de Victoria Valentina Cavalini, 13, Bella Victoria Cavalini, 12, e Anthoni Augusto Parode, de 5 anos, este nascido em Três de Maio.

A mãe, falou à reportagem do Semanal  sobre a escolha por Três de Maio. Natural de El Soberbio, província de Missiones, Graciela  veio a Três de Maio pela primeira vez há seis anos com os filhos Victória, Bella e Santino. Pouco depois, engravidou do filho Anthoni, que é três-maiense. “Voltei novamente à Argentina. Mas, como a situação econômica lá foi ficando cada vez mais complicada, com poucos empregos e má remuneração, retornei ao Brasil no fim de 2024 voltei para cá”, declarou.

 

Graciela com o filho Santino

 

Naquele ano, ela retornou para Três de Maio com os filhos Santino, Anthoni e Bella. A filha mais velha, Victoria, permaneceu na Argentina com o pai.

Na Argentina, Graciela trabalhava na cozinha de um restaurante e morava em casa própria. “Eu já conhecia Três de Maio porque tenho amigas argentinas que vieram para cá. Elas falavam muito bem daqui. E então decidi também vir.”

Quando retornou para Três de Maio, ela foi trabalhar como costureira. Porém, devido às ‘correrias’ com Santino, ela não conseguiu conciliar o trabalho e a rotina que o filho exigia. “Com a renda de aluguel da minha casa na Argentina, mais o benefício da Bolsa Família do Santino e do Anthoni consigo me manter aqui”, explica. Recentemente foi encaminhado o BPC/LOAS (Benefício de Prestação Continuada) para Santino.

 

Diagnóstico de Santino

Ainda na Argentina, a família começou a suspeitar que Santino pudesse ter alguma condição especial. “Ele apresentava algumas dificuldades de aprendizado, e a escola sugeriu procurar ajuda. Eu também percebia algumas diferenças no desenvolvimento dele, especialmente em comparação às minhas filhas mais velhas. Ele era mais quieto, quase não brincava, não gostava de barulho”, disse.

A mãe explica que no país vizinho, os atendimentos especializados são diferentes do Brasil. “Se eu fosse atrás de tratamento, teria que ir para outras cidades, e tudo por minha conta. Existe ajuda, mas pouca”, explicou.

Sabendo que precisaria buscar ajuda especializada, e conhecendo que aqui no Brasil existem as Apaes, Graciela decidiu fixar residência em Três de Maio. 

 

Santino frequenta a turma Ensino Fundamental - Anos Iniciais - Ciclo I,
e tem como professora Cibele Pohl Auzani

 

Inicialmente, Santino foi matriculado na 1ª série do Cardeal Pacelli. Logo, a professora alertou a mãe sobre as dificuldades de aprendizagem. “Então fui encaminhada à Apae, onde começaram as consultas até chegar ao diagnóstico de deficiência intelectual. Em julho de 2025 ele passou a receber atendimento psicológico e fonoaudiológico especializado na Apae”, contou.

Em 2026, Santino passou a estudar somente na Escola Helen Keller. Pela manhã, frequenta a escola e nas quartas-feiras à tarde ele recebe atendimento psicológico e fonoaudiológico. “O atendimento aqui é muito bom, os profissionais são muito atenciosos”, frisou.

 

‘Ele está sendo bem atendido aqui na instituição’

O idioma não foi um problema para a família, uma vez que em El Soberbio há muitas pessoas que falam português, por ficar na fronteira com o Brasil. “As crianças tiveram um pouco de dificuldade, mas já estão adaptadas. A maior dificuldade foi fazer a documentação, porque foi um processo burocrático, mas deu tudo certo”, salientou. 

A filha Victoria estuda no Cardeal Pacelli e Anthoni frequenta a EMEI do bairro São Francisco.

Para a mãe, a Apae é muito importante para a família. “Minha vinda para cá se deu muito em função da demanda do Santino e de eu saber que aqui encontraria suporte e apoio. Desde que ele vem recebendo os atendimentos na Apae, tanto na saúde quanto na escola, o comportamento dele mudou para melhor. Estava difícil lidar com ele em casa. Ele é esforçado e está aprendendo bastante na escola. E eu fico mais calma sabendo que ele está sendo bem atendido na instituição”, citou.

Apesar da saudade da família e amigos que permaneceram na Argentina, ela diz que está muito feliz aqui e se sente muito bem. “Gosto de morar aqui, no Brasil, e não penso em voltar”.  E ela faz um agradecimento especial. “Só tenho a agradecer a Apae pelo que tem feito por nós – pelo Santino e por mim! Não tem preço o que é feito aqui; tem valor. A dedicação, o amor e o profissionalismo que temos aqui são inexplicáveis”, finalizou.