Oferta justa, câmbio favorável e demanda consistente aquecem o mercado da soja no Brasil

Para o Mestre em Economia Márcio Leandro Kalkmann, os preços podem continuar em alta até o início do ano de 2021; preço atual está em R$ 130 a saca de 60 quilos

Oferta justa, câmbio favorável e demanda consistente aquecem o mercado da soja no Brasil
Cenário altamente positivo para a commodities deve favorecer o aumento da área de produção em todo os país

O momento é muito favorável para o mercado da soja brasileira. O preço recorde, na faixa dos R$ 130 a saca de 60 quilos, nas últimas semanas, chega a ser 50% superior ao valor praticado em fevereiro deste ano, quando a saca era comercializada a R$ 85.


Mas, quais os fatores para esta alta no preço do grão? O Mestre em Economia e professor da Faculdade Horizontina (Fahor), Márcio Leandro Kalkmann, revela que é uma soma de fatores e, dentre os principais, oferta justa, com um câmbio favorável e demanda consistente, que podem explicar parte deste cenário. Outro motivo que pode influenciar na alta até o início do ano de 2021, seria a necessidade da China em assegurar sua segurança alimentar.

 

 

Márcio Kalkmann e mestre em Economia e professor da Fahor

 

 

Quais os fatores que levaram a alta no preço da saca da soja?


Muitos fatores explicam a alta nos preços da soja, como por exemplo uma oferta justa, com um câmbio favorável e demanda consistente. No Brasil, o motivo está principalmente nas indústrias produtoras de óleo de soja e as processadoras de soja em farelo que direcionam suas vendas para as indústrias produtoras de carne (frangos e suínos) que usam a soja como insumo na produção. As exportações de frango e suínos também estão crescendo. O biodiesel brasileiro é outra mercadoria que pode estar tendo restrição de expansão, justamente pela oferta justa de soja no mercado. Outro fator é seca no nosso Estado que descapitalizou muitos agricultores, o que poderá ocasionar retração de área plantada para a safra de 2020/2021. A soja também está tendo muita demanda tanto para a indústria de processamento em farelos como para produção de óleo. Inclusive, haverá necessidade de importar soja, cerca de duas mil toneladas (farelo) da Argentina, ainda neste ano. Em outras palavras, se já era atraente vender soja para os chineses, no atual cenário, está valendo a pena vender para a indústria nacional, inclusive pedidos de recompra (famosos washout já estão ocorrendo), pelo fato do mercado interno pagar pela commodity preço acima do que os portos estão pagando para exportar. Portanto os fatores somados (oferta justa + demanda interna forte) explicam parte deste cenário.


Já a desvalorização do Real frente ao dólar, tende a deixar o mercado brasileiro mais introvertido. Isso porque nos portos é atrativa a venda da soja. Porém, o próprio mercado doméstico anda "sondando" a soja que é de exportação. Um outro ponto importante a ser considerado é o relatório USDA de Chicago, onde se observa um crescimento no número de contratos de compra desta commodity, mesmo com dados positivos de formação de estoques. Então "algo" acontece no mercado que promove fechamentos de alta dos preços. Temos que atentar para os dados da safra dos EUA, pois o aumento das ofertas acontece em outubro. A expectativa é de que os volumes de compra desta commodity por parte da China continuem evoluindo, já que é a principal demandante. Isso gera no mercado uma oxigenação, refletido em milhares de fundos de investimentos em favor do mercado da soja.

 

 

É o melhor preço dos últimos anos?


Em 2012 também houve preço recorde. Porém, naquela época a situação era devido as estiagens, nos Estados Unidos, Argentina e Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul. 

 

 

Alta no preço deve continuar?


Há uma quebra de oferta de proteína animal que gira em torno de 14 milhões de toneladas na China. Mesmo querendo, o Brasil nem em médio prazo conseguiria suprir essa necessidade de proteína animal demandada pelo país asiático. Portanto os preços podem continuar em alta até o início do ano de 2021, tendo em vista a necessidade da China em assegurar sua segurança alimentar.


A China se prepara para fechar contratos de importação de soja dos EUA, já que no Brasil toda a produção estará negociada até fim de setembro. Outro fator é a urgência em abastecer com proteína animal aquele país. A peste suína em 2019 afetou, consideravelmente, a produção de suínos por lá, e os chineses estão importando muita carne, inclusive do Brasil. Mas para produzir mais carne, precisa mais farelo. Uma coisa leva a outra. Provavelmente teremos uma continuidade na alta do preço da soja para a safra 2020/2021. 

 

 

Qual o conselho para os agricultores?


Os agricultores precisam atentar para os possíveis custos de produção, pois muitos dos insumos e partes de componentes de produção estão precificados em dólar, que neste momento está muito alto. O agricultor não pode correr o risco de depender, exclusivamente, deste momento de alta do preço da soja para viabilizar a produção, mesmo sabendo da tendência de alta. O ideal é focar nos custos. Para o agricultor que já faz isso, ótimo. Lembrando sempre que em caso das commodities agrícolas os cenários podem ser afetados do dia para noite. Então, reconsiderar atenção dobrada com custos é importante. Esse é um momento para pensar em capitalizar, porém antes de vender a soja, e preciso verificar se realmente é o momento ideal. 

 

 

A agricultura está na contramão da crise econômica causada pela pandemia?


Na realidade o mercado é que rege a 'sinfonia de produção agrícola'. Mesmo em épocas de crise existem investidores otimistas e eles procuram mercados que são consistentes.


A atividade agrícola foi, sim, afetada pela crise da Covid-19, embora não tão perceptível como outros setores. Existem algumas estimativas de redução de áreas plantadas em algumas culturas, como o algodão. Já outras culturas como o milho e arroz estão em alta. Outro importante elemento a ser considerado é a área plantada de soja versus expansão da atividade pecuária, tendo em vista a expansão de comércio de proteína animal para os próximos anos. Até pode ser que a agricultura esteja na contramão da pandemia, mas não é por opção, e sim por obrigação. Todos precisam se alimentar.


A crise do Covid-19 teve um limite de efeito sobre as commodities agrícolas, pois alimentos sempre serão vistos na economia como bens de primeira necessidade. Em momentos de crise como a que estamos vivendo, reforçam a necessidade de investimentos em segurança alimentar. Talvez o maior problema na agricultura tanto brasileira como mundial esteja muito mais atrelado ao clima (ausência ou excesso de precipitação pluviométrica) o que pode alterar as expetativas de mercado, limitar o crédito e comprometer produções futuras.

 


Qual o cenário futuro da soja?


Para suprir a demanda das indústrias, há necessidade de importar soja da Argentina, por exemplo. Talvez o Sul do Brasil tenha mais chances de se viabilizar, pois o custo de frete é amenizado pela pouca distância. Já para as demais regiões do Brasil a situação é mais complicada. Não somente pelo efeito do custo do frete, mas principalmente pela desvalorização do real frente ao dólar nestas importações. Por outro lado, poderá faltar soja sulista para suprir os mercados domésticos brasileiros já na próxima safra (2020/2021), o que poderá gerar aumento da procura por soja do Centro-Oeste e das regiões de Matopiba (Maranhão+Tocantins+Piauí+Bahia). 


Outro fator a destacar é que, caso a China não recupere a produção de carnes, terá que continuar a importá-la, inclusive do Brasil. Hoje a restrição de oferta chega a 15 milhões de toneladas de carne ao ano. Neste caso, passaremos a ter mais uma responsabilidade e com valor agregado ainda maior, pois exportar carne tem um significado industrialista, enquanto que a exportação de uma commodity como a soja, não.


O Brasil deverá cultivar a maior área de soja da história do país na safra 2020/21 com 37,804 milhões de hectares, ao mesmo tempo que pretende ampliar atividades da pecuária. 


Vale reforçar que o Brasil é um importante player da soja mundial e que a soja brasileira já está praticamente toda vendida. Mas, mesmo assim, há uma pressão em precificar para cima os preços (em Chicago já ultrapassam US$ 9,73/Buschel). Vamos acompanhar as próximas semanas, mas considero que estamos entrando em um patamar de precificação diferenciadas, considerando o viés positivo internacional. O agricultor precisa ficar atento para as flutuações de preços e acompanhar a dinâmica deste mercado para aumentar seus ganhos.