ECOS DO TEMPO: Elza, a moça que dançava com os pés… e com o coração
A história de vida de Dona Elza Czyzeski, 87 anos, é daquelas que merecem ser contadas. Nascida no interior do Rio Grande do Sul, no município de Alegria, ela cresceu entre plantações, brincadeiras simples e muitos sonhos guardados no peito.
Filha única, desde cedo aprendeu o valor do trabalho. Disse que na infância tudo marca, mas que não pôde aproveitar muito, pois, com apenas sete anos ou oito anos, já ajudava os pais na lavoura. Morava na colônia, em meio à natureza, onde cada dia era uma mistura de esforços e pequenas aventuras. Ela adorava brincar de esconde-esconde, com latas vazias, e fazia do quintal de sua casa, o seu mundo.
Estudou até a 8ª série. Sempre quis mais da vida — talvez um caminho diferente dos pais e dos avós, com mais oportunidades — mas nunca deixou de valorizar o que teve: afeto, carinho, aprendizado e uma família presente. Foi criada pelos avós, especialmente pela avó, com quem construiu laços profundos e inesquecíveis, e diz: “Minha avó era muito querida para mim”.
A paixão entrou em sua vida com música e passos sincronizados. Foi em um baile que conheceu o futuro marido.
Elza sempre gostou de dançar — e dançava muito bem, segundo ela. "Eu era daquelas que deixavam a pista animada do começo ao fim", conta ela bem faceira.
Eles namoraram por três anos até decidirem juntar os passos para sempre.
Casou, teve seis filhos e formou com o marido uma vida cheia de companheirismo. “Meu marido era bom para mim, tive uma boa vida durante o casamento", relata.
Ao falar sobre a continuidade da família, ela se refere aos netos. "Os netos vieram aos montes — são tantos que não lembro o nome de todos e nem quantos são — mas todos ocupam um lugar especial no meu coração."
Depois de muitos anos, com os filhos crescidos, e cada um com sua família, o tempo trouxe mudanças difíceis. Com o falecimento do marido há oito anos, e com o avanço da idade, vieram os desafios com a saúde. Foi então que a família buscou uma alternativa para poder dar qualidade de vida com os cuidados necessários que uma pessoa idosa merece. "Eu até queria continuar em casa, mas os meus filhos não conseguiam mais cuidar de mim. Todos têm a família deles, a vida deles.... então, eles acharam que era melhor eu morar aqui", relata dona Elza, sem nenhum ressentimento.
Ao chegar no Lar, ela diz que foi recebida com carinho, respeito e atenção. "Aqui ganhei novos amigos, sou bem tratada e cuidada, mas ainda sinto falta dos meus filhos no meu dia a dia — mas eles vêm me visitar com frequência, principalmente a minha filha Lenir, ela me enche de afeto e beijos", relata a idosa.
Com o tempo, Dona Elza perdeu a visão por causa de uma condição hereditária, o que exige mais cuidados ainda. Curiosamente, alguns de seus filhos também enfrentam o mesmo problema. Ainda assim, ela enxerga e ouve o que realmente importa: as vozes das pessoas que ama, os gestos de cuidado, o amor que sente e recebe.
Apesar das dificuldades, ela se considera feliz e diz: "Minha vida é feliz, sou feliz.”
Pode-se dizer que a vida de dona Elza é um retrato de uma vida de coragem, simplicidade e resiliência. Uma história vivida com autenticidade, marcada pelo afeto e por tantos momentos guardados com carinho.
Durante a conversa tranquila, quando perguntada que conselho deixaria aos mais jovens, ela respondeu com a firmeza de quem viveu o que fala: “Os jovens precisam ser bem criados, bem educados. Tem que tratar bem as pessoas, com respeito. Porque senão ...”
E então, como se as palavras pesassem menos do que o amor que carrega no peito, Dona Elza encerra com um sorriso sereno e um abraço apertado na filha Lenir, que a acompanhava na entrevista. “Mãe, eu amo muito a senhora, muito, muito”, diz a filha, emocionada.
“E eu também te amo muito, minha filha querida,” responde Elza, com a segurança de quem sabe que o amor é, e sempre foi, o que sustenta tudo.
E assim segue Dona Elza, com os olhos do coração bem abertos e a alma cheia de memórias que nem o tempo, nem a escuridão pela falta de visão, conseguem apagar.
| PROJETO ECOS DO TEMPO APOIADORES: Diretoria da Associação Tresmaiense dos Amigos dos Idosos Amara Werle - Jornal Semanal Betina Cesa - Nossa Revista Narjana Pedroso - @npagenciacriativa - gravação e edição dos vídeos Luciana Thomé Chedid (Luka) Loja O Boticário - cabelo e maquiagem Arlene Bender - entrevistas Miréia Bohnen - edição escrita das histórias OBS: as entrevistas e publicações foram autorizadas pelos familiares. |









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