TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O Cine Imperial
O Cine Imperial
O cinema havia surgido em Três de Maio já por volta de 1924, quando os primeiros filmes de 35 mm começaram a ser projetados em salões de festas por exibidores de filmes itinerantes, que de tempos em tempos apareciam pelo povoado e vendiam ingressos para as pessoas assistirem as películas que eram bastante rusticamente projetadas.
Com a fundação do Clube Buricá foi montado um telão em seu salão nobre o que passou a atrair muitas pessoas, fazendo com que o dono dos equipamentos se estabelecesse no local por um certo tempo, exibindo filmes rotineiramente, quando passou a designar seu cinema com o nome de “Cine Buricá”. Mas este permaneceu por pouco tempo. Foi quando Rodolfo Nass, que trabalhava como fotógrafo no povoado, começou a exibir filmes em uma sala improvisada em sua residência, situada na Avenida Santa Rosa (imóvel onde hoje funciona a loja San Steban), e onde as pessoas sentavam-se em cadeiras de palha para assistir a filmes mudos de Charles Chaplin, ao som de um bandoneon tocado por seu primo, Guilherme Tesche.
No início dos anos de 1940 uma nova máquina de projeção foi adquirida e o cinema foi transferido para o Salão Hering (Lat. -27.782681 Long. -54.234508), mais espaçoso, de propriedade do Sr. Luiz Hering.
Alguns anos depois, em sociedade com Leopoldo Matzembacher, Rodolfo Nass instalou seu cinema no Clube Buricá, onde a tela foi colocada em um suporte em frente ao palco e durante as sessões as pessoas sentavam-se espalhadas pelo salão em volta das mesas, sendo atendidas por garçons nos intervalos dos filmes. Depois de um certo tempo, Leopoldo Matzembacher vendeu sua parte na sociedade para Rodolfo Nass e seu genro e novo sócio, Oswaldo Kurtz.
A propaganda dos filmes em dias de exibição era feita pelas ruas da Vila ´por Osvaldo Kurtz dirigindo o Ford 1923 de seu sogro. O veículo, que possuía dois estribos laterais, utilizados para servir de degrau para os passageiros, quando saía pelas ruas buzinando, atraía a atenção das crianças, que subiam sobre os estribos, se prendendo ao veículo para pegarem uma carona, e Kurtz, percebendo que aquela farra da molecada ajudava a atrair a atenção dos moradores, resolveu tirar um proveito disso e combinou com os moleques algumas frases que iam gritando por onde passassem e percebessem pessoas saindo à frente de suas casas para vê-los. Assim, quando Kurtz perguntava em voz alta “Hoje tem cinema?” a enorme turma de crianças que vinha pendurada nas laterais de seu carro, e mesmo aquelas que não conseguiam espaço penduradas no veículo, mas vinham correndo ao lado só pela diversão, respondiam em alto som: “Tem, sim senhor!!!”.
Em fins da década de 1940 Rodolfo Nass e Oswaldo Kurtz venderam este cinema, quando um outro projeto já estava sendo implementado no ponto mais central da Avenida Uruguai, chamando a atenção de todos os transeuntes pelos detalhes modernos de sua arquitetura que prenunciava a chegada de um novo e mais ostentoso local de entretenimento na Vila, o qual seria dirigido por anos por uma figura folclórica em Três de Maio, conhecido por todos como “Timbaro”.
Eduardo Weinberg, filho de um artista de circo, veio de Panambi para Três de Maio com sua esposa, Mercedes, naqueles anos que antecederam o fim da Segunda Guerra Mundial. Em Três de Maio, inicialmente instalou uma sapataria para trabalhar com o ofício que havia aprendido desde cedo, ocupando-se principalmente com selas para cavalos.
Foi neste período que Eduardo Weinberg passou a ser conhecido por todos como Timbaro, sendo desconhecida a origem do apelido, porém, por muitos anos em Três de Maio, Weinberg atuou como Rei Momo nos carnavais do Clube Buricá (figura lendária do carnaval brasileiro, que representa a alegria, o humor e a irreverência da festa, e é sempre escolhido para reinar sobre os foliões durante os dias de carnaval), e a alcunha “Timbaro” pode ter surgido como uma espécie de nome artístico para o personagem (talvez tenha sido o nome artístico de seu pai que trabalhava em circo e havia falecido antes de Weinberg vir morar em Três de Maio) ou apenas um apelido carinhoso, não se sabe, mas o fato é que o apelido se tornou tão forte quanto o próprio nome de Eduardo Weinberg.
Com a conclusão da obra do novo cinema da Vila na Avenida Uruguai (Lat. -27.780433 Long. -54.234508 DD), implementada por Egon Kath e Luiz Bonamigo e a chegada do maquinário de projeção, Timbaro assumiu o negócio pagando um aluguel para os senhores Kath e Bonamigo, e em 1944, era finalmente inaugurado o “Cine Imperial”.
No início, os filmes exibidos eram conseguidos junto a empresa Cine - Missioneira, de Santo Ângelo, que atendia a dezenove salas de cinema na região, e que junto com outras empresas de Santa Rosa, São Luiz Gonzaga e Ijuí, eram as únicas fornecedoras de filmes nas proximidades.
Mas logo Timbaro passou a negociar filmes com uma companhia de Porto Alegre, que tinha mais opções, como filmes norte-americanos, os quais eram muito melhor elaborados e possuíam qualidade muito superior. A única condição que essa companhia exigia para os cinemas que alugavam filmes com ela, era que, para cada filme estrangeiro que quisessem exibir em suas salas, adquirissem primeiro de dez a vinte filmes da própria companhia, que possuíam uma qualidade extremamente baixa. Além disso, eram obrigados a repassar para a companhia 50% do lucro da bilheteria destes filmes estrangeiros, que também tinham um valor de aluguel bem mais elevado que os demais. Timbaro certa vez reclamou: “Quase não vale a pena, mas pelo menos a sala fica sempre cheia!”.
Timbaro se esforçava para trazer filmes bons para sua sala. O Cine Imperial começou exibindo dramalhões como “E o Vento Levou”, mudando em seguida para os faroestes e filmes de Kung Fu e de espadachins, como “Os Três Mosqueteiros”. Tinha sessões todos os dias na semana, e no sábado havia uma sessão extra no horário das 20h15 e no domingo, às 13h30, 19h e 21hs. Chegavam filmes novos na quarta, sexta e domingo, seguindo um circuito que ordenava respectivamente as quatro praças locais que eram Três de Maio, Horizontina, Dr. Mauricio Cardoso e Tuparendi.
Quando o filme chegava com fama de bom, e seria exibido no domingo, havia uma sessão prévia na sexta-feira, para que o público que o assistisse fizesse a propaganda boca a boca, e assim as filas para comprar ingressos no domingo ficavam abarrotadas de gente.
Os filmes ficavam cerca de quatro dias em cada praça e quando algum deles dava um bom retorno de bilheteria, se conseguia ficar por mais um ou dois dias com ele, desde que a praça seguinte que o receberia, concordasse.
Filmes que exibissem qualquer tipo de nudez, as vezes das mais inocentes, como de uma mulher dando à luz, já causavam uma movimentação bastante acentuada na venda de ingressos. Os piazotes que não tinham dinheiro para entrar, faziam pressão forte na portaria com o seu Timbaro, para poderem entrar de graça, coisa que volta e meia ele permitia, mas nunca nos casos em que os filmes exibissem nudez ou beijos mais calientes.
Seu Timbaro tinha uma forte veia moralista, mas apesar disso, era bastante conhecido na Vila como um homem com certa fraqueza de espírito diante das virtudes do sexo oposto, e não era incomum deixar moças mais sorridentes entrarem para assistir filmes sem pagar ingresso.
Para evitar estas fraquezas do senhor Timbaro, sua esposa, Mercedes, assumiu a bilheteria do cinema, controlando rigidamente a entrada do público. Mesmo assim, haviam aqueles que conseguiam adentrar a sala com outras artimanhas, a mais usada era a do falso ingresso.
O frigorífico Stahl, que se localizava ali próximo, comercializava uma marca de salame que trazia em seu rótulo um papel com as mesmas cores e semelhança com os ingressos do Cine Imperial, então, os mais malandros, que estavam com a carteira vazia em um dia de filme bom, esperavam o apagar das luzes, quando o filme começasse a ser projetado, e tentavam passar pelo velho Timbaro na entrada, que já estava com sua visão debilitada pela idade, passando-lhe o rótulo do salame.
Depois dessa mais intensa supervisão da dona Mercedes sobre as “delicadezas” do seu Timbaro com as moçoilas que vinham assistir aos filmes, as viagens de Timbaro a Porto Alegre para negociar fitas com a companhia, aumentaram, levando ele sempre um bom dinheiro consigo. Quando começaram os comentários entre os funcionários do cinema de que o patrão ia a Porto Alegre mais para fazer pequenas farras, este, para limpar sua barra, começou a trazer presentes para todos, principalmente para seus netos e bisnetos, o que fazia as crianças ficarem eufóricas sempre que ele viajava à capital.
Um dia, várias crianças que costumavam correr pela rua se amontoaram em torno de Timbaro na porta do cinema, pedindo que ele as deixasse entrar para assistir a um determinado filme que estava em cartaz, mas como eram várias, Timbaro preferiu dar um pequeno sermão nelas: “Por que vocês não vão arrumar um trabalhinho, conseguir uns trocados pra não precisar ficar pedindo as coisas de graça o tempo todo?” – e complementou – “Eu, por exemplo, estou precisando de um guri aqui para vender balas”.
Neste momento, um menino de nove anos que carregava uma caixa de engraxate pendurada nas costas aproximou-se de Timbaro e falou: “Eu posso vender as balas para o senhor, Seu Timbaro”. Timbaro então olhou para o menino mirrado e perguntou o seu nome, quando este lhe respondeu: “Olívio”. Era Olívio Casali, filho do vendedor ambulante e da lavadora de roupas José Alexandre e Olivia Casali.
E foi então que o pequeno Olívio passou a engraxar sapatos de dia e vender balas à noite, em meio às sessões movimentadas do Cine Imperial.

O Cine Imperial funcionou por 43 anos no mesmo endereço na Avenida Uruguai e marcou várias gerações de três-maienses, principalmente num tempo em que os aparelhos de TV eram inexistentes ou algo ainda distante da realidade de muitas famílias

Eduardo Weinberg com sua esposa Mercedes, em momento de descontração
Timbaro nos carnavais do Clube Buricá como Rei Momo
Revisão do Dr. Prof. Leomar Tesche









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