Preço do leite: bom para o produtor, caro para o consumidor

Produtores vivem momento de valorização do produto, que chegou a R$ 1,66 em agosto, maior média da história do Estado. Já o consumidor amarga a alta. Preço do leite nas prateleiras está em torno de R$ 4

Preço do leite: bom para o produtor, caro para o consumidor
Preço do leite disparou nas últimas semanas. A média fica em R$ 4 o litro de leite integral longa vida

A demanda por leite aumentou durante a pandemia de coronavírus no Estado. Da mesma forma que estimula produtores e indústrias do setor, o aumento no consumo também elevou os preços nas gôndolas dos supermercados, que pode passar de R$ 4 no caso do leite integral longa vida. No entanto, o momento é bom para os produtores que vivem um momento diferente com preço considerado bom. No mês de agosto o preço do litro no Rio Grande do Sul fechou em R$ 1,66, a maior média na história do Estado.


De acordo com o 1º Secretário da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul – Fetag-RS – , Pedrinho Signori, “o produtor de leite nos últimos meses vive um momento de preços em elevação. Finalmente o produtor começa a ter algum resultado”, enfatiza. Ele lembra que os produtores do Estado tiveram muitos problemas nos últimos anos e cita o Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite no Rio Grande do Sul, coordenado pela Emater, que aponta que o Estado perdeu mais de 33 mil produtores de leite entre 2015 e 2019. Segundo o estudo, em 2015 o Rio Grande do Sul tinha 84,2 mil produtores de leite e em 2019 o número caiu para 50,66 mil, um recuo de aproximadamente 40%. “Muitos desistiram da atividade, em função dos preços ruins e de não ter resultado”, ressalta.

 

 

Pedrinho Signori, dirigente da Fetag

 

 

Os motivos da alta do preço


Conforme Signorini, a elevação no preço do leite se deu por três motivos. “O auxílio emergencial devido à pandemia tem aquecido o mercado, principalmente o de alimentos. As pessoas recebem e vão ao supermercado comprar comida, e o leite e seus derivados estão entre os preferidos das famílias. Outro fator importante é a desvalorização do Real frente a alta dólar e isso favorece a exportação. Então, o Brasil tem exportado leite e os estoques estão baixos ou quase não existem”, relata. Outro fator que influenciou no aumento do preço do leite foram os problemas climáticos, como a geada que interferiu na produção. 


De acordo com o dirigente da Fetag, esse cenário é positivo para o produtor, que está recebendo mais. “O produtor, quando está bem, investe, melhora, se tecnifica, e é isso que está acontecendo agora. O produtor está buscando facilitar o manejo, ter o trabalho menos forçado, porque produzir leite não é um trabalho fácil, exige o produtor de segunda a segunda, 365 dias por ano na lida”, explica. Tudo isso implica na qualidade do leite.


Signorini espera que esse preço se mantenha bom para o produtor, mas associado ao preço que o consumidor pague na gôndola do supermercado. “Espero que o intermediário pare de ganhar tanto dinheiro, porque sempre esteve muito longe o preço que o produtor recebe e que o consumidor paga. Então tem gente no meio, indústrias, enfim, que recebe mais do que deveria, e a corda sempre arrebenta na parte mais fraca, que é o produtor”. O dirigente da Fetag espera que a alta do preço do leite pago aos produtores dure um bom tempo para que eles possam se recuperar, depois de longos anos acumulando prejuízos.

 

 

Custo da produção também está aumentando


O dirigente da Fetag diz que os produtores de leite precisam ficar atentos, porque o leite sempre teve altos e baixos. “Nós viemos de alguns meses seguidos de alta. O custo de produção é que está começando a preocupar agora. A ração subiu de 20 a 25% nos últimos meses. Em função de que o milho e a soja estão caros para fazer o farelo e a ração principal, o custo de produção, os produtos veterinários estão aumentando, também. Logo o custo de produção estará batendo nesse preço que o produtor está recebendo hoje. O produtor deve ter um certo cuidado para não investir mais do que pode para não ter problemas futuramente”, alerta.

 

 

Região tem 7,4 mil produtores


Conforme o último levantamento feito pelo Escritório Regional da Emater, com sede em Santa Rosa, os 45 municípios abrangidos (Fronteira Noroeste e Missões) contavam, em 2019, com 7.464 famílias que produzem leite para as 17 indústrias da região.


De acordo com o extensionista rural, Jorge Lunardi, a produção anual de leite totaliza 626 milhões de litros e movimenta na região R$ 830 milhões, somente com a comercialização do leite cru, sem calcular outras questões como a geração de emprego, comercialização de insumos, assim como indústrias e serviços envolvidos na atividade leiteira.

 


Preço do queijo também dispara


O preço do leite,  o mercado de São Paulo, a importação e exportação e até mesmo o auxílio emergencial são fatores que explicam a alta no preço do queijo nas últimas semanas no RS. De acordo com o secretário executivo do Sindicato da Indústria de Lacticínios e Produtos Derivados do Rio Grande do Sul (Sindilat RS), Darlan Palharini, assim como outros derivados lácteos, o queijo está atrelado ao preço do leite, que sofreu reajuste. “Também depende do mercado de São Paulo, que é um Estado definidor de preço, além do impacto do mercado internacional. O Brasil importa e exporta queijo. E a exportação, por exemplo, da muçarela, que é o queijo de commodity, é atrativa com o dólar alto”, explica. 


Palharini lembra que no início da pandemia, entre março e abril, o consumo de produtos lácteos diminuiu, principalmente pelo fechamento de restaurantes e hotéis. Depois, com a adequação do consumidor, a oferta foi se equilibrando. Sobre o aumento do leite, que impacta na elevação do preço do queijo, o secretário vê uma relação com o auxílio emergencial de R$ 600, que tem sido revertido em compra de alimentos.