Imóveis em situação de abandono no centro da cidade

Não são poucos os imóveis em situação de abandono na área central de Três de Maio. Um exemplo é o casarão do ano de 1939 que recebeu o nome de ‘Vila Paula’, em homenagem à esposa do ex-prefeito Germano Dockhorn. A casa imponente – construída no estilo germânico–, já foi considerada uma das mais belas da cidade, mas está fechada há sete anos, sofrendo a ação do tempo e de vândalos. O engenheiro civil Paulo Marasca, proprietário do imóvel há 30 anos, diz que infelizmente a vida útil da casa acabou e que a restauração se tornou inviável devido ao alto custo financeiro. ‘Ninguém mais do que eu tem apreço por essa casa. Ninguém mais do que eu passou anos tentando restaurar, da maneira que fosse viável. Não foi e não é mais viável’, lamenta o engenheiro civil

Imóveis em situação de abandono no centro da cidade
‘Infelizmente, a vida útil da casa acabou’, diz Paulo Marasca, proprietário do casarão localizado na esquina da Travessa Dr. Bruno Dockhorn

‘Sabemos dos casos de abandono em que se encontram algumas edificações. Mas a propriedade privada é de responsabilidade do proprietário’, afirmação é do secretário de Habitação e Urbanismo, Thomas Schulz

 

Basta circular pelas principais ruas da cidade para se deparar com inúmeros imóveis em situação de abandono, sofrendo a ação do tempo e de vândalos; que aos poucos se tornam lugares propícios para a criação de animais peçonhentos e proliferação de insetos. Sem contar que acabam virando ponto de encontro ou moradia para pessoas em situação de vulnerabilidade social.


A situação chama tanto a atenção que foi sugestão de pauta dos leitores do Semanal. Buscando informações sobre o assunto, o jornal Semanal entrou em contato com o secretário de Habitação e Urbanismo, Thomas Henrique Schulz (foto).

 


Segundo o secretário, não existe lei municipal específica que regulamente a situação destes imóveis em situação de abandono. “O Poder Público, através do setor responsável (no caso a Vigilância Sanitária) pode ir até o local realizar a fiscalização para evitar os focos do mosquito da dengue, caso haja muito entulho – o que se torna propício para o desenvolvimento do Aedes aegypti. Então, a Vigilância Sanitária pode nos avisar da necessidade de contatar o proprietário do imóvel e pedir que faça uma limpeza”, explica o secretário. 

 

‘Quanto à apresentação ou aparência do imóvel,  não compete à prefeitura fiscalizar. Quando há risco para os usuários do passeio público o Poder Público pode intervir’

 

Outro fator que se torna comum é com relação às pessoas que acabam invadindo esses imóveis e fazendo moradia. “Nosso município não possui moradores de rua, apenas ‘pessoas em desvio social’, que em algum momento, retornam às suas residências. O centro se torna o local de convívio delas, com o ‘grupo’ que convivem, na praça municipal. Não há nada que se possa fazer para impedir. Eles estão no seu direito de ir e vir”, declara o secretário.


Sobre a obrigação de o proprietário manter seu imóvel limpo e em condições “apresentáveis”, Thomas também relata que não existe lei regulamentando essa prática. “Quanto à ‘apresentação’ ou ‘aparência’ do imóvel, não compete à prefeitura fiscalizar. O que existe é o bom senso”, sugere. Contudo, ele cita o Artigo nº 89 do Código de Posturas Municipal (Lei 1455/1996) que estabelece ao proprietário dos terrenos a obrigação de manter livres de resíduos, dejetos e águas paradas ou estagnadas  em seus quintais, pátios, terrenos e edificações.


E, caso a propriedade privada que se encontra abandonada for invadida, os invasores estarão infringindo lei nacional que trata da invasão de propriedade particular, com penas previstas.
O secretário Thomas destaca que a posição da pasta, no sentido de os proprietários manterem seus imóveis ‘apresentáveis’, existe uma lei de ocupação, um alvará, o Habite-se. “No momento de se liberar o uso, fiscaliza-se para liberar. Caso o imóvel for abandonado, em estado de ruína, só não pode apresentar risco para os usuários do passeio público”, alega.


Ele afirma que existem casos de abandono em que se encontram algumas edificações. “Mas a propriedade privada abandonada é de responsabilidade do proprietário. Existem casos de propriedades em grandes centros, propriedades inacabadas e que estão sob judice. Anos, décadas e nada se pode fazer. Infelizmente, temos de conviver com isso. Cada caso pode ser estudado separadamente, pois cada imóvel tem sua história e não se pode generalizar. Mas sua conservação vai do bom senso de seus proprietários. Falo de imóveis em situação de abandono”, ressalta.


Segundo Thomas, a secretaria estará sempre à disposição para debater junto à comunidade possíveis resoluções a serem tomadas. “Porém cada caso deve ser tratado separadamente. A cidade deve estar para o bom convívio de todos”. 


O Semanal tentou contato com donos de alguns imóveis em situação de abandono, porém, não obteve retorno. Exceto pelo engenheiro civil Paulo Marasca, proprietário da ‘Vila Paula’, que concedeu entrevista à nossa reportagem.

 

Imóvel abandonado no centro da cidade, que teve parte  destruída por um incêndio, causa indignação  dos moradores próximos e de quem passa pelo trajeto todos os dias 

 

 

‘Infelizmente, a vida útil da casa acabou’, diz Paulo Marasca, proprietário do casarão localizado na esquina da Travessa Dr. Bruno Dockhorn

 

Pedra fundamental da ‘Vila Paula’ – casa que leva o nome da esposa do ex-prefeito Germano Dockhorn –, é de 1939. Casarão, de mais de 700 metros quadrados, em terreno de cerca de 1.500 metros quadrados, foi construído com tecnologia vinda da Alemanha, no estilo germânico eclético. Imóvel desperta curiosidade por estar há cerca de sete anos abandonada, sofrendo a ação do tempo e de vândalos

 

 

É impossível passar pela Avenida Uruguai, na Travessa Dr. Bruno Dockhorn, sem voltar os olhos para o casarão da esquina, que leva o número 109. Abandonada há cerca de sete anos, ela desperta a atenção de quem passa, pois é uma construção antiga – a pedra fundamental é datada de 1939 – e já foi considerada uma das mais belas residências da cidade. Somente o terreno conta com cerca de 1.500 m², e a casa, com 700 m² de construção. 


A curiosidade é grande das pessoas em saber os motivos que levaram ao abandono da casa e o que será do futuro dela. Neste sentido, o Semanal entrou em contato com o próprietário, o engenheiro civil, Paulo Marasca, 60 anos.


Por cerca de 30 anos, ela foi moradia da família do engenheiro. Quando a esposa Judite, ficou doente, acometida por um câncer terminal, em meados do ano 2012, a necessidade dela se locomover de cadeira de rodas fez com que a família se mudasse para um apartamento (com elevador). As circunstâncias da vida, o falecimento da esposa no ano de 2013, e o fato do filho do casal morar no exterior, fizeram com que Paulo optasse por morar definitivamente no apartamento.


Engenheiro civil com mais de 35 anos de profissão, ele destaca que, passados tantos anos, e a experiência que tem na área, não há como simplesmente fazer “uma reforma” na casa, pois ela tem problemas estruturais muito grandes, apresentando rachaduras. “A casa teria que ser reconstruída. O custo é absolutamente inviável, e a questão de reforço, na medida que está agora, também é inviável”, alega. 

 

‘Ninguém mais do que eu tem apreço por essa casa. Ninguém mais do que eu passou todo esse tempo tentando restaurar, da maneira que fosse viável. Não foi e não é mais viável’, diz Paulo Marasca, que morou no casarão por cerca de 30 anos

 

Casarão encantava pela sua imponência. Residência foi construída como uma ‘vila’ para acomodar pais, filhos e netos. Na época do Natal, a família Marasca caprichava na decoração, e muitos diziam que ali era a ‘casa do Papai Noel’, pela bela ornamentação, como mostram as fotos do ano de 2005 

 

 

Um pouco da história da ‘Vila Paula’

 

Paulo conta que estudou no Instituto Estadual de Educação Cardeal Pacelli dos 10 aos 16 anos, e sempre passava em frente à casa, que chamava muito a sua atenção. 


“Essa quadra, triangular (onde estão a Rádio Colonial, a empresa Kurtz e Kochann, e a casa) era do ex-prefeito Germano Dockhorn, assim como as terras para baixo do outro lado da Avenida Santa Rosa. Ali Germano tinha uma serraria, e essa serraria fornecia luz para a cidade toda. Quando eu comprei a casa, uma das primeiras coisas que me contaram é que o porão da casa era mal-assombrado. Isso porque tinha várias pernas de pau, de vários tamanhos diferentes, penduradas no porão. Na verdade, o que acontecia é que o filho do seu Germano havia sofrido um acidente quando criança na serraria e precisou colocar próteses. E essas próteses eram feitas conforme ele ia crescendo. As próteses eram feitas e eram armazenadas no porão, então, isso realmente ficava com ar tétrico”, recorda.


O nome da casa ‘Vila Paula’, é em homenagem à esposa de Germano e foi construída como uma “vila” para acomodar pais, filhos e netos. Quando Germano e a esposa faleceram, deixaram no testamento que a casa deveria ficar por 10 anos de uso comum da família. Quem quisesse se hospedar nela teria direito. E um tempo o imóvel ficou aos cuidados de uma senhora que era empregada da família Dockhorn. Conforme Paulo, depois o imóvel ficou fechado por cerca de 11 anos.


Paulo recorda que quando voltou da faculdade, formado em Engenharia Civil, a casa estava à venda. Foi então que ele decidiu comprar a casa de um dos herdeiros. Para a aquisão do imóvel, o engenheiro considerou a casa um bom local para morar e montar seu escritório de Engenharia.

 

 

Curiosidades sobre a construção do casarão

 

Algumas curiosidades que envolvem a construção da Vila Paula. “O telhado foi construído ao estilo de lugares que têm neve; os princípios construtivos e estruturais dele são muito bons, porque existe na aba dele uma inclinação onde todo o peso cai sobre as paredes e não sobre a aba. A estrutura é toda de madeira, e por cima existe uma folha protetora para que não seja barulhento em dias de chuva; além do  conforto térmico que é incrível, uma coisa que hoje não se faz mais”, revela o engenheiro.


Além disso, a casa é toda forrada com pedras (gigantes). “A primeira coisa que eu tentei mudar foi o pé direito – tipo da parte do subsolo –, mas não teve como porque as pedras eram imexíveis. Só que a casa é assim, pedra no chão, depois é tijolo inteiro, e várias camadas de tijolos até em cima. E o telhado é o que liga toda a casa. Ele tem uma estrutura de madeira muito forte, que liga toda a casa e não deixa ela abrir”, explica Paulo.


Outra curiosidade é quanto à tecnologia empregada na casa. Ela tinha sistema hotel, de ligar e desligar a energia do corredor, dos quartos, das camas. “Quando vim pra cá, formado em Engenharia, aqui na cidade ninguém fazia isso. Então essa tecnologia veio da Alemanha, porque na Europa havia uma experiência muito grande com construção”.


A casa também contava com aquecimento central no fogão a lenha com serpentina de água, cujo cano passava pelo piso do banheiro. “Ao terminar o banho você podia sair do box e pisar sem nenhuma proteção, pois o piso estava sempre quentinho no inverno”.


Nos três pavimentos estão distribuídos três salas e três escritórios no andar térreo e cozinha. No andar superior são três quartos de casal mais três de solteiro. Também tinha uma segunda cozinha no subsolo com forno, tacho de chimia, depósito de lenha. “Era uma casa que sobrevivia como uma vila. Podia fazer tudo dentro dela. Pão, carne assada, chimia; lascar e guardar lenha, guardar pote de compota. E tinha um lugar onde foi construída uma câmera fria, para épocas de calor, onde colocava gelo e a bebida se mantinha gelada.”

 

 

Investimento é muito alto para restaurar. No momento, casarão permanece como está

 

O engenheiro relata que quando comprou a casa já tinha algumas rachaduras, mas nenhuma delas tão comprometedora. Algumas tinham sido causadas pelo rolo que passava na rua quando recebeu pavimentação asfáltica. 
Porém, passados 30 anos residindo no imóvel, ele conta que a situação foi complicando. “O solo foi mexendo, e casa  trincou em três partes, dividindo a casa entre a parte central e uma parte para o lado da avenida e outra para o lado da travessa. E essa divisão começou a se abrir”. 
Paulo afirma que o custo de uma reforma é muito alto, pois a fundação da casa deve ser totalmente refeita. Ele revela que fez algumas restaurações na medida do possível, e na medida financeira também. “Por exemplo, as aberturas, com o fato de trincarem, perderam a forma. Por várias vezes foram aplainadas, até que não deu mais. Também deveriam ser trocadas as esquadrias, e fazer novas, mas isso não resolve, porque a parede vai continuar e a esquadria vai quebrar e é um alto investimento”, compara. 
Então, segundo o engenheiro, o ideal seria fazer uma estrutura toda nova por dentro com as esquadrias, e usar a casa somente como uma “casca” como fazem os europeus. “O meu filho mora na Bélgica, num prédio bem central, que por fora é muito antigo e por dentro é muito moderno. Mas isso é na Bélgica, onde eles podem fazer pois o valor dos imóveis é dez vezes maior”, avalia.
 

 

Vandalismo e depredação

 

Com o fato das esquadrias já não fecharem direito, começaram os problemas de invasão e vandalismo. “Eu tentei colocar barras de ferro por dentro, não adiantou, não resolveu. Era uma turma da pesada. Um dia fui lá, me jogaram tijolo. Começou a ficar perigoso”, diz. 


E, em várias oportunidades, além da invasão e depredação, veículos já bateram no muro da casa, de modo que agora o acesso ficou ainda mais facilitado para invasores.


Antes de começar o vandalismo, Paulo conta que esteve reunido com a prefeitura para falar sobre o futuro do imóvel. “A gente se reuniu, e foi sugerido a possibilidade de usar, de repente, como Museu. Porém, do jeito que ela está não é possível, não oferece segurança nenhuma. Então, não é tipo passar uma mão de cal e usar para museu ou para comércio. Não é assim que funciona. Eu sou engenheiro absolutamente responsável e não vou colocar pessoas numa obra que oferece risco. E ela tem risco, é só entrar na casa e olhar as rachaduras”.


Paulo conta que foi procurado para locar o imóvel, contudo, devido ao atual estado que se encontra, não há viabilidade de locação. 

 

 

Futuro do imóvel

 

“É uma pena essa situação. Por exemplo, uma pessoa com uma doença terminal, você sabe que ela vai morrer. Falo por experiência. E a casa está em estado terminal. Não é viável gastar muito dinheiro numa construção assim. Porque na verdade, a reconstrução dela, reestruturação ficaria muito cara, inviável financeiramente”.


Paulo confessa que tem projetos maravilhosos e ousados para a restruturação para a casa. E, caso receba uma proposta irrecusável, pode pensar em vendê-la. “Não posso investir num lugar sem retorno. Por exemplo, se o ginásio São Francisco é muito caro para reformar por um órgão público, que tem poder financeiro muito alto, imagina o que é uma pessoa tentar restaurar uma casa como está”.


O engenheiro lamenta os comentários maldosos sobre a situação do local. “Parece fácil dizer que é desleixo. Ninguém mais do que eu tenho apreço por essa casa. Ninguém mais do que eu passou todo esse tempo tentando restaurar na maneira que fosse viável. Não foi e não é mais viável.”


Ele considera que o terreno, por ser grande, e central, tem importância para a cidade com grande potencial para construção de um imóvel. “Talvez usar o terreno para construir um bom hospital, com bom atendimento, seria um caminho viável. Ou outro empreendimento. Mas restaurar a casa é inviável. Isso é certo. Tudo tem uma vida, com começo e fim. inclusive nós. E infelizmente, a vida da casa acabou”, finaliza a entrevista.