Argemiro Brum avalia cenário da decisão do STF sobre Lula

‘Se os brasileiros não souberem ou quiserem reverter isso (o populismo no governo federal), nas eleições de 2022, escolhendo um candidato ponderado e responsável, deixando de lado os dois extremos que despontam – Bolsonaro e Lula –, teremos consequências muito sérias’, afirma Argemiro Brum

Argemiro Brum avalia cenário da decisão do STF sobre Lula
Professor doutor em Economia Internacional, Argemiro Luís Brum

Para o professor doutor em Economia Internacional, Argemiro Luís Brum, se o ex-presidente Lula vier a concorrer, de fato, torna-se um adversário político de peso ao presidente Bolsonaro

 

Ainda repercute em todos os cantos do país a decisão do STF. Neste sentido, o Jornal Semanal entrou em contato com o professor doutor em Economia Internacional, Argemiro Luís Brum, questionando o que, na avaliação dele, a anulação da condenação do ex-presidente Lula representa nos cenários cenários econômico, político e judiciário do país. Confira a resposta do professor doutor. 


 “Em primeiro lugar, o ex-presidente Lula não foi inocentado das acusações que sobre ele existem. Houve apenas a anulação da condenação anteriormente feita em função de questões jurídicas. Em segundo lugar, é fato que a anulação lhe permite concorrer às eleições de 2022, desde que não ocorra novo julgamento entre-tempos e ele, no mesmo, venha novamente a ser condenado. Muitos juristas acreditam que, pelo ritmo que estes processos adotam, e pelos interesses em jogo, novo julgamento não ocorrerá antes das eleições do próximo ano. O fato é que isso é uma incógnita. Em terceiro lugar, se Lula vier a concorrer de fato, torna-se um adversário político de peso ao presidente Bolsonaro, com as pesquisas hoje dando-o como vencedor no segundo turno”, frisa Argemiro.


Para ele, isso irá mexer com o cenário econômico, provavelmente causando maiores oscilações da Bolsa e do câmbio, especialmente porque a economia brasileira está muito frágil e, neste momento, sem uma ancoragem que permita apostar em estabilidade. “E o mercado sabe que muito desta situação recente veio do populismo econômico adotado no segundo mandato de Lula e nos dois mandatos de Dilma”. 

 

 

‘Qualquer um que venha a ganhar em 2022 será muito ruim ao país ... o racha (que já existe) deverá ficar ainda mais agudo’


Em termos políticos, a situação é ainda pior, na análise do doutor em economia. “Considero que haverá uma polarização nociva entre dois extremos (Bolsonaro e Lula), o que é péssimo para o Brasil. E, nesse caso, qualquer um que venha a ganhar em 2022 será muito ruim ao país devido ao racha (que já existe) ficar ainda mais agudo”. 


Argemiro pontua que é urgente que surja uma terceira via política, mais ponderada, moderada, mais ao centro, que absorva estes radicalismos de direita e esquerda e faça, finalmente, o país andar para frente. “O risco econômico, a partir de agora, e se esta polarização se cristalizar até as eleições, é de surgirem medidas ainda mais populistas por parte do governo Bolsonaro, depois, de os brasileiros elegerem um candidato em cima de propostas populistas, e o Brasil continuar afundando economicamente no pós-pandemia (que se espera venha a partir de 2022). Será o maior desastre que poderia ocorrer ao país em termos de futuro”. 

 


‘Populismo quebra a economia’


Segundo Argemiro, o populismo geralmente agrada no curto prazo, porém, quebra a economia no médio e longo prazo fazendo todos pagarem a conta. “A década perdida de 2011 a 2020 se deu sobretudo ao populismo do governo Dilma, após herança deixada pelo governo Lula em seu segundo mandato. Agora, com a pandemia e o populismo do governo Bolsonaro caminhamos para mais uma década perdida (2021-2030). Se os brasileiros não souberem ou quiserem reverter isso nas eleições de 2022, escolhendo um candidato ponderado e responsável, deixando de lado os dois extremos que despontam, teremos consequências muito sérias que poderão potencializar a gravíssima crise que já vivemos desde 2014, para citar o período mais recente”, conclui o professor doutor. 

 

 

Entenda o caso


Em março deste ano, o ministro Edson Fachin decidiu anular todas as condenações contra Lula, por entender que os casos não deveriam ter tramitado na Justiça Federal do Paraná, responsável por julgamentos da operação Lava Jato.


Em votação no plenário, no dia 15 de abril,  no Supremo Tribunal Federal (STF), a maioria acatou a decisão do ministro Edson Fachin de anular as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Operação Lava Jato. O placar foi de 8 votos a favor e 3 contra.O ministro foi seguido por Alexandre de Moraes, Rosa Weber, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.


Com a decisão proferida pelo STF, os direitos políticos de Lula ficam mantidos. Ou seja, ele pode se candidatar a cargos políticos já nas eleições de 2022. 


Mas isso não significa que Lula foi inocentado e que ele não voltará a ser investigado. O Plenário do Supremo decidiu no dia de ontem, que os processos contra o ex-presidente serão analisados pela Justiça Federal, em Brasília. 


Lula tem mais de 70 anos e, segundo o Código de Processo Penal, a prescrição de crimes tem prazo reduzido pela metade neste caso, o que poderia fazer alguns crimes terem a punibilidade extinta.