Diagnóstico da produção leiteira na Fronteira Noroeste do RS

Estudo do Doutor em Desenvolvimento Regional, Jesildo Lima, aborda necessidade de analisar e pensar a região a médio e longo prazo

Diagnóstico da produção leiteira na Fronteira Noroeste do RS
Em apenas 4 anos, houve uma redução de mais de 50% no número de produtores de leite na região Noroeste do RS

 “A região Fronteira Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, ao longo de sua história, por diversas vezes foi objeto de questionamentos acerca da busca de novas alternativas para seu desenvolvimento, como a suinocultura, a avicultura e a produção de leite”. A afirmação é do Doutor em Desenvolvimento Regional e professor da Faculdade Setrem, Jesildo Lima. Ele explica que o avanço da produção de suínos, por meio da verticalização da atividade via sistemas de integração, envolvendo parcerias dos produtores com empresas processadoras (frigoríficos), fornecedores de ração, máquinas e equipamentos, obteve grande destaque. 


Já a “produção de aves foi tema de discussão regional na década de 1990, provocada por movimentos cooperativos que buscavam estimular a cadeia de produção de carne, mas foi abandonada na mesma década, especialmente pelas grandes dificuldades enfrentadas pelas cooperativas de produção e o endividamento dos produtores rurais naquele período”. 


Para Jesildo, estudar a atividade leiteira aponta a necessidade de pesquisar as propriedades rurais na sua diversidade de tipos, sistemas e uso de mão de obra. “Este estudo analisou a capacidade de geração de valor agregado e de apropriação de renda dos diferentes tipos de produtores de leite na região Fronteira Noroeste do Rio Grande do Sul”. 


Conforme o estudo apresentado, observar o volume de litros de leite produzidos na região, torna-se insuficiente, devido à redução de mais de 50% no número de produtores entre 2014 e 2017. Em 2014 eram 12.514 produtores e o número despencou para 6.171 em 2017. Ainda segundo o levantamento, houve uma redução em torno de 13,91% no número de agricultores que produzem até 100 litros de leite por dia entre 2017 e 2019.


As maiores reduções foram nos municípios de Alecrim, com queda de 57,43%, e de Porto Lucena, com 51,32% nesta categoria. “Estes dados são mais uma evidência que, corroborada com as reduções nas quantidades de agricultores atuantes na atividade leiteira, pode afirmar a concentração da produção leiteira na região em um número menor de agricultores que buscam se especializarem na atividade, com aumento crescente de escala”, argumenta Jesildo.

 

Jesildo Lima é do Doutor em Desenvolvimento Regional e professor da Faculdade Setrem

 

Remuneração e produtividade do trabalho familiar 

 

Produtividade e remuneração no setor leiteiro

De acordo com Jesildo, ao observar a produtividade e a remuneração da mão de obra familiar em cada tipo, destacam-se os maiores valores na do tipo Patronal, seguido pelo tipo E - Familiar Leite e Grãos de Maior Escala. No tipo C – Patronal Leite, a produtividade da mão de obra atinge R$ 59.755,05 por ano, seguido de R$ 43.587,79 no tipo E. Já as menores produtividade estão no tipo F - Leite e Suínos, com R$ 11.337,84 e do tipo A - Familiar Leite Menor Escala, com R$ 20.396,00.


Seguindo a comparação dos diferentes tipos, apresenta-se a produtividade dos animais relacionando ao volume diário a área utilizada:

Produtividade, em Litros/Vaca/Ano e Litros/Hectare/Ano, dos tipos de agricultores da região Fronteira Noroeste do Rio Grande do Sul

 

No gráfico é possível observar as diferentes produções de leite por vaca no ano, diante dos oito tipos apresentados. A produtividade de litros/vaca/ano é resultado da divisão da produção total pela quantidade de animais em lactação. Já a produtividade de litros/hectare/ano é resultado da divisão do total da produção pela superfície agrícola útil destinada à atividade. “É importante destacar que todos estão bem acima de média nacional, que em 2017 foi de 1.709 litros e, no Estado do Rio Grande Sul, estimava em 3.157 litros/vaca/ano, conforme o Anuário Leite 2018 da Embrapa”, ressalta Jesildo. 


O professor explica que os tipos com maiores superfícies agrícola útil possuem melhores indicadores de produção de leite por vaca em lactação durante o ano. “Ainda é possível apresentar uma relação com a produção de leite pela área útil utilizada na atividade leite. Os tipos C e E apresentaram os melhores resultados, sendo Patronal e Leite e Grãos Maiores.

 

O que precisa ser feito?

De acordo com Jesildo, o primeiro passo é “acelerar nossas ações cooperadas com entes públicos, empresas e forças regionais para analisar as consequências desta dinâmica e ‘pensar’ a região, com ações de médio e longo prazo”. 


Ele defende que o leite é uma cadeia de produção já consolidada que possui tendência em continuar a reduzir a quantidade de agricultores na atividade, mas manter volumes de produção. “Ou seja, concentração devido a fatores como produtividade, falta de mão de obra e necessidade de investimentos para aumento de produção. Cabe a região decidir se pretende minimizar a redução dos produtores de leite e ou potencializar suas ações naqueles que possuem melhores indicadores para aumentar volumes de produção”, considera. No entanto, a região ainda tem problemas ligados ao fomento da atividade como assistência técnica, infraestrutura no meio rural (energia elétrica de qualidade, comunicação, estradas), acesso a novas tecnologias, mão de obra disponível e capacitada, sucesso familiar, garantias contratuais da comercialização e tantas outras. 

 

O que não deve ser feito?

Ficar parado, não agir. Conforme Jesildo, o desenvolvimento de uma região está ligado na capacidade de melhoria da qualidade de vidas das pessoas, e envolve além da geração de renda a sua distribuição. “Em estudos de situação de desenvolvimento é possível analisar uma relação na quantidade de cadeias de produção existentes, diversificação e valor agregado da produção. Nem todos produzirão leite, grãos possui uma força importante na região, mas em tempos de preços interessantes frutos de nossas lavouras, precisamos avançar em estudos de novas possibilidades para desenvolver ainda mais, não “fixando” as pessoas no campo e nas nossas cidades, mas propiciando condições mais vantajosas para permanecer aqui”, conclui.

 

NÚMEROS DA REGIÃO 
Em 2014 eram 12.514 produtores de leite, em 2015 caiu para  9.780 e, em 2017 foi reduzido para apenas 6.171 agricultores com atuação na atividade leiteira.
Os dados apontam uma redução em torno de 13,91% de agricultores que produzem até 100 litros/leite/dia, em 2017 eram 36,70%, e em 2019 o percentual foi reduzido para 22,79%.
Municípios  com maior redução: Alecrim: 57,43% e Porto Lucena: 51,32%.