A vida dos três-maienses pelo mundo afora

Qualificação profissional foi fundamental para Caroline Costa, 30 anos, ir morar do outro lado do mundo. Residindo na Coreia do Sul desde 2019, a três-maiense está cursando mestrado em Relações Públicas e Publicidade, pela Sogang University, através de uma bolsa do governo local. A jovem deve retornar ao Brasil no começo de 2023, quando concluir seu curso. Não é a primeira vez que Caroline pisa em terras coreanas. Ela já morou no país em 2013, por seis meses, quando ganhou uma bolsa de estudos para aprender o idioma, na Universidade de Geumgang, na cidade de Nonsan, região central do país. Ela descobriu a bolsa pesquisando na internet. Encontrou relatos e postagens em blogs de pessoas que tinham alcançado essa oportunidade. Resolveu se inscrever e passou. Filha de Marinês Corso e Ulisses Vanderlei Costa, a três-maiense iniciou sua trajetória acadêmica em 2012, quando conquistou uma bolsa integral do Prouni para Relações Públicas, na Unijuí.

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Carol e a fotografia tirada no mês de aniversário de buda, durante o festival das lanternas no Jogyesa, no templo budista mais conhecido de Seul

A segunda vez no país coreano

Como havia passado alguns meses no Oriente no meio da graduação, quando retornou ao Brasil precisou trocar de curso, para Publicidade e Propaganda. “Infelizmente o curso de Relações Públicas estava fechando na universidade e eu não conseguiria me formar por causa das matérias que faltavam”, explica. Concluiu o curso no início de 2017, na Unijuí. Em 2018, cursou MBA em Marketing Digital, pela Unopar Três de Maio.

Em 2017, iniciou uma trajetória de inscrições para a bolsa do governo coreano chamada GKS (Global Korea Scholarship) para o mestrado.

Não foi fácil ingressar nesta bolsa. A GKS abre edital para candidatura para pós-graduação somente uma vez por ano, no mês de fevereiro.

A primeira tentativa foi em 2017. Ela preparou a documentação correndo e candidatou-se na Embaixada, mas o resultado foi negativo. “Hoje percebo que minha candidatura de 2017 foi muito despreparada”, avalia.

No ano seguinte, entendendo melhor o processo e com mais informações, Caroline se candidatou novamente. “Resolvi me inscrever pela Universidade na Coreia, e não pela Embaixada e essa pequena troca deu um resultado enorme. Eu passei pela primeira fase. Restava só o governo coreano me aceitar... e foi aí que eu recebi outro não”, recorda.

Já em 2019 foi diferente. Com todos os documentos prontos, testes de proficiência em inglês e coreano, Caroline estava confiante de que conseguiria. Foi aprovada e passou pela entrevista da universidade e, enfim, foi aprovada pelo governo coreano. “Foi aí que eu comecei a comemorar e entender que eu realmente tinha sido aprovada. Fiz os exames médicos necessários e lá estava meu nome na lista final de aprovados para vir fazer meu mestrado na Coreia do Sul”, celebra a três-maiense.

O primeiro ano da bolsa consistiu em aprender o idioma local, em uma cidade diferente de onde ia cursar o mestrado. Assim, Caroline morou um ano e meio em Gwangju, cidade ao sul do país, antes de se mudar para a capital Seoul. “Eu terminei o terceiro semestre do mestrado em Relações Públicas e Publicidade pela Sogang University. No próximo semestre eu estarei fazendo a minha pesquisa para a tese e posterior graduação”, informa.

A jovem tem o visto de estudante, que recebeu pela bolsa de estudos, o que não permite trabalhar sem a autorização da universidade. “A bolsa GKS paga todas as despesas dos estudantes aqui no país e também as passagens de ida e volta”, conta.

Caroline considera que morar fora do Brasil é o sonho de muitos brasileiros, especialmente para conhecer a realidade de outros países. “É difícil vir morar do outro lado do mundo por acaso. Para mim foi tudo planejado”, declara. E, como a jovem queria continuar os seus estudos e o país é um dos poucos que têm esse tipo de bolsa de pós-graduação, Caroline foi para o outro lado do mundo. “Além de que o estilo de se fazer Comunicação e Publicidade aqui é muito diferente do Brasil, então foi um ponto a mais para vir”, frisa.

Caroline Costa, 30 anos, reside na Coreia do Sul desde 2019

 

Cultura, clima e culinária

A cultura do país é bem diferente da brasileira. “A Coreia por muitos anos teve reis e monarquias, então a história do país é muito rica e ainda existem vários palácios com mais de 500 anos de história. O país também sofreu com a invasão do Japão e da China, e a guerra entre as Coreias em 1950. Por isso, há muitos locais e museus bem interessantes para visitar aqui”, revela Caroline.

Ela também destaca que os costumes são outra atração à parte. “O país foi criado e desenvolvido com uma base confucionista e budista, e apenas recentemente o cristianismo ganhou força. Muitos dos costumes cristãos não são celebrados aqui com a mesma simbologia”, pondera.

O clima tem as quatro estações bem definidas. Por se localizar no hemisfério norte, as estações são opostas às brasileiras. Agora ocorre a monção, temporada de chuvas torrenciais durante o verão. O inverno neva bastante e é muito frio. “A alimentação ainda é um pouco difícil para mim. Eles colocam muita pimenta nas comidas e eu, particularmente, não consigo comer comidas muito apimentadas. As porções individuais dos restaurantes também são enormes, então sempre vou com amigos porque sozinha não consigo comer tudo”, conta. As comidas mais típicas coreanas são sopas com vegetais e massa, arroz e kimchi (alimentos à base de hortaliças).

 

Dia a dia na Coreia

O cotidiano na Coreia é diferente do que Caroline havia imaginado. Por conta da pandemia de Covid-19, as aulas todas online e ela quase não teve a oportunidade de ir à universidade e conhecer seus colegas.

Por semestre, ela tinha três matérias uma vez por semana, com duração de três horas. “Os professores sempre deram muitos artigos para ler de uma semana para a outra a fim de realizar tarefas e apresentações com base neles. Então eu passava a semana lendo e fazendo trabalhos”.

As aulas foram totalmente em coreano, o que lhe deu o dobro de trabalho. Caroline traduzia para o inglês para produzir os trabalhos e apresentações – que também precisavam ser no idioma local. “Por isso, eu levava o dobro do tempo para fazê-los e vários dias ensaiando como apresentá-los”.

O país também tem muitas exibições, galerias de arte e museus com entrada gratuita. “Quando eu tenho um tempo sobrando durante a semana e nas férias eu visito muitos. Algumas são legais, outras já nem tanto”, comenta.

 

Entender o coreano foi um desafio que se tornou conquista

A três-maiense considera que o maior desafio encontrado foi fazer as aulas em coreano, além da dificuldade de comunicação com os colegas de curso. “Ao mesmo tempo, conseguir fazer todas as aulas em coreano e entender 70% do que estava acontecendo durante as aulas foi uma conquista, porque o coreano é uma língua difícil”, ressalta.

Na bolsa GKS que cursa, está incluso um ano de língua coreana antes do mestrado. Para ela, com um ano de coreano a pessoa consegue viver em sociedade tranquilamente. “Mas, para o nível de linguagem de uma graduação, se os nativos têm problemas em entender os professores, imagina para os estrangeiros que estudaram o idioma por um ano só?”, avalia.

Além do idioma, Caroline ficou impressionada com as notas que está conquistando ao longo do curso. “Eu achei que não seriam tão boas por causa da diferença de línguas”, comemora.

O período de pandemia foi algo completamente inesperado. As incertezas e estar do outro lado do mundo, vendo o que ocorria com o Brasil a deixou muito apreensiva e angustiada. “Eu fiquei sem aulas por quatro meses até a universidade voltar com aulas online. Na Coreia, a Covid foi muito mais tranquila que no Brasil. Os lockdowns funcionaram por vários meses e quase tudo não essencial estava fechando. O governo coreano desobrigou o uso de máscaras em locais abertos no início desse ano, mas em locais fechados ainda é obrigatório e todos respeitam. “Somente agora que a vida está voltando ao novo normal por aqui”, diz.

Cafe Fantasy na cidade de Mokpo. O prédio é feito de contêineres empilhados um em cima do outro e decorado para se parecer com os antigos veleiros coreanos. O café está localizado em uma ilha no meio de uma baía em Mokpo e é acessível de carro ou pelos novos teleféricos 

 

Seguro saúde é obrigatório e custa U$ 100 mensais

A saúde coreana é financiada por seguro, que pode ser de duas formas. Seguro de saúde particular ou o seguro do governo, que é pago por toda a população, custando em torno de 100 dólares/mês. Em algumas situações, no caso dos estudantes, é pago metade do valor.

Caroline conta que é mais comum as pessoas irem a clínicas que a hospitais. “Mês passado eu tive que ir em uma clínica por uma inflamação da amígdala. Não marquei consulta e fui atendida em 20 minutos. O médico me atendeu por cinco minutos e receitou a medicação. O custo da consulta foi de 15 dólares (cerca de R$ 80,00) e meus remédios na farmácia custaram cinco dólares (R$ 26,00)”, relata.
 

Carol no Art Valley, um complexo de arte e cultura, na cidade de Pocheon

Salário, economia e custo de vida

No país, o salário é pago por hora trabalhada, cerca de 9 dólares/hora (R$ 48,00). O salário mínimo comum é de aproximadamente 1.800 dólares (R$ 9.550,00), mas a cultura do trabalho é mais hierarquizada que no Brasil. “É muito comum ficar após o expediente trabalhando, e, até um tempo atrás, as horas-extras não eram pagas e sim colocadas em banco de horas”, explica. 

No país não existe 13º salário e, por ano trabalhado, são 15 dias de férias. Muitas vezes, quando a pessoa falta ao trabalho, indiferente do motivo, essa falta é descontada dos dias de férias.

A economia coreana está sofrendo com a inflação e a alta do dólar, mas nada comparado à realidade brasileira. “A minha bolsa me dá em torno de 900 dólares por mês. Na capital Seoul dá para viver, pagando aluguel (que é quase metade desse valor), as despesas da casa, comida, e ainda sobra um pouco no final do mês”, destaca.

Como ela gosta de ir em shows, os ingressos não são tão baratos. "Guardo o que posso para poder comprar os ingressos para ir em shows de artistas que gosto”, conta. Ela ainda lembra que, quando morava ao sul do país, conseguia economizar mais dinheiro, já que o aluguel e do custo de vida eram mais baratos que na capital. A moeda local chama-se won.

 

Coreanos adoram brasileiros pelo futebol

A três-maiense diz que os coreanos adoram os brasileiros porque eles amam o futebol. “Esses dias aconteceu uma partida de futebol entre a Coreia do Sul e o Brasil. Eu tive a sorte de poder conseguir ingressos para presenciar e os coreanos estavam muito felizes de nos ver, tiramos várias fotos com pessoas aleatórias”, comenta.

Em frente ao Daeonsil, a casa de vidro e estufa do palácio Changgyeonggung. A casa de vidro foi construída durante a invasão japonesa no país