'Os professores estão usando a ferramenta que mais se adequa à realidade do estudante, da turma, da família e da escola', afirma a secretária municipal de Educação, Tânia Georgi

Escolas municipais atendem 2.100 alunos, da Educação Infantil ao nono ano do Ensino Fundamental. Secretária declara que calendário escolar aprovado no início do ano letivo está sendo cumprido e que as atividades não presenciais desenvolvidas nesse período de pandemia devem garantir a conclusão do ano letivo, em dezembro

'Os professores estão usando a ferramenta que mais se adequa  à realidade do estudante, da turma, da família e da escola', afirma a secretária municipal de Educação, Tânia Georgi
‘A grande maioria dos alunos possui acesso à internet, mas as escolas também disponibilizam atividades e materiais impressos que são retirados nas escolas por pais ou responsáveis’, ressalta a secretária de Educação, Tânia Georgi

Enquanto as salas de aula permanecem vazias, os professores das mais diversas redes de ensino continuam em atividade domiciliar constante. Na rede municipal não é diferente. Enquanto os alunos estão em casa, as equipes diretivas estão nas escolas, preparando as atividades e definindo os próximos passos para dar andamento ao ano letivo de 2020, que, por consequência da pandemia, se tornou um grande desafio, tanto para os educadores quanto para quem está no processo de aprendizagem.
A rede municipal de ensino de Três de Maio é a maior do município, tanto em número de alunos quanto em número de escolas. São mais de 2,1 mil estudantes, distribuídos em sete Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) e sete Escolas Municipais de Ensino Fundamental (Emefs).
De acordo com a secretária municipal de Educação, Tânia Georgi, as crianças e adolescentes da rede municipal estão tendo acesso às atividades, inclusive as que residem no meio rural. “A grande maioria possui acesso à internet, mas as escolas também disponibilizam materiais e atividades impressas correspondentes aos objetos de conhecimento trabalhados.”
Segundo ela, o calendário escolar teve início em 19 de fevereiro, com recesso do dia 23 a 31 de julho e, mesmo com aulas remotas desde 23 de março, o encerramento das atividades está previsto para dezembro de 2020. “As atividades não presenciais propostas estão sendo utilizadas como alternativa ao desenvolvimento pedagógico, abrangendo os aspectos cognitivo, físico e socioemocional. Para tanto nossos educadores desenvolvem atividades remotas através do WhatsApp, Facebook, e-mail, Classroom, Meet, vídeos e áudios disponibilizando também atividades impressas (para estudantes que não tem acesso à internet)”.
A secretária complementa que os professores estão usando a ferramenta que mais se adequa a realidade do estudante, da turma, da família e da escola, levando em conta o princípio da equidade.
Sobre desafios neste período, Tânia avalia que a principal finalidade do processo é manter o estudante conectado (vínculo) com a escola, permitindo a ele manter os conhecimentos e habilidades adquiridas bem como promover novas aprendizagens, que permitam a sua progressão e ascensão às etapas posteriores com o mínimo de perda. “Nesse sentido, a escola conta com a intervenção dos professores, e com o apoio dos pais e/ou responsáveis que também atuam como mediadores para o desenvolvimento das atividades domiciliares, e com o acompanhamento direto do professor através de registros diários, sob supervisão e orientação das equipes diretivas das escolas.”


Preocupação com séries iniciais e anos finais
Entre as preocupações das famílias e até dos professores, é a questão da aprendizagem para os alunos das séries iniciais (1º ano do Ensino Fundamental) e nono ano das Séries Finais, em que os estudantes estão se preparando para ingressar no Ensino Médio, que não é oferecido pelo Município.
A secretária destaca que a alfabetização é um momento único e especial e umas das fases mais delicadas e importantes da vida escolar. “Precisa acontecer de forma natural, como um trabalho continuo de estímulo, análise e conhecimento por parte do professor, pois as crianças aprendem a ler e escrever cada uma no seu ritmo e no seu tempo, tendo garantido o seu direito de ser criança. Nesse sentido o processo está tendo continuidade, e de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), se espera que a alfabetização seja consolidada até o final do 2º ano. As alternativas para o próximo ano letivo serão avaliadas com o retorno das aulas presenciais, mediante a realização de avaliação diagnóstica para verificar as aprendizagens construídas durante o período daas aulas remotas. Identificar até onde as crianças conseguiram avançar e quais dificuldades que deverão ser sanadas é condição para propor as alternativas de recuperação da aprendizagem”, informa.


Ano diferente, mas não perdido
Como professora, e estando à frente da Secretaria de Educação, Tânia observa que este ano é “diferente, mas não perdido”. “Encontramos outras formas de organização da trajetória escolar. Várias oportunidades e caminhos estão sendo percorridos proporcionando a construção de muitos outros conhecimentos e habilidades que talvez não acontecessem no presencial. A interação acontece a partir de vários instrumentos e ferramentas possibilitando também aos estudantes buscar o conhecimento de forma independente”.
Segundo a secretária, a estimativa é que 95% dos alunos estão sendo atendidos pelas aulas via internet; e, somando as atividades impressas que são entregues, 100% dos alunos são atendidos no ensino remoto. "As escolas estão em constante interação entre professores e famílias", afirma.
Com a reportagem da rede municipal, o Semanal encerra a série de reportagens especiais sobre as aulas remotas. Foram quatro edições, com pelos menos 20 páginas sobre o tema. Agradecemos a todos, professores, alunos e pais que participaram. 

 

Ensino público municipal conta com quatro escolas do campo e três na cidade

O Jornal Semanal contatou as equipes diretivas das sete Escolas Municipais de Ensino Fundamental e questionou como avaliam o período e as aulas remotas. Em todas as escolas – incluindo as escolas do campo – o uso das tecnologias é a alternativa encontrada nesse período, especialmente com a criação de grupos no WhatsApp e Facebook; outras utilizam o Google Meet e Google Classroom. Pelos meios digitais,  há o compartilhamento de arquivos de áudio e vídeos, e-mails e, para os estudantes que não possuem acesso à internet, ainda são disponibilizados materiais impressos para as famílias que desejam retirar na escola.


Escolas do campo
A diretora da Emef Bem Viver Caúna (de Caúna), Lisiane Weber, revela que a escola possui 145 alunos matriculados, da Educação Infantil 5, Educação Infantil 6, 1º ao 5º ano, com uma turma de cada nível; e, que no momento, cada professor usa sua criatividade e as ferramentas possíveis para auxiliar seus alunos com suas descobertas e novos desafios. 
Na Emef Martinho Lutero, localizada em Entrada da Barrinha, a diretora Cláudia Willers, deixa a critério das famílias, disponibilizando todas as atividades impressas para todos os 28 alunos da escola, entre pré- escola e 5º ano. “Assim, as famílias podem decidir se retiram as atividades ou se utilizam apenas as mídias digitais. Apenas três estudantes não possuem internet, e, estes, vem para a escola quando sentem dificuldade e são auxiliados; e todos os cuidados preventivos são tomados”.
Já os 15 alunos da Emef São Caetano, de São Caetano, divididos entre Educação Infantil e 2° ao 5° ano, também são atendidos, seja com a entrega de kits pedagógicos, material impresso ou pelos aplicativos online, informa a diretora Itamara Damiana Segatto.
Outra escola do interior, a Emef Frederico Lenz, localizada no distrito de Manchinha – que este ano foi municipalizada, atende 19 estudantes oriundos da comunidade e arredores, com turmas multisseriadas: 6º/7º anos; 8º/9º ano e 5º ano. São oito professores e a diretora é Letícia de Camargo Mathias. Segundo ela,  nem todos estudantes são atendidos com a mesma intensidade, qualidade e atenção que é dada no ensino presencial; visto que um dos maiores desafios com o ensino remoto é atender a comunidade escolar dentro de singularidades (necessidades). 


Escolas da cidade
A Emef Francisco Sales Guimarães possui hoje 188 alunos matriculados da Educação Infantil 5 até o 5º ano. Conforme a diretora Cátia Woiciekoski, foram criados grupos de WhatsApp para as turmas de Educação Infantil, 2ª, 3º e 5º ano e para as turmas de 1º ano e 4º ano os grupos foram criados pelo Facebook, adaptando-se a realidade de cada profissional e das famílias. As aulas são postadas nos grupos e os professores também enviam atividades e materiais que são entregues na escola. 
Com 228 estudantes, a Emef São Pedro oferece Educação Infantil 5 e 6 e Anos Iniciais. Este número de alunos inclui as turmas do Convênio Espaço Físico com o Estado, as quais funcionam em Consolata, Progresso e Quaraim, explica a diretora Luciele Dileia Menegat. 
Já a maior escola da rede municipal, a Emef Germano Dockhorn tem matriculado 670 alunos, nos níveis de Ensino de Educação Infantil (4 e 5 anos) e Ensino Fundamental Séries Iniciais e Finais (até o 9º ano). Do total de estudantes, um pouco mais de 100 buscam atividades impressas na escola, por não terem acesso às tecnologias da informação.
A diretora Marjane Sacchet dos Santos ressalta que as atividades encaminhadas possuem diferentes formatos e propostas, procurando sempre envolver recursos que as famílias tenham em mãos, já que o objetivo é que os alunos permaneçam em suas casas. “Os alunos fazem a devolutiva para o professor através de diferentes anexos, fóruns, mensagens, vídeos e registros fotográficos dos processos de construção de sua atividade”.
Segundo Marjane, direção, coordenação pedagógica e o serviço de orientação educacional estão à disposição dos alunos e pais em tempo integral de funcionamento da escola,. “O engajamento dos alunos é um dos principais desafios da educação neste momento. E se os pais/responsáveis demonstrarem real interesse no que os filhos estão aprendendo,  pode fazer toda diferença. Estamos vivendo um momento sem precedentes e precisamos buscar o equilíbrio”, destaca a diretora.

 

Na Educação Infantil, foco principal é manter o vínculo entre escola e família

Para falar pelas sete escolas municipais de Educação Infantil, a Secretaria de Educação indicou a diretora da Emei São José (do Bairro Oriental), Roselaine G.L. Barasuol. Assim como as Emefs, as Emeis criaram – como forma de comunicação e para manter o vínculo com os alunos e familiares – grupos no WhatsApp para cada turma das escolas, onde são disponibilizadas sugestões de cunho pedagógico que as crianças possam executar dentro do contexto doméstico familiar. 
As professoras encaminham vídeos e áudios com orientações de possibilidades de atividades a serem desenvolvidas em casa pela família que vão desde a construção de brinquedos com sucata, dicas de histórias, atividades motoras que desenvolvam a coordenação, jogos, músicas, brincadeiras que estimulem o desenvolvimento das crianças. Com os bebês, as atividades são propostas para serem prazerosas para eles e para a família, principalmente nesta faixa etária as relações, o toque, o contato físico e a exploração de diversos materiais é fundamental para seu desenvolvimento, por isso, todos os momentos de aprendizado são pensados para que sejam agradáveis e alegres, em que fique claro que cuidar e educar são indissociáveis, e que todas as ações na verdade, são atos educativos.
Segundo Roselaine, nota-se que há um envolvimento satisfatório dos pais muito embora, alguns manifestem não ter tempo disponível para as atividades, pois precisam conciliar com o trabalho e tarefas domésticas. “Outro fator importante é que muitas crianças estão ficando com avós, madrinhas, tias enquanto os pais trabalham, o que acaba dificultando essa interação. Mas mesmo que de forma parcial, as famílias têm participado ativamente como mediadoras dessa relação à distância entre professores e crianças. Mesmo que o retorno não seja imediato, as famílas fazem o registro através de fotos e vídeos do dia a dia das crianças, de suas descobertas e aprendizagens”. 
De acordo com a diretora, na Educação Infantil o foco principal é manter o vínculo entre escola e família, de forma respeitosa e carinhosa. “Quando o trabalho das professoras é reconhecido, a família se torna uma aliada e estimuladora do desenvolvimento das crianças, evitando retrocessos cognitivos, corporais e emocionais”.
Ela avalia este período para a educação infantil da rede municipal como bastante desafiador. “Estamos todos juntos e unidos por uma causa: a educação e bem-estar das crianças. É momento de perceber que nossas relações vão além dos muros da escola, pois compartilhamos sonhos, desejos, anseios e dificuldades. Ressaltando mais uma vez a importância de família e escola serem parceiras mantendo sempre uma comunicação aberta e ativa. Seguimos nosso trabalho, esforçando-nos para oferecer sempre, independentemente de qualquer situação, uma educação de qualidade e equidade para nossas crianças”, enfatiza Roselaine.

 

Com deficiência visual, aluno recebe material impresso em braille

A rede municipal também atende alunos especiais, como é o caso do estudante do 8º ano da Emef Germano Dockhorn, Nycolas Natã do Nascimento, 15 anos.
Nycolas é deficiente visual e continua recebendo as atividades escolares normalmente neste período, mas, com uma diferença, em braille. 
Os professores também enviam material pelo WhatsApp, em áudio, e deixam atividades impressas em braille para que sejam retiradas na escola.
Os pais, grandes apoiadores e incentivadores do filho, auxiliam nessas atividades. Nycolas garante que consegue realizar as tarefas, e que a maior dificuldade é evitar as distrações, para que possa “estudar o que é preciso”. 

Nycolas do Nascimento, 15 anos, afirma: 'é difícil estudar em casa, pois tenho que evitar as distrações'

'O afastamento da escola (das aulas presenciais) me permitiu desenvolver a capacidade de aprender por conta própria..., principalmente na questão de pesquisar, procurar em textos, videoaulas, etc...'

 

“Os professores estão nos enviando as atividades e conteúdos pelo aplicativo Google Classroom, pelo WhatsApp e alguns deles também fazem chamadas pelo Meet, pra explicar os conteúdos, tirar dúvidas, etc. Eles nos ajudam quando precisamos. 
Para aprimorar os estudos, gosto de falar com meus pais das coisas que aprendo nas aulas e também de assistir videoaulas. Isso me ajuda a entender melhor os conteúdos. Ler sobre eles e tentar explicar pra mim mesma em voz alta também me dá uma boa ideia do que eu já sei e o que ainda não entendi. Se não conseguir, peço pros professores e eles me explicam.
Para mim, a maior ‘dificuldade’ está sendo a distância dos professores. O entendimento é muito melhor quando estão ao meu lado para me orientar e pra tirar dúvidas durante a explicação. Agora, podemos fazer isso quando temos chamada pelo Meet. 
Como não sigo mais a minha rotina escolar, isso acabou influenciando nos meus estudos, mas ainda assim, estou apredendo porque entendo com facilidade os conteúdos e realmente amo aprender, isso ajuda muito.
O afastamento da escola (das aulas presenciais) me permitiu desenvolver a capacidade de aprender por conta própria, claro que com a orientação dos meus professores, principalmente na questão de pesquisar, ir procurar em textos, videoaulas, etc. Em alguns casos, acabamos aprendendo algumas coisas que não aprenderíamos nas aulas normais. Mesmo se eu sair prejudicada no final do ano, consegui aprender isso, que com toda certeza vai ser e é muito útil, não só pra minha vida acadêmica, mas pra vida em geral. Espero que isso incentive a maioria, pelo menos, a continuar pesquisando daqui em diante, e a descobrir os seus estilos de estudo.” 

Júlia Martins Dalcin, 14 anos, 9° Ano, Emef Germano Dockhorn

 

Em casa, no meio rural, Lívia recebe a ajuda de 
toda a família para fazer as tarefas escolares

Lívia Jagnow Schreiber, 8 anos, é aluna da Emef Bem Viver Caúna

Aos oito anos, Lívia Luísa Jagnow Schreiber, é estudante da 3° série da Escola Municipal Bem Viver Caúna, em turno integral, das 7h45 às 16h. 
Os pais Maickel Schreiber e Traudi Jagnow contam que a filha recebe as atividades escolares pelo grupo de WhatsApp criado pela professora Rosália, de Educação Básica. 
Eles avaliam que a filha se adaptou bem a situação. “Está tudo normal. Pois estamos nos unindo como família para ajudar a Lívia a cada dia aprender mais... mas não é como estar em sala de aula”, afirmam.
Além do conteúdo básico, a menina tem atividades de música, educação física e inglês. Avaliando que inicialmente, foi mais difícil a adaptação à nova rotina escolar em casa, hoje, a família auxilia Lívia com as atividades que são repassadas pelos professores.
A avó paterna de Lívia mora junto com a família e todos se ajudam para conciliar as atividades da casa e as tarefas da escola. A família reside no meio rural, em Manchinha, e a menina tem o contato diário com seus cinco gatos, três cachorros, e a criação de animais, que inclui porcos, terneiros, coelhos, galinhas, que ajudam a amenizar a falta do ambiente escolar. “Ela limpa a estrabaria, o chiqueiro, ajuda a tratar os animais”, conta o pai.
Maickel fala que a filha sente falta da escola, dos colegas, das atividades e, principalmente, dos professores, em especial da professora Rosália. “Ela prefere ter aulas na escola”.

“Eu queria ir na escola. Tenho saudades dos coleguinhas, de ter aula com as professoras. A aula com as profes é melhor, dá mais vontade de fazer as atividades do que com a mãe ou a vó em casa. Mas sei que no momento é importante se cuidar e por isso tenho que ter aula em casa”
Isabella Weber, 6 anos, 1º ano da Emef Sales Guimarães, filha de Brenda Weber e Robison Zayaezkoski

 

Pai abre mão de retorno ao mercado de trabalho para cuidar das duas filhas pequenas e auxiliar nas tarefas escolares  

Pais criaram 'cantinho da aprendizagem' para as filhas Helena Rafaelli Weber, 5 anos, aluna da Emei Tesouro das Acácias, e Amanda Luisa Weber, 7 anos, estudante do 1º ano  da Emef Francisco Sales Guimarães

“Sempre tive uma vida corrida. Está sendo desafiador. Mudar a rotina de uma forma brusca e rápida não foi nada fácil; mas hoje tenho a certeza de que é gratificante”, diz Sandro Weber, 43 anos, casado com Sandra Maria Caon Weber, 42 anos, pais de Amanda Luisa, 7 anos, e Helena Rafaelli, 5 anos.
Sandro trabalhava há sete anos em uma empresa, e, devido a pandemia, acabou perdendo o emprego. Foi nesse momento em que decidiu que ficaria em casa para ajudar a cuidar das meninas, já que a esposa trabalha fora, como costureira, e as escolas e creches suspenderam as aulas. “Não tínhamos com quem deixar as meninas. Acabei recusando algumas propostas de trabalho, mas acredito que apesar de tudo, passar esse tempo de pandemia dando suporte e atenção às minhas filhas não tem preço”, destaca.
Amanda estuda no 1º ano, turno da manhã, na Emef Francisco Sales Guimarães. Ela recebe as atividades escolares pelas professoras através de um grupo criado no Facebook, onde diariamente são postadas as tarefas a serem realizadas.
Já Helena, que é aluna da Emei Tesouro das Acácias, recebe as atividades das professoras por meio do WhatsApp. 
Tanto Sandro quanto Sandra auxiliam as filhas nas atividades escolares. “Mesmo nesse momento tão difícil que estamos enfrentando acreditamos que a aprendizagem das crianças não pode parar. Por isso há um grande empenho entre pais e professores em prol da educação”, avalia o casal.
No início, o pai comenta que não foi nada fácil. “Tivemos que criar um espaço chamado ‘Cantinho da Aprendizagem’, para poder despertar o interesse delas. As atividades são realizadas com a ajuda de um notebook e de um  celular. Porém, apesar de todo esforço realizado, estudar em casa não é o mesmo que frequentar uma sala de aula, onde os professores estão mais capacitados para ensinar e promover o processo de aprendizagem”, compara Sandro.
Contudo, o casal acredita que está fazendo a sua parte. “Pelo menos tentamos fazer com que aprendam algo. Pois a aprendizagem é um processo contínuo, começa  na escola e continua em casa. Professores e pais precisam trabalhar juntos, pois não é só responsabilidade da escola ensinar crianças e jovens... Não é fácil acompanhar os filhos nas tarefas, exige tempo e atenção, mas é gratificante”, conclui Sandro.

 

‘A saudade do ambiente escolar faz com que alguns se sintam 
desmotivados e para fazer as atividades em casa’, avalia 
professora do 1º ano, Carmen Naressi

Com todos os cuidados de prevenção necessários, como álcool em gel, distanciamento entre as classes e uso de máscaras, a professora Carmen Naressi passou duas horas com três alunas reforçando o conteúdo escolar do 
1º ano da Emef Germano Dockhorn, na última segunda-feira

Longe da sala de aula desde 23 de março, a professora Carmen Maria Naressi, 56 anos, pôde ver os olhos brilharem de felicidade de três aluninhas do 1º ano da Emef Germano Dockhorn, na segunda-feira, 17 de agosto. O motivo? Ao realizar uma sondagem com as famílias dos estudantes do primeiro ano A, da escola, ela decidiu promover “aulinhas” para alguns alunos, a fim de verificar, presencialmente, como está o andamento das atividades – e a aprendizagem – da sua turminha. 
Com 30 anos dedicados ao Magistério, Carmen tem passado diariamente as atividades domiciliares por meio do WhatsApp e, para os alunos que não têm acesso à internet, deixa folhas impressas para serem retiradas na escola, semanalmente.
Por trabalhar com a alfabetização, num período tão importante para a criança, a dedicação da professora chama a atenção. Porém, ela destaca que por mais que haja esforço dela e da escola para oferecer atividades ao alcance das crianças desenvolver, a saudade do ambiente escolar faz com que alguns se sintam desmotivados para fazer as atividades em casa. “Nesse momento é importante contar com o apoio e colaboração das famílias para que a aprendizagem aconteça de forma satisfatória, uma vez que a professora não está mais em sala de aula interagindo com os alunos”.
Para a professora, embora os desafios, a aprendizagem está acontecendo de forma positiva. “Esse período tem sido de muito aprendizado, um processo de reorganização no qual aos poucos vamos nos adaptando. Na minha turma a maioria dos alunos apresenta retorno das atividades através de vídeos e fotos pelo Whatsapp. Apenas os alunos que retiram as atividades na escola – e com isso não têm acesso aos vídeos e áudios com explicações e orientações –, é que apresentam maior dificuldade de aprendizagem”, compara.

 

Acostumada a pegar a estrada para lecionar, professora Leila Salvador Both tem nova rotina de trabalho

Habituada a sair de casa antes das sete horas da manhã para lecionar na Educação Infantil da Setrem no turno matutino, e, à tarde, no 4º ano da Emef Germano Dockhorn (para uma turma de 25 alunos), a professora Leila Fabrícia Salvador Both, 37 anos, que mora em São José do Inhacorá viu sua rotina mudar totalmente. 
Hoje, a rotina se baseia no uso das tecnologias, tablet, celular, computador. “É praticamente o dia todo em frente às telas, trabalhando  em casa, atendendo pais, crianças, e-mails, gravando aulas, vídeos, postando aulas domiciliares”, conta. 
Leila teve que criar uma rotina de trabalho. “Acordo no mesmo horário, me arrumo como se fosse para a escola, e inicio as atividades diárias de planejamento, pois são duas escolas, turmas totalmente diferentes, que demandam tempo, pesquisa, e muita criatividade para planejar aulas atrativas e cativantes nestes tempos de isolamento”, relata a educadora, com 15 anos de Magistério.
Ela destaca que as aulas estão sendo remotas, mantendo o mesmo horário, turno e calendário escolar organizado para o ano de 2020. “A Secretaria Municipal de Educação agilizou a organização das atividades domiciliares não houve perda em relação aos dias letivos. Tudo teve que se reinventar num tempo muito curto, não houve aviso prévio, a pandemia da Covid-19 nos colocou em isolamento social, e tudo teve que se resignificar;  as aprendizagens,  o modo como se planejava  as aulas e a relação com as famílias”, enfatiza. 
Na Germano Dockhorn foi criado um grupo de WhatsApp com a turma do 4º ano, que ficou definido como o canal oficial de diálogo ‘família – escola’.  "Seja com aulas postadas no grupo de pais e responsáveis no WhatsApp que ocorrem diariamente, via Google Meet que é mais um recurso usado para conversar, matar a saudade, nos aproximar, mas que também se faz importante para aquela explicação e o tira dúvidas, esse recurso alguns alunos têm acesso e usam com frequência. Também temos as aulas impressas que são retiradas na escola semanalmente pelas famílias que não possuem acesso às mídias sociais”. 
A professora afirma que as aulas acontecem e chegam a 100% das crianças. “Claro que alguns pontos ficam prejudicados, como aquela vontade de brincar e interagir com os colegas no intervalo, a explicação olho no olho, o calor humano do abraço, o carinho demostrado através dos gestos de afeto entre os colegas, o burburinho da sala de aula". 
Para concluir, Leila enfatiza que a pandemia serviu para deixar a relação ‘escola - família’ bem estreita. “A distância nos aproximou; fazemos chamadas de vídeo, a aulas pelo Google Meet acontecem semanalmente, elas nos aproximam; dão um alento no coração; as crianças podem conversar, trocar ideias... enfim, momentos assim revigoram as energias”.

Para a professora há 15 anos, Leila Salvador Both, a pandemia está proporcionando uma relação mais estreita entre escola-família

 

‘Acredito que este ano não está perdido. É evidente que vai deixar prejuízos para a aprendizagem de alguns alunos, principalmente os que não têm acesso à internet. No entanto, isso não anula todo o trabalho e empenho pedagógico’, destaca professor Ronei Osvaldo Ziech, 33 anos

'Não é como uma receita de bolo, pronta e com passos pré-definidos. Trata-se de uma situação nunca vista antes, em que professores e alunos estão experimentando diferentes situações para manter a relação ensino -  aprendizagem', alega professor Ronei Ziech

Para o professor de Matemática e Ensino Religioso das Emefs Frederico Lenz (Manchinha) e Germano Dockhorn, Ronei Osvaldo Ziech, 33 anos, a adaptação ao ensino remoto é um desafio diário. “Não é como uma receita de bolo, pronta e com passos pré-definidos, trata-se de uma situação nunca vista anteriormente, em que professores e alunos estão experimentando diferentes situações para manter a relação entre professor - aluno, e ensino - aprendizagem”. 
Ele admite que, diante de aulas remotas e interações virtuais com a utilização de plataformas e aplicativos digitais, as principais dificuldades estão relacionadas à autonomia dos alunos que estão acostumados com a presença permanente do professor em sala de aula e a falta de um letramento digital adequado dos professores para utilizar as diferentes ferramentas digitais.
Ronei também está utilizando algumas ferramentas como o Google Meet, Google Classroom e o WhatsApp. “Semanalmente realizo aulas remotas com a utilização do Meet para explicação de conceitos, encaminhamento e correção de atividades. No entanto, o momento da aula a ser considerado seria esse, mas as explicações e troca de mensagens via WhatsApp ocorre durante todo o dia, já que muitos alunos não têm uma rotina de estudos com uma organização fixa de horários em casa. Para os alunos que não têm acesso à internet e não podem participar das aulas remotas, as atividades estão sendo impressas e as famílias podem realizar a retirada com a direção de cada escola”.
O professor alega que não consegue atingir a totalidade dos alunos, porque algumas famílias não têm acesso à internet, ou até mesmo o aluno não tem um celular ou computador adequado para acompanhar as aulas remotas e realizar as atividades necessárias para a construção da aprendizagem.
Mas, embora essa situação, ele acredita que o ano não está perdido. “É evidente que vai deixar prejuízos para a aprendizagem de alguns alunos, principalmente para os excluídos digitalmente (alunos que não têm acesso à internet para acesso as atividades e aulas remotas). No entanto, isso não anula todo o trabalho e empenho pedagógico, que em conjunto com os pais e responsáveis, proporcionaram aos alunos importantes avanços durante esse período de isolamento social”. 
Além disso, segundo Ronei, é certo que nada substituí o ambiente escolar, com as interações interpessoais e sob os cuidados de professores e demais profissionais que têm como objetivo principal o desenvolvimento dos estudantes. 
Porém, de outro lado ele ressalta que, “não podemos negar que esse ano também foi um passo inicial de uma revolução nas metodologias utilizadas e nos meios de interação com os alunos”. Na avaliação do professor, precisamos compreender a revolução tecnológica em que estamos vivendo e conseguir desenvolver aulas adequadas com essa realidade. “Gostaria de lembrar que a escola sozinha não faz milagre, a educação familiar é a base de todo cidadão, e para que tenhamos um futuro melhor é preciso ter clareza na importância da parceria entre família e escola e na responsabilidade de cada um no processo educacional e na formação do cidadão”, pondera Ronei.

 

‘Como professora eu sei da importância das atividades escolares domiciliares. Como mãe eu vejo e entendo que é difícil ter o mesmo rendimento e atenção que na sala de aula’, ressalta educadora Lisandréia Knuppe

Professora Lisandréia, 43 anos, usa a criatividade, com metodologia diversificada e atividades variadas

A criatividade da professora de Educação Física Lisandréia Procópio  Knuppe, 43 anos, não tem limites. Do ambiente de casa, ela cria inúmeras possibilidades de aula para seus alunos continuarem firmes no processo de aprendizagem. Professora da Emef Germano Dockhorn, Lisandréia atua dos primeiros anos até 7ª série, além de lecionar Artes em algumas turmas. 
A forma de trabalho dela é bastante variada. “Seria estranho dizer que nas minhas aulas e atividades domiciliares alcancem 100% dos alunos. Mas eu espero que com minha metodologia diversificada e atividades variadas – com conteúdo escrito, músicas, danças, vídeos feitos por profissionais de alongamento, vídeos caseiros feitos por mim, demonstrando e explicando como realizar as atividades –, eu consiga alcançar o maior número possível de alunos. O retorno tem sido positivo, esta é minha maior alegria.”
Para os alunos sem acesso à internet, ela proporciona material impresso. E pelo WhatsApp, envia os mais variados conteúdos, de maneira simples e objetiva, para que os alunos entendam e realizem sem maior dificuldade. “E em caso de dúvidas eles entram em contato comigo”.
Embora considere o período “delicado”, pela incerteza do amanhã, ela acredita que o momento é interessante, pois, um bom exemplo é o grupo de professores da escola, que mesmos afastados fisicamente pela pandemia, encontram-se unidos. “Mais do que nunca, estamos unidos com o mesmo objetivo, de proporcionar para todos os alunos da melhor forma possível novas aprendizagens, onde o conteúdo não seja algo superficial, mas que realmente some na aprendizagem e na vida diária”.
Outro desafio para ela é conciliar a profissão, casa e filhos em idade escolar. “Nas primeiras semanas confesso que foi um pouco estranho e, de certa forma, angustiante. Dar aula sem ir para escola, a família teve que criar e se adaptar a uma nova rotina. Continuamos acordando cedo, os filhos assistem aula em seus quartos, Marcel, meu esposo que também é professor,  fica na sala e eu pela casa toda. Quando cai a internet ou acaba a luz é uma alegria para guris e o nosso desespero, pois temos aula para dar”, conta. 
Uncas, o filho mais velho está no 9° ano e é mais tranquilo. Já Ícaro, que está no 4°ano a situação é um pouco mais delicada. “Enquanto era novidade, tudo bem, mas hoje ele mostra uma certa inquietude diante do computador. Várias vezes temos que conversar e o papo é bem sério. Quanto as tarefas domésticas é muito interessante, pois nunca estive tanto tempo em casa e ao mesmo tempo tanta roupa pra lavar e casa pra limpar”, brinca.
Conforme a professora, a dedicação maior hoje é o planejamento das atividades escolares domiciliares. “É uma busca diária pelo conteúdo e sua organização para atender aos alunos da melhor forma possível. Por isso eu sempre digo aos meus filhos: valorizem o tempo que o teu professor dedicou para te apresentar a aula e o conteúdo. Que com certeza ali tem uma dedicação diária. Como professora eu sei da importância das atividades domiciliares. Como mãe eu vejo e entendo que é difícil ter o mesmo rendimento e atenção que na sala de aula. Mas sei também que com uma pitada de dedicação, paciência e alegria chegaremos todos juntos e vitoriosos no final dessa inesperada e nova caminhada”, finaliza a educadora.