A vida dos três-maienses pelo mundo afora

A arquiteta e urbanista Rúbea Centenaro, 26 anos, mora desde 2019 no Reino Unido e trabalha em escritório de arquitetura, na cidade de Reading

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Conhecendo a cidade de Oxford, na Inglaterra, onde se localiza uma das universidades mais antigas do mundo

Rúbea Centenaro, 26 anos, é arquiteta e urbanista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atualmente, ela e o companheiro Thomas residem na cidade de Reading, no Reino Unido. A jovem atua como Architectural Technologist no país, o equivalente a Projetista em Arquitetura no Brasil.

A escolha por esta carreira foi feita ainda quando ela tinha 16 anos, considerando o que as pessoas ao seu redor falavam: que ela era criativa e desenhava muito bem. “Como eu amava matemática e sentia que queria algo que pendesse também para área das exatas, juntei esse desejo à minha criatividade e habilidade em desenho e logo me interessei por arquitetura, principalmente residencial, por causa de sua maior presença em uma cidade como Três de Maio”. 

A três-maiense saiu do Brasil em setembro de 2019, ou seja, há quase três anos. O desejo de morar no exterior a princípio não surgiu dela, mas de seu namorado. Ele almejava uma carreira em que infelizmente no país não se tem muito investimento e oportunidades. “Ele sabia que para crescer na área escolhida deveria arriscar aqui fora. A partir do nosso desejo de ficarmos juntos e construirmos um futuro lado a lado, amadureci a ideia desta grande mudança. Mesmo sabendo que enfrentaria muitos desafios, também sabia que cresceria muito me introduzindo a um novo lugar, novas culturas e novas vivências”, diz, revelando que morar no exterior talvez possa ter acontecido por acaso. “Mas foi muito bem pensado antes que esse acaso me carregasse.”

Rúbea é filha de Elisete Pivotto Centenaro e Dirceu Centenaro. Neste ano, ela e o companheiro tiveram a oportunidade de voltar ao Brasil para visitar a família e matar um pouco a saudade.

 

A escolha profissional

Logo que concluiu o Ensino Médio, Rúbea se mudou para Porto Alegre e ingressou na PUCRS no ano seguinte. Suas matérias favoritas da faculdade eram História de Arquitetura, Física e sistemas estruturais, dois opostos que balançavam os seus interesses. “As cadeiras com mais peso, é claro, eram as de projeto, e nelas aprendi efetivamente a projetar espaços combinando funcionalidade, estética e técnica. Durante a faculdade ainda fiz voluntariado em iniciação científica, estudando a arquitetura vernacular da imigração italiana no nosso Estado, e apesar de ter apreciado muito a experiência, compreendi que a área acadêmica não era o que mais almejava”. 

Durante os anos de curso, ela teve muitas dúvidas e se questionou muito sobre a decisão de carreira. Mas foi quando estagiou por dois anos no setor de engenharia e infraestrutura da universidade, com uma equipe de arquitetos e colegas projetistas muito habilidosa, que finalmente decidiu seguir arquitetura. “Me formei em 2019 e até hoje tenho um carinho especial pelo meu projeto de TCC em que proponho a revitalização de uma área urbana e um pavilhão junto ao Cais do Porto e a orla do Rio Guaíba em Porto Alegre.”

 

A adaptação ao país europeu

Há quase três anos no Reino Unido, Rúbea avalia que é normal ouvir que os europeus em geral são pessoas mais 'fechadas socialmente' e os ingleses não escapam desse conceito. “Apesar de algumas vezes você encontrar alguém gentil na rua, é impossível comparar com o Brasil. Quando encontramos brasileiros por aqui, imediatamente sabemos que são brasileiros por serem mais falantes e calorosos”. 

O maior contato que a três-maiense tem com britânicos é no trabalho. “Quando você conhece melhor o pessoal, vai entendendo o jeito diferente e o famoso e peculiar humor britânico e, consequentemente, se inserindo nessa sociedade. O Reino Unido é também um lugar com uma presença muito grande de imigrantes, então uma coisa muito legal é que você não conhece só britânicos, mas também pessoas de diversas outras nacionalidades”. 

Rúbea e o companheiro moram numa cidade de médio porte e próxima da região metropolitana de Londres, onde sentem muito a presença da cultura local britânica, mas também árabe, indiana, asiática, europeia e oriental. “Isso se expressa principalmente na comida, porque, honestamente, a fama da culinária inglesa não é muito boa e nisso muitas pessoas que vêm morar aqui concordam”.

Segundo a jovem, lá existem muitas culturas e competições esportivas das quais nunca teve contato no Brasil, como, por exemplo, apostar em corrida de cavalos, assistir as competições de remo no rio ou o fato de que lhe parece que todos os homens de meia idade gostam de jogar golfe ou críquete.

Sobre o clima, é temperado, então não se diferencia muito da região de Três de Maio. “As diferenças é que no inverno faz um pouco mais de frio, neva apenas de vez em quando (pelo menos no período em que estou aqui), e chove. Chove muito. Mas geralmente a chuva é fraquinha e pouco se ouvem trovões por aqui. Quando se ouve é um acontecimento”, conta.

 

Dia a dia

Nos dias de semana, Rúbea tem uma rotina bem comum. Acorda cedo, toma café e se prepara pra ir trabalhar. Como ainda não tem licença para dirigir (está no processo) e nem carro, vai a pé para o trabalho, o que dá aproximadamente 20 minutos de caminhada. "O caminho é bem inspirador, é pela beira do rio Thames". 

No trabalho, o ambiente é bem familiar, pois o escritório é pequeno. Os seus colegas são quase todos britânicos, com exceção de um sul-africano. O dia de serviço envolve muitas reuniões entre a equipe e consultores, e também visitas e reuniões pelas cidades onde estão sendo desenvolvidos projetos. “É um trabalho que envolve muita interação social e por isso, desde que comecei a trabalhar, o meu domínio da língua melhorou muito”, afirma.

Depois do trabalho, muitos dias ela saiu para caminhar ou correr nos parques da cidade ou pela beira do rio. “Em outros, eu e meu namorado saímos pra beber um pint de cerveja no nosso pub preferido perto de casa”.

No fim de semana geralmente o casal tenta fazer algo diferente e de vez em quando visita alguma cidade turística por lá. “Já visitamos Londres algumas vezes e a nossa última viagem foi para um pequeno povoado chamado Arundel, onde pudemos conhecer um castelo fundado no século XI e um dos maiores e mais conservados castelos da Grã-Bretanha”. 

 

Falta de interação e socialização 

O que mais a jovem sente falta é do calor das pessoas: família e amigos. “Querendo ou não, aquilo que muitos ouvem falar de que europeus costumam ser menos sociáveis que brasileiros é um pouco verdade. Então, por vezes sinto muita falta das pessoas que conheço no Brasil, da interação, da socialização”, ressalta.

Questionada se é apenas uma temporada ou pode ser algo definitivo permanecer morando no exterior, Rúbea diz que ainda não pode afirmar. “A minha vida é relativamente boa aqui e se eu fizer um paralelo com o Brasil no momento atual, não tenho certeza se estaria em uma situação tão confortável quanto. Também acredito que preciso aproveitar mais o meu momento atual, o lugar onde estou. Então ainda é cedo para colocar um prazo ou definir um destino para isso”

Casal Rúbea e Thomas visitando um dos castelos mais bem conservados da 
Grã-Bretanha, na localidade de Arundel

 

Desafios e conquistas

A três-maiense conta que o seu maior desafio, sem dúvida, foi um emprego na área de formação. “Existem vários obstáculos e desde que saí do Brasil já me sentia desesperançosa em relação à minha carreira, pois não possuía garantia de que conseguiria dar continuidade a ela em outro país. Existem requisitos que a maioria dos empregadores em arquitetura aqui insistem: experiência no país, língua fluente, carteira de habilitação e, principalmente, formação acadêmica local. É particularmente difícil para um arquiteto formado no Brasil conseguir uma vaga para trabalhar com arquitetura e planejamento na Inglaterra. Isso porque existem grandes diferenças entre o currículo de um curso de arquitetura no Brasil e um aqui”. 

Além disso, o contexto e a cultura são bem diferentes do Brasil, o que implica na arquitetura ser bastante diferente também. “É preciso ter contato com o ambiente para poder entender a arquitetura de cada lugar. Tudo isso faz muito sentido pra mim e por isso me sentia desesperançosa sobre seguir minha carreira aqui. Então fui abrindo meu leque de possibilidades e fui buscar outras habilidades que criei durante os anos da faculdade”. 

Rúbea conta que estudou modelagem 3D e design gráfico durante o tempo que estava desempregada e sempre procurava vagas envolvendo essas áreas. Até que então foi chamada para trabalhar em um escritório de arquitetura a partir de uma vaga em que aplicou sem muito compromisso. “O arquiteto e diretor do escritório em questão gostou bastante das imagens 3D que produzi e que estavam em meu portfólio. Essa, sem dúvida, foi minha maior conquista até o momento: trabalhar na área em que escolhi me formar em um país onde tenho muito o que aprender, mas também muito o que acrescentar. Depois de conseguir isso, sinto que cada dia tenho uma nova conquista, pois todo dia aprendo algo novo sobre trabalhar com arquitetura no Reino Unido”, informa.  

 

Subindo ao topo do Monte Cengio, na Itália, no Natal de 2019. Viajar entre países é algo que pode ser feito com certa facilidade quando se vive no continente europeu

 

Saúde, economia e trabalho

A jovem destaca que a jornada de trabalho do Reino Unido é em média de 8 horas e o sistema de salário mínimo, chamado de 'National Minimum Wage' varia de acordo com a idade e é considerado por horas trabalhadas. Para quem tem mais de 23 anos, o salário mínimo é de £9,50 e esse valor é revisado a cada ano. 

Culturalmente, é possível perceber diferenças entre classes sociais. Porém, o custo de vida é barato, considerando todas as despesas como cesta básica e gastos domésticos e os salários são bons mesmo para empregos sem nível de graduação. “Economicamente se vive muito bem aqui. Não temos o 13º salário, mas muitas empresas têm o costume de dar um bônus no fim do ano. Sobre o período de recesso, as férias só contam os dias úteis, ou seja, não entra o fim de semana ou feriados. Assim, tenho 25 dias de férias, um total de 5 semanas”, explica. 

O sistema público de saúde do Reino Unido chama-se NHS e foi o primeiro sistema público do mundo, servindo inclusive de inspiração para o SUS no Brasil e ele funciona gratuitamente para todos que vivem legalmente no país. “Ao se registrar no sistema, um ‘médico de família’ é nomeado para você e esse será o médico clínico-geral que irá te atender na maioria das vezes e, se preciso, irá te encaminhar para algum especialista. Pelo o que eu pude perceber com a minha experiência usando o NHS, ele é um sistema bem organizado, mas têm suas desvantagens, por exemplo, o fato de cada consulta ter um tempo máximo de poucos minutos. Apesar disso, o NHS foi constantemente aplaudido durante a pandemia da Covid-19 e muitas pessoas penduravam cartazes em suas janelas agradecendo as equipes do sistema de saúde”, conta a jovem.

 

Nem tudo é um paraíso, mas vale a pena

Rúbea destaca que para quem quer morar no exterior, é necessário ter várias coisas em mente. “Se é algo que você realmente almeja, vai fundo. É um investimento para a sua vida. Pois te oferece mais oportunidades, uma melhor qualidade de vida e um enriquecimento cultural e social enorme”, assegura. 

No entanto, se há indecisão, o  conselho é: tente. “Lembre-se que não é uma decisão de vida ou morte. Se planeje e tente o seu projeto de vida no exterior. Se você constatar que sair do Brasil foi a decisão certa, que ótimo. E se acontecer o contrário, é sempre possível voltar”. 

Na avaliação da três-maiense, todos os lugares têm suas vantagens e desvantagens. “Falo isso porque muitos saem do Brasil com uma idealização muito errada da vida em um país diferente, principalmente aqui na Europa. As pessoas pintam a ilusão como se aqui fosse o paraíso, livre dos problemas que encontramos no Brasil. Parte disso é verdade, de fato. Aqui onde moro não temos tantas preocupações com assaltos e falta de segurança. Mas não quer dizer que não existem problemas, e um imigrante pode passar por muitos problemas tentando se estabelecer. É preciso estar ciente dos desafios, das responsabilidades e do que você quer”, finaliza a jovem.