A vida dos três-maienses pelo mundo afora

O professor de língua espanhola e técnico em eletrônica, Mauro Alberto Schmidt, 46 anos, está morando na Itália há seis meses. Ele saiu do Brasil para aperfeiçoar seus conhecimentos em eletrônica e fazer um curso de espanhol. A previsão inicial era de dois meses, mas mudanças ocorreram e ele acabou optando por fixar residência no país. Nesta Páscoa, Mauro vem a Três de Maio para passar a data com familiares e amigos, porém, com data já agendada para retornar à Itália

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Mauro no Centro de Belluno com as dolomitas de fundo (dolomitas são chamadas as montanhas que cercam a região)

Formado em Letras e Literatura Espanhola pela Universidade Federal de Santa Maria, Mauro trabalhava como professor de Língua Espanhola nas escolas Cardeal Pacelli e Castelo Branco, em Três de Maio, e Amélio Fagundes, em Independência. Também possuía uma empresa de conserto de celulares, em Três de Maio.  Ele é filho de Nelson Schmidt e Helga Lamb Schmidt.

Morar no exterior não estava nos planos do professor, mas após passar por alguns desencontros na vida, ele encontrou na Itália cursos para se aperfeiçoar. “Descobri um curso de eletrônica na Itália, e um curso de espanhol, que faria uma parte na Espanha, mas que foi adiado por duas vezes por culpa da Covid-19. Nesse período, também fiquei sabendo da possibilidade de me tornar cidadão italiano, pois possuo descendência”, conta. 

Mauro conta que através de um amigo que mora na Itália e trabalha com cidadania, soube das informações necessárias para encaminhar a documentação. “Então, comecei uma corrida para encontrar os documentos, agradeço a minha prima Marilei Dockhorn, de Três de Maio, por ter me ajudado muito com isso”.

Hoje, Mauro mora na cidade de Belluno, na região do Vêneto, no norte da Itália, que conta com cerca de 36.112 habitantes, numa área de 147,18 km².
 

Conquista da cidadania italiana

Ao chegar na Itália em setembro de 2021, Mauro iniciou o curso de eletrônica e com ajuda de um amigo, pôde verificar sobre os custos para encaminhar a cidadania italiana. O valor de 4.800 euros pareceu alto num primeiro momento, mas durante o curso ele começou a fazer alguns trabalhos e percebeu que não seria difícil juntar o dinheiro necessário. “Então, resolvi dar início no processo. Passados quatro meses, recebi a notícia de que estava tudo correto e eu já estava me tornando um cidadão italiano”, conta o professor dizendo que foi um momento de muita felicidade. 
 

Trabalho

A conquista da cidadania italiana levou Mauro a trabalhar ajudando outras pessoas a conseguir o mesmo. Atualmente, ele trabalha na empresa do amigo que lhe ajudou com o processo da cidadania italiana. “Trabalho levando pessoal que concluiu o processo para os aeroportos, buscando outros que estão chegando, e dando acompanhamento aqui durante o processo”, conta.
 

Educação e limpeza são destaques da cultura

Segundo Mauro, existem diferenças culturais entre as regiões italianas. “Aqui no Norte, onde estou, as pessoas são muito educadas, agradecem tudo o que você faz, desde uma resposta que você dá. E eles consideram mal-educadas as pessoas que faltam com esse agradecimento”. 

A limpeza é outro ponto forte da cultura local. O professor explica que as pessoas reciclam os lixos e levam às lixeiras (que não estão na frente das casas) em pontos de coletas situados em lugares estratégicos. 

Outra diferença percebida pelo professor, é que os Italianos não guardam mágoas. “Após uma discussão, acontece de eles te convidar para tomar um café”, conta.
 

O dia a dia na Itália

No momento, Mauro tem seu dia a dia voltado ao trabalho. Durante os finais de semana, trabalha em um restaurante de um hotel, e durante a semana, trabalha transportando as pessoas que estão aguardando a conclusão dos processos de cidadania para compras, fazer alguns documentos, levando e trazendo pessoas dos aeroportos, etc... 

Às noites, quando tem tempo, Mauro vai a bares ou restaurantes para conhecer a culinária local. “Quando consigo algum tempo, faço passeios. Acho isso importante também para conhecer um pouco desse ‘mundo novo’ que estou vivendo agora”, ressalta.
 

Clima e culinária

Belluno é capital de província com o clima mais frio da Itália, considerando as temperaturas médias do inverno. “O clima é semelhante ao de Três de Maio, com a diferença de que aqui pode chegar a sete meses de frio com temperaturas bem abaixo dos 20º negativos, no forte do inverno, entre dezembro e fevereiro, com dias de neve intensa chegando a passar de um metro de altura”. 

Mauro conta que as casas são todas preparadas para o frio e existem roupas específicas para o inverno. Portanto, dá para suportar bem.

A culinária é bem diversificada, existem vários pratos diferenciados. Nos supermercados é possível encontrar carnes de porco, gado, galinha, coelhos, peru, cavalo, cervo e, em alguns, até de javali. Mas os pratos principais são pizza e macarrão. E as bebidas, vinho e café. “O café, inclusive, é bem mais saboroso que o do Brasil, mesmo sendo produzido no Brasil”, compara.
 

Maiores desafios

O maior desafio no início foi o idioma, mas hoje ele domina, não perfeitamente, mas consegue se comunicar bem. Outro desafio, que Mauro considera um pouco difícil, é perder o medo de assaltos e roubos. “Aqui também existem, mas as pessoas dormem com janelas abertas, os carros ficam abertos, com a chave na ignição, inclusive com celular e bolsas  até nos estacionamentos de supermercados, e ninguém pega nada”.
 

Maiores conquistas

Em meio ano vivendo na Itália, Mauro já considera três grandes conquistas: ser um cidadão italiano, aprender mais uma língua e estar trabalhando.
 

Sistema público de saúde

O sistema público de saúde da Itália é semelhante ao brasileiro, onde existem unidades de atendimento emergencial em todas as cidades, tanto as grandes, quanto as pequenas. "Um médico chamado 'médico de família' faz as primeiras avaliações. Se tiver algo mais grave, ou necessitar de algo mais específico, ele encaminha para um especialista, geralmente em uma cidade um pouco maior, onde se concentram mais médicos e mais recursos em hospitais, claro, se for cidadão italiano. No caso de turistas, existe atendimento também, mas é aconselhável que faça um seguro saúde, que dará mais respaldo em caso de necessidade”.

O professor conta que os gastos de saúde são praticamente nulos no orçamento familiar, pois a única coisa que precisa ser paga são as consultas que, em poucos casos ultrapassam 25 euros. Valor extremamente baixo, segundo Mauro. 

Os dentistas estão foras desse sistema, e têm o valor um pouco elevado. “Dentistas italianos não são considerados ótimos. Aqui muitas pessoas preferem sair do país para serem atendidos por dentistas”, argumenta.

Mauro também explica que o Brasil possui um acordo com o sistema de saúde da Itália, onde é possível pedir um Certificado de Direito à Assistência Médica, desde que esteja em dia com o INSS no Brasil, e isso dá direito a usufruir por um ano desse serviço.

No forte do inverno, entre dezembro e fevereiro, neve chega a passar de um metro de altura. O registro é dos fundos da casa de Mauro em BellunoNo forte do inverno, entre dezembro e fevereiro, neve chega a passar de um metro de altura. O registro é dos fundos da casa de Mauro em Belluno

 

Custo de vida é baixo

Com um salário médio entre 1.200 e 1.600 euros, (entre R$ 6 mil e R$ 8 mil), Mauro diz que é possível pagar aluguel, que custa entre 300 e 350 euros, se alimentar e pagar água, luz, telefone e internet gastando em média 700 euros. “Dá para pagar tudo e ainda sobra dinheiro. O custo de vida é baixo comparado ao Brasil”, diz o professor.
 

Legislação trabalhista

O Contratto Collettivo Nazionale di Lavoro (CCNL) é uma categoria de contratação dos trabalhadores subordinados na Itália, reconhecido por lei, estipulado pelas partes contratantes, ou seja, empregados, sindicatos e empregador, de natureza coletiva. Assim, todo e qualquer acordo deve ser negociado com a coletividade.

No Brasil, o CCNL pode ser equiparado ao regime de contratação através da Consolidação das Leis do Trabalho, a famosa CLT, decreto-lei que garante a contratação coletiva dos trabalhadores. O CCNL não se aplica aos trabalhadores autônomos, freelancer e quem trabalha com Partita IVA (o CNPJ italiano).

“Segundo as leis italianas de trabalho, o CCNL é subordinado à Constituição Italiana e o Statuto del Lavoratore; o estatuto que garante direitos e deveres dos trabalhadores, além das leis regionais de trabalho. Sendo assim, as empresas podem, também, formular contratos que mesclam essas leis”, explica Mauro.
 

Direitos do trabalhador

Segundo Mauro, na Itália não existe um salário mínimo específico. “o salário é acordado com o patrão, definido em horas trabalhadas, mas em média fica entre 1.200 a 1.600 euros por mês, trabalhando 8 horas diárias, como no Brasil”. O país também possui o 13º salário e, em alguns casos, o 14º, dependendo do acordado com o patrão.

Mauro conta que não existe uma significativa diferença salarial entre um médico e um enfermeiro. “Inclusive a exigência de uma formação acadêmica é exigida apenas em alguns casos específicos, e a diferença salarial é muito pouca”, ressalta.

Para fazer um contrato de trabalho em uma empresa, a pessoa passa por uma entrevista na qual são questionadas as informações do currículo. “Geralmente as empresas fazem um contrato de duração curta para ver se a pessoa realmente sabe fazer o que está no currículo. Se sim, fazem um contrato por um tempo maior, caso contrário, ele não é renovado”, diz o professor.

Mauro conta que, diferente do Brasil, a formação acadêmica não é um diferencial para aumentar o salário, e que, inclusive, é difícil alguém querer um cargo de supervisor, por exemplo, pois o valor recebido praticamente não muda.
 

Páscoa será em Três de Maio 

Quando questionado sobre o que sente mais falta morando na Itália, Mauro diz que é dos familiares, amigos, alunos e colegas das escolas onde trabalhou. "Mas tudo se supera na vida".

Morando na Itália desde setembro de 2021, o professor conta que nesta Páscoa será a primeira vez que volta ao Brasil. “Vou passar a data com meus familiares e amigos. Também tenho que resolver algumas pendências que ficaram para trás, pois saí para fazer um curso, e não preparado para ficar morando aqui”, ressalta.
 

Mudança pode ser definitiva

Sobre o prazo para ficar no exterior, o professor destaca que tudo na vida pode mudar do dia para a noite, mas que no momento, não pensa em voltar a morar no Brasil. “Não sei o que será mais para frente”, pondera.
 

Recado para quem pretende viver no exterior

Aos brasileiros que pensam em viver no exterior, Mauro destaca que na mudança, tudo são novas experiências. “É uma vida que recomeça. Assim, quem tem vontade, deve correr atrás, pois a vida é uma só. Se você não aproveitar as oportunidades hoje, amanhã pode ser tarde. Hoje, eu agradeço a todos os familiares, amigos, colegas e todas as pessoas que deram uma força para que eu pudesse estar onde estou hoje”, finaliza.

 

Ponte di Rialto, em Veneza