Jovens descobrem novas paixões e transformam sonhos em realidade

Os últimos sete meses foram de desafios, mudanças de hábitos, novas experiências e de muitas descobertas para a maioria dos jovens e adolescentes. Ao mesmo tempo, o período de isolamento social está sendo de grande aprendizado e autoconhecimento. Carolina Lotermann Reis, 15 anos, está focada em duas de suas paixões: cantar e tocar guitarra, além de dedicar o tempo livre ao trabalho voluntário, através do projeto ‘Corrente da Limpeza’

Jovens descobrem novas paixões e transformam  sonhos em realidade
Carolina Lotermann Reis, 15 anos, está focada em duas de suas paixões: cantar e tocar guitarra, além de dedicar o tempo livre ao trabalho voluntário, através do projeto ‘Corrente da Limpeza’

Sem festas e com mais tempo livre, jovens descobrem novas paixões

 

Após dificuldades de adaptação com a nova rotina, são muitos os novos aprendizados, autoconhecimento e sonhos que se transformam em realidade

 

Em 1º de janeiro de 2020, à meia-noite, todos comemoravam a chegada de mais um ano. Promessas foram feitas, metas foram traçadas, mas o que ninguém esperava, era uma pandemia no meio do caminho. Os impactos causados pelo coronavírus estão longe de acabar, o mundo inteiro foi obrigado a se adaptar a uma nova realidade que deixará marcas profundas, principalmente, nas pessoas. 

 

Como medida preventiva contra a disseminação do coronavírus, o Brasil iniciou, no mês de março, o isolamento social. Desde então, as pessoas foram orientadas a ficar em suas casas o máximo possível, escolas foram fechadas e eventos cancelados. Jovens e adolescentes ainda estão vivenciando um período que jamais imaginaram, longe dos amigos, da escola, do trabalho, de toda sua rotina. Foi um momento onde precisaram se desafiar, experimentar coisas novas, mudar hábitos, e planejar o futuro.


Aulas virtuais, novos hobbies, vídeochamadas com os amigos, Netflix, trabalho voluntário, empreendedorismo, autocuidado e muito, muito aprendizado. 

 


Mudança nos planos para 2020


O distanciamento social fez com que muitas pessoas se reinventassem, seja aprendendo algo novo, fazendo coisas que a correria do dia a dia não permitia ou colocando um sonho em prática.


O Jornal Semanal conversou com as três-maienses Luísa Wagner de Souza, Carolina Loterrmann Reis, Laura Blum, Gabriéli Borges Siqueira e Mariana Luiza Ludwig que contam como contornaram a situação do distanciamento dos amigos e familiares.

 

Todas foram unânimes em afirmar que no início do isolamento social foi muito difícil, confuso e desgastante. Ficar longe dos amigos, da escola, das pessoas queridas e ter a rotina completamente alterada foram as maiores dificuldades na adaptação. 

 

Com o passar dos meses, novas tarefas foram tomando conta do tempo de cada uma. O momento difícil se transformou em um misto de novos aprendizados, desafios e sonhos novos e antigos se transformando em realidade. O autoconhecimento, oportunizado pelo maior tempo livre, trouxe a possibilidade de ressignificar o momento, transformando em algo positivo para suas vidas.

 

 

Momento para se especializar na produção de doces

 

Incentivada pela família e amigos, Luísa Wagner de Souza, 16 anos, criou a Mimu’s Doces,  que ela pretende continuar, mesmo quando tudo voltar ao 'normal'
 

Este foi o momento certo para aqueles que tinham o desejo de aprimorar um talento ou começar algo novo. Foi isso que Luísa Wagner de Souza, 16 anos, estudante do 2º ano do Ensino Médio fez. Após o cancelamento das aulas presencias e com tempo de sobra, ela decidiu ouvir o que seus amigos e familiares tanto diziam, ‘Comece a fazer doces para vender’. “No início, foi bem difícil. Me sentia triste e me perguntava o porquê de tudo isto estar acontecendo. Sentia muita vontade de sair, me divertir com meus amigos, de encontrar as pessoas, porém com o tempo, descobri outras atividades prazerosas, como por exemplo me especializar na produção de doces". 


A jovem relata que desde cedo, sempre ajudou na cozinha, e que na medida em que ia crescendo, o desejo de aprimorar suas habilidades também crescia. Com mais tempo livre, ela começou a praticar e a estudar um pouco mais sobre o assunto, assim criou a Mimu’s Doces, algo que ela pretende levar adiante, depois que a pandemia acabar. “Apesar de não ter muita experiência, eu sempre busquei informações sobre o assunto para me aprimorar cada vez mais, nunca foi só pela renda, é realmente algo que eu me identifico e amo fazer”.


O apoio que Luiza recebeu de amigos e familiares também foi fundamental para que ela conseguisse passar por todo este período de mudanças: “Todo mundo me apoiou muito, eles sabiam que eu estava desanimada e disseram para eu ir em frente que tudo daria certo. Este apoio foi muito importante; eu não conseguiria começar a Mimu’s sem eles. Eu realmente me encontrei dentro da cozinha, é algo que eu amo fazer e que só precisava de um incentivo, uma oportunidade”.


Luísa finaliza ressaltando que, apesar de tudo, este período trouxe novos valores para a vida de todos. “Comecei a dar mais valor para minha família, a usar este tempo para aprender, me conhecer mais e me aprimorar. Aprendi a dar valor para as coisas mais simples da vida, são essas as mais importantes: saúde, família e amigos”.
 

 

Tudo pronto para lançar a própria marca de roupas e veio a pandemia

 

Gabriéli Borges Siqueira, 22 anos, não começou como tinha planejado mas, mesmo assim, lançou sua marca roupas no mercado da moda

 

Imagine você sonhar a muito tempo com um projeto pessoal, e quando finalmente você consegue dar os primeiros passos, uma pandemia acontece e atrapalha todos os seus sonhos e planos. Foi isto que aconteceu com a jovem estilista Gabriéli Borges Siqueira, 22 anos, que até o início do ano trabalhava em Santo Ângelo. Quando ela retornou para sua cidade natal, com o objetivo de criar sua própria marca de roupas, a pandemia começou e foi preciso repensar tudo novamente. “Foi bem frustrante, eu e meu sócio cancelamos tudo, nós tínhamos uma coleção para lançar, íamos fazer algo muito maior, com um grande lançamento; só que temos a noção de que moda e roupa não é prioridade, pelo menos por enquanto". 


A jovem sempre soube que queria trabalhar com moda e conta que quando era criança passava horas desenhando roupas.  “Eu tenho uma caixa gigante no meu quarto de desenhos que eu fazia desde criança, todos eram desenhos de roupas", revela.


Gabriéli conta que durante o curso técnico arrumou um emprego na área da moda em Santo Ângelo, onde trabalhou por quatro anos. "Eu sempre tive dificuldade de fazer o que os outros queriam que eu fizesse, e isso me frustrava muito, estava infeliz, apesar de trabalhar em um lugar muito legal, mas infeliz porque eu tinha que fazer o sonho de outra pessoa, e não o meu", diz a jovem estilista. 

 

Ela trabalhou em Santo Ângelo por quase dois anos. Retornou para Três de Maio no final de outubro de 2019 e, no início deste ano, Gabriéli começou a planejar a própria marca de roupa.


Apesar de todos os imprevistos e frustrações, o isolamento social também vem proporcionado experiências novas e importantes. Gabriéli sempre teve o sonho de aprender algum instrumento musical e nunca conseguia se dedicar a isto por conta da vida corrida.   “Comecei um curso online de violão sem ter um violão, depois eu comprei e agora estou aprendendo, até o momento tenho três músicas no meu repertório. É algo que eu sempre achei lindo e que eu sempre quis apender, mas eu nunca consegui, de fato, parar e me dedicar”. 


A jovem também tem aproveitado o tempo para seguir o caminho do autoconhecimento, cuidando da sua saúde psicológica, da alimentação, adquirindo hábitos mais saudáveis, como por exemplo, a meditação e deixando um pouquinho de lado a vida corrida e estressante de empreendedora.  


E quanto ao tão sonhado e planejado empreendimento, a jovem diz: "Não começamos como queríamos, mas começamos como dava, e assim fundamos a Grafton St”.

 

 

Trabalho voluntário e dedicação total às aulas de canto e guitarra

 

Carolina está dedicando mais tempo para as aulas de canto, guitarra e projetos sociais

 

Carolina Lottermann Reis, 15 anos, estudante do 1° ano do Ensino Médio, começou um novo hobbie e investiu no seu talento, aprimorando-se nas aulas de canto e de guitarra. Além disso, a adolescente entrou para uma banda durante a quarentena e se dedicou ao trabalho voluntário.


A adolescente revela que os amigos mais próximos continuam presentes em seu dia a dia, e que estão sempre buscando se reunir de forma online, mas aqueles que não eram tão próximos acabaram se afastando ainda mais. Uma das maneiras encontradas por Carolina para continuar mantendo contato com os amigos, foi começar um novo hobbie, pedalar, assim conseguem sair de bicicleta em busca de um pouco de ar livre e lugares diferentes. 


Carolina também está aproveitando o período para se dedicar a sua paixão, que é cantar e tocar.  Ela entrou para a banda Micos de Fralda, que é uma referência a banda Macacos de Bermuda. “Tudo começou na quarentena, mas os nossos pais já tinham a ideia de nos reunir, e como eu era bem amiga e bem próxima do pessoal, eles me chamaram. Os guris da banda, que são filhos do pessoal da Macacos de Bermuda, já ensaiavam de vez em quando, só que faltava uma voz feminina, foi assim que entrei”. A adolescente relata que já fazia aulas de canto e de guitarra, mas que só cantava e tocava em eventos da escola.


Ela ressalta que por conta do isolamento social, os pais dos integrantes estão podendo acompanhar os ensaios e ajudar em tudo o que for necessário, algo que em um 'tempo normal', não seria possível. “Por enquanto estamos só ensaiando, mas o que eu mais quero é deixar meu pai orgulhoso, ele que começou esse sentimento do rock em mim, agora eu sou simplesmente apaixonada e é por influência dele. Quando toco, sinto que sou eu mesma e sinto que estou fazendo o meu papel no mundo. Saber tocar e cantar sempre foi um sonho, mesmo que seja só para levar como um hobbie, eu me sinto realizada”.


Além de tudo, Carolina também tem dedicado boa parte de seu tempo ao Interact de Três de Maio, do qual é vice-presidente. A jovem destaca que este é um momento delicado e desafiador, já que por conta do distanciamento social iniciou-se uma busca por projetos que englobem a sociedade e que possam ser realizados de forma segura. "Antes de fazer parte do Interact, eu vivia apenas com minhas ideias, no meu núcleo e não conseguia perceber as outras realidades. Hoje, consigo ter uma visão mais ampla e perceber que toda pequena ajuda é bem-vinda, cada pequena ação faz diferença e que tudo tem impacto", avalia.

 

 

Projeto Corrente da Limpeza

 

Projeto Corrente da Limpeza deve ter novas etapas, inclusive em outros rios da região

 

Carolina, faz parte do Interact Club de Três de Maio. Ela conta que em uma tarde enquanto pedalava com alguns integrantes do clube, reparou na quantidade de lixo que havia em alguns rios. O cenário fez Carolina refletir sobre a situação, e levar o assunto para a presidente do clube, Laura Blum, 16 anos, que decidiu levar a pauta para a reunião, que continua acontecendo de maneira virtual. Assim, nasceu o projeto: “Corrente da Limpeza” que consiste no recolhimento do lixo presente nos rios e nascentes da cidade. 


O projeto, teve sua primeira ação no dia 13 de setembro, um domingo, quando foram recolhidos mais de 20 sacos de lixo. Os integrantes do clube se deslocaram até o local de bicicleta e ao chegarem lá, conforme Carolina, se surpreenderam com a grande quantidade de lixo jogado as margens do rio e ver que haviam muitas pessoas em volta e tomando banho nas águas do rio. "Enquanto o grupo estava recolhendo o lixo, as pessoas que já estavam no local pareceram não se importar, era como se ninguém estivesse lá" revela a adolescente, surpresa com a atitude. “As pessoas vão demorar um pouco para se acostumar com essas mudanças que estamos tentando trazer e entender que elas também podem ajudar na preservação do meio ambiente. É um trabalho periódico”. 


A presidente Laura Blum, que acompanhou de perto o projeto “Corrente da limpeza”, revela que estão sendo pensadas novas formas de limpeza e o recolhimento do lixo, inclusive de outros rios. “Nós estamos vendo formas para realizar este projeto mais vezes, a ideia é que seja contínuo e que consigamos expandi-lo, não só limpando os rios, mas também um trabalho de conscientização da população para evitar que estes rios fiquem sujos”. 


Carolina e Laura explicam que a ideia é expandir o projeto com o Rotary International, o Rotaract Club e outras instituições de Três de Maio, inclusive com um engenheiro ambiental para barrar a passagem e o acúmulo do lixo. “É com cada pequena ação, cada pequeno projeto, que buscamos impactar nossos integrantes e, assim, a partir deles, disseminar a mudança. Cada passo que nós damos, vamos influenciar no futuro da comunidade. Precisamos influenciar o momento de agora para termos um futuro melhor. Talvez, hoje o nosso projeto não tenha tido o impacto que vai ter amanhã, talvez essa semana não tenha o impacto que vai ter na outra semana, mas a gente vai continuar. Aos poucos vamos impactar as pessoas e gerar maior conscientização”, finaliza a presidente do Interact.

 

Laura Blum, presidente do Interact está se dedicando a projetos para o meio ambiente

 

Mais tempo livre para a prática de exercícios físicos ao ar livre, voluntariado e foco no curso de especialização

 

Para Mariana, em todas as situações podemos tirar algo muito positivo, tudo depende de como encaramos

 

Para Mariana Luiza Ludwig, 17 anos, estudante do 2º ano do Ensino Médio, este é um momento em que temos que nos ressignificar e nos colocar no lugar do próximo. Enquanto que para muitas pessoas 2020 está sendo um ano terrível, para ela, isto é apenas uma questão de ponto de vista. “É preciso ressignificar. A forma como reagimos diante de acontecimentos diz muito de como será nossa existência daí em diante. Podemos deixar de acreditar na vida, ou encontrar uma nova razão para viver. Tudo isso é passageiro e acredito que vamos sair dessa como pessoas bem melhores”.


Mariana, revela que agora pode dar mais tempo e valor aos detalhes que descobriu serem essenciais para seu bem-estar, como a prática de exercícios físicos, aprender a cozinhar, ler livros e conhecer novos lugares pedalando aos finais de semana. Além disso o desejo de ser voluntária despertou ainda mais. 


Mariana participa do LEO Clube, diz que está sendo uma experiência nova, já que eles não podem fazer tantas campanhas presenciais. Além do Leo Clube, ela tem dedicado seu tempo ao curso técnico em Informática, no qual os alunos foram desafiados a desenvolver um projeto interdisciplinar com uma aplicação tecnológica que auxilie pequenas e microempresas da região afetadas pela pandemia. “Eu amo ajudar as pessoas, por isso fazer parte do Leo Clube é tão importante. Além de ajudar, você faz novos amigos. Acho que por isso eu gostei tanto do desafio proporcionado pelo curso técnico, estas pequenas empresas foram as mais afetadas, assim, de alguma forma, a gente consegue ajudar elas nas divulgações dos produtos. São pequenas ações, que fazem um diferencial enorme na vida de quem conseguimos contribuir”. 

Para Mariana, ninguém estava preparado para se afastar de toda a rotina, porém, mesmo encontrando dificuldades no meio do caminho, com receio sobre o futuro e com a instabilidade do presente, jovens e adolescentes tem se reinventado dia após dia. "As redes sociais têm sido grandes aliadas. Através delas as pessoas se reúnem, trocam conexões e experiências. O isolamento social, provou que nós, seres humanos, somos capazes de nos reinventar e nos adaptar rapidamente".