‘Enquanto Deus me der força nos dedos, quero continuar fazendo o meu crochê’, diz Gertrudes, aos 86 anos
Levar a vida com leveza, ao compasso das agulhas. Gertrudes Peiter Heinsch, 86 anos, além do otimismo com a vida, passa horas do dia se dedicando ao que ela considera ser uma terapia: o crochê e o bordado.
A filha Marilene Heinsch Cassol recebeu nossa reportagem em sua casa, onde Gertrudes já esperava com sua linha e agulhas para contar um pouco de sua trajetória de vida. Ela conta que sempre se manteve ativa. Trabalhou na agricultura, na leitaria em Esquina Boa Vista, interior de Independência, junto com o marido, Arlindo Heinsch, além dos afazeres da casa.
Casou aos 19 anos e teve quatro filhas, Nilva (Tita), Tânia, Marilene e Zenaide. “Somente quando meu marido faleceu, há 22 anos, eu parei de trabalhar na leitaria”, conta.
Então com 64 anos, Gertrudes tinha que se envolver em algo para continuar dando sentido à vida.
Ela conta que aprendeu a fazer crochê na adolescência, mas, com o passar dos anos, teve apenas tempo para o trabalho. “A minha mãe, Regina Peiter, fazia muito crochê. A casa era toda decorada com cortinas e colchas em diversas cores”.
A volta aos “pontos” foi em um momento de vida bem significativo. “Foi muito difícil quando o meu marido faleceu. Minha amiga Beti Pereira sempre me visitava e foi ela que me incentivou a fazer algo novo. Tudo o que eu sei no crochê e bordado foi ela que me ensinou. Isso foi uma forma de eu me acalmar naquele período. Então coloquei a cara em um outro trabalho e foi algo que levo até hoje”, lembra.
Hoje, quando ela se “aperta”, conta com a ajuda da Claudete, a quem chama de profissional do crochê. “Ela é responsável pelos afazeres domésticos e eu sigo fazendo o meu crochê, os meus bordados, minhas caminhadas. Às vezes o miolo fica errado e é ela que me ajuda a deixar tudo bem certinho”, brinca.
Entre as peças que ela produz estão tapetes, jogo americano, sousplat, trilho de mesa e os famosos bordados. “A única coisa que eu tenho um pouco de dificuldade é nas cores. Não consigo mais distinguir o azul e o verde. Se a cor é mais fraca, eu preciso tomar um cuidado maior”, conta.
Apesar das dores causadas pelo movimento repetitivo, e alguns pequenos problemas que vieram com a idade, não passa pela cabeça da artesã ‘pendurar as agulhas’. “Eu não quero parar. Enquanto Deus me der força nos dedos, quero continuar fazendo o meu crochê. Quando eu me canso do crochê, eu começo no bordado. E vice-versa.”
Além de boa crocheteira, a idosa também é boa negociadora. “Quando aparece alguém interessado em alguma peça, eu a vendo. O preço é bem baratinho. É somente para comprar mais linhas para continuar crochetando. Fazer crochê é um prazer, é um entretenimento.”

Gertrudes usa toda a sua criatividade em seus bordados e peças de crochê
Gertrudes é presença constante na Feirarte de Três de Maio
A filha Marilene, professora aposentada, também faz trabalhos artesanais. Mãe e filha são presença garantida em cada edição da Feirarte de Três de Maio. “Ela vai comigo e aproveita e expõe os seus trabalhos”, conta Marilene.
Há oito anos Marilene se dedica a peças decorativas de Natal, como as famosas bolas coloridas. “Minha mãe encapa as bolas menores e eu faço o acabamento.”
Até a pandemia da Covid-19 elas participavam do Brique de Santo Ângelo. Hoje, também não participam mais do Brique na Praça de Três de Maio, que inclusive ajudaram a fundar.
Sobre as novas gerações de artesãos, Gertrudes diz que não vê que possam ter muitos jovens interessados em aprender a crochetar. “Eu acho difícil que algum jovem se interesse por crochê. Pode ser que um ou outro até tenha vontade. Mas se não tem alguém na família que faça isso, não vai despertar o interesse. Hoje os jovens estudam e querem outros rumos.”
Já Marilene acrescenta que percebe que os clientes da mãe são de uma geração mais nova. “Na maioria são os mais jovens que procuram. Como eles não sabem fazer, e as peças em crochê estão em alta, surge a procura por esse público. E também é algo afetivo que, quando decora um ambiente, dá um acolhimento diferente ao espaço”, frisa.
Gertrudes dá um conselho para todas as idades. “Eu penso que sempre temos o que fazer e aprender, independentemente da idade. Só não podemos desanimar. A gente não pode ficar se queixando da vida. Precisamos seguir”, aconselha.
“Sempre temos o que fazer e aprender, independentemente da idade. Só não podemos desanimar. A gente não pode ficar se queixando da vida. Precisamos seguir”
‘Não podemos querer a perfeição em um relacionamento’
Ao longo da conversa, Gertrudes também falou um pouco sobre o matrimônio de 45 anos. “A vida a dois é muito boa, mas não podemos ver a perfeição por fora. Temos que olhar por dentro. Sempre falo para os meus netos: olha por dentro. Ela (ele) não precisa ter o corpo perfeito. Quando a pessoa é boa, ela se torna linda. E as coisas que importam não estão na roupa, no corpinho, está aqui dentro”.
Ela lamenta que hoje os jovens não tenham a mesma vontade de oficializar um relacionamento com um casamento, como ocorria antigamente, na igreja toda enfeitada com flores, e que por qualquer motivo se separam. “Hoje em dia as pessoas simplesmente vão morar juntas e quando têm uma encrenca logo querem se separar. Mas não é assim. ‘Quando um burro orneia, o outro murcha as orelhas’. Quando um está nervoso, o outro precisa escutar e ver o que está acontecendo. Por isso que eu digo que a vida a dois é muito boa, mas tem que saber levar”, aconselha.
Quando perguntada sobre o que é ‘levar a vida’, a resposta foi imediata. “É preciso respeitar o outro. Traição não tem perdão. As pessoas que se amam sabem o que é conviver a dois. Na minha vida com o meu marido, tivemos dificuldades, mas nunca desanimamos. Quando precisava mudar de atividade, por uma safra frustrada, ou algum outro problema, nunca pensamos em desistir. É só começar de novo e seguir em frente, pois não tem chaminé que só de vez em quando sai fumaça”, finaliza.









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