Música para amenizar as dores das perdas e resgatar memórias

Música para amenizar as dores das perdas  e resgatar memórias
Professora de música Marli Klein e as irmãs Rita e Marlise Werle

A vida nem sempre se apresenta em linhas retas. Ela dobra esquinas, impõe silêncios, tem perdas e, muitas vezes, machuca. Ainda assim, guarda a delicadeza de devolver, em outros tempos, aquilo que foi semeado lá atrás. Lições aprendidas na infância, quase esquecidas, reaparecem como mãos estendidas, oferecendo novos caminhos, seja aos 15, aos 30 ou mesmo depois dos 60 anos.

É nesse tempo de maturidade que se escreve a história das irmãs Marlise Werle, 66 anos, e Rita Werle, 70, e da professora Marli Klein (65). Unidas pelos laços de sangue,  Marlise e Rita encontraram na música um elo ainda mais profundo.  A professora de música Marli, completou o trio feminino que ganhou nome e identidade: 

“As Arabelas”, uma referência ao lugar onde as irmãs nasceram e viveram a infância, no interior de São Paulo das Missões.

Em 2025, o trio se desafiou a dar um passo simbólico e gravar um videoclipe da canção “Voltei pra Querência”, composição de Edgar Guillande, escrita há mais de quatro décadas.  Mais do que um projeto musical, “As Arabelas” representam reencontro com o passado, onde a música surgiu como refúgio para atravessar dores, como companhia nos dias serenos da aposentadoria e como ponte para levar alegria para onde se apresentam. Cada nota carrega memórias, cada verso ecoa histórias de superação, pertencimento e afeto.

Nesta edição, o Semanal apresenta a trajetória dessas três mulheres que provaram que nunca é tarde para iniciar algo novo, se desafiar, e que, às vezes, é justamente nos caminhos tortuosos, que nos conduzem de volta àquilo que realmente nos traz felicidade.

 

Quando a música devolve o sentido à vida

A rotina de Marlise Werle, 66 anos, residente em Santo Ângelo, começa cedo. Às 5h30, o dia já desperta junto com ela. Às 6h30, já está na academia para receber os primeiros alunos. Profissional da área de Educação Física, Marlise manteve uma academia de ginástica por 39 anos e, hoje, mesmo aposentada, segue ativa trabalhando com pilates. O trabalho ocupa parte do dia,  às vezes por cinco ou seis horas, mas é no fim da tarde que ela faz questão de reservar um tempo sagrado: estar em casa, pegar o violão e cantar.

Para a mãe do Jerferson, Bárbara e Dara, e avó da Marina e esposa de Bruno Mentges, a música nunca foi apenas um passatempo. Ela acompanha Marlise desde a infância. “Comecei a cantar e tocar violão aos 13 anos, ainda na casa dos meus pais. Sempre gostei muito de música”, recorda. Ao revisitar antigos boletins escolares, encontrou ali a confirmação: nota máxima em música, repetida ano após ano. 

Aos 15 anos, a mudança para Santa Maria para estudar mudou o caminho. Vieram a  formação profissional, a constituição da família, a construção da carreira e o sonho da própria academia. A música, aos poucos, ficou guardada, não perdida, apenas adormecida. Mas ainda assim, nos encontros da família Werle, os cânticos entoados pelos pais Edite e Raimundo acompanhados pelos filhos, faziam parte do roteiro. 

Décadas depois, foi a dor mais profunda que a trouxe de volta. A morte do filho Jeferson, aos 35 anos, em um acidente de carro, interrompeu o curso natural da vida. “A dor de uma mãe ao perder um filho não se explica. É como se tudo se partisse por dentro”, diz. Nos meses que se seguiram, Marlise buscou uma forma de seguir adiante, de encontrar algum sentido em meio à ausência.

 

Conexão com o filho e Deus através da música

Foi então que a música reapareceu como ponte. Jeferson era músico, vivia para a música e sonhava em ser cantor profissional. “Pensei que poderia me conectar com ele através daquilo que ele mais amava”, conta. Procurou um professor, voltou ao violão e iniciou aulas de canto. Não era apenas aprendizado técnico: era reencontro e acolhimento.

À noite, sozinha no quarto, passava longas horas cantando. “A música me levava para algo maior, para uma dimensão espiritual. Ela nos aproxima de Deus, do que é divino”, afirma. Aos poucos, a alegria voltou a ocupar espaço. A dor não desapareceu, mas se tornou mais leve.

Com seu perfil inquieto e desafiador, Marlise quis ir além. Buscou aprimorar a voz, mudar de professor, aprender mais. Foi quando, quase por acaso, entrou em uma loja para trocar as cordas do violão. Ali estava a professora de música Marli Klein. Uma conversa breve, uma indicação, um número de telefone e,  três meses depois, as aulas começaram.

Logo nas primeiras lições, Marli se surpreendeu. Disse que Marlise tinha uma voz rara, feita para ser ouvida. As duas deixaram de ser apenas professora e aluna para se tornarem amigas, e passaram mais tempo juntas para cantar. Vieram apresentações - sempre voluntárias, em asilos, aniversários, inaugurações, encontros simples que se transformavam em momentos de emoção.

Os convites aumentaram. Os ensaios também. Aos fins de semana, na chácara da família, horas e horas de música preenchiam o tempo, muitas vezes na companhia da irmã Rita e do cunhado Edgar.

Em um desses encontros despretensiosos, Edgar, comentou que havia composto uma música muitos anos antes. Bastaram alguns acordes para que a professora de música percebesse o potencial. “Logo que ele começou a cantarolar, a Marli disse: ‘Essa música é chiclete. Tem uma melodia boa’’, lembra Marlise. Assim, quase sem intenção, nasceu “Voltei pra Querência” — uma canção que havia permanecido guardada por décadas, esperando o momento certo de ser ouvida.

 

A música cresceu, ganhou forma, ganhou vozes

Rita, que também sempre gostou de cantar, juntou-se às duas. Assim nasceu, quase sem muito planejamento, o trio As Arabelas. O que começou como brincadeira virou projeto. Veio a decisão de gravar “Voltei pra Querência”, e depois, o videoclipe, registrado na própria chácara. Um desafio novo, vivido com entusiasmo e coragem.

Para Marlise, a experiência carrega um significado maior. “A gente envelhece achando que já passou do tempo, que não é mais capaz. Eu penso o contrário. Em qualquer idade podemos sonhar, nos desafiar, fazer acontecer. Cantar é uma forma de existir plenamente”.

Onde quer que a dupla ou o trio se apresente, seja em lares de idosos,  a resposta é sempre a mesma: pessoas cantando junto, olhos marejados, memórias despertadas. “A música leva paz, harmonia. Ela toca onde a palavra não alcança”, afirma. Em asilos, Marlise já viu pessoas que quase não saíam do quarto se aproximarem, participarem e sorrirem.

A transformação alcançou também a família. Quando ela está reunida, o marido Bruno acompanha no canto ou com a gaita de boca, presente dado por Marlise, comprada em uma viagem na Argentina. A neta Marina, de cinco anos, também faz aulas de violão. “Nossa casa ficou mais leve. Tudo melhorou depois que a música entrou de vez na nossa vida.”

 

A vida é curta demais para ser vivida sem projetos 

A mensagem que Marlise faz questão de deixar é simples e profunda: a vida é curta demais para ser vivida sem projetos. “Nós escolhemos como vamos envelhecer. Com tristeza ou com alegria. Fazer o bem, sonhar até o fim, acordar grato todos os dias, isso faz toda a diferença.”

O futuro, ela diz, pertence a Deus. Mas o presente é escolha. E Marlise escolheu cantar. Escolheu acreditar. Escolheu seguir em frente, provando que nunca é tarde para reencontrar aquilo que dá o verdadeiro sentido à vida e ser feliz.

 

Um dos cenários da gravação do clipe musical Voltei pra Querência

 

O reencontro com as lembranças da infância  

A música sempre esteve ali, antes mesmo de Rita Werle aprender a nomear o mundo. Aos 70 anos, a mãe de Micaela, das gêmeas Carem e Camila, e avó de Giovana, Maria e João Vicente e companheira de Edgar, fala da própria história como quem revisita uma canção antiga, guardada com carinho. “O gosto pela música vem da infância”, diz, com a serenidade de quem sabe de onde veio.

O pai Raimundo, já falecido, participava de um coral masculino da igreja. Nos ensaios semanais  Rita, ainda pequena, junto com a irmã Elaine, acompanhava o pai na garupa do cavalo. Eram cerca de cinco quilômetros até a igreja, estrada de chão, vento no rosto e vozes que já se aqueciam no caminho. 

Em casa, vinha da mãe Edite, também já falecida, outro aprendizado. Enquanto desnatava o leite, a cena se repetia: uma mão girava a manivela da desnatadeira, a outra embalava o berço. E a voz cantava. Cantos em alemão, a maioria deles, religiosos. “Eu cresci ouvindo minha mãe cantar e aos poucos fui aprendendo cada melodia, cada letra. Ainda criança, já sabia de cor os cantos em alemão que ecoavam pela casa”, conta.

Na escola, o canto continuou. E havia um ritual que ficou marcado na memória das irmãs: quando a avó materna vinha visitá-las, elas preparavam apresentações. “Eu e minhas irmãs Elaine e Marlise, cantávamos para ela. Ela tinha muito orgulho de nós.” A música, para Rita, sempre foi afeto, vínculo, presença. “Ela me acompanhava desde o berço.”

Na adolescência, veio o grêmio estudantil na escola das irmãs franciscanas, com dança, teatro e canto — e Rita escolheu cantar. Na juventude, integrou as Filhas de Maria, na igreja católica, onde participava do canto nas missas duas vezes por mês. Depois, a vida adulta chegou com suas urgências: família, trabalho, responsabilidades. Como acontece com tantos sonhos, a música não desapareceu, mas ficou em silêncio, aguardando tempo.

O reencontro veio com a aposentadoria, quando Rita retornou a morar em São Paulo das Missões. Com mais espaço para o prazer e menos para a pressa, Rita retomou atividades simples e significativas, como a pesca. Foi na chácara da irmã Marlise e do cunhado Bruno que a música voltou a ganhar corpo. Entre conversas, chimarrão e violões, os cantos passaram a fazer parte da rotina novamente. A irmã já fazia aulas com uma professora de música, e Rita, aos poucos, foi aprendendo técnicas, ajustando a voz, reencontrando confiança.

Quando surgiu a ideia de gravar um clipe, o primeiro sentimento foi o desafio. “Para quem nunca tinha feito algo parecido, parecia ousado demais”, conta Rita. Ainda assim, enfrentaram o novo com leveza. “Levamos tudo na brincadeira. Três idosas gravando um clipe pela primeira vez na vida”, brinca.

O nome do trio, As Arabelas, carrega ainda mais memória. É o nome da comunidade onde Rita e Marlise nasceram, no interior de São Paulo das Missões, onde viveram uma infância feliz, cercada de música, trabalho e simplicidade.   Quando o clipe foi para o YouTube, a reação surpreendeu. “Foi muito bem aceito. Para mim, aos 70 anos, ouvir minha voz ecoando pelo mundo é algo maravilhoso. Algo divino.”

Ela também deixa um conselho: “Nunca pare de sonhar, de se desafiar, de fazer algo novo, não importa qual a idade”, finaliza.
 

Uma poesia que esperou quatro décadas para ser cantada

“Voltei pra Querência” ficou guardada no fundo de uma gaveta por 39 anos e onze meses. Guardada, mas nunca esquecida. A canção atravessou o tempo como atravessam as saudades mais profundas: em silêncio, esperando o momento certo de voltar à luz.

O autor é Edgar Guillande, 78 anos, natural de Carazinho, militar aposentado. A música nasceu longe do Rio Grande do Sul, mas carregando o Estado inteiro no peito. Em 1985, por exigência da profissão, Edgar foi transferido de Alegrete para Brasília. Deixou para trás não apenas a cidade, mas também os espaços onde cultivava suas raízes culturais: o CTG Farroupilha, os Vaqueanos da Fronteira, o Aconchego dos Caranchos. Levou consigo o uniforme, mas precisou aprender a conviver com a ausência da querência.

Foi no primeiro Natal longe de casa que a saudade ganhou forma. Em dezembro daquele ano, começaram a chegar cartões dos amigos que haviam ficado em Alegrete. Um deles trazia perguntas simples: se ele ainda tomava chimarrão, se fazia churrasco, se sentia falta do Rio Grande do Sul. “Ao ler aquele cartão, me veio a ideia de escrever uma poesia”, recorda Edgar. A poesia, no entanto, pediu melodia. E assim nasceu uma canção saudosista, batizada de ‘Voltei pra Querência’.

A música acompanhou Edgar como uma promessa. Treze anos e três meses depois, ele retornou ao Sul, fixando residência em Santiago. A vida seguiu seu curso. Vieram perdas, recomeços, novos afetos. Já viúvo, Edgar conheceu Rita, sua companheira. A canção, porém, continuava guardada — intacta, esperando.

O reencontro aconteceu de forma simples, quase cotidiana. Em um domingo à tarde, já prestes a voltar para casa, lembrou-se da canção que carregava há tantos anos. Falou sobre a letra. Marli pediu que ele cantasse.

Assim, a música, adormecida por décadas, despertou ali, naquele instante. Vieram interpretações, pequenos ajustes e muitos ensaios. Até que surgiu a ideia que parecia distante demais no passado: gravar a canção.

Em fevereiro deste ano, “Voltei pra Querência” foi finalmente registrada em estúdio. Logo depois, nasceu também o desejo de transformá-la em imagem, de contar essa história em forma de videoclipe. O que parecia improvável se concretizou com naturalidade, como se tudo tivesse apenas aguardado o tempo certo. “Todas as vezes que ouço essa música, me vêm lágrimas aos olhos”, confessa Edgar. “Ela ficou guardada todo esse tempo, mas nunca saiu do meu pensamento. Sempre tive o sonho de gravá-la e fazer um clipe. Foi providência divina que isso tenha acontecido agora.”

Grato, ele faz questão de reconhecer cada elo dessa trajetória. Agradece às intérpretes Rita Werle, Marlise Werle e Marli Klein, que deram voz e alma à canção. Ao Bruno Mentges, pela cessão do sítio onde o clipe foi gravado. Ao Estúdio Velho Produções e à Katia Martins, pelo trabalho sensível e cuidadoso na produção do vídeo.

Hoje, a música está oficialmente registrada no Cartório de Registros de São Paulo das Missões (RS) e cumpre seu destino. Voltou para casa. E voltou sendo cantada. 
 

 

Nunca é tarde para começar, aconselha a professora de música

A música sempre esteve presente na vida da professora Marli Klein, 65 anos. Natural de Salvador das Missões, desde os seis anos de idade o amor pela música corria em suas veias. “Onde via alguém tocar violão, queria estar por perto. O meu avô tocava gaita de boca e ministrava coral na igreja, os filhos também tocavam instrumentos, e herdei essa musicalidade da família.”

Apesar de a família do pai ser vinculada à música, havia uma resistência para Marli estar no meio musical. “Existia um certo preconceito. A minha mãe sempre falava que não música não era coisa de mulher ”, relembra.

Quando ela foi morar em Cerro Largo para continuar nos estudos, na casa da tia onde passou a residir, encontrou um lar repleto de diferentes instrumentos musicais e livros de música. Foi nessa época que ela começou a se dedicar mais intensamente a cantar e tocar. “Com 17 anos comecei a dar aulas de violão, quando ainda morava em Cerro Largo. Tínhamos até um conjunto musical. As apresentações, eu conciliava com o trabalho de técnica de laboratório de sementes e tratamento de água. Somente nas férias, eu podia acompanhar o grupo nas viagens mais longas”, relembra.

Desde então nunca parou de dar aulas de música. Após a aposentadoria, se dedicou integralmente às aulas. “Eu tenho muitos alunos da terceira idade que não acreditavam que seriam capazes de desenvolver a musicalidade, mas aos poucos mudaram de ideia e hoje cantam lindamente, além de muitos realizarem um sonho antigo”. Hoje a professora que mora em Santo Ãngelo ministra aulas de violão, teclado, piano e técnica vocal e canto.

Entre suas alunas está Marlise. “Com o tempo fomos aperfeiçoando a sua técnica vocal e a respiração. Porém, o que a Marlise canta não fui eu quem ensinou, ela é cantora nata. O que fomos trabalhando foi a lapidação de sua voz e hoje eu estou feliz em poder cantar com ela e por termos construído profundos laços de amizade”, finaliza a professora . 
 

 

Voltei pra Querência

Autor: Edgar Guillande

Quero voltar pro Rio Grande
Pro meu Rio Grande do Sul
Onde canta o quero-quero
Onde o céu é mais azul

Quero voltar pra querência 
Quero voltar pro meu pampa
Pra comer churrasco gordo
E beber canha na guampa

ESTRIBILHO
Tenho saudade dos fandangos
E de tomar meu chimarrão
Neste entrevero assando carne
Ou dançando um vaneirão

ESTRIBILHO
Quero voltar pro Rio Grande
Pro meu Rio Grande do Sul
Onde canta o quero-quero
Onde o céu é mais azul

Clipe da música YouTube: Voltei Pra Querência