A vida dos três-maienses pelo mundo afora

A aventura do casal três-maiense Rodrigo Scheffler, 41 anos, e Renata Mallmann Lopes, 33, em Dublin, Irlanda, começou em 2018. Na época, Renata foi para o país europeu primeiro, e Rodrigo foi dois meses depois. No ano de 2020, com 22 semanas de gravidez, Renata voltou ao Brasil, para aguardar o nascimento do primeiro filho do casal, Otto, que hoje está com um ano e quatro meses. Neste momento, Renata permanece em Três de Maio com Otto, devido ao suporte e apoio que está tendo das famílias nos cuidados com o filho. Na Irlanda, Rodrigo aguarda o retorno da esposa e do filho e, enquanto isso, se dedica à atividade profissional de Head Chef (gerente de cozinha) em um restaurante na capital irlandesa.

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Rodrigo trabalha como head chef (gerente de cozinha) em um restaurante na capital irlandesa

Formado em Administração de Empresas e com MBA em Gestão Financeira Controladoria e Auditoria, ambas cursadas na Setrem, Rodrigo segue estudando, agora Gastronomia e especialização em Natural Chef. 

Ele conta que sempre teve o desejo de morar fora, ter novas experiências, estudar e trabalhar. “Quando conheci a Renata, minha esposa, ela também tinha esse desejo. Começamos a cogitar a participação em um intercâmbio em 2015, mas não demos continuidade”. 

O casal estudou diversas possibilidades, analisando as exigências de cada país e a escolha foi pela Irlanda, em 2018. “Ela permite que você trabalhe e estude, e possui o processo de visto menos complicado. Viemos como estudantes através de uma agência especializada nesse tipo de intercâmbio”, explica Rodrigo. Renata acabou indo para o país europeu primeiro e Rodrigo foi dois meses depois.

O casal sempre almejava o sonho de morar fora do Brasil – pelo menos por um curto período de tempo. “Por mais que seja um sonho, nunca é uma decisão fácil, pois temos que abrir mão de tudo. Ficamos longe de casa, longe da família e ir para um lugar onde não conhecemos nada e praticamente ninguém”, revela o três-maiense, que é filho de e Ari Scheffler e Elaine Seibert Scheffler.

 

Clima na Irlanda

A Irlanda é um país europeu, dividido entre a ilha da Irlanda com a Irlanda do Norte, e, por conta disso, chove muito, principalmente no inverno, quando podem ocorrer entre duas e três chuvas por dia. “São chuvas contínuas, mas não de grande volume. Além da chuva, venta muito – o que torna quase impossível utilizar um guarda-chuvas – e aumenta a sensação de frio”, comenta.

Já no verão, há muitos dias sem chuva, com uma temperatura média de 18o C. A Irlanda é conhecida como Ilha Esmeralda, pelo grande número de árvores e áreas verdes, e pela oscilação de sol e chuva, ocasionando inúmeros arco-íris ao longo do dia.

 

Dificuldades encontradas

A língua do país, junto com o sotaque irlandês bastante carregado, dificultou muito o entendimento inicial. Rodrigo destaca que lá é comum as casas serem compartilhadas entre quatro, seis ou oito pessoas e em alguns casos até entre mais pessoas. “É estranho pensar em dividir banheiro e cozinha com desconhecidos, mas depois de um tempo se torna natural. Cada um entende seu espaço e tenta respeitar as individualidades dos demais, sem comprometer o coletivo. Tem seus estresses, mas tudo tem jeito”.

Quando chegaram ao país, Rodrigo e Renata moraram com outro casal em uma casa compartilhada. Ela era brasileira e ele inglês. Após um tempo, mudaram para outra casa, dividindo com um casal brasileiro, um indiano e uma mexicana casada com um inglês. “As casas costumam ser grandes, essa tinha três andares, e o terceiro era só nosso, tínhamos um quarto com suíte”, recorda.

Atualmente o casal não mora mais em casa compartilhada.
Rodrigo conta que a Irlanda possui algumas regras retrógradas. “A grande maioria das burocracias relacionadas ao governo e órgãos públicos tem sua comunicação baseada em cartas. Inclusive o visto e o passaporte são enviados pelos correios para sua casa após os trâmites de conferência”. 

Outro ponto é a comunicação interna das empresas, que é normalmente feita por mensagens de texto (SMS) ou cartazes, pois pensam que nem todos possuem acesso à internet, apesar do transporte público ter Wi-fi gratuito.
 

Rodrigo em Dunlaoghaire, uma baía de Dublin, onde também tem um porto

 

Gastronomia irlandesa

Os irlandeses consomem muito peixe. O três-maiense cita o tradicional Irish Breakfast (prato que tem ovos, bacon, feijão doce com molho de tomate e black e white pudding - uma espécie de morcilha), o famoso fish and chips (peixe com batata frita) e o Irish Stew (ensopado de carne com legumes ao molho da cerveja Guinness - original da Irlanda).

O alimento mais importante no dia a dia é a batata. “A cozinha irlandesa possui uma grande diversidade, temos comidas do mundo inteiro, pois hoje a Irlanda é um país multicultural. Independente do prato, sempre a cerveja Guinness deve estar presente”, relata.

 

Dia a dia na Irlanda

Rodrigo fala que atualmente a sua rotina é igual a do Brasil. Ele trabalha cinco dias por semana, oito horas diárias. “A diferença é que são dias e horários diferentes a cada semana, pois aqui a escala é semanal”.

Quando tem tempo livre, se dedica à família e aos estudos, e também às rotinas normais de supermercado e lazer.

 

Maiores conquistas

Por ser costumeiro no país, a mão de obra de quem se destaca e se dedica é muito valorizada. Foi assim que Rodrigo cresceu em seu trabalho. “Sempre foi um prazer cozinhar para os amigos, e aqui na Irlanda comecei a trabalhar em um restaurante lavando os pratos. Logo estava auxiliando os chefes no preparo dos ingredientes. Iniciei minha faculdade de gastronomia e há seis meses assumi o cargo de head chef do restaurante”. Com o seu emprego, Rodrigo acabou recebendo o visto de trabalho, sem depender do vínculo com escola anterior, o que permitiu continuar residindo na Irlanda.

Aprender a língua e novas culturas foi algo extremamente gratificante para o três-maiense. Conhecer pessoas de diversos países, o que permite aprender um pouco sobre cada parte do mundo, sabendo da realidade de cada população. “Outra vantagem são as viagens que conseguimos fazer para outros países. Ao todo viajamos para nove países na Europa. Infelizmente com a pandemia várias viagens foram canceladas”, revela.

 

Rodrigo Scheffler, 41 anos e a esposa Renata Mallmann Lopes, 33 escolheram a Irlanda como novo lar

 

Saúde pública oferece poucos serviços gratuitos

Segundo o três-maiense, a saúde na Irlanda é bem diferente do Brasil e considerada precária se comparada à países europeus. As pessoas precisam ter seguro-saúde para ter acesso à maioria dos serviços ou então pagar. "São poucos os serviços gratuitos, e ainda estão ligados ao tempo de contribuição do seu trabalho (algo semelhante ao INSS no Brasil)", explica Rodrigo.

É necessário ser atendido por um GP (equivalente a um médico clínico-geral) ou por uma enfermeira do centro comunitário para ser encaminhado para serviços especializados. Não há laboratórios para fazer exames de sangue quando houver necessidade. O GP examina e, se julgar necessário coletar exames, a coleta ocorre na própria clínica, sendo encaminhada para o hospital. Caso houver alterações, os resultados são informados por telefone.

Os atendimentos de urgência são feitos no hospital. Mas a burocracia e a espera são muito grandes. “Os custos são altos e por isso muitos desistem de procurar ajuda”, explica.

Ele detalha que a família nunca teve problemas de saúde e, por isso, não precisou utilizar o sistema de saúde. “O que se sabe passa pelos relatos gerais da população. Nosso único contato com isso foi durante a gestação da Renata e no meio da pandemia, onde tudo estava bem caótico e não serve de base para avaliação do sistema”, justifica.

 

Custo de vida altíssimo, comparado com outras cidades da Europa

Rodrigo comenta que o custo de vida na Irlanda é altíssimo. Ele cita que Dublin foi eleita recentemente como a “cidade mais cara da Europa para se visitar”. 

O que mais eleva os custos é o aluguel, visto que nas casas normalmente há um quarto (alguns casos até a uma cama ou beliche), além do transporte público.

Itens como comida, material de higiene e roupas têm preços acessíveis, sendo alguns na conversão mais baixos que no Brasil. Mesmo assim, ele avalia que os mesmos itens são mais caros na Irlanda do que em outros países da Europa.

O salário mínimo do país tem como base a hora de trabalho. O salário mínimo é de € 10,5/hora (aproximadamente R$ 55,00). Ele ainda relata que as empresas podem optar pela forma de pagamento de seus funcionários, seja mensal, quinzenal, mas o mais utilizado é o pagamento semanal.

 

Retorno ao Brasil

Conforme Rodrigo, a experiência de vida na Irlanda, inicialmente, não seria definitiva. “Era apenas para cumprir os oito meses de intercâmbio, com possibilidade de renovação do prazo”, explica. O intercâmbio foi renovado por duas vezes, o que é permitido pela legislação. Porém, agora encontraram novas possibilidades no país e não há previsão de voltar a morar no Brasil.

Contudo, em 2020, com a descoberta da gestação de Renata, o casal optou para que ela voltasse a Três de Maio, para aguardar o nascimento do filho ao lado dos familiares, em especial dos avós, onde teria todo o suporte nessa fase tão importante.
Então, em 2020, com 22 semanas de gravidez, Renata veio para o Brasil, onde permanece até o momento, com o primeiro filho do casal, Otto, que hoje está com um ano e quatro meses. Enquanto está na cidade, Renata tem todo apoio da família nos cuidados com o pequeno Otto; o zelo e o amor dos avós e, ainda, acesso aos serviços oferecidos pelo sistema de saúde brasileiro.

Desde que está na Irlanda, Rodrigo voltou a Três de Maio: a primeira vez, em janeiro de 2021, após o nascimento do filho, e a segunda vez em outubro do mesmo ano. 

Enquanto aguarda o reencontro com a família, na Irlanda, Rodrigo se dedica à atividade profissional e a sua especialização. 

 

Conselho para quem deseja morar fora

Longe do Brasil, Rodrigo resume que o que mais pesa é a saudade da família e dos amigos, dos momentos compartilhados e, inclusive, da casa que o casal deixou para trás no país. “O nosso clima quente e nosso povo amistoso também fazem falta. Sem falar na comida! Por mais que é possível encontrar algumas coisas iguais, o sabor é totalmente diferente”, compara. Contudo, quando questionado, ele dá um conselho para quem deseja morar no exterior. “Se for o seu sonho, não deixe de buscar. Essa experiência será única, pois cada um irá encarar ela do seu jeito, e com certeza irá aprender muito com ela”, finaliza o três-maiense.