A vida dos três-maienses pelo mundo afora

Em 2019, Andréa Prestes deixou o Brasil para fazer mestrado em Portugal. Depois de morar em diversas cidades, ela e o marido Rodrigo fixaram residência na capital Lisboa. A três-maiense, que nasceu e viveu a infância em Consolata – interior do município, atualmente presta consultoria no âmbito da gestão, em grandes hospitais no país europeu

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Andréa e Rodrigo no Porto Covo - Litoral Sul de Portugal

Andréa atualmente com 44 anos, é filha de Elzira ReinheImer Prestes e Gabriel Prestes, residiu desde a sua infância na localidade de Consolata. Cursou Administração na Setrem e sempre trabalhou em áreas voltadas à gestão organizacional em diversos segmentos do mercado.

Em meados de 2007 foi trabalhar para uma empresa de São Paulo do segmento da gestão em saúde que atua em todo o país. Entrou como trainee, passou a assessora estratégica e logo integrou o quadro de executivos da companhia e em outras empresas de referência na gestão em saúde, estando à frente de várias unidades hospitalares no Brasil.

Por conduzir grandes equipes e entender o valor das pessoas às organizações, buscou no desenvolvimento das competências humanas o seu suporte à gestão. Fez várias formações em coaching, entre elas o Executive e Positive Coaching, que foram essenciais para o sucesso dos projetos que liderou. Atrelou à sua forma de gerir as ferramentas da qualidade como facilitadoras à promoção da segurança dos pacientes, sendo a Acreditação Hospitalar outro diferencial em todas as unidades hospitalares que geriu e hoje atua como professora da Organização Nacional de Acreditação - ONA. 

Para ampliar os resultados dos processos, buscou no Lean e no Six Sigma o apoio para a implementação de melhorias sustentáveis e se tornou Master Black Belt em Lean Six Sigma, conduzindo projetos de repercussão no Brasil por meio desta metodologia de gestão. Sua última atuação no Brasil foi como diretora do maior hospital público da região centro-norte do país, em Goiânia, no estado de Goiás. Trata-se de um hospital estadual de 514 leitos, de alta complexidade, com mais de 2.300 colaboradores diretos. Conduziu desde a concepção do projeto para a abertura, preparação de toda a estrutura, desenho de processos e formação de equipes, hospital que esteve na linha executiva durante quatro anos após a abertura.

 

O casal em Cabo da Roca - Ponta mais ocidental do continente europeu

Motivo da mudança

Andréa sempre gostou de aprender, produzir conteúdo e compartilhar conhecimento. Um trabalho que marca sua trajetória em publicações, foi a atuação como coordenadora científica do Manual do Gestor Hospitalar Volumes 1 e 2, da Federação Brasileira de Hospitais-FBH, obras que também foi autora de diversos capítulos. A FBH é a entidade que representa mais de 50% dos hospitais no Brasil.

Foram os estudos que fizeram Andréa mudar de país. Ela sabia que, ao estar à frente da gestão de um grande hospital, sua energia e seu tempo estariam direcionados para esta atividade. Então, em 2019 tomou a grande decisão: participar de um processo seletivo de um mestrado em Gestão da Saúde em Portugal. Após aprovação, Andréa deixou o emprego e mudou para aquele país. Claro que esta decisão não foi de forma repentina. A possibilidade de estudar fora sempre esteve presente no seu pensamento e de seu marido. Ponto muito importante: foi uma decisão conjunta, trabalhada a dois, avaliando o cenário do casal. Andréa é casada com Rodrigo, engenheiro mecânico e Project Management Professional – PMP, PMI International e à época da decisão também atuava em sua área na gestão de projetos de uma grande empresa no Brasil. Decidiram que os dois iriam estudar: Andréa mestrado em Gestão da Saúde e Rodrigo Mestrado em Estratégia. E assim o fizeram. 

Mudaram para Lisboa, capital de Portugal. Desde a mudança, tiveram a oportunidade de conhecer o país de sul a norte, bem como residir em cidades como: Setúbal, Porto, Almodôvar. Agora por questões profissionais, estão de volta à Lisboa. Conhecer outros países da Europa estava nos planos, o que o período pandêmico acabou por atrapalhar um pouco, mas não por completo.

A escolha do país foi pela similaridade do sistema de saúde português ao existente no Brasil, situação que Andréa entendeu mais oportuno para a sua área de atuação. Outro fator considerado para a decisão foi a língua mãe ser a mesma e por maior facilidade com a documentação, visto os acordos existentes entre ambos países. Andréa e seu marido imigraram com visto de estudante e a partir dele, encaminharam toda a documentação para residirem legalmente no país e inclusive ter permissão de trabalho. Em seguida, encaminharam o processo de cidadania portuguesa que tanto Andréa quanto Rodrigo possuem por meio de suas árvores genealógicas.

Diferenças linguística

Engana-se quem pensa que por se falar a mesma língua em Portugal, não existem dificuldades na comunicação. Andréa conta que nas primeiras semanas de aula, teve dificuldade para entender o que os professores falavam e os termos e gírias utilizadas por seus colegas de mestrado eram bem diferentes. Andréa era a única brasileira numa turma de 31 estudantes. Existem muitas palavras que no Brasil possuem um significado e em Portugal podem ser constrangedoras se faladas em público. Com a ajuda de colegas e buscas na internet aos poucos isso foi sendo superado.

Clima em Portugal

O clima em Portugal é muito similar ao do Rio Grande do Sul. As estações do ano são bem marcadas. Verão com muito calor e as praias ficam lotadas, ainda que a água do mar seja extremamente gelada. No inverno faz muito frio. Na região norte, a exemplo da cidade do Porto, além do frio chove praticamente todos os dias, intercalando com tempo nublado no inverno. Na região sul, onde Andréa também residiu, chega a -4ºC, a exemplo do último inverno, contudo, chove menos que na região norte. Em Lisboa a temperatura é mais amena e os dias são em sua grande maioria ensolarados, com muito vento o que faz a sensação térmica ser mais baixa.

Culinária portuguesa

A culinária portuguesa em geral é muito apreciada pelos brasileiros. Peixes, pães e vinhos fazem parte do dia a dia na mesa dos portugueses. O tradicional bacalhau, seja à brás, com natas (que é diferente da gaúcha), ou à lagareira é muito apreciado em Portugal. Incluir peixes e frutos do mar no cardápio diário é mais fácil e bem mais acessível do que no Brasil.

Andréa conta que conheceu o real sabor da azeitona em Portugal, pois o país é um grande produtor e é comum comprar in natura. 

Os maiores desafios

Quem deseja imigrar deve ter claro que não é um processo fácil. Por isso precisa ser muito planejado em vários aspectos: financeiros, emocionais, familiares, documentais, etc.

Maiores conquistas 

A três-maiense considera que sua maior conquista foi o motivo de sua mudança: “o título de mestre, bem como, a oportunidade de trabalhar em outro país e perceber que existe muito que posso contribuir para a melhoria na gestão das organizações de saúde”.

“Tenho a oportunidade de dar consultoria no âmbito da gestão, em temas como Lean e Acreditação Hospitalar em grandes hospitais. Já atuei como General Manager  para Portugal de uma empresa Euro-Americana, com sede na Carolina do Norte – EUA e filial em Ljubljana, Eslovênia, bem como, faço parte da comunidade fundadora da AGIS - Associação para a Gestão e Inovação em Saúde, com sede em Evora, Portugal”, conta Andréa.

 

Andréa e Rodrigo visitando o Parque Eduardo VII em Lisboa, acompanhados de familiares do Brasil

 

Ideia é permanecer na Europa

Andréa diz que, no momento, a ideia é permanecer na Europa. Desde o início, os planos incluíam trabalhar no Brasil e em Portugal, mas, em função da pandemia da Covid-19, o trabalho no Brasil se manteve online durante esse período e agora está retornando para o modelo híbrido.

Sistema de Saúde

O país possui o Serviço Nacional de Saúde (SNS). O atendimento é universal e, em geral, tendencialmente gratuito. Andréa diz que possui boa qualidade, contudo a maior parte da população precisa pagar uma “comparticipação” (taxas moderadoras) pelos atendimentos e medicamentos. Apenas aquelas pessoas que declaram formalmente que não possuem condições financeiras e outras categorias específicas, possuem isenção do pagamento complementar.
Ela fala que as taxas moderadoras são acessíveis. “Uma consulta de medicina geral e familiar custa em torno de 4,5 euros (cerca de R$ 23,00). Uma consulta com especialista custa aproximadamente € 7,00 (R$ 35,00). Já nos hospitais, uma urgência básica custa em torno de € 14,00 (R$ 70,00), uma urgência médico-cirúrgica aproximadamente € 16,00 (R$ 82,00) e uma polivalente € 18,00 (R$ 92,00)”, explica.

Há filas de espera, com similaridade ao Brasil, principalmente para consultas com especialistas e cirurgias eletivas.

Quanto a atendimentos particulares, os valores são variados. Em média, a consulta com especialista custa € 80,00 (cerca de R$ 400,00). Um ecocardiograma, por exemplo, pode custar entre 131 e 252 euros (671 e 1.290 reais). Para as gestantes, um parto normal pode custar entre dois mil e quatro mil euros (10 mil a 20 mil reais), se for preciso realizar uma cesariana, os valores podem ultrapassar os cinco mil euros (25 mil reais).

Custo de vida

O salário mínimo em Portugal é de € 705,00 (cerca de R$ 3.640,00). “Costumamos dizer que o dinheiro tem muito valor em Portugal. Para comparar o poder de compra do salário mínimo gosto de usar o exemplo do Iphone: em Portugal, um Apple iPhone 13 - 256GB custa em média € 1.000,00 o que representa menos de um salário mínimo e meio. No Brasil, quantos salários mínimos são necessários para comprar o mesmo telefone?”, compara Andréa.

A maior despesa mensal normalmente é o aluguel, que, dependendo da região, tem preços altos e poucas opções. Ela revela que há muitas exigências documentais, o que requer que alguns imigrantes paguem muitos meses de aluguel antecipado. O aluguel de um apartamento de um quarto na região de Lisboa, próximo a transporte público custa de 750 a 900 euros (R$ 3.850,00 a R$ 4.650,00), já em uma região periférica, de 500 a 700 euros (R$ 2.580,00 a R$ 3.620,00).

Em geral a compra de itens alimentícios no supermercado para quem cozinha em casa é acessível, contudo, fazer as refeições na rua pode tornar-se um peso no orçamento. Um prato feito em restaurante simples de redes, custa de 6 a 10 euros. Itens de higiene pessoal em geral são mais caros.

Conselho aos brasileiros que pretendem morar no exterior

“É preciso muita força de vontade, organização, determinação e foco, principalmente para ser um imigrante legal”, destaca Andréa. A três-maiense ainda deixa algumas dicas aos brasileiros que pensam em mudar para Portugal:

- Tenha uma boa reserva financeira: considere os custos de se manter por pelo menos um ano sem nenhum rendimento;

- Leve toda a sua documentação com o “Apostilamento de Haia” (Convenção de Haia facilita a circulação de documentos públicos assinados entre dois países membros);

- Pesquise sobre os custos de vida da cidade que escolheu morar: muda muito de acordo com as diversas regiões do país. Se for para estudar, procure sair do Brasil apenas quando estiver com seu visto de estudante em mãos;

- Quando chegar em Portugal, faça toda a documentação portuguesa o mais rápido possível, em especial o NIF (semelhante ao CPF);

- Busque de imediato a sua autorização de residência pelo Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, que é o órgão responsável por autorizar estrangeiros a residirem em Portugal;

- Se você pretende trabalhar em sua área de formação, é preciso providenciar o “reconhecimento de diploma”. Esse processo depende muito da formação e da instituição que irá buscar reconhecer o seu título em Portugal.