Teoria
e prática:
Duas faces da mesma moeda
Armando Terribili Filho é diretor
de projetos
da Unisys Brasil, mestre em Administração de
Empresas, doutorando em Educação pela
UNESP, professor da Faculdade de Administração e da
pós-graduação
da FAAP.
Os
debates entre teoria e prática são infindáveis.
Os defensores da prática alegam que a teoria é pouco
efetiva, uma vez que sua aplicação é sujeita
a condições específicas e particulares.
Por outro lado, aqueles que defendem a teoria alegam que os conceitos
são as verdadeiras fontes do saber e do conhecimento.
Os argumentos utilizados por quem defende o pragmatismo e os
teóricos são fortes, consistentes, providos de
lógica e amparados por vivências e valores pessoais – talvez
por isso os posicionamentos se mostrem tão parciais.
As respostas a esses embates podem ser embasadas nos estudos acerca
das teorias do filósofo e professor norte-americano John
Dewey (1859-1952) e de seu seguidor (orientando em seu doutoramento)
Donald Schön (1930-1997) sobre o “Professor Reflexivo”.
Segundo Dewey, o aprendizado só ocorre quando há uma
situação de problema real para se resolver. Com base
nos conhecimentos teóricos e na experiência prática é possível
solucionar o problema passando por cinco fases: caracterização
da situação problemática; desenvolvimento
da sugestão, observação e experiência;
reelaboração intelectual; e verificação
dos resultados. A fase mais relevante neste processo é a
reelaboração intelectual, por se caracterizar pela
formulação de novas idéias, cuja riqueza é diretamente
proporcional aos conhecimentos, vivência e experiência
da pessoa.
O “Professor Reflexivo” deve efetuar o coaching de
seus alunos, auxiliando-os a “aprender a pensar” a
partir de seus conhecimentos e experiências. Para alcançar
esse objetivo, pode estimular o raciocínio dos estudantes
por meio de perguntas, questionamentos, apresentações
de premissas (verdadeiras e falsas), simulações e
debate de conclusões. Neste enfoque, o aluno deixa de ser
o “objeto” de ensino do professor e passa a ser o “sujeito” de
seu aprendizado. Intencionalmente, o termo “coaching” não
foi traduzido para o português porque representa, na língua
inglesa, aquele que lidera, treina, ensina, monitora, acompanha,
incentiva e encoraja.
De acordo com os pensamentos de Schön, a formação
dos profissionais passa por uma prática orientada com um
forte componente na reflexão a partir de soluções
de problemas reais, possibilitando que o profissional em formação
enfrente situações novas e aprenda a tomar decisões.
O conhecimento é demonstrado pelos profissionais quando
executam uma ação, mas há três conceitos
diferentes de reflexão relacionados a ela: reflexão
na ação – é o pensar o que se faz no
decurso da ação sem interrompê-la, provocando
reformulação do que está sendo feito, pois
o profissional vivencia situações que extrapolam
suas experiências prévias, tendo, porém, o
conhecimento como base para a ação; reflexão
sobre a ação – reconstrução mental
da ação, analisando-a retrospectivamente e incorporando-a
ao seu repertório de experiências adquiridas; e, reflexão
sobre a reflexão na ação – é o
processo que leva o profissional a progredir no seu desenvolvimento
e construir sua forma pessoal de conhecer.
Se, por um lado, a reflexão na ação pode ser
considerada um processo mental quase automático, a reflexão
sobre a ação é intencional, exigindo da pessoa
pré-disposição e vontade. O conjunto de reflexões
sobre a ação é que determina a construção
do saber, que pode ser considerada uma conseqüência
das reflexões intencionais efetuadas.
Desta forma, o “Professor Reflexivo” é aquele
que estimula e incentiva seus alunos a refletirem, seja na ação,
sobre a ação ou na reflexão sobre a ação.
Por isso, é imperativo que este profissional seja um “professor-pesquisador” – capaz
de despertar em seus alunos curiosidade, discussão e interesse
pela busca de novas idéias e conceitos – e tenha uma
atitude de estímulo, incentivo, receptividade, responsabilidade
e empenho. A reflexão crítica não deve ficar
circunscrita à sala de aula, mas contemplar o universo compreendido
pela instituição de ensino, comunidade e sociedade.
Se “aprender é aprender a pensar”, podemos concluir
que “ensinar é ensinar a pensar”, e este é o
papel do “Professor Reflexivo”. Pelas palavras de Dewey
de que “ninguém é capaz de pensar em alguma
coisa sem experiência e informação sobre ela”,
voltamos à nossa questão original sobre teoria e
prática: se queremos “pensar” sobre alguma coisa,
temos de ter a experiência e a informação sobre
ela. Teoria e prática são, portanto, elementos indissociáveis
da mesma moeda: o conhecimento humano.
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