Ano XVIII - EDIÇÃO 984

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DO LEITOR

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Teoria e prática:
Duas faces da mesma moeda

Armando Terribili Filho é diretor de projetos
da Unisys Brasil, mestre em Administração de
Empresas, doutorando em Educação pela
UNESP, professor da Faculdade de Administração e da
pós-graduação da FAAP.
 

Os debates entre teoria e prática são infindáveis. Os defensores da prática alegam que a teoria é pouco efetiva, uma vez que sua aplicação é sujeita a condições específicas e particulares. Por outro lado, aqueles que defendem a teoria alegam que os conceitos são as verdadeiras fontes do saber e do conhecimento. Os argumentos utilizados por quem defende o pragmatismo e os teóricos são fortes, consistentes, providos de lógica e amparados por vivências e valores pessoais – talvez por isso os posicionamentos se mostrem tão parciais.
As respostas a esses embates podem ser embasadas nos estudos acerca das teorias do filósofo e professor norte-americano John Dewey (1859-1952) e de seu seguidor (orientando em seu doutoramento) Donald Schön (1930-1997) sobre o “Professor Reflexivo”. Segundo Dewey, o aprendizado só ocorre quando há uma situação de problema real para se resolver. Com base nos conhecimentos teóricos e na experiência prática é possível solucionar o problema passando por cinco fases: caracterização da situação problemática; desenvolvimento da sugestão, observação e experiência; reelaboração intelectual; e verificação dos resultados. A fase mais relevante neste processo é a reelaboração intelectual, por se caracterizar pela formulação de novas idéias, cuja riqueza é diretamente proporcional aos conhecimentos, vivência e experiência da pessoa.
O “Professor Reflexivo” deve efetuar o coaching de seus alunos, auxiliando-os a “aprender a pensar” a partir de seus conhecimentos e experiências. Para alcançar esse objetivo, pode estimular o raciocínio dos estudantes por meio de perguntas, questionamentos, apresentações de premissas (verdadeiras e falsas), simulações e debate de conclusões. Neste enfoque, o aluno deixa de ser o “objeto” de ensino do professor e passa a ser o “sujeito” de seu aprendizado. Intencionalmente, o termo “coaching” não foi traduzido para o português porque representa, na língua inglesa, aquele que lidera, treina, ensina, monitora, acompanha, incentiva e encoraja.
De acordo com os pensamentos de Schön, a formação dos profissionais passa por uma prática orientada com um forte componente na reflexão a partir de soluções de problemas reais, possibilitando que o profissional em formação enfrente situações novas e aprenda a tomar decisões.
O conhecimento é demonstrado pelos profissionais quando executam uma ação, mas há três conceitos diferentes de reflexão relacionados a ela: reflexão na ação – é o pensar o que se faz no decurso da ação sem interrompê-la, provocando reformulação do que está sendo feito, pois o profissional vivencia situações que extrapolam suas experiências prévias, tendo, porém, o conhecimento como base para a ação; reflexão sobre a ação – reconstrução mental da ação, analisando-a retrospectivamente e incorporando-a ao seu repertório de experiências adquiridas; e, reflexão sobre a reflexão na ação – é o processo que leva o profissional a progredir no seu desenvolvimento e construir sua forma pessoal de conhecer.
Se, por um lado, a reflexão na ação pode ser considerada um processo mental quase automático, a reflexão sobre a ação é intencional, exigindo da pessoa pré-disposição e vontade. O conjunto de reflexões sobre a ação é que determina a construção do saber, que pode ser considerada uma conseqüência das reflexões intencionais efetuadas.
Desta forma, o “Professor Reflexivo” é aquele que estimula e incentiva seus alunos a refletirem, seja na ação, sobre a ação ou na reflexão sobre a ação. Por isso, é imperativo que este profissional seja um “professor-pesquisador” – capaz de despertar em seus alunos curiosidade, discussão e interesse pela busca de novas idéias e conceitos – e tenha uma atitude de estímulo, incentivo, receptividade, responsabilidade e empenho. A reflexão crítica não deve ficar circunscrita à sala de aula, mas contemplar o universo compreendido pela instituição de ensino, comunidade e sociedade.
Se “aprender é aprender a pensar”, podemos concluir que “ensinar é ensinar a pensar”, e este é o papel do “Professor Reflexivo”. Pelas palavras de Dewey de que “ninguém é capaz de pensar em alguma coisa sem experiência e informação sobre ela”, voltamos à nossa questão original sobre teoria e prática: se queremos “pensar” sobre alguma coisa, temos de ter a experiência e a informação sobre ela. Teoria e prática são, portanto, elementos indissociáveis da mesma moeda: o conhecimento humano.

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